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Full text of "O marquês de Pombal e a sua epoca"

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UMIVERSITY  OF  TORONTO  LIBRARY 

FROM    THE 

HUMANITIES  RESEARCH  COUNCIL 
SPECIAL  GRANT 

FOR 

BEAZIL  COLLECTION 


Reservados  todos  os  direitos  de 
reproducção  nos  paizes  que  adhe- 
riram  á  Convenção  de  Berne;  Bra- 
sil: Lei  n.°  2577  de  17  de  Janeiro 
de  1912;  Portugal:  Decreto  de  18 
de     Março     de     1911.      :-:     :-:     :-: 


o    MARQUÊS    DE    POMBAL 
E   A    SUA    ÉPOCA 


DO   MESMO  AUTOR: 


Ehfuaos    de    historia    paraense    —    1    vol. 
Os    Jesuitas   no    Grão-Pará,    suas     missões    e    a    coloni- 
zação —   1   vol. 
A    evolução    do    Sebastianismo    —    1    vol.    2.a    ed. 
Historia    de   António    Vieira    —    2   vols. 
Historia    dos    christãos-novos    portugueses    —    1    vol. 


J.    LUCIO    D'AZEVEDO 


x\ 


O    Marquês    de   Pombal 
e  a   sua  época '^ 


SEGUNDA  EDIÇÃO  COM  EMENDAS 


EDITORES 

ANNUARIO   DO   BRASIL  —  RIO   DE   JANEIRO 

SEARA  NOVA  —  LISBOA 

RENASCENÇA    PORTUGUESA  —  PORTO 


DP 


PRELIMINAR 


Sebastião  Jcsé  de  Carvalho  e  Mello,  universalmente  conhe- 
cido pelo  seu  titulo  de  Marquês  de  Pombal,  é  das  primaciaes 
figuras  da  historia  portuguesa,  a  par,  no  conceito  commum, 
do  mestre  de  Aviz,  de  Nuno  Alvares,  de  D.  João  II,  em  direitos 
á  gratidão  da  posterioridade. 

Dentro  e  fora  do  paiz  foi  grande  a  repercussão  de  seus 
actos.  Como  Tanucci  e  Aranda,  Frederico  o  Grande  e  José  II 
de  Áustria,  quiz  a  golpes  de  tagante  despertar  a  sua  nação 
para  a  vida  nova,  que  o  fermentar  das  idéas,  a  meio  do  século 
XVIII,  deixava  obscuramente  entrever.  Mas,  sempre  imbuido 
da  rotina  que  pensava  repudiar,  foi  seu  principal  esforço  con- 
solidar o  poder  régio,  rematando  o  abaixamento  já  secular  da 
nobreza,  e,  até  onde  foi  possivel,  emancipando  a  autoridade 
civil  da  tutela  romana,  obra  que  a  Edade  Media  principiara. 

As  luctas  em  que  andou  por  tal  motivo  empenhado,  sobre 
tudo  a  que  travou  com'  a  Egreja,  deram  azo  a  que  nenhuma 
individualidade  politica,  do  seu  tempo,  tão  discutida  fosse 
como  a  sua.  Em  todas  as  nações,  em  todas  as  línguas  da 
Europa,  vozes  se  levantaram'  a  exaltar  ou  combater  o  marquês 
de  Pombal.  Historias,  biographias,  memorias,  apologias,  pam- 
phletos,  pasquins,  em  sua  vida  e  depois  da  morte,  immenso  é 
o  numero  de  taes  escriptos;  mas,  nessa  copiosa  litteratura,  o 
investigador,  animado  de  senso  critico,  debalde  rebuscará  tra- 
ços para  um  juizo  seguro  acerca  do  famoso  estadista.  À  pri- 
meira vista  se  reconhece  que  uns  exaltam  em  demasia,  que 
outros   calumniam  sem   recato.   Importa,   para   o  fim,  pôr  de 


PRELIA\INAR 


banda  o  que  rescende  controvérsia;  consultar  na  origem  os 
documentos;  escutar  testemunhas  de  presença,  principalmente 
aquelles  cujos  relatos  não  tenham  a  publicidade  por  fim.  E 
primeira  d'essas  testemunhas  será  o  marquês,  nos  escriptos 
Íntimos,  ou  que  deviam  ficar  no  segredo  dos  archivos;  nas  leis, 
relatórios,  memoriaes  e  officios  por  elle  mesmo  divulgados, 
applicando  porém  a  estes  o  critério  de  que  os  primeiros  forne- 
ceram os  elementos.  D'esta  arte  se  attingirá  a  verdade  histó- 
rica, que  é  realmente  a  verdade  critica,  alguma  vez  porventura 
divergente  dos  factos,  quaes  se  passaram,  comtudo  ainda  em 
tal  caso  a  mais  provável,   e  por  isso  mesmo  definitiva. 

Foi  o  que  o  académico  Francisco  Luiz  Gomes  praticou, 
para  o  seu  livro  Le  Marquis  de  Pombal,  esquisse  de  sa  vie 
politique,  (Lisboa  186Q),  obra  a  todos  os  respeitos  notável,  e 
a  primeira,  digna  da  historia,  que  sobre  o  assumpto  se  escre- 
veu. Usando  de  documentos  dos  archivos  públicos,  o  autor 
poude  com  sufficiente  exacçao  retratar  o  personagem,  narrar 
os  factos  que  andavam  deturpados,  muitas  vezes  pela  male- 
volencia,  outras  tantas  pela  lisonja;  e  desautorada  foi  a 
parcialidade  dos  panegyristas,  como  a  má  vontade  dos 
detractores. 

Desde  então  outras  fontes  se  teem  facultado  á  consulta 
dos  pesquisadores,  e  nellas  se  colligiram  as  notas  para  este 
ensaio,  que  não  pretende  a  ser  historia  definitiva  e  completa 
de  uma  época  famosa,  senão  apenas  a  trazer  algum  material 
para  a  obra  de  maior  tomo  que  o  assumpto  requer. 


CAPITULO    I 


A    EMBAIXADA    DE    LONDRES 


Antecedentes  e  partida  do  ministro.  Situação  de  Portugal  perante 
a  Hespanha  e  a  Inglaterra.  Guerra  da  Successão  de  Áustria.  — 
II.  Soccorro  pedido  para  a  índia.  Violações  de  neutralidade 
pelos  ingleses.  Reclamações  desprezadas.  —  III.  Colónia  do  Sa- 
icramento.  Receios  de  invasão  pela  Inglaterra.  Idéas  de  Carva- 
lho sobre  os  judeus.  —  IV.  O  governo  britannico  prohibe  a 
exportação  de  trigo.  Protesto  e  opiniões  de  Carvalho.  Desaven- 
ças populares  entre  portugueses  e  ingleses.  Mais  violações  de 
neutralidade.  —  V.  Memorial  sobre  o  commercio  e  relações  com 
a  Inglaterra.  —  VI.  Carvalho  projecta  uma  companhia  para  a 
índia.  Proposta  ao  cardeal  da  Motta.  —  VII.  Caracter  da  cor- 
respondência de  Carvalho.  Suas  idéas  sobre  a  Constituição  in- 
glesa. Sobre  o  espirito  de  iniciativa  e  a  cubica  do  povo  in- 
glês. Sobre  a  missão  de  um  diplomata  na  Inglaterra.  —  VIII 
Resumo  das  negociações  emprehendidas.  Influencia  do  meio  no 
espirito  do  ministro. 


I 

Da  existência  de  Sebastião  José  de  Carvalho,  no  periado 
antecedente  á  sua  carreira  politica,  quasi  tudo  se  ignora. 
Conhece-s€  a  data  do  seu  nascimento,  13  de  maio  de  16Q9,  em 
Lisboa;  e  a  sua  progénie,  estirpe  em  que  as  pretençòes  ide 
nobreza  foram  mais  ambiciosas  que  fundadas.  Fiquemos  em 
que  era  familia  de  fidalgotes  de  mediana  fortuna.  O  pae, 
Manuel  de  Carvalho  e  Athaide,  que  já  possuia  o  morgado  da 
rua  Formosa,  servira  nas  armadas  da  costa,  e  fora  capitão  de 


10  ANTECEDENTES  E   PARTIDA   DO  MINISTRO 


cavallos;  a  mãe,  qu-e  vinha  dos  morgados  de  Souto  de  El-rei, 
casou  cm  segundas  núpcias  com  um  magistrado  da  Casa  de 
Supplicação.  Parece  que  fez  o  curso  de  leis  em  Coimbra  e 
passou  parte  da  mocidade  na  provinda,  absorvido  em  pleitos 
para  desembaraçar  o  património  compromettido.  A  versão, 
segundo  a  qual  foi  algum  tempo  soldado,  carece  de  abono. 
Aos  trinta  e  dois  annos  desposou  uma  senhora  da  casa  dos 
condes  de  Arcos,  D.  Theresa  de  Noronha,  que,  sendo  viuva 
raptou,  não  conseguindo  ella  jamais  congraçar-se  com  a 
familia,  que  teve  por  desdouro  a  alliança. 

A  um  tio,  Paulo  de  Carvalho,  que  foi  lente  da  Uni- 
versidade e  depois  arcipreste  da  Patriarchal,  deveu  o  futuro 
ministro  os  princípios  da  grande  casa  que  Veiu  a  possuir.  D'elle 
herdou,  em  1737,  o  morgado  constituído  por  bens  em  Oeiras 
e  Cintra,  prédios  de  renda  em  Lisboa,  fe  dinheiro  acima  de 
cincoenta  mil  cruzados.  Foi  provavelmente  esse  tio  que  tam- 
bém lhe  preparou  a  fortuna  politica,  proporcionando-lhe  rela- 
ções com  o  cardeal  D.  João  da  Motta,  primeiro  ministro,  que 
o  nomeou  para  a  enviatura  de  Londres  um  anno  depois  que 
o  seu  desvelado  protector  era  morto. 

Carvalho,  que  alli  chegou  em  outubro  de  1738,  encon- 
trou lá  Marco  António  de  Azevedo  Coutinho,  parente  seu 
também,  a  quem  succedia,  chamado  a  substituir  António 
Guedes  Pereira,  fallecido,  na  secretaria  de  negócios  'extran- 
geiros  e  da  guerra.  D'este  modo,  aos  trinta  e  nove  annos  de 
edade,  tarde  talvez  de  mais  para  os  seus  méritos  e  ambições, 
encetava  a  vida  publicai,  e  dava  o  primeiro  passo,  caminho  da 
fama  e  da  grandeza.  Sua  mulher  ficara  em  Lisboa,  recolhida 
por  autorização  régia  ao  mosteiro  de  Santos.  Não  parece 
ter  sido  penosa  a  separação  a  Carvalho,  corno  lh'o  não  foi 
também  depois  a  viuvez,  da  qual  se  consolou  em  segundo 
consorcio,  passados  poucos  mezes  do  fallecimento  de  D.  The- 
resa. A  paixão  romântica,  que  dera  azo  ao  escândalo  do  rapto, 
devia  ter  arrefecido   em   sete   annos  de  união   estéril. 

O  novo  diplomata  não  assumiu  immediatamente  a 
gestão  da  embaixada.  Marco  António  demorou-se  até  junho 
do  anno  immediato,  tanto  pelo  interesse  da  politica,  podemos 
suppôr,  como  por  affeição  ao  sobrinho,  cujo  inicio  guiava  na 


EMBAIXADA    DE    LONDRES  U 


carreira,  para  que  nenhum  tirocínio  antecedente  o  tinha  ades- 
trado. Oito  annos  mais  tarde,  Carvalho,  rememora  em  termos 
gratos  o  tempo  de  aprendizagem:  «Allumiado  pelos  exemplos 
e  pelas  instrucções  de  V,  Ex.a,  fiz  o  meu  noviciado,  e  pro- 
segui  depois  d'elle  o  meu  ministério  em  Londres»  \  assim 
se  exprime.  A  tarefa  do  mentor  não  foi  porém  de  certo  tra- 
balhosa. O  vezeiro  expediente  da  embaixada,  o  meneio  das 
negociações  em  curso,  as  novidades  particulares  da  corte  de 
Londres,  nada  offereciam  que  a  agudeza  do  recemchegado 
não  pudesse,  no  primeiro  instante,  apprehender.  Não  foi  elle, 
portanto,  devemos  crel-o,  bisonho  praticamente,  senão  atilado 
e    efficiente   auxiliar. 

Seu  espirito,  sequioso  de  novas  idéas,  depressa  se  afez 
ao  diverso  ambiente  que,  para  elle,  sabido  do  obscurantismo 
e  da  rotina  peninsular,  era  a  sociedade  culta,  intelligente, 
progressiva  e  liberal,  onde  agora  se  encontrava.  Não  assi- 
milou, é  certo,  os  princípios  de  tolerância,  de  respeito  pelos 
direitos  individuaes,  que  já  alli  eram  communs.  Mas  póde-se 
dizer  que  o  seu  entendimento  se  remodelou  ao  contacto  das 
idéas  correntes;  que  os  olhos  se  lhe  abriram  para  mais  largos 
horizontes;  que  foi  este  o  periodo  da  sua  existência  mais 
fecundo  para  a  formação  da  sua  individualidade  de  estadista. 

Parecerá  isto  desarrazoado  a  quem  souber  que,  nos  seis 
annos  passados  em  Londres,  não  logrou  Carvalho  familiarizar- 
se  com  o  idioma  do  paiz.  Elle  próprio  o  confessou,  tendo 
de  recorrer  ao  extranho  auxilio  para  entender  as  cartas  ingle- 
zas,  publicadas  acerca  da  sua  administração,  logo  depois 
d'esta  terminada.  Menor  será  comtudo  a  extranheza,  se  nos 
lembrarmos  que  o  francês  era  então,  como  ainda  hoje,  a 
lingua  da  diplomacia  e  das  cortes,  e  que,  para  as  suas  obser- 
vações pessoaes,  assistência  ás  sessões  do  parlamento,  lei- 
turas, conversações  e  necessidades  correntes  da  vida,  o  mi- 
nistro se  soccorria  de  interpretes,  segundo  o  uso  constante 
das  embaixadas. 

A    época   doesta    enviatura    foi    uma    das    mais    agitadas 


^     Carta    de    Vienna,    31    maio    1746.    Bibliotheca    Nacional    de    Lis- 
boa,   Collecção    Pombalina,    Cod.    662. 


12  INGLATERRA   E   HESPANHA 


na  historia  politica  da  Europa.  Desde  1738  Inglaterra  e 
Hespanha  estavam  em  guerra.  O  poder  da  marinha  britannica 
dirigia-se  principalmente  contra  os  domínios  d'esta  nação  na 
America,  parecendo  que  era  intenção  d'aquella  apossar-se  (de 
Buenos  Ayres,  e  estabelecer-se  definitivamente  nas  margens 
do  Prata.  Esta  conjectura  causava  apprehensões  em  Portugal 
que,  possuindo  a  colónia  do  Sacramento,  e  considerando  fron- 
teira sua  aquelle  rio,  com  justa  razão  se  arreceava  de  ter  por 
vizinhos  a  gente  trefega,  ambiciosa  e  arrogante  da  Inglaterra. 

Não  se  chegou  a  provar,  pelos  factos,  que  o  gabinete 
de  Londres  tivesse  formado  realmente  esse  projecto;  mas  é 
certo  que  o  commercio  britannico  aspirava  a  explorar,  de 
qualquer  maneira  que  fosse,  o  áureo  filão  das  possessões 
hespanholas.  Emquanto  o  não  podia  fazer  com  direito  reco- 
nhecido, recorria  ao  contrabando,  e  a  nossa  colónia,  á  margem 
do  grande  estuário,  era  o  ponto  por  onde  as  mercadorias 
inglesas,  illudindo  a  vigilância,  penetravam  no  coração  do 
império,   ciosamente  guardado. 

Para  assegurar  a  neutralidade  sympathica  do  governo 
português,  o  de  Londres  fazia-lhe  prever  um  alargamento 
de  fronteiras  no  rio  da  Prata;  negaceava-lhe  com  a  posse 
do  território,  adjacente  ao  Sacramento,  que  a  Hespanha  se 
obstinava  em  conservar;  e  o  secretario  dos  extrangeiros,  duque 
de  New-Castle,  dizia  ao  nosso  enviado  que  «Sua  Magestade 
Britannica  tinha  todas  as  disposições  de  concorrer  para  as 
vantagens  de  Portugal,  tanto  como  para  a  ruina  da  Hespanha»; 
promettimento  vago,  que  nos  levou  a  aspirar  também  á  posse 
de  Montevideu. 

Adormecendo,  com  estas  insinuações,  o  que  da  dignidade 
nacional  poderia  revoltar-se,  e  impondo-se  por  outro  lado 
com  a  sobranceria  da  força,  a  Inglaterra  desrespeitava  a  sobe- 
rania portuguesa,  e  violava  as  nossas  aguas,  atacando  e 
apprehendendo  dentro  d'ellas,  ao  alcance  das  fortalezas,  os 
navios  castelhanos.  Contra  esses  actos  de  violência  repre- 
sentava debalde  o  ministro  português.  Às  reclamações  o 
governo  britannico  respondia  que  ignorava  os  factos,  e  que, 
verificada  a  exactidão  d'elles,  os  faria  cessar;  appellava  para 
as  informações  e  providencias  do  Almirantado,  e  nestes  subter- 


GUERRA    DA    SUCCESSAO    DE    ÁUSTRIA  13 


fugios  ia  dilatando  as  resoluções,  e  protrahindo  a  satisfacção 
que  de  boa  fé  não  poderia   recusar. 

Para  successos  mais  importantes,  que  o  conflicto  da  Grã- 
Bretanha  com  a  monarchia  hespanhola,  convergiam  d'ahi  a 
pouco  as  attenções  do  mundo  politico.  O  imperador  Carlos 
VI  da  Allemanha  fallecera  em  outubro  de  1740,  deixando  sua 
filha  Maria  Theresa  por  herdeira  da  coroa.  Das  potencias  que 
haviam  approvado  a  Pragmática  sancção,  em  que  o  extincto 
monarcha  assegurava  os  direitos  d*aquella  princesa,  somente 
a  Inglaterra  se  mostrava  fiel.  As  outras  em  breve  se  pronun- 
ciaram contra  a  novel  rainha;  e,  não  se  contentando  com 
disputar-lhe  o  throno,  intentavam  destruir  a  unidade  da  mo- 
narchia,  partilhando  entre  si  varias   de  suas  províncias. 

Frederico  II  foi  o  primeiro  a  manifestar-se,  invadindo  a 
Silesia.  A  França  não  tardou  a  entrar  na  lucta  também.  D'ahi 
a  pouco  ardia  toda  a  Europa  em  iguerra,  e  Portugal,  se  bem 
que  desinteressado  na  contenda  e  distante  do  centro  d'ella, 
via-se  em  difficuldades  para  manter  a  neutralidade  e  defender 
o  extenso  littoral  contra  as  violências  das  nações   marítimas. 

A  França,  que  não  interviera  na  disputa  entre  hespa- 
nhoes  e  ingleses,  conservava-se  perante  os  últimos  em  attitude 
ameaçadora.  Seus  armamentos  davam  cuidado  á  nação  rival, 
e  contra  elles  talvez  se  destinavam  as  esquadras  que  em  Lisboa 
pensavam  ser  para  a  America  do  Sul.  Nossa  antiga  amizade 
com  a  Grã-Bretanha  inspirava  receios  ao  governo  de  Luiz  XV, 
que  tinha  em  grande  conta  desviar-nos  da  lucta.  Desejava  a 
corte  de  Paris  também  obter  vantagens  commerciaes,  rom- 
pendo o  effectivo  monopólio  do  commercio  português,  ique 
desde  muito  tempo,  e  especialmente  depois  do  tratado  de  1703, 
possuíam  os  ingleses.  Para  esse  fim  não  regateava  diligencias 
nem  insinuações,  e  o  enviado  Chavigny  dizia  com  filáucia  a 
D.  João  V  que  o  seu  throno  ficaria  quatro  degraus  mais  alto, 
quando  a  amizade  e  alliança  da  França  lhe  fossem  seguras  ^. 
Cuidava-se  então  de  promover  um  tratado  especial  de  neutra- 
lidade entre  Hespanha  e  Portugal,  com  o  accordo  de  Luiz  XV. 


1     Santarém,    Quadro    Elementar,    5»,    313. 


14  SOCCORRO    PEDIDO    PARA    A    ÍNDIA 


Também  se  pensara  antes  num  pacto  de  família,  baseado  no 
parentesco  existente  entre  as  famiiias  reaes.  Mas  a  opposição 
da   Hespanha  frustrou  todas   as   diligencias. 

Para  o  nosso  paiz  tinha  utilidade  o  convénio  desde  que, 
como  pretendíamos,  regulasse  com  vantagem  a  questão  úos 
territórios,  na  fronteira  sul  do  Brasil.  O  governo  de  D.  João  V 
queria  a  indisputada  posse  da  colónia  do  Sacramento,  com  as 
terras  que  a  rodeavam",  e  o  direito  á  livre  navegação  do 
Prata,  sob  a  garantia  da  França.  Não  se  vendo  attendido  pela 
outra  parte,  lançava-se  francamente  nos  braços  do  antigo 
alliado  que,  provavelmente  sem  propósito  algum  de  o  realizar, 
dava  a  ■entender  que  seria  capaz  de  conquistar-lhe  essas  cobi- 
çadas vantagens. 

Tal  era  o  trama  dos  acontecimentos,  em  que  a  actividade 
e  o  tacto  politico  de   Carvalho  teriam  de  se  provar. 


II 


O  que  podiam  valer,  como  sinceridade,  as  interessadas 
insinuações  do  gabinete  britannico  Carvalho  teve  logo  occasião 
de  o  verificar.  O  primeiro  serviço,  que  lhe  incumbia  em  Lon- 
dres, era  a  sequencia  das  negociações,  iniciadas  pelo  seu  ante- 
cessor, para  obter  um  soccorro  militar,  na  índia,  onde  os 
marhatas,  invadindo  a  ilha  de  Salsete,  tinham  posto  em  aper- 
tada situação  as  forças  portuguesas.  Não  teve  o  Enviado 
de  lisonjear-se  pelo  resultado  de  seus  esforços.  A  mais  viva 
opposição  respondeu  em  toda  a  linha  ás  suas  instancias.  O 
governo  allegava  ser-lhe  indispensável,  para  conceder  o  auxilio 
de  tropas,  annuencia  da  Companhia  das  índias;  esta,  por  sua 
vez,  multiplicava  os  pretextos  para  não  consentir.  Carvalho 
julgava  penetrar  os  motivos  da  reluctancia:  receio,  por  parte 
da  Companhia,  dos  contrabandos,  que  os  navios  de  guerra 
empregados  na  expedição  haviam  de  fazer,  e  a  esperança  que, 
por  esta  hostilidade  dos  indígenas,  os  portugueses  viessem  a 
ser  definitivamente  expulsos  da  índia.  «A  estas  razões  —  dizia 
Carvalho  — ,  ajunta  força  incontestável   a  grande   dependência 


NEUTRALIDADE    PORTUGUESA  15 


que  Roberto  Walpole  (o  primeiro  ministro)  tem  d'aquella  com- 
panhia e  a  condescencia  com  que  obra  pelos  seus  dictames».   ^ 

As  solicitações,  que  ao  mesmo  tempo  o  governo  português 
fazia  em  Lisboa,  ao  embaixador  lord  Tirawley,  não  foram  mais 
felizes  que  as  diligencias  do  seu  delegado.  Em  tergiversações 
e  delongas  foi  passando  o  tempo  e  a  commoda  sazão  para  o 
soccorro,  até  que  emfim  o  marquês  de  Louriçal  logrou  desvin- 
cilhar  Salsete  dos  inimigos. 

Durante  isto,  outros  negócios  mais  importantes,  derivados 
da  situação  politica  da  Europa,  exigiam  os  attentos  cuidados 
do  governo  português.  Essa  posição,  entre  os  antagónicos 
Interesses,  da  Inglaterra,  por  um  lado,  da  Hespanha  e  da 
França  pelo  outro,  era  em  demasia  delicada.  O  gabinete  bri- 
tannico  forcejava  por  impellil-o  a  envolver-se  na  contenda. 
Recordava-lhe  as  queixas  antiga^,  e  a  nunca  'extincta  rivalidade 
com  a  Hespanha.  Acenava-lhe  com  a  possibilidade  de  con- 
quistas na  America,  pelo  menos,  o  reconhecimento  do  senhorio 
no  território  próximo  á  colónia  do  Sacramento.  Mas  os  con- 
selheiros de  D.  João  V  bem  enxergavam  os  riscos  que  o  ceder 
a  taes  suggestões  traria  comsigo. 

As  vantagens  a  recolher  na  America  nem  de  longe  com- 
pensavam os  males  da  invasão  na  metrópole,  inevitável  com 
a  fronteira  indefensa,  o  exercito  desorganizado,  sem  aperce- 
bimentos de  guerra  e  sem  generaes.  O  auxilio  da  Grã-Bre- 
tanha  era  incerto;  ou,  quando  realizado,  insignificante  pelo 
numero  das  tropas,  como  se  tinha  verificado  na  ultima 
campanha.  O  governo  rejeitou  por  isso  o  soccorro,  que  se 
lhe  offerecia  para  reivindicar  o  território  em  litigio  no  Prata, 
e  fez  vêr  a   inabalável   resolução  de  manter-se   neutral. 

Este  propósito  não  era  também  isento  de  escolhos.  A 
corte  d€  Madrid  exigia  de  nós  que  nos  portos  do  reino 
fosse  absolutamente  defesa  a  entrada  de  navios  de  guerra 
de  qualquer  das  nações  belligerantes.  Mas  isto  seria  violar 
as  convenções  com  a  Inglaterra,  que,  por  sua  parte,  exorbi- 


^     Memoria    sobre    o    soccorro    a    Salsete,    Bibl.    Nac,    Coll.    Pomb. 
Cod.     651. 


16  VIOLAÇÃO   DA   NEUTRALIDADE   PELOS   INGLESES 


tando    do    que    estas    lhe    concediam,    nos    creava    também 
difficuldades  com   a   nação   vizinha. 

Desde  que  rompera  a  guerra,  os  capitães  ingleses  pro- 
cediam, nas  costas  áe  Portugal,  com  arrogante  desenvoltura, 
como  fariam  nas  do  seu  paiz,  ou  de  nação  inimiga.  À  entrada 
dos  portos  perseguiam,  faziam  dar  em  terra,  e  apprehendiam, 
ou  destroçavam  quando  encalhados,  os  barcos  hespanhoes. 
Desprezando  os  signaes,  e  até  os  tiros  dos  fortes,  iam  buscar 
as   presas   acolhidas   á   protecção   das   baterias   da   costa. 

Logo  no  começo  das  hostilidades,  quinze  kilometros 
ao  sul  do  Porto,  no  logar  de  Silvalde,  um  barco  de  Galliza, 
perseguido,  encalha,  e  os  tripulantes  são  forçados  a  aban- 
donal-o,  sob  o  fogo  do  inimigo.  Nas  aguas  do  Algar\'e, 
três  navios  em  cruzeiro  dão  busca  a  todas  as  embarcações, 
sem  exceptuar  as  portuguesas,  fazem  varar  em  terra,  onde 
os  capturam,  três  barcos  catalães,  e  na  refrega  atiram  sobre 
os  soldados  portugueses,  que  da  praia  querem  impedir  o 
desacato.  À  Vista  do  forte  de  Albufeira,  que  os  canhoneia, 
os  mesmos  navios  se  apoderam  de  dois  hiates  inimigos.  No 
archipelago  de  Cabo  Verde  factos  idênticos  se  repetem,  com 
embarcações  francesas.  Além  d'isso,  não  se  privam  os 
ingleses  de  surgir  nos  portos  ultramarinos,  vedados  aos 
extrangeiros,  e  praticam  o  commercio  clandestino,  contra- 
bandos, actos  de  pirataria  e  aggressões  á  força  armada, 
contra  os   que  lhes   querem   impedir  os  attentados. 

Sobre  estes  factos  o  governo  de  Lisboa  reclama,  e  o 
almirantado  promette  íazel-os  cessar;  mas,  a  despeito  d'isso, 
não  deixam  de  repetir  as  desattenções  á  nossa  soberania 
territorial.  Dentro  do  porto  de  Lisboa  um  capitão  inglês 
manda  apprehender,  e  retém  a  bordo,  vários  súbditos  da 
sua  nação,  que  para  um  navio,  também  britannico,  se  diri- 
giam, na  qualidade  de  tripulantes  contratados.  A  razão 
invocada  ifoi  a  suspeita  de  pirataria,  mas  parece  que  o  verda- 
deiro objecto  era  o  recrutamento  forçado  dos  prisioneiros. 
E,  assim,  no  habitual  desdém  pela  autoridade  portuguesa, 
julgava  licito  fazer  a  policia  do  mar,  até  dentro  do  porto 
da  capital. 

Âs  repetidas  e  instantes  reclamações  da  corte  de  Lisboa, 


VIOLAÇÃO   DA   NEUTRALIDADE   PELOS   INGLESES  17 


a  chancellaria  britannica  respondia  com  apparente  boa  von- 
tade, e,  no  fundo,  inércia  real,  que  só  tinha  por  objecto 
adiar  a  recusa  de  uma  satisfação  completa.  Na  verdade,  o 
Almiraritado  dera  ordem  ás  esquadras  que  respeitassem  os 
direitos  de  Portugal.  Mas  essas  determinações,  de  caracter 
mui  geral,  não  contentavam  o  Enviado  português,  que  as 
desejava  positivas,  e  com  a  menção  dos  tratados  que  os 
belligerantes  tinham  de  respeitar.  O  governo  inglês  abrira 
o  precedente,  nas  instrucções  dadas  aos  seus  almirantes,  para 
respeitarem  a  liberdade  de  commercio  de  Hollanda,  França, 
Suécia  e  Dinamarca.  D'ellas  faziam  parte  os  artigos  das 
convenções  existentes  com  esses  paizes.  Porque  se  não  pro- 
cedia de   egual   forma,   com   respeito  a   Portugal? 

O  gabinete  de  Lisboa  insistia  portanto  em  que,  ás  ordens 
expedidas,  se  deveriam  juntar  o  texto  do  tratado  de  alliança 
de  1654,  que  aliás  pouca  importância  tinha  para  o  caso,  e 
o  da  convenção  de  neutralidade  com  a  Hespanha,  em  1702, 
a  que  o  governo  britannico  dera  assentimento;  esta  ultima 
relativa  ao  regimen  dos  belligerantes  nos  portos.  Contra  a 
inclusão  d'ella  nas  instrucções  aos  almirantes,  articulava  o 
duque  de  Nevv-Castle  que  a  Hespanha,  com  quem  fora  dire- 
ctamente o  convénio,  o  não  respeitava,  e  que  também  embar- 
cações britannicas  tinham  sido  apresadas  por  corsários 
hespanhoes,  á  vista  dos  fortes.  Quanto  ao  cruzeiro,  allegava 
que  sem  elle,  em  pouco  tempo  o  commercio  do  Reino  Unido 
em  Portugal  se  veria  arruinado. 

Estes  motivos  eram  até  certo  ponto  procedentes.  Carvalho 
sabia  de  fonte  segura,  e  d'isso  informava  a  sua  corte,  que 
de  Lisboa  se  dava  aviso  aos  corsários,  quando  sabiam  navios 
ingleses  dos  portos  do  reino,  repartindo-se  os  lucros  da 
captura  com  os   espias. 

Perdurou  esta  irritante  controvérsia  todo  o  tempo  da 
guerra,  firme  nas  suas  reclamações  o  governo  de  Lisboa, 
pertinazes  as  forças  navaes  da  Grã-Bretanha  no  proceder 
condemnavel.  Em  seguida  a  um  doestes  factos,  que  deman- 
davam immediata  satisfação,  Carvalho,  sendo-lhe  recommen- 
dado  reclamar  com  energia,  dirige-se  ao  duque  de  New-Castle 
em    termos    vehementes.    Escândalo    €    insulto    chamava    elle 

o    MARQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  2 


IS  RECLAMAÇÕES    DESPREZADAS 


aos    actos    dos    ingleses,    exigindo    que    cessassem    e    fossem 
punidos   os    culpados  i. 

Os  protestos  enérgicos  não  vingavam  melhor  que  as 
solicitações  amigáveis.  Todos  os  meios  pareciam  tíons  ao 
governo  britannico  para  não  abandonar  a  sua  maneira  própria 
de  encarar  o  direito  internacional.  Entretendo  com  delongas 
a  discussão  dos  factos,  ia  aproveitando,  no  intervallo,  as 
vantagens  da  posição  em  que  arbitrariamente  se  collocara. 
E,  quando  o  tratado  de  1654  lhe  era  offerecido  como 
argumento,  exigia  para  os  súbditos  ingleses  o  direito  de 
commerciarem  no  Brasil,  que  o  mesmo  lhes  facullava.  Essa 
clausula  não  a  queria  de  forma  nenhuma  o  governo  português 
acceitar,  e  isso  bastava  para  annullar  qualquer  effeito 
d'aquelle    convénio. 


III 


De  par  com  as  negociações,  motivadas  pelo  estado  de 
guerra  proseguiam  as  relativas  ao  reconhecimento  da  fron- 
teira sul  do   Brasil. 

A  colónia  do  Sacramento,  fundada  pelos  portugueses  cm 
1678,  á  beira  do  Prata,  em  frente  de  Buenos-Ayres,  fora, 
desde  essa  época,  origem  de  constantes  dissensões  com  a 
Hespanha.  Tomada  e  restituída  diversas  vezes  pelas  forças 
d'esta  potencia,  fruia  notável  prosperidade,  graças  ao  contra- 
bando, que  por  lá  se  fazia  para  o  interior  dos  domínios  de 


1  ...  «Ce  scandalc  et  cette  insulte,  quoique  contre  les  instructions 
et  les  ordres  de  S.  M.  B.,  crient  assez  d'eux  mêmes  pour  demander 
une  scvère  punition,  qui  repare  le  passe,  et  fasse  en  même  temps 
un  exemple,  pour  contenir  dans  les  bornes  de  leur  devoir  les  sujets 
d'Angletcrre,  qui  trouvent  dans  les  ports  du  Portugal  l'hospiíalité  et 
les  secours  qu'ils  chcrchent,  selon  leurs  besoins;  le  roi  mon  máitre 
donnant  dans  toutes  les  occasions,  qui  se  présentent,  des  preuv^es  de 
ses  souhaits  pour  cultiver  et  maintenir  Tamitié  du  roi  de  l.i  Grande 
Bretagne,  et  espérant  toujours  trouver  la  reciproque  du  côté  de  S. 
M.    B.».    Despacho    de    31    Julho    1741.    CoU.    Pomb.,    Cod.    654. 


COLÓNIA   DO  SACRAMENTO  19 


Castella.  Perdida  a  praça  na  guerra  da  successão,  devolvida 
ao  nosso  poder  por  disposição  do  tratado  de  Utrecht,  fora 
outra  vez,  em  1735,  reinando  a  paz,  inesperadamente  acom- 
mettida    por   tropas    da    guarnição    de    Buenos-Ayres. 

Comquanto  o  governo  de  Madrid,  ostensivamente  pelo 
menos,  não  autorizasse  esta  aggressão,  tudo  indica  que,  para 
elle,  o  estabelecimento  dos  portugueses  devia  ser  como,  no 
corpo  humano,  um  espinho  que,  cravado  em  parte  sensível, 
constantemente    magoa. 

Distante  dos  logares  onde  era  incontestado  o  dominio 
português,  e  insulada  em  território  povoado  exclusivamente 
de  castelhanos,  a  Colónia  só  por  mar  tinha  communicações 
com  o  Brasil,  a  cujo  governo  pertencia.  Além  da  opposiçao 
dos  súbditos  de  Hespanha  civilizados,  tinham  os  portugueses 
contra  si,  nessas  paragens,  a  hostilidade  dos  indígenas,  cujo 
ódio  as  depredações  dos  paulistas  excitaram,  ao  mesmo 
tempo  que,  nas  reducções,  os  missionários  os  educavam  na 
fidelidade  á  coroa  castelhana. 

Fora  do  alcance  de  canhão  das  muralhas  terminava  na 
realidade  o  isenhorio  português.  Para  entrar  na  posse  effectiva 
do  território  que,  pelas  convenções,  allegava  pertencer-lhe, 
o  gabinete  de  Lisboa  empregava  os  máximos  esforços. 
Negociava  ao  mesmo  tempo  em  Paris,  em  Londres,  em 
Madrid.  Acenava  ao  cardeal  Fleury  com  as  vantagens  de 
um  tratado  de  commercio.  Ao  governo  de  Jorge  II  deixava 
entrever  a  possibilidade  de  uma  alliança  com  França  e 
Hespanha.  Grave  ameaça,  porque  a  sua  realização  tornaria 
precária  a  situação  dos  ingleses  na  Península,  arrebatando-Ihes 
um  ponto  de  apoio,  indispensável  ás  suas  esquadras.  Era  este 
o  assumpto  mais  delicado  e  importante  da  missão  de  Carvalho 
na  corte  britannica. 

As  instrucções  para  esta  negociação  datavam  de  quando 
Marco  António  fora  para  Londres.  Os  direitos  allegados  pela 
nossa  chancelaria  eram  talvez  pouco  attendiveis.  Pelo  tratado 
de  1701,  artigo  5.o,  a  Hespanha  renunciava  toda  a  pretenção 
ao  território  litigioso,  adjacente  á  colónia,  que  pelo  accordo 
provisional  de  1681  ficara  sendo  de  uso  commum.  Ainda 
segundo    as    disposições     d'este    ultimo,    ambas    as     coroas 


20  REIVINDICAÇÕES   PORTUGUESAS 


nomearam  commissarios,  que  decidissem  a  conienda.  Mas, 
segundo  o  costume,  não  concordaram  os  árbitros  na  resolução 
final,  e  cada  grupo  deu  sentença  favorável  á  sua  nação.  Fíccai 
todavia  apurado,  pela  parte  dos  hespanhoes,  que  a  fronteira 
devia  correr,  no  sentido  Leste-Oeste,  por  um  parallelo  muito 
próximo  da  embocadura  da  lagoa  dos  Patos;  pela  dos 
portugueses,  que,  no  sentido  Norie-Sul,  a  linha  passaria  a 
Oeste  da  colónia  do  Sacramento.  O  terreno  que  a  Hespanha 
abandonava  achava-se,  portanto,  assim  demarcado.  Era  um 
quasi  parallelogrammo,  cujo  lado  sul  estaria  assente  no  rio 
da  Prata,  e  o  do  nascente  no  oceano,  abrangendo  com  pouca 
differença  a  mesma  actual  superfície  da  republica  do  Uruguay. 

O  ponto  fraco  das  reivindicações  portuguesas,  estava, 
como  nas  reclamações  á  Inglaterra,  em  que  ellas  se  baseavam 
no  "tratado  de  1701,  que  fora  por  nós  mesmos  roto,  na  sua 
clausula  principal.  Consistia  esta  em  garantir  o  testamento 
de  Carlos  II,  e  o  direito  de  Felippe  y  ao  throno  de  Hespanha. 
Com  este  monarcha,  no  primeiro  anno  do  seu  governo,  se 
fizera  o  tratado,  que  logo  em  seguida  violávamos,  entrando 
em  campanha,  a  favor  do  archiduque  de  Áustria.  Era,  portanto, 
leveza,  senão  imprudência  manifesta,  da  corte  de  Lisboa, 
invocar   em   auxilio   de   suas   pretenções   esse   convénio. 

A  noticia  de  que  a  Inglaterra  se  preparava  para  iniciar 
hostilidades  na  America  meridional,  aprestando  navios  e  forças 
de  desembarque,  produziu,  como  já  vimos,  inquietação  em 
Portugal.  Pela  correspondência  de  Carvalho  se  verifica  que 
elle  se  acharia  antes  inclinado  a  accrescentar,  do  que  a  desva- 
necer, as  apprehensões.  Tudo  havia  a  temer  da  Inglaterra, 
pela  avidez  dos  seus  mercadores,  que  dominavam  os 
governantes;  pela  doblez  da  sua  politica,  tantas  vezes 
provada;  e  pelo  caracter  das  suas  instituições,  que,  em 
algumas  circumstancias  não  obrigavam  a  nação  pela  palavra 
do  soberano,  tornando  assim  inúteis  as  seguranças  dadas, 
fora  do  parlamento,  pelos  ministros.  Era  de  temer  que  as 
tropas  britannicas,  expulsando,  do  território  por  nós  disputado, 
os  hespanhoes,  alli  se  estabelecessem,  como  em  justa  con- 
quista. E,  succedendo  tal,  de  que  força  dispúnhamos  para 
recuperar  o   dominio? 


RECEIOS  DE  INVASÃO  PELA  INGLATERRA  NA  COLÓNIA       21 


Tínhamos,  é  certo,  a  nosso  favor,  as  promessas  do  rei, 
a  quem  assistia  o  direito  de  alienar  qualquer  conquista,  antes 
de  encorporada  no  império  britannico;  e,  por  esta  forma, 
nos  podia  vir  á  mão  o  território,  se  as  armas  da  Inglaterra 
o  adquirissem.  Carvalho  receava,  todavia,  que  Jorge  II, 
embora  sincero,  tivesse  de  capitular  ante  as  exigências  da 
opinião  publica.  Já  se  tinha  antes  visto  isso,  quando  o 
governo  quizera  largar  a  posse  de  Gibraltar,  da  qual  dizia 
Carvalho  —  e  talvez  fosse  esse  o  sentir  dos  dirigentes  —  que 
era  «de  pouco  lucro  e  grande  despesa,  e  um  encargo  onero- 
síssimo  para   a   Inglaterra». 

Em  resposta  ás  primeiras  solicitações  do  Enviado 
português,  o  duque  de  New  Castle  certificava  num  despacho 
lacónico  as  boas  intenções  do  rei,  seu  amo,  e  em  nome  da 
regência,  por  achar-se  Jorge  II  ausente  no  Hanover,  asse- 
gurava não  existir  o  menor  fundamento  para  as  inquietações 
do  gabinete  português.  Sem  embargo,  estas  declarações  não 
satisfaziam  a  Carvalho,  que  as  desejava  formaes.  Acabava  o 
governo  de  conceder  aos  particulares,  que  se  quizessem 
arriscar,  autorização  para,  por  si  próprios,  realizarem  con- 
quistas, nos  domínios  castelhanos,  em  qualquer  parte  do 
mundo.  Collocava  isto  em  grave  contingência  as  pretenções 
de  Portugal.  Estabelecidos  os  vassallos  da  Inglaterra  no 
terreno  contestado,  á  coroa  fallecia  o  poder  de  obrigar  depois 
esses  particulares  á  restituição.  Esta  circumstancia  preocca- 
pava  muito  especialmente  o  Enviado  português,  que  em 
repetidas  instancias  buscava  garantir  da  invasão  o  território 
que  nós  cubicávamos.  Assim  pretendia  que  Roberto  Walpoie, 
em  documento  especial  lhe  confirmasse  que  El-rei  britannicO', 
como  fiador  do  tratado  de  Utrecht,  reconhecia  o  direito  de 
Portugal  á  colónia  do  Sacramento,  e  mais  território,  a  Norte 
e  a  Leste  até  ao  mar;  e  que,  quanto  aos  seus  súbditos 
intrusos,  concordava  em  que  fossem  despejados  pela  força, 
e,  sendo   necessário,   nisso   cooperaria  i.   Ao   Duque  de   New 


^     Officio  de    27  Março   1741,   a  Marco  António  de   Azevedo   Cou- 
tinho.  Coll.    Pomb.,  Cod.   656.  O  mesmo  receio  experimentava  mais  tar- 


22  IDEAS    DE    CARVALHO   SOBRE   OS    JUDEUS 


Castie  fazia  representações  em  sentido  egual,  mas  cm  logar 
das  peremptórias  declarações  que  lhe  eram  pedidas,  replicava 
o  ministro  não  lhe  parecer  necessário  dar  resposta  mais 
precisa,  nem  adiantar  affirmações  sobre  casos,  apenas 
suppostos,  que  até  ahi  se  não  tinham  realizado,  e  que  segundo 
a   apparencia,  se   não   dariam   jamais. 

Os  receios  do  nosso  Enviado  não  diziam  respeito  somente 
á  perda  definitiva  do  terreno  litigioso.  Carvalho  via  também 
a  segurança  dos  nossos  domínios  ameaçada;  e,  com  o  ciúme, 
que  sempre  manteve,  de  reservar  aos  nacionaes  o  commercio 
das  possessões  portuguesas,  íemia-se  de  vel-o  arruinado  pelo 
contrabando,  em  tal  caso,  a  seu  ver,  inevitável.  Nesta  espécie 
eram  particularmente  audazes  e  felizes  os  hebreus,  e  o 
ministro,  já  sacrificando  ao  systema  que  mais  tarde  se  lhe 
tornou  obsessão,  de  achar  em  tudo,  que  fosse  contrario  ás 
suas  vistas,  conjurações  e  conluios,  ideava  uma  conspiração 
de  todos  os  judeus  do  universo,  contra  as  nações  onde  eram 
perseguidos,  e  a  favor  d'aquellas  onde  encontravam  guarida 
aos  seus  bens  e  á  sua  crença.  É  curioso  o  jciizo  que  da 
raça  proscripta  forma  o  homem  que  mais  tarde  havia  de 
rehabilital-a  na  sua  pátria.  «. . .  Posso  dizer  a  V.  Ex.a  — 
escrevia  em  um  despacho  Marco  António  de  Azevedo  Coutinho 
—  que   é   raro   entre   nós   (em    Portugal)   o   homem   da   nação 


de  Carvalho,  primeiro  ministro,  já  quando  a  Inglaterra  e  a  Hespa- 
iiha  se  batiam  durante  a  guerra  dos  sete  annos,  já  quando  receou 
um  ataque  da  primeira  d'estas  potencias.  Em  1767  dizia:  «Logo  (jue 
os  ingleses  ataquem  o  Rio  da  Prata  quer  seja  a  margem  septentrional, 
quer  a  meridional  não  atacarão  somente  a  Hespanha,  mas  também  i  Por- 
tuga!, como  formalmente  declarei  á  corte  de  Londres  em  1740,  quan- 
do, ao  saber  que  a  grande  expedição  commandada  por  lord  Cathcarts 
se  destinava  a  Buenios  Ayres,  fiz  representações  tão  vivas  que  «ília 
foi  desviada  contra  Carthagena,  cujo  cerco  causou  a  ruina  de  todas 
estas  forças,  as  quaes  se  julgaram  á  partida  capazes  de  conquistarem 
a  America  inteira  >.  Carta  ao  Conde  da  Cunha,  governador  do  Brasil, 
20  junho  1767,  cm  Saint  Priest,  Hist.  de  la  chute  des  jésuites,  Paris 
1844,  pag.  296.  Quanto  á  annuencia  do  governo  inglês  a  mudar  o 
objectivo  da  expedição  contra  a  Hespanha,  pode-se  suppôr  jactância 
ou  illusão  de  Carvalho,  o  que  mais  de  uma  vez  succedeu. 


UMA   COMPANHIA   DE   JESUS   PARA  O   RIO   DE   SÃO   PEDRO     23 

(hebrea)  que  não  esteja  com  os  olhos  no  caminho  para  estas 
partes  (Inglaterra  e  paizes  de  livre  culto),  e  que  somente 
se  dilatam  nos  nossos  domínios  até  fazerem  os  grossos 
cabedaes  que  nellas  accumulam,  se  antes  de  os  juntarem 
os  não  faz  sahir  d'esses  reinos  o  medo  da  fogueira.  Tudo 
quanto  ganham,  ou  antes  extorquem,  com  artifícios,  que  ellcs 
teem  por  justos  sendo  detestáveis,  vem  nos  paquetes,  para 
ficar  na  Inglaterra  e  passar  á  Hollanda,  a  segurar-se  nas 
mãos  dos  seus  depositários,  amigos  e  parentes.  Como  consi- 
deram a  pátria  onde  gosam  a  liberdade,  e  o  desterro  ,onde 
teem  o  castigo  ou  a  sujeição,  para  estas  terras,  em  que 
esperam  estabelecer-se,  procuram  todas  as  vantagens  e  todos 
os  interesses,  machinando  contra  os  paizes,  seus  adversos, 
toda  a  ruina,  e  não  perdoando  a  meio  algum  de  os  dissipar 
e  empobrecer,  por  mais  injusto  e  illicito  que  se  considere»  i. 

Unidos  por  este  commum  sentimento  todos  os  hebreus 
esparsos  nos  paizes  christãos,  uns,  mais  ditosos,  confessando, 
onde  tal  lhes  era  permittido,  a  sua  fé;  outros  sujeitos  pelo 
temor  ás  praticas  de  uma  religião  que  aborreciam,  de  íoage 
davam  as  mãos;  e,  desde  Londres  e  Amsterdam  até  ás 
distantes  regiões  da  America,  onde  muitos  se  achavam,  a 
corrente  dos  negócios  occultamente  deslisava,  vencendo  as 
barreiras,  que  o  dementado  ciúme  dos  governos  oppunha 
ao  commercio  universal.  «. . .  D'aqui  tem  resultado  —  explicava 
no  mesmo  documento — ,  a  difficuldade  de  evitar  o  contra- 
bando nos  domínios  da  Hespanha.  São  immensos  os  cabedaes, 
que  naquelle  negocio  teem  ganho  os  judeus  destas  partes. . . 
Este  foi  um  dos  meus  grandes  receios,  desde  que  suspeitei 
o  projecto  de  irem  ao  rio  da  Prata:  saber  eu  o  muito  que 
elles  desejam  estabelecer-se  nas  vizinhanças  do  Brasil,  onde 
se  asseguram  que  hão  de  ter  em  cada  christão  novo  um 
destro  furão,  desencovar  a  furto  os  interesses,  que  não  podem 
hoje   proseguir»  ^ 

Confirmava  a  Carvalho  nestes  temores  o  facto  de  terem, 


1  2   de   janeiro    1741.    Coll.    Pomb.,    Cod.    656. 

2  2   de   janeiro    1741.    Coll.    Pomb.,    Cod.    656. 


24  EXPORTAÇÃO   DOS   TRIGOS   INGLESES 

havia  pouco,  alguns  judeus  ingleses  pretendido  formar  uma 
Companhia  para  o  rio  de  S.  Pedro,  que,  só  peia  opposição 
do  governo  britannico,  não  foi  adiante.  Agora,  parece,  reno- 
vava-se  o  projecto.  Taes  apprehensões  tinham,  porém,  de 
dissipar-se.  O  curso  dos  acontecimentos  levava  as  armas  da 
Grã-Bretanha  a  outras  paragens.  A  sua  intervenção  em  favor 
da  rainha  de  Hungria,  a  declaração  subsequente  de  guerra, 
pela  França,  a  rebelliào  escossesa  contra  a  dynastia  de 
Hanover,  juntando-se  a  isso  talvez  o  desanimo  pelo  mallogro 
das  anteriores  tentativas  contra  os  hespanhoes,  não  perrnittiam 
ao  governo  pensar  por  então  em  aventurosas  conquistas. 
Mas  Portugal  ia  também  abandonar  o  sonho,  por  tanto  tempo 
afagado,   do   seu   dominio   no    Prata. 


IV 


Outros  acontecimentos,  esses  somenos,  derivados  sempre 
da  guerra,  occupavam  da  mesma  forma  a  diplomacia 
portuguesa. 

Naquelle  tempo  não  era  ainda  a  Grã-Bretanha  por  excel- 
lencia  o  paiz  das  manufacturas,  sujeito,  como  agora,  para 
a  manutenção  dos  seus  habitantes,  á  agricultura  extranha. 
Pelo  contrario,  do  excesso  de  suas  colheitas  outras  nações 
se  abasteciam,  e  Portugal,  a  Hespanha,  a  França,  eram 
consumidores  dos  trigos  ingleses.  Em  1740,  a  deficiência  da 
producção  annual,  e  o  estado  de  guerra  com  a  Hespanha, 
juntamente  a  posição  ameaçadora  do  gabinete  de  Luiz  XV, 
deram  occasião  a  um  acto  do  parlamento  defendendo  a 
sabida  de  cereaes  para  portos  extrangeiros.  Introduziu-se, 
porém,  na  lei  uma  clausula  de  excepção,  permittindo  á  coroa 
autorizar,  a  seu  arbítrio,  a  exportação;  e  d'esta  brecha,  que 
inutilizava  a  prohibição,  tentou  Carvalho  aproveitar-se,  para 
não  faltarem   no   reino   os   supprimentos. 

Debalde  se  esforçava,  todavia.  O  governo  inglês  receava, 
com  justa  razão,  que  os  cereaes  importados  para  o  consumo 


DESAVENÇAS  ENTRE    INGLESES      E    PORTUGUESES  25 

em  Portugal  clandestinamente  passassem  aos  inimigos,  e 
New-Castie  perguntava  que  garantias  lhe  davam  de  que 
assim  não  seria.  Escassa  confiança  o  ministro  inglês  tinha 
em  seus  compatriotas,  e  futurava  que  elles,  havendo  nesga 
que  lhes  facilitasse  o  contrabando,  não  hesitariam  em  sacri- 
ficar á  ganância  commercial  os  interesses  do  patriotismo. 
Os  outros  membros  do  gabinete  pensavam  assim,  e  neste 
conceito  Carvalho  era  comparte.  «, . .  Os  mercadores  ingleses 
—  dizia  elle  — ,  que  presumem  de  amantes  da  pátria,  emquanto 
o  amor  lhes  traz  conveniência,  desistem  d'esta  virtude,  logo 
que  a  podem  trocar  com  o  retorno  de  qualquer  interesse, 
Achando-me  em  outra  occasião  em  casa  de  Roberto  Walpole, 
me  mostrou  elle,  com  impaciência,  uma  carta,  que  recebeu 
na  minha  presença,  pela  qual  o  avisavam  de  que,  por  se 
não  visitarem  as  embarcações,  que  carregavam  de  umas  para 
outras  provindas  d'este  reino,  por  não  serem  comprehendidas 
na  prohibição,  faziam  na  praça  de  Londres  carregar  grão, 
com  aquelle  pretexto,  de  o  passarem  na  Grã-Bretanha  de 
um  para  outro  porto,  e  que,  tanto  que  se  faziam  de  vela, 
o  levavam  para  França. . .  Se  conclue  da  historia,  que  deixo 
referida,  que,  se  não  houver  prohibição  para  extrahir  manti- 
mentos dos  nossos  portos,  não  só  os  mercadores  ingleses 
nelles  residentes,  mas  uma  grande  parte  dos  que  compõem 
a  Bolsa  de  Londres,  exhauririam  a  Inglaterra  de  mantimentos, 
para  depois  fazerem  segundo  transporte,  de  Portugal  a  França 
e  Hespanha,  pela  ambição  do  lucro,  sem  reparar  nas  outras 
consequências»  i. 

Para  obviar  a  este  inconveniente,  o  Enviado  de  Portugal 
mandava  a  Lisboa  projectos  de  fiscalização  das  raias  seca  e 
marítima,  que  facilmente  haviam  de  impedir  a  passagem  dos 
grãos    para  os  inimigos  da  Inglaterra. 

As  negociações,  sobre  o  assumpto  dos  navios,  proseguiam 
entretanto  sem  resultado,  e  desde  o  primeiro  memoria!  de 
Carvalho,  apresentado  em  maio  de  1740,  da  parte  do  governo 


1     Officio    de    28    de    março    1741.    Coll.    Pomb.,    Cod.    656. 


26    OPINIÃO  DE  CARVALHO  SOBRE  O  CARACTER  BRITANNICO 


britannico  tudo  eram  delongas  e  subterfúgios,  tendo  por  fim 
evitar   a   solução    que    nos   devia. 

Ao  azedume  que,  vimos  atraz,  principiava  a  reinar  nas 
relações  diplomáticas,  correspondiam  modos  de  proceder  hostis 
da  gente  do  povo,  indignada,  em  Portugal,  contra  os  súbditos  in- 
gleses, e  reciprocamente,  actos  de  violência,  em  represália, 
da  banda  d'estes  no  seu  paiz.  Tornava  isto  particularmente 
delicada  a  posição  do  Enviado  português  na  corte  de  Londres. 
Succedia,  por  exemplo,  quando  o  cônsul  da  Grã-Bretanha 
no  Porto  se  queixava  de  serem  os  seus  compatriotas  apupados 
nas  ruas,  pelo  vulgacho,  com  brados  de  —  fora  os  hereges !  — , 
Carv^alho,  por  'sua  vez,  informar  que  os  marinheiros  portu- 
gueses não  podiam  sahir  dos  navios,  em  botes,  pelo  Tamisa, 
sem  o  risco  de  serem  de  terra  apedrejados.  O  seu  commentario 
elucida  sobre  o  juizo  que  do  caracter  britannico  elle  fazia: 
...«Eu  não  sei  —  communicava  a  Marco  António  —  o  que 
aquelles  povos  imaginam  no  interior  do  seu  coração.  O  que 
porém  d'elles  se  manifesta  uniformemente,  —  são  palavras 
formaes — ,  é  que  os  portugueses  não  teem  aqui  que  fazer; 
que  vão  para  sua  terra,  porque  nesta  indevidamente  comem 
o  pão,  e  bebem  a  cerveja,  que  toca  aos  ingleses.  Este  é  o 
formulário  commum,  por  onde  principiam  os  frequentíssimos 
insultos  dos  homens  do  mar,  e  mais  povo  miúdo  da  ribeira 
de  Londres,  contra  os  portugueses,  os  quaes,  ao  som  d'este 
pregão,  costumam  ser  apedrejados.  As  pessoas  de  mais  consi- 
deração, que  vêem  estes  insultos,  não  os  louvam  com  as 
palavras :  approvam-nas  porém  com  o  silencio»  i.  Estavam 
em  harmonia  estes  incidentes  com  os  pequenos  aciníes  diários 
nas  relações  diplomáticas.  A  constância  e  a  energia  das 
reclamações  levava  o  Almirantado  a  increpar  o  ministro 
português  de  servir-se,  nos  seus  memoriaes,  «com  demasiada 
repetição,  de  termos  demasiadamente  fortes».  Por  isso  talvez 
Carvalho,  inquieto,  se  lamentava  de  tantas  contrariedades, 
a  seu  tio  Marco  António :  «...  Na  verdade  estou  velho  e 
relho,  como  lá  dizem  as  regateiras,  de  que  confesso  a  v.  ex.a 


1     Carta    particular,    2    novembro     1741,    Coll.     Pomb.,    Cod.     650. 


AMEAÇAS  DE  CARVALHO  AO  PRIMEIRO  MINISTRO   INGLÊS     27 


que  tenho  grandes  saudades;  porque  o  modo,  porque  correm 
aqui  os  negócios,  faz  passar  muitos  séculos,  em  poucos  annos, 
a  quem  ama  a  razão,  e  não  pôde  com  paciência  vêr  as 
injustiças»  ^. 

Expedido  segundo  memoriai,  em  fevereiro  de  1741,  sobre 
as  violações  da  neutralidade,  New-Castle  respondia  em  20 
de  agosto,  por  inspiração  de  Walpole,  em  termos  taes,  que 
incitavam  á  exasperação  o  representante  de  Portugal.  Era— 
queixava-se  Carvalho  — ,  «. . .  um  documento  mal  concebido, 
confuso,  e  onde  nem   parcella  de  bom  senso  se  divisava^).    2 

Logo  após  isto  eram  dois  navios  franceses  aprisionados 
pelo  cruzeiro  inglês,  á  entrada  da  barra  do  Porto,  junto  dos 
fortes  de  S.  João  e  do  Queijo.  O  nosso  representante  quei- 
xava-se. Nevv-Cactle  recorria  ao  costumado  processo  das 
informações  do  Almirantado;  adiava,  sob  todos  os  pretextos, 
as  audiências,  em  que  se  devia  ventilar  o  assumpto,  e,  com 
essas  tergiversações,  claramente  deixava  entender  o  propósito 
de  fazer  terminar  as   queixas  pelo  cansaço  da  outra  parte. 

Afinal,  em  fevereiro  de  1742,  Carvalho  ameaça  de  formal 
rompimento  o  primeiro  ministro  Walpole,  assegurando-lhe 
que  o  governo  português  prohibiria  a  entrada  dos  navios 
ingleses  em  portos  do  reino.  Não  convinha  isso,  por  certo, 
ao  commercio  britannico.  Tão  pouco  ás  esquadras,  que  na 
extensa  costa  de  Portugal  encontravam  commodos  ancora- 
douros, bastimentos,  informações  e  conseguintemente  solida 
base  para  os  seus  movimentos  bellicos.  Além  d'isso  tinha  a 
Inglaterra  de  recear  que  o  seu  alliado,  attrahido  pelos  laços 
do  parentesco  existente  entre  a  familia  reinante  e  a  de 
Hespanha,  e  seduzido  pelas  suggestões  da  corte  francesa, 
se   passasse    realmente    ao    inimigo.    Fora    semelhante    contin- 


1  Id.,    23   junho    1741,    id. 

2  «...  une  lettre  fort  mal  considérée,  dans  laquelle  il  a  mêlé 
plusipurs  matières,  qui  n'avaient  point  de  rapport  les  unes  aux  autres, 
et  sur  les  mémoires  ei  dessus  indiques  il  m'a  fait  un  simple  envoi  des 
rapports  de  Tamirauté  qu'il  avait  reçus,  sans  y  avoir  un  seul  g^rain 
de  bon  sens».  Abrégé  de  la  négociation  de  neutralité  etc,  Coll.  Pomb., 
Cod.    651. 


28  CARVALHO     DEIXA    A     EMBAIXADA     DE     LONDRES 

gencia  a  inversão  de  todos  os  cálculos  da  diplomacia  britan- 
nica,  que,  pelo  contrario,  pouco  antes  quizera  tentar  o 
gabinete  português  a  declarar  guerra  á  Hespanha,  incutin- 
do-lhe  ser  fácil  a  victoria,  pela  inferioridade  em  que  ficara 
esta  nação,  transportando  para  a  Itália  uma  parte  de  suas 
forças,  na  campanha  contra  a   Áustria. 

Estas  considerações  calavam  no  espirito  de  Walpole  que 
se  manifestou  disposto  a  trasigir.  Mas  nesse  mesmo  mez 
cahia  o  ministério,  e  os  interesses  da  politica  interna, 
principalmente,  tinham  de  occupar  a  attenção  do  que  lhe 
succedia.  Mais  a  sangue  frio  talvez  que  seus  predecessores, 
os  novos  ministros  comprehendiam  que  Portugal  se  não 
abalançaria  facilmente  a  uma  resolução  tão  ousada;  que  a 
neutralidade,  mesmo  violentada,  era,  para  uma  nação  fraca, 
a  mais  conveniente  situação. 

Entretanto,  a  guerra  com  a  Hespanha  proseguia,  mas, 
na  America,  com  pouca  fortuna  para  os  ingleses.  Na  Europa 
central,  em  toda  a  parte  luziam  os  incêndios,  se  percebia  o 
estridor  dos  combates.  Nos  campos  de  batalha  estavam  a 
decidir-se  questões  graves  para  a  coroa  britannica,  e  também 
os  seus  exércitos  tinham  parte  na  lucta.  Se  a  estas  razões  de 
peso  accrescentarmos  a  reluctancia  do  Almirantado  em  acceder 
ás  reclamações  que  lhe  coarctavam  os  movimentos  estra- 
tégicos, não  nos  admiraremos  de  que  a  decisão,  tantas  vezes 
promettida,  ainda  mais  uma  se  protelasse.  Já  o  embaixador 
se  propunha  então  abandonar  as  vias  usuaes  da  diplomacia, 
e  recorrer  pessoalmente  ao  rei  Jorge.  A  corte  de  Lisboa 
autorizava   esse   passo. 

Com  taes  delongas  se  chegou  a  outubro  de  1742. 
Carvalho,  tomado  de  antigos  achaques,  que  os  rigores  do 
clima  lhe  aggravavam ;  enfadado  de  tanto  esforçar-se,  debalde, 
em  questões  que  tinha  a  peito;  desejoso,  além  d'isso,  de 
ir  a  Portugal  patrocinar  em  pessoa  um  projecto,  que  adeante 
se  verá,  e  ao  qual  agourava  futuro  estrondoso;  pediu,  e 
obteve  licença  para  deixar  temporariamente  a  embaixada. 
Mal  podia  elle  imaginar  que  o  seu  papel,  na  corte  de  Londres, 
terminava   com   isso. 


UM    ESCRIPTO    DE    CARVALHO  29 


V 


As  preterições,  motivadas  por  eventualidades  da  politica, 
não  eram  as  únicas  que  o  ministro  de  Portugal  tinha  de 
sustentar  na  corte  de  Londres.  Entre  outras,  occorria  a  de 
levar  o  governo  britannico  á  fiel  observância  dos  tratados, 
na  parte  relativa  á  reciprocidade  commercial,  e  de  direitos 
dos  súbditos,  de  sorte  que,  ás  vantagens  de  que  gozavam 
entrc  nós  os  ingleses,  correspondessem  outras  equivalentes 
no  Reino  Unido,  para  os  naturaes  de  Portugal.  Tivera 
Carvalho  a  incumbência  de  velar,  com  muita  attenção,  sobre 
esta  matéria;  mas  fôra-lhe  recommendado  que,  antes  de 
qualquer  representação,  estudasse  os  convénios  existentes,  c, 
acerca  do  assumpto,  elaborasse  com  toda  a  individuação  um 
relatório,  para  ser  considerado  em   Lisboa. 

Foi  em  virtude  d'essa  ordem  que  o  ministro  compoz  o 
escripto,  denominado  Relação  dos  gravames  do  comtmrcio  e 
vassallos  de  Portugal  na  Inglaterra,  onde  é  fácil  encontrar 
a  origem  de  vários  dos  seus  actos  posteriores,  quando 
governou.  Pelo  titulo  se  vê  qual  a  orientação  d'esse  trabalho. 
O  documento  é  prolixo,  como  tudo  que  a  mesma  penna 
produziu.  Em  muitas  partes  se  revela  a  parcialidade  de  quem 
votava  aos  ingleses,  politicamente,  a  mais  forte  antipathia. 
Mas  em  todas  as  divisões  se  patenteiam  os  dotes  de  um 
espirito  observador  e  de  um  fino  entendimento ;  as  faculdades 
de  estudo  fructuoso  e  reflexão  bem  conduzidas;  a  coroarem 
tudo  isso  os  nobres  anhelos  de  um  patriotismo  de  boa 
tempera. 

O  seguinte  trecho  descreve  com  originalidade  uma  feição 
do  caracter  britannico,  a  qual,  se  abstrahirmos  o  intento 
caricatural  do  desenhador,  ainda  hoje  acharemos  exacta : 
«Os  ingleses  não  são  sanguinários;  contrariamente  detestam 
os  homicídios  e  as  effusões  de  sangue.  Se,  por  este  principio 
não  teem  aqui  os  extrangeiros  que  recear  os  perigos  da 
vida,  é  quasi  impossível  resistirem  aos  da  fazenda.  O  inglês 
imagina,  por  prevenção  innata,   que   nasceu  para  ser  senhor 


30  O  COMMERCIO  E  RELAÇÕES  COM  A   INGLATERRA 

dos  cabedaes  do  mundo;  que  é  necessário  ser  bretão,  como 
elles  dizem,  para  ser  hábil  e  capaz  de  possuir  riquezas;  que, 
por  consequência,  lhes  andam  usurpadas  aquellas  que  possue 
qualquer  outra  nação;  que  quando  vexam  a  um  extrangeiro, 
para  lhe  extorquirem  o  cabedal,  ou  divertirem  o  lucro  que 
devia  ter,  não  é  isto  um  roubo  que  commettem,  mas  «.ima 
reivindicação,  porque  se  restituem  do  que  lhes  pertence»  ^. 
Carvalho  menciona  as  leis  que  fundaram  a  supremacia  marí- 
tima e  commercial  da  Grã-Bretanha,  origem  da  sua  posterior 
importância  politica;  o  celebre  Acto  de  Navegação,  de  1651, 
pelo  qual  só  podiam  as  embarcações  exírangeiras  conduzir 
aos  portos  de  Inglaterra  productos  que  fossem  da  sua  respe- 
ctiva nação;  a  lei  de  1660,  sobre  os  direitos  de  tonelagem, 
(Tonnagc  and  poiíndage  act),  que  estabelecia  direitos  diffe- 
renciaes  para  os  ingleses,  com  mais  elevada  taxa  para  os 
géneros  importados  ou  exportados  por  extranhos;  a  de 
1722,  abolindo  o  imposto  de  sabida,  mesmo  para  estes  últimos. 
Analysa  também  o  tratado  português  de  1642,  com  Carlos  I, 
confirmando  todos  os  antigos  privilégios  dos  ingleses;  o  de 
1654,  de  paz  e  alliança,  no  tempo  de  Cromvvell,  concedendo 
aos  naturaes  da  republica  commerciarem  de  Portugal  para  o 
Brasil,  como  os  nacionaes,  faculdade  que  lhes  foi  retirada 
depois;  o  de  1703,  de  commercio  reciproco,  menos  prejudicial, 
a  seu  vêr,  do  que  insinuam  as  declamatórias  lamentações, 
tantas  vezes  sobre  elles  proferidas.  E  a  propósito  d'este 
ultimo  tratado  escreve:  «Commummente  se  imagina  em 
Portugal  que  o  infeliz  tratado  da  introducção  de  pannos, 
assignado  em  Lisboa  a  27  de  dezembro  de  1703,  foi  aquelle 
que,  na  nossa  marinha  e  no  nosso  commercio  externo,  causou 
a  notória  declinação,  que  vimos  depois  d'aquelle  tempo. 
Olhando-se,  porém,  mais  de  perto,  para  estes  damnos. . . ,  se 
vê  que  não  foi  aquelle  tratado  a  causa  de  tão  perniciosos 
effeitos,  mas  sim  as  infracções,  os  abusos  e  as  violências, 
que,   contra   aquella   e   as   mais   convenções   antecedentes,   se 


'•■     Relação  dos  prravames  que  ao  commerci»  e  vassallos  de  Portugal 
se    teem   inferido    pela   Inglaterra.   CoH.    Pomb.,    Cod.    635. 


o   TRATADO   DE  METHUEN  31 

foram  introduzindo,  e  estão  actualmente  praticando  em  Ingla- 
terra». Eis  aqui,  pois,  o  tratado  de  Methuen  até  certo  ponto 
defendido  pelo  próprio  que  mais  tarde  tão  intensamente 
personificou  a  reacção  contra  elle;  por  aquelie  mesmo 
estadista  que  sonhou  elevar  a  industria  portuguesa  a  tal 
desenvolvimento,  que  o  paiz  deixasse  de  ser  tributário  de 
productores    extranhos. 

Já  então  se  tomava  no  reino  por  desastrosa  consequência 
do  convénio  a  extensão  da  cultura  da  vinha,  e  a  resultante 
depreciação  das  colheitas.  Não  era  egual  o  sentir  de  Carvalho, 
e,  ao  revez  do  que  proclamava  mais  tarde,  entendia  elle, 
naquelle  tempo,  que  o  mal  só  decorria  de  se  não  procurarem 
os  mercados,  e  não  de  ser  excessiva  a  producção.  Por  isso 
dizia  assim :  «Emquanto  não  sahi  de  Portugal,  entendia,  com 
a  opinião  commum,  que  a  baixa,  que  padecemos  nos  fnictos, 
provinha  de  se  haverem  multiplicado,  além  do  que  cabia  na 
sua  extracção.  Por  exemplo,  viu-se  que  o  vinho  de  cima 
do  Douro  era  bem  reputado,  e  trataram  todos  de  plantar 
bacellos.  Extenderam-se  estes  até  á  redundância,  e,  em  conse- 
quência, sobejou  o  género,  e  abateu  o  preço  por  natural 
razão.  Depois  que  eu  tive  a  obrigação  de  examinar  este 
ponto,  sobre  o  logar  que  occupo,  achei  diametralmente 
opposta  a  verdade  áquella  apparencia. , .  O  vinho  todo,'  que 
em  Portugal  se  julga  que  é  muito,  a  respeito  da  Inglaterra 
é  cousa  muto  pouca». 

Era  naquella  época  assas  numerosa  a  população  de 
ingleses  em  Portugal.  Mercê  dos  avultados  recursos  de  que 
dispunha,  quasi  todo  o  commercio  do  reino  lhes  pertencia. 
Gosavam  immunidades  notáveis :  dispensa  de  impostos,  foro 
privativo,  licença  para  andarem  armados  em  toda  a  parte, 
mesmo  em  logares  onde  isso  era  vedado  aos  nacionaes. 
Carvalho  considerava  nociva  a  influencia  d'elles  no  sysíem.a 
económico  do  paiz,  «Todo  o  dinheiro  que  gira  é  dos  ingleses, 
que  fazem  adeantamentos  aos  productores;  enviam  merca- 
dorias ao  Brasil,  com  nomes  suppostos  de  portugueses ;  lotam 
os  vinhos  e  falsificam-os,  destruindo  a  boa  fama  do  producto); 
tal  era,  no  seu  parecer,  a  parte  d'estes  extranhos  no 
commercio   nacional. 


32  VINHOS   E   COLÓNIAS 

Aqui  vislumbramos  já  os  fundamentos  que,  mais  tarde, 
haviam  de  servir  á  creação  da  Companhia  dos  Vinhos. 
Observava  elle  egualmente  quão  mesquinho  era  o  quinhão 
de  Portugal  nos  lucros  do  seu  commercio  externo.  Na  Orã- 
Bretanha  que,  pelos  tratados,  era  o  paiz  mais  accessivel,  a 
lei  que  em  1722  abolira  os  direitos  de  exportação  nenhum 
fructo  produziu  par  a  nossa  marinha  mercante.  Faltando  no 
Reino  Unido  negociantes  portugueses,  que  pudessem  dar  a 
carga  de  retorno,  o  frete  era  todo,  como  se  julgará,  para  as 
embarcações  de  bandeira  britannica.  O  exame  d'estes  factos 
suggeria  ao  futuro  estadista  um  plano  de  governação.  As 
leis  especiaes  de  cada  nação,  para  a  segurança  do  próprio 
commercio;  a  competência  vivaz,  em  que  a  victoria  pertence 
ao  mais  apto,  mostravam-lhe  fallivel  a  prosperidade  baseada 
no  trafico  extrangeiro.  Afagava,  por  isso,  o  projecto  de 
desenvolver  as  relações  com  as  colónias.  «Todo  o  negocio, 
que  se  faz  nos  paizes  de  uma  dominação  extrangeira,  é  mal 
seguro  e  muito  contingente  —  affirmava  —  ;e  quanto  é  mais 
lucroso,  tanto  se  julga  de  maior  perigo.  A  ambição  e  a 
cobiça  inspiram  nas  outras  nações  contínuos  desejos,  de  que 
nascem  os  frequentes  projectos,  para  o  impedir  ou  para  o 
usurpar. . .  Nenhum  d'estes  perigos  receia  o  commercio,  que 
se  fàz  para  as  colónias  próprias.  Cada  nação  monopoliza  o 
trafico  das  suas,  e  exclue  d'ellas  as  nações  extranhas  irremis- 
sivelmente.  Taes  são  as  leis  de  Portugal  e  Hespanha.  Taes 
são  as  que  o  Acto  de  Navegação  de  16Ó0  prescreveu  á  Ingla- 
terra. Taes  as  da  França,  Dinamarca  e  todas  as  potencias 
que  possuem  colónias  ultramarinas.  De  onde  resulta  que 
este  é  só  o  commercio  seguro  e  perpetuo,  porque  é  próprio 
e  sem  sujeição  aos  projectos,  em  que  todos  os  outros  mais 
cedo  ou  mais   tarde   acham   a   ruina». 

A  esta  ordem  de  reflexões  pertenceu  o  intento,  que 
vamos    conhecer. 

VI 

O  representante  português  tivera  occasião  de  relacionar-se 
em    Londres   com   um   individuo   recem-chegado   do   Oriente, 


CONFERENCIAS   COM   CLELAND  33 


onde  exercera  um  posto  elevado  na  Companhia  das  índias. 
DesattençÕes,  que  no  exercido  do  cargo  padecera  da  parte 
dos  superiores,  o  Hnham  levado  a  exonerar-se ;  e  agora,  no  favor 
de  Carvalho,  que  reconhecia  ambicioso  e  intelligente,  descor- 
tinava meio  de  promover  a  própria  fortuna  e,  até  certo 
ponto,  desforçar-se  dos  que  lhe  haviam  menoscabado  os 
serviços.  Do  confabular  repetido  entre  os  dois  surgira  alfim 
o  projecto  de  uma  Companhia,  para  os  dominios  portugueses 
da  índia,  semelhante  á  da  Inglaterra;  e  era,  sem  duvida, 
estimulado  pelas  esperanças  que  tal  projecto  fazia  nascer, 
que  o  ministro  escrevia  a  Marco  António :  «Desejava  que 
falássemos  agora  dois  dias  à  tête  reposée,  em  Oeiras  ou 
S.  José  de  Ribamar,  depois  de  haver  passado  por  Paris,  e 
que  nosso  amo  tomasse  a  resolução  de  usar  das  conjuncturas 
que  se  forem  apresentando,  dispondo-se  desde  logo  para  as 
aproveitar,  porque  certamente  temos  com  que  fazer  no  mundo 
maior  figura,  do  que  a  maior  parte  das  potencias  que  fazem 
ruido   na    Europa»  i. 

A  Carvalho  sorrira  a  proposta  do  funccionario  indiano, 
e  desde  logo  se  dedicou  com  fervor  a  estudal-a.  Cleland,  — 
este  era  o  nome  do  cavalheiro  inglês  — ,  ministrava  o  soccorro 
da  sua  experiência,  e  no  começo  de  1742  tinha  o  projecto 
acabado.  Redigira  um  memorial  contendo  as  bases,  e  offe- 
recia-se  para  ir  a  Lisboa  completal-o  por  noticias  verbaes. 
Na  mesma  occasião  Carvalho  escrevia  ao  cardeal  da  Motts, 
enumerando-lhe  os  fundamentos  e  descrevendo  as  vantagens 
do  seu  plano.  Talvez  em  algumas  das  idéas,  expendidas  então, 
se  filiem  actos  posteriores  do  estadista,  no  seu  governo.  São 
d'esse  memorial  os  seguintes  trechos:  «O  génio  e  o  costume 
dos  ingleses  é  trabalharem  infatigavelmente  na  mocidade, 
com  o  objecto  de  fazerem  ditosa  e  descansada  a  velhice. 
Todos  os  meios  que  podem  conduzir  a  este  fim  são  reputados 
por  decentes  em  Inglaterra:  de  sorte  que,  entre  os  caixeiros 
dos  mercadores  que  residem  nesta  corte,  uma  parte  d'elles 
são    filhos   segundos    ou    terceiros    de   lords,    ou    de    pessoas 


'1     Carta  particular,    19  junho   1741,   Coll.    Pomb.,   Cod.    656. 

o     MARQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  3 


34  PROPOSTA  AO  CARDEAL  DA  MOTTA 


illustres  d'cste  reino. . .  Observando  eu,  com  aquella  reflexão 
que  em  mim  podia  caber,  os  estabelecimentos  e  os  progressos 
das  Companhias  orientaes  da  Europa,  tirei  f)or  consequência, 
da  combinação  de  todas,  que,  por  mais  sólidos  e  considerados 
que  fossem  os  princípios  sobre  que  se  estabeleceram  essas 
sociedades,  todas  as  providencias  e  cautelas  que  se  tomaram 
foram  sempre  inúteis,  emquanto  na  execução  pratica  dos 
seus  planos  não  interveio  o  concurso  de  um  certo  numero 
de  mercadores. . .  Os  ministros  de  Estado  e  politicos,  que 
concorreram  na  maior  parte  dos  taes  estabelecimentos,  esme- 
raram nelles  o  primor  da  sua  grande  dexteridade  e  instrucção. 
Não  basta  porém  isso;  porque  a  funcção  dos  ministros  não 
se  extendia  a  mais  do  que  a  formar  os  planos  sabiamente; 
restava  depois  a  execução,  que  só  pertence  ao  mecanismo 
dos    homens    de    negocio»  i. 

Que  estes  princípios  foram  adoptados  por  Carvalho  no 
governo,  sabemol-o  pela  collaboração,  nas  suas  providencias 
económicas  dos  negociantes  Oldenberg,  Stephens,  Quintella, 
os  irmãos  Cruzes,  e  outros  somenos,  que,  se  não  desenvol- 
veram, como  se  esperava,  a  riqueza  do  Estado,  edificaram 
á  sombra   das   mesmas   a   sua   própria. 

O  memorial  historia  a  formação  das  varias  Companhias, 
em  que  foram  proeminentes  os  hollandezes,  Habilitaram-sc 
estes  para  o  trafico  nas  suas  relações  com  Veneza ;  em 
seguida  aprenderam  com  os  judeus :  primeiro  os  de  Hespanha, 
emquanto  Flandres  lhe  foi  sujeita;  depois  os  que,  sabidos 
de  Portugal,  buscavam  em  paiz  livre  um  refugio  ás  suas 
creanças. 

Despertavam  os  lucros  da  Hollanda  as  aítenções  na 
Inglaterra,  mais  tarde  em  França,  e  cada  uma  d'estas  nações 
buscou  a  prosperidade  das  suas  colónias  em  instituições 
semelhantes.  Só,  porém,  as  viram  adeantar,  quando  souberam 
attrahir  negociantes  hollandeses,  que  lhes  ensinaram  seus 
methodos  de  exploração.  Todavia,  os  ingleses  são  ultima- 
mente   os    mais    eximios;    com    elles    teem    ido    aprender    as 


i     19    fevereiro    1742,    Coll.    Pomb.,    Cod.    657. 


HESITAÇÕES    DE    CARVALHO 


outras   nações;   por   tal   motivo,   o   concurso  espontaneamente 
offerecido   por   Cleland   se    devia   aproveitar. 

Uma  fundação  tão  nova,  e  que  demandava  tão  extra- 
ordinário concurso  de  esforços,  de  intelligencia  e  de  capitães; 
cuja  sede  de  acção  era  tão  longe,  e  o  retorno,  por  isso 
mesmo  tão  precário,  não  poderia  realizar-se  sem  que  aos 
esforços  e  cabedaes  empregados  de  antemão  se  assegurasse 
algum  premio.  O  privilegio,  pois,  impunha-se  como  incen- 
tivo. Mas  o  espirito  de  Carvalho  póde-se  dizer  que  hesita 
ainda  antes  de  propor  esta  senda,  na  qual,  tão  convencido, 
havia  de  lançar-se  posteriormente.  Ante  si  mesmo  procura, 
como  parece,  justificar  agora  o  que  mais  tarde  terá  por 
máxima  irrecusável.  Talvez  que  o  animo  do  cardeal  da  Moita 
fosse  também  adverso  ás  excepções,  e  por  isso  tentava 
convencel-o,  dizendo:  «Os  monopólios,  por  via  de  regra,  são 
contrários  ao  dictame  politico  das  máximas  do  Estado. . . 
Todos  os  commercios  que  giram  na  esphera  do  nosso  conti- 
nente, ou  ainda  na  dos  domínios  próprios  da  America,  podem 
manejar-se  pelos  particulares,  sustentados  com  o  calor  das 
leis  communs  de  cada  Estado  da  Europa.  O  da  índia,  porém, 
com  opposta  razão,  requer  o  monopólio  como  indispensável». 

Carvalho  apresenta  em  seguida  as  suas  razões.  Para 
arruinar  uma  Companhia,  novamente  creada  com  o  fim  de 
fazer  um  commercio  até  ahi  livre  e  vago,  conspiram  extra- 
nhos  e  naturaes;  os  primeiros  vendendo  os  seus  géneros 
dolosamente,  a  preços  vis,  que  a  Companhia  não  possa 
acompanhar,  reservando-se  para  recuperarem  o  perdido  no 
augmento,  quando  ella  desappareça;  os  segundos  dispondo 
egualmente,  por  menos  do  valor  natural,  dos  effeitos  que 
em  consignação  recebem,  porque,  faltos  de  capitães  não 
podem,  ou  ignorantes  não  sabem  esperar.  «D'ahi  — continua — , 
se  segue  que  a  Companhia  ha  de  perecer,  se  faz  grandes 
despesas,  e  não  acha  consumo  aos  géneros,  que  por  ellas 
transporta.  E  como,  para  evitar  estes  inconvenientes,  não 
ha  outro  meio  que  o  de  fazer  exclusivo  o  commercio,  por 
isso  a  pratica  de  todas  as  nações  tem  estabelecido  actualmente 
este  privilegio,  a  favor  de  um  negocio  que  se  não  pôde 
sustentar   somente    pelas    leis    e    máximas    communs». 


36  COMPANHIAS     PRIVILEGIADAS 


Certo  que  nesta  argumentação  se  nos  deparam  as 
melhores  razões,  sempre  invocadas,  a  favor  dos  privilégios. 
O  espirito  de  Carvalho,  porém,  como  que  só  a  medo  se 
rendia.  Por  agora  não  lhe  é  ainda  infensa  a  liberdade.  O 
monopólio  contraria  os  dictames  da  politica.  Póde-se  fazer 
todo  o  commercio  do  reino  e  das  possessões  da  America 
sem  derogar  a  lei  commum.  O  exclusivo  seria  apenas  para 
o  trafico  da  índia.  Mas  esta  idéa,  assim  fixada  na  sua  mente, 
germina,  prolifera,  irradia,  termina  por  invadil-a  toda,  e 
tornar-se  a  matéria  prima  essencial  das  suas  concepções 
económicas. 


VII 


Pretenderam  os  adversários  de  Pombal  que  D.  João  V, 
de  quem  não  lograra  jamais  o  favor,  mal  supportava  a 
leitura  de  seus  despachos,  pelo  tédio  que  o  contexto  dos 
mesmos,  habitualmente  emmaranhado  e  prolixo,  de  cada  vez 
lhe  provocava.  Diziam  outros  que  na  Inglaterra  lhe  chamavam 
por  irrisão  ministro  lettrado,  pela  copia  de  citações  e  abuso 
das  form.ulas  de  jurisprudência,  que  usava  introduzir  nos 
papeis  diplom.aticos.  É  possível  que  nenhum  dos  assertos 
seja   falso. 

Ninguém,  que  tenha  percorrido  os  escriptos  de  Pombal, 
contradirá  serem  elles  litterariamente  detestáveis.  Ainda, 
porém,  na  época  de  que  nos  occupamos,  não  tinham  sempre 
esse  tom  declamatório,  que  lhes  foi  caracteristico  depois.  Mas 
o  estylo  não  deixa  de  ser  pesado,  confuso  e  pedante.  A 
brevidade  é,  para  o  autor,  mérito  desconhecido.  Os  officios 
diplomáticos  são  muitas  vezes  acompanhados  de  annotações, 
no  baixo  da  pagina,  como  em  obra  didáctica  ou  discurso 
académico.  A  correspondência  para  a  corte  de  Lisboa  não 
divergia  no  modo  de  redacção,  d'esta  outra.  O  enfado,  que 
se  attribue  a  D.  João  V,  motivado  por  ella,  é  portanto 
natural  e  assas  crivei.  E  não  se  nos  contrarie  com  os 
fragmentos    que   vamos    transcrevendo.    Estes   são   escolhidos, 


CARACTER  DA  CORRESPONDÊNCIA  DE  CARVALHO  37 


entre  os  mais  límpidos,  e  amiúde  desbaratados  do  que,  por 
excessivo,  parece  obscurecer  a  phrase,  ou  alongar  os  periodos 
em  demasia. 

Às  compridas  e,  não  raro  importunas  dissertações  de 
Carvalho,  a  chancellaria  inglesa  respondia,  por  norma,  em 
termos  breves.  Uma  vez  lhe  fazia  notar  que  a  sua  exposição, 
posto  que  longa,  só  continha  factos  e  argumentos  já  antes 
allegados.  Certo,  o  evidente  contraste  entre  as  habituaes 
divagações  do  Enviado  português,  e  a  sobriedade  a  que, 
pela  Sua  concisão,  obriga  o  idioma  britannico,  era  para 
causar   em    Londres   extranheza. 

Entretanto,  nesta  correspondência  colhem-se,  a  relance, 
trechos  bem  contornados,  observações  nitidas  que  accusam 
no  autor  agudeza  de  espirito,  e  a  faculdade  de  transmittir 
aos  outros  as  suas  impressões,  melhor  usada  quando  a  preoc- 
cupação  do  estylo  guindado  as  não  encobre.  Por  exemplo, 
o  seguinte  em  que  explica  a  Constituição  extraordinária  da 
Inglaterra,  —  palavras  suas):  «Aqui  ha  duas  definições  a  saber: 
prerogativa  da  coroa  e  liberdade  do  parlamento,  que,  apesar 
de  infinitos  exames  e  disputas,  não  deram  até  agora  a 
conhecer  os  seus  definidos.  Tem-se  por  cousa  certa  que  a 
coroa  pode  fazer  tratados,  que  a  nação  os  deve  cumprir; 
se,  porém,  esta  o  não  quer  fazer,  nem  quer  se  duvide  do 
poder  do  príncipe,  argúe  o  ministério  de  que  fez  abuso  do 
mesmo  poder  real,  com  prejuízo  do  povo,  para  ser  perse- 
guido criminalmente  e  depois  castigado.  Da  mesma  sorte 
se  illudem  as  convenções  e  promessas,  feitas  pela  coroa: 
e  tudo  sem  mais  trabalho  que  o  de  fazerem  as  camarás 
uma  adresse  ou  representação,  de  que  é  contra  o  interesse 
nacional  o  estipulado  ou  promettido,  e  isto  sobeja  para  o 
estorvo»  i. 

Com  pasmo  via  Carvalho  um  organismo  politico  tão 
diverso  do  que  existia  no  seu  paiz,  e  tão  opposto  áquillo 
a  que  o  seu  espírito,  por  natural  inclinação,  propendia.  Na 
Deducção  chronologica,  a  propósito  das  cortes  de   1674,  havia 


J     Officio   de   2   de   janeiro   de    1741.    Coll.    Pomb.,,    Cod.    65ò. 


3S       IDEAS  DE  CARVALHO  SOBRE  A  CONSTITUIÇÃO   INGLESA 

elle  de  deixar  patente,  mais  tarde,  o  que  pensava  do  regimen 
parlamentar.  A  França  cujas  máximas  de  governo  adoptava, 
tomando  os  seus  estadistas  por  modelo,  e  comparando-se  a 
elles  nos  dias  de  grandeza  ou  desfavor,  se  lhe  maniíestava 
incomparavel^nente  superior  a  este  paiz  de  odiosa  democracia. 
Comtudo,  elle  sabia  reconhecer  os  dotes  de  intelligencia  e 
actividade  do  caracter  bretão.  Comprehendia  o  enthusiasmo 
nacional  por  arriscadas  mas  proveitosas  empresas.  Admirava 
o  espirito  de  iniciativa  fecunda,  que  levantava  as  Companhias 
de  commercio.  «Aqui  não  ha  difficuldade  alguma  —  obser- 
vava— ,  em  fazer  subscripções  particulares,  para  que  cada 
subscrevente  concorra  logo  com  quatro  e  cinco  mil  iibras 
sterlinas,  com  a  mesma  facilidade  com  que,  em  outros  paizes, 
se  poderiam  aventurar  cincoenta  mil  réis,  e,  para  fazer  tantas 
subscripções  d'estas,  quantas  acharem  objectos  de  algum 
interesse,  não  faltam  os  meios,  nem  industria,  e  o  numero 
de  gente  necessária,  para  surtirem  effeito.  Não  consideram 
os  ingleses,  nem  o  commercio  dos  homens  d'esta  parte,  uma 
empresa  summamente  difficil  a  de  penetrarem  no  sertão 
das  provincias  septentrionaes  do  rio  da  Prata,  pelo  discurso 
do  tempo,  logo  que  tenham  possibilidade  para  ahi  se 
plantarem»  i. 

Esta  sede  de  ganho  e  de  conquistas,  a  todo  o  instante 
confessada;  a  cobiça  insaciável  que,  desde  o  reinado  de 
Isabel,  a  nação  trazia  no  sangue;  o  furor  com  que,  no  tempo 
d'ella,  os  corsários,  como  aves  de  altaneria,  se  lançavam 
sobre  os  descobridores  do  novo  mundo,  disputando-lhes,  no 
mar,  os  thesouros  dos  galeões,  em  terra,  as  opulentas 
possessões,  de  onde  extrahiam  as  riquezas;  a  tenacidade  com 
que  o  bretão,  uma  vez  estabelecido  em  um  logar,  lá  se  fixava, 
como  nave  em  seguro  ancoradouro ;  o  exemplo,  emfim,  do 
que  a  Inglaterra  comnosco  ainda  praticava  no  Oriente :  tudo 
isto  inquietava  a  Carvalho  pela  defesa  da  nossa  America, 
de  que,  por  um  golpe  de  mão,  podiamos  repentinamente 
perder  grande  parte. 


1     Officio    cit.,    Cod.    656. 


o  ESPIRITO  DE  INICIATIVA  E  COBIÇA  DO  POVO    INGLÊS      39 

A  guerra  em  que  os  ingleses  andavam  empenhados  com 
a  monarchia  hespanhola  offerecia-lhe  para  isso  razão.  O 
direito  com  que  occupavamos  o  immenso  território  do 
Brasil  era  uma  garantia  somente  platónica.  A  posse,  por 
effeito  da  occupação,  em  certas  paragens,  abrangia  pouco 
mais  do  que  uma  estreita  faxa  do  littoral.  Que  muito  era 
que  a  Grã-Bretanha,  entrando  pelo  Prata,  se  fosse  estabelecer 
nos  fundos  dos  nossos  dominios,  e  d'alli  nos  apertasse,  até 
de  todo  nos  encerrar  nas  cidades  da  costa?  «V.  Ex.»  sabe 
que  d'estas  partes  se  não  crê  no  poder  com  que  o  Papa  as 
dividiu  entre  Portugal  e  Hespanha,  assentando-se  que  a 
sentença  não  é  de  efficacia  senão  entre  as  duas  coroas.  De 
onde  resulta  que  se  tem  por  principio,  commummente  rece- 
bido no  Norte,  que  não  temos  outro  direito  que  os  -da 
occupação  e  povoação  que  nos  deram  a  posse. . .  A  inveja 
do  nosso  Brasil  arde  tão  vivamente  em  corações  ingleses, 
que  sac  de  todos  geralmente  em  effeitos  sensiveis.  Não 
sentem  só  não  possuírem  alguma  cousa  naquelle  continente. 
O  que  mais  os  atormenta  é  que  elle  esteja  fora  do  rumo  de 
todas  as  navegações,  que  não  sejam  as  nossas  e  as  de 
Hespanha,  para  ser  isento  do  contagio  dos  contrabandos, 
que,  nas  embarcações  d'esta  parte  do  Norte,  é  mais  frequente 
que   a   peste   nas   que   vêem   do   Oriente»  i. 

Em  partes  d'esta  correspondência  vemos,  em  gérmen, 
os  princípios  que,  annos  depois,  o  ministro  ha  de  appiicar 
no  governo.  Já  aqui  se  desenha  o  caracter  da  sua  futura 
administração,  attenta  aos  factos  económicos,  talvez  mais 
que  ás  estéreis  combinações  da  politica.  Entrava  nisso  o 
pendor  natural  do  seu  animo,  que  com  avidez  buscava 
instruir-se  em  tudo  que  respeita  á  vida  industrial  e  mercantil 
das  nações.  Para  isso,  em  nenhuma  outra  parte  Carv^alho 
estaria  tão  bem  situado  como  na  Inglaterra.  Alli  via  de  perto 
o  que  faz  o  génio  politico  dos  legisladores,  alliado  ao  tino 
individual  dos  cidadãos.  Observava  os  effeitos  do  Acto  da 
Navegação,    utilizado    por    um    povo    emprehendedor,    e    sem 


^     Officio   cit..    Cod.    656. 


40       SOBRE    A   MISSÃO    DE    UM    DIPLOMATA    NA    INGLATERRA 


escrúpulos  quando  busca  a  riqueza.  Assistia  ao  alvorecer 
d'esta  industria,  ainda  então  rudimentar,  mas  que  tudo  fazia 
por  desenvolver-se,  aprendendo  de  extranhos  os  novos  pro- 
cessos, com  que  depois  havia  de  os  supplantar.  Julgava 
desvendar  o  segredo  pelo  qual  este  povo  admirável,  em 
prazo  relativamente  curto,  fundava  um  império  na  Ásia, 
onde  o  nosso,  tão  ephemero,  lamentavelmente  decaliira.  E, 
ponderando  quanto  havia  alli  que  imitar,  tomava  por  inde- 
clinável obrigação  fazer  conhecidas  na  pátria  tão  preciosas 
noções    que    adquiria. 

Assim  é  que  ao  cardeal  da  Motta  escrevia :  «A  mais 
interessante  matéria,  que  pôde  fazer  o  assumpto  das  relações 
de  um  ministro,  que  reside  em  Londres,  considerei  eu,  depois 
que  entrei  n'esta  corte,  a  de  investigar,  para  as  pôr  jna 
presença  d'el-rei,  nosso  senhor,  as  causas,  com  que  S.  M. 
achou,  logo  nos  princípios  do  seu  reinado,  o  commercio 
de  Portugal  em  tanta  decadência,  ao  mesmo  passo  que  o 
de  Inglataerra  e  de  outras  nações  tiveram  um  desmedido 
augmento. , .  Todas  as  nações  da  Europa  se  augmentaram, 
e  augmentam  ainda  hoje,  pela  reciproca  im.itação.  Cada  uma 
vigia  cuidadosamente  sobre  as  acções  que  obram  as  outras. 
Assim  fazem  todas  própria,  mediante  a  informação  dos  seus 
ministros,    a    utilidade    dos    inventos    alheios»  ^. 

Tal  era  a  noção,  inteiramente  moderna,  que  o  ministro 
de  Portugal  possuia  da  utilidade  dos  cargos  diplomáticos. 
É  crivei  que  a  novidade  não  agradasse  á  sua  corte.  Também 
de  Paris,  nesse  tempo,  D.  Luiz  da  Cunha,  com  seus  alvitres, 
procurava  insufflar  alguma  vida  no  desmanchado  organismo 
da  nacionalidade  portuguesa.  Lá  estava,  porém,  em  Lisboa, 
cercando  o  monarcha,  a  ignorância  fradesca,  para  rebater 
as  tentativas  vãs  do  espirito  novo,  já  então  predominante  na 
Europa. 


1      19    fevereiro    1742,    CoU.    Pomb.,    Cod.    657. 


RESUMO    DAS    NEGOCIAÇÕES    DE    LONDRES  41 


VIII 


Com  a  retirada  de  Carvalho,  ficava  em  Londres  a 
embaixada  entregue  a  um  personagem  secundário,  Francisco 
Caetano,  secretario  particular  e  espécie  de  fâmulo  do  ministro, 
por  elle   remunerado. 

Terminada  agora  virtualmente  a  missão,  não  se  pôde 
dizer  terem  sido  os  resultados  brilhantes.  Sem  embargo  da 
demorada  negociação,  e  das,  nos  ulíimos  tempos,  Fingidas 
promessas  do  governo  britannico,  não  deixavam  os  seus 
navios,  nas  costas  de  Portugal,  de  demonstrar  absoluto 
desprezo  pelas  leis  da  neutralidade,  e  pelos  pactos  intervindos 
entre  as  duas  nações.  Não  alcançara  Carvalho  o  soccorro, 
instantemente  requerido  para  Salsete,  nem  também,  o  que 
fora  mais  grave,  o  reconhecimento  desejado  do  senhorio 
português  nas  margens  do  Prata.  As  relações  individuacs 
entre  os  s.ubditos  das  duas  coroas  continuavam  a  ser  assas 
tensas.  Nos  portos  do  Reino  Unido  eram  os  marinheiros 
portugueses  maltratados  pela  ralé,  os  navios  perseguidos  com 
vexações,  e  muitas  vezes  sujeitos  a  confisco  pelas  autoridades, 
com  manifesta  injuria  dos  tratados.  Desrespeitado  era  eguai- 
mente  o  principio  da  egualdade  commercial,  estabelecida  por 
estes,  e  tão  claramente  definido  no  de  1703.  Os  nossos 
vinhos,  importados  por  negociantes  ingleses,  em  barcos  de 
sua  nação,  pagavam  menos  quatro  libras  de  direitos,  em 
pipa,  que  os  da  carga  de  navios  portugueses.  E  neste,  como 
em  outros  assumptos  de  ordem  politica,  a  chancelaria  bri- 
tannica  ise  mostrou  surda  ás  reclamações.  Também  ficara 
sem  effeito  a  supplica  relativa  á  sabida  dos  trigos,  de  cuja 
prohibição  não  fora  Portugal  exceptuado.  Resolução  de  pouca 
dura,  mas  que,  sem  causar  damno  apreciável,  manifesta  a 
diminuta  valia  em  que  a  Grã-Bretanha  tinha  os  commodos 
da   nação   amiga. 

Verdade  é  que  o  gabinete  de  Londres  fizera,  durante 
este    tempo,    por    outra    parte,    concessões    em    matérias    de 


42  PEQUENAS   CONCESSÕES    DO   GOVERNO    INGLÊS 

pequena  importância,  que,  satisfazendo  a  vaidade  nacional 
portuguesa,  não  affectava  por  forma  alguma,  os  interessas 
britannicos.  Permittira  !a  entrada  livre  dos  objectos  perten- 
centes ao  embaixador,  vantagem  mesquinha,  visto  que,  em 
Portugal,  os  súbditos  ingleses  nada  pagavam  na  alfandega 
por  aquillo  que  importavam  para  gasto  de  suas  casas.  Isentara 
os  portugueses  residentes  em  Londres  do  imposto  de  paro- 
chia,  o  que  também  consideraremos  sem  importância,  sabendo 
que,  naqu€lla  época,  somente  dois  negociantes  da  nossa 
nacionalidade  alli  existiam :  pobres  homens,  antigos  criados, 
que,  por  fallecimento  de  seus  amos,  se  tinham  deixado  ficar 
na  Inglaterra.  Finalmente,  mandara  o  governo  britannico 
restituir  os  bens  penhorados,  e  dar  satisfações  ao  medico 
judeu  Castro  Sarmento,  a  quem  tinham  feito  execução  judi- 
cial, por  falta  de  pagar  o  dito  imposto. 

São  estas  as  victorias  diplomáticas,  que  os  admiradores 
incondicionaes  do  futuro  estadista  lhe  attribuem,  para  exaltar 
o  valor  dos  seus  serviços  em  Londres.  Elle  próprio  não 
soube  allegar  jamais  outros,  e  estes,  como  se  vê,  não  são 
enormes.  E,  comtudo,  a  residência  de  Carvalho  na  Inglaterra 
teve,  para  elle  pessoalmente,  e  para  os  futuros  destinos  de 
Portugal,  importância  mui  outra.  Alli  o  seu  espirito  acaboti 
de  se  formar,  e  nelle  se  depositaram  as  sementes,  que  mais 
tarde  haviam  de  germinar  em  vastos  planos  de  fomento 
económico.  Alli  se  lhe  accendeu  mais  vivamente  a  hostilidade 
intima,  votada  aos  ingleses,  a  qual  sem  embargo  das  allianças, 
dos  tratados,  das  convencionaes  demonstrações  que  as 
circumstancias  politicas  lhe  impunham,  foi  a  característica  de 
seus  actos,  e  lhe  conquistou  uma  aura  de  sympathia  popular, 
ainda  hoje  subsistente. 

Os  adversários  jesuitas  de  Pombal,  respondendo  ás 
calumnias,  que  lhes  elle  irrogava,  com  outras  calumnias, 
divulgaram  que  a  sua  enviatura  em  Londres  fora  estéril, 
pelos  desregramentos  de  uma  existência,  passada  em  logares 
de  má  fama,  antes  que  no  gabinete  de  trabalho,  ou  na 
roda  brilhante  da  corte.  E  o  facto  de  ter  o  ministro,  nos 
últimos  annos  de  sua  vida,  confessado  que  nada  aprendera 
da  lingua   inglesa,   poderia  significar,   com   o   insuccesso   das 


ESTUDOS  ECONÓMICOS  DURANTE  A  EMBAIXADA  43 

negociações,  que  os  encargos  do  posto  não  lograram  mere- 
cer-Ihe  attenção  demorada.  Sabemos,  todavia,  que  assim  não 
foi.  Carvalho  trabalhou  sempre  fervorosamente.  Aprendeu 
muito.  Estudou,  nos  homens  e  nos  costumes  da  Inglaterra, 
o  segredo  da  extraordinária  e  rápida  prosperidade  d'esse 
paiz.  Nas  suas  horas  de  meditação  e  devaneio,  sonhou,  para 
a  sua  pátria,  destino  egual.  Somente  não  enxergou  que  a 
raiz  de  tudo  isso,  que  o  seduzia,  era  a  liberdade,  de  onde 
sai  a  iniciativa  individual,  base  de  toda  a  actividade  pro- 
gressiva. Por  tal  razão,  a  sua  obra,  emprehendida  mais  tarde 
com  tanto  estrondo,   não  poude  fructificar. 

Sem  prejuizo  d'estes  estudos,  Carvalho  acompanhava  de 
perto  as  qu€stões,  que  se  debatiam,  da  politica  do  mundo, 
então  numa  phase  agitadíssima.  Suas  cartas,  amiudadas  e 
extensas,  são  copiosa  chronica  dos  successos  do  dia.  Era 
a  corte  de  Lisboa  por  elle  informada,  com  toda  a  indivi- 
duação, das  sessões  do  parlamento,  das  intrigas  da  diplomacia, 
dos  movimentos  de  tropas,  do  apparelhar  das  esquadras,  e 
até  das  anecdotas  correntes  no  paço  e  nas  embaixadas.  Com 
diligencia  constante  em  indagar  e  transmittir  as  novidades, 
tinham  os  ministros,  naquelle  tempo,  de  supprir  o  que  a 
reportagem  dos  jornaes  e  a  rapidez  do  telegrapho  tornam 
hoje  accessivel  ao  menor  cidadão.  Nesta  obrigação.  Carvalho 
se  não  mostrou  inferior  ao  que  os  mais  exigentes  d'elle 
poderiam    esperar. 

Com  semelhante  tarefa,  e  as  preoccupações  e  fadigas, 
que,  como  ísabemos,  as  negociações  diplomáticas  lhe  traziam, 
o  ministro  dava-'se  a  elaborar  extensos  relatórios,  sobre 
assumptos  económicos,  como  o  que  precedeu  o  projecto  da 
Companhia  Oriental,  ou  a  dissertação  acerca  das  relações 
commerciaes  com  a  Inglaterra,  compendio  erudito  e  volumoso. 

Tudo  isto  nos  dá  a  certeza  de  que  este  periodo  da  sua 
existência  não  podia  ser  mais  laborioso,  nem  mais  utilmente 
aproveitado. 


CAPITULO    II 


MISSÃO  A  VIENNA 


I.  Conflicío  de  Maria  Theresa  com  a  corte  de  Roma.  Intervenção  de 
D.  João  V.  Carvalho  é  mandado  a  Vienna.  Mallogro  da  compa- 
nhia para  a  índia.  —  II.  Viagem  de  Carvalho.  Eleição  do  Im- 
perador em  Francfort.  Difficuldades  que  encontra  o  Enviado  á 
mediação.  —  111.  Segundo  casamento  de  Carvalho.  Primeiros 
filhos:  Adão  e  Eva.  —  IV.  Novos  incidentes  entre  a  Impera- 
triz e  a  Cúria.  Desgostos  de  Carvalho  com  o  Enviado  português 
em  Roma,  A  <'.brôa  de  milho)>  de  Soure.  —  V.  Hostilidade  á 
intervenção  portuguesa.  Carvalho  é  reprehendido  de  Lisboa.  Pede 
dispensa  do  cargo.  —  VI.  Morte  de  Filippe  V.  Portugal  me- 
dianeiro entre  a  Hespanha  e  a  Áustria.  Entre  a  Hespanha  e 
a  Inglaterra.  Fracasso  das  negociações.  —  VII.  Renova-se  a 
mediação  para  com  Roma.  Caso  do  Eleitor  de  Moguncia.  — 
VIII.  Embaraços  financeiros  de  Carvalho.  Presente  da  coroa 
biitannica  recusado.  Dadiva  do  Eleitor  de  Moguncia.  —  IX.  In- 
trigas de  Pereira  de  Sampaio.  Encerrabodes  embaixador  em  Lon- 
dres. Fim  da  missão  e  regresso  de  Carvalho. 


I 

As  dissenções  em  que  Maria  Theresa  se  debatia,  para 
defender  o  território  e  o  throno,  que  tantas  ambições  lhe 
disputavam,  abrangiam  também  a  Santa  Sé.  Por  effeito  da 
soberania  temporal  que  exercitava,  não  podia  o  Pontífice 
manter-se  indifferente  aos  destinos  da  monarchia,  que  na 
Itália  senhoreava  tão  vastos  domínios.  Como  chefe  da  Egreja, 
via-se  alvo  de  solicitações  das  potencias    catholicas,  desejosas 


46  CONFLICTO  DE  MARIA  THEREZA  COM  A  CORTE  DE  ROMA 

de  lhe  captarem  a  influencia,  em  beneficio  da  politica  de 
espoliação,  que  proseguiam.  Talvez  que,  conjunctamente,  a 
antiga  rivalidade  da  tiara  com  o  império  levasse  Bene- 
dicto  XIV  a  immiscuir-se  na  contenda,  se  bem  que  no  terreno 
diplomático  somente,  por  não  lhe  permittir  outro  a  fraqueza 
material  de  seus  Estados.  Certo  é  que  a  corte  de  Roma  se 
constituirá  o  centro  das  intrigas,  com  que  os  inimigos  da 
joven  e  varonil  rainha  de  Hungria  acompanhavam  a  obra 
iniciada   nos   campos   da   batalha. 

  testa  dos  negócios  pontificios  achava-se  então  o 
cardeal  Valenti,  manifestamente  desaffecto  á  corte  de  Vienna. 
Dentro  do  Sacro  Collegio  dividiam-se  os  partidos,  mas  preva- 
lecia a  opposição  á  casa  de  Áustria.  Para  contrastar  os 
meneios  da  facção  hostil,  diligenciava  Maria  Thereza  introduzir 
no  grémio  dos  purpurados  um  representante,  inteiramente 
á  sua  devoção;  e  ninguém  mais  nesse  caso  que  o  auditor 
da  Rota,  Mellini,  a  quem  já  fora  o  capello  promettido,  em 
dias  do  finado  imperador.  Agora,  porém,  a  Santa  Sé  voltava 
atraz  com  a  palavra,  e  ás  exigências  do  gabinete  austríaco 
oppunha  evasivas,  que  nem  sempre  lhe  era  azado  explicar, 
com   solido   fundamento. 

A  Cúria  allegava  não  ter  havido  da  sua  parte  promessas 
formaes.  Apenas  uma  esperança,  pendente  de  varias  con- 
dições ;  e  era  uma  d'essas  abster-se  Mellini  de  ostentar, 
como  até  ahi  fizera  sempre,  a  sua  excessiva  parcialidade 
pela  corte  de  Vienna,  Continuando  todavia  o  prelado  a 
apregoar  altamente  essas  inclinações,  não  podia,  sem  escân- 
dalo e  motivado  desgosto  das  outras  potencias,  ser  investido 
na  purpura.  Era  esta  mesma  razão  contra  o  papa,  que,  pouco 
antes,  e  contra  a  doutrina  invocada,  realizara  a  promoção 
de  dois  cardeaes,  Lanti  e  Monti,  servidores  dedicados  da 
casa    de    Bourbon. 

Se,  pois,  sob  este  aspecto,  as  reclamações  da  rainha 
de  Hungria  eram  fundadas,  o  mesmo  não  succedia  com  a 
intimação,  que  fizera  ao  Papa,  para  exouicrar  o  secretario 
de  Estado,  cardeal  Valenti,  e  outros  prelados,  funccionarios 
subalternos,    como    desaffectos    á    corte    de    Áustria.    Não    ia 


MEDIAÇÃO    DE    D.    JOÃO   V  47 

tão  longe  o  direito  de  reclamação,  nem  o  decoro  do  throno 
pontificio   podia   tal   consentir. 

Apesar  das  instigações  com  que  as  cortes  de  Paris  e 
Madrid,  servindo-se  dos  cardeaes  seus  addictos,  alentavam 
a  de  Roma,  é  certo  que  Benedicto  XIV  não  contemplava 
sem  apprehensão  o  prolongar-se  um  conflicto,  cujo  desen- 
lace podia  ser  funesto  ao  seu  prestigio  de  chefe  da  F.greja. 
A  pertinácia  de  que  Maria  Theresa  dera  provas,  defendendo 
a  coroa  herdada  e  reivindicando  para  seu  marido  a  dignidade 
imperial;  a  destreza  de  sua  politica,  pela  qual  grangeava 
sympathias  e  auxilios,  com  surpresa  não  pequena  de  seus 
adversários;  as  alternativas  da  guerra,  nem  sempre  desfa- 
vorável ás  armas  austriacas;  tudo  isto  influia  no  animo  do 
Pontífice;  -e  Suscitando-se-lhe,  por  outra  parte,  o  receio  de 
um  scisma,  extremo  a  que  o  gabinete  de  Vienna  em  sua 
irritação  poderia  abalançar-se,  não  admira  que  uma  tentativa 
de  conciliação  lhe  fosse  grata.  Por  esse  motivo  foram  aco- 
lhidas as  insinuações  do  Enviado  português  em  Roma, 
Manuel  Pereira  de  Sampaio,  que  affiançava  o  êxito  de 
qualquer  diligencia,  para  accordo  negociado  por  intervenção 
do  seu  soberano. 

Fez-se  constar  á  corte  de  Vienna,  que  jamais  o  acreditou, 
ter  a  idéa  da  mediação  partido  do  Papa.  Tudo  leva  a  crer, 
porém,  que  o  plano  foi  obra  de  Sampaio,  ambicioso  de 
representar  um  papel  de  importância,  e  que  Benedicto  XIV, 
pelos  motivos  expostos,  temendo  o  desfecho,  acceitou  facil- 
mente  a   suggestão. 

Officialmente  o  desejo  da  mediação  era  do  Pontífice, 
que,  no  principio  de  1744,  escreveu  a  D.  João  V  e  á  rainha 
sua  mulher,  solicitando  a  interferência.  Os  soberanos  portu- 
gueses, nas  cartas  que  dirigiram,  cada  um  de  per  si,  á  rainha 
de  Hungria,  sua  sobrinha,  notificaram  o  intento  do  Papa, 
expuzeram  o  seu  pesar  pelas  desavenças  entre  ella  e  o  chefe 
da  christandade,  e  offereceram  a  intervenção.  Maria  Theresa 
respondeu  em  maio  seguinte,  acceitando,  e  nessa  occasião 
enumerou  as  queixas  que  tinha  da  corte  de  Roma. 

Para  esta  particular  negociação,  não  assistindo  repre- 
sentante  nosso   em    Vienna,    o   governo   lançou   as   vistas    em 


43  MANUEL   PEREIRA   DE   SAMPAIO 


Manuel  Telles  da  Silva,  filho  do  conde  de  Tarouca,  que 
fora  alli  o  ultimo  ministro  de  Portugal.  O  escc/lhido,  que 
sahira  do  reino  em  1715  com  o  infante  D.  Manuel,  exercia, 
na  capital  austriaca,  o  cargo  de  presidente  do  conselho  de 
Flandres,  provavelmente  em  recompensa  de  serviços  prestador 
nas  guerras  de  Hungria,  onde  o  principe  português  se  distin- 
guira. Gozava  de  grande  valimento  com  Maria  Theresa,  que 
mais  tarde  instituiu  em  seu  favor  o  ducado  de  Turnhout, 
nos  Paizes  Baixos.  Como  funccionario,  e  portanto  súbdito, 
da  monarchia  austriaca,  não  lhe  era  licito,  todavia,  acceitar 
o  cargo  que  o  governo  do  seu  paiz  lhe  propunha.  Entregou 
as  cartas  á  soberana,   e   excusou-se  de  intervir  na  mediação. 

Sabedor  da  recusa,  offereceu  Manuel  Pereira  de  Sampaio 
mandar  um  emissário  seu  a  Vienna.  Por  esta  forma  ficava 
elle  senhor  de  conduzir  a  negociação,  exclusivamente  pelos 
próprios  dictames.  Tratando  em  Roma  directamente  com  a 
Cúria,  e  fazendo-se  representar  em  Áustria  por  um  subor- 
dinado, avocava  a  si  todos  os  elementos  da  disputa,  e  vinha 
a  ser  elle,  com  o  nome  do  seu  monarcha,  realmente  o  media- 
neiro. As  honras  da  acção  diplomática,  que  imaginava,  viriam 
a  competir-lhe,  por  isso,  totalmente.  No  seu  modo  de  ver, 
constituira-se  já,  offerecendo  a  intervenção,  como  que  pro- 
tector do  Papa.  Compondo  as  difficuldades  existentes,  obri- 
garia a  corte  de  Vienna.  A  occasião  era  rara,  para  sujeito 
como  elle,  enfatuado  do  seu  mérito  pessoal,  satisfazer  a 
vaidade;  para  um  ambicioso  se  adeantar  no  favor  dos  prín- 
cipes. E  assim  Se  explica  o  proceder  contradictorio  de 
Sampaio,  no  correr  das  negociações;  o  arrefecer  do  seu  zelo, 
quando  outro  plenipotenciário  foi  nomeado,  a  sua  má  vontade, 
a  indisposição  evidente  contra  este,  os  obstáculos,  que  levantou 
por  parte  da  Cúria,  ao  final  accomodamento  das   dissenções. 

Sebastião  José  de  Carvalho  foi  apontado  para  esta  missão, 
já  difficil  em  si,  e  que  os  despeitois  de  Sampaio  iam  tornar 
sobremaneira  espinhosa.  Dos  muitos  dissabores,  que  o  futuro 
marquês  de  Pombal  por  esse  tempo  padeceu,  se  pode  dizer 
que  foi  Manuel  Telles  da  Silva,  rejeitando  o  encargo  do 
seu  soberano,  o  innocente  causador.  Mas  foi  elle  também 
o   promotor   da   sua    fortuna,    pois   sem   essa    causa    não    iria 


A    COMPANHIA    DA    ÍNDIA  49 

Carvalho  a  Vienna,  nem  houvera  realizado  o  consorcio,  a 
cuja  influencia  deveu  mais  tarde  ser  escolhido  para  ministro 
de    D.    José. 

Outro  factor,  do  que  elle  veiu  a  considerar  seu  desterro 
na  Allemanha,  foi  o  projecto  de  Companhia  para  a  índia, 
que  havia  elaborado  na  Inglaterra.  A  enviatura  a  Vienna, 
por  todos  olhada  como  relevante  homenagem  aos  méritos 
do  diplomata,  foi  apenas  consequência  de  uma  intriga  pala- 
ciana, tendo  por  objecto  afastal-o  de  onde  o  seu  plano  poderia 
fructificar.  Nenhuma  duvida  é  licita  em  tal  ponto,  acerca 
do  qual  o  próprio  Carvalho  nos  instrue.  São  estas  as  suas 
queixas:  «Presentando-se  naquelle  tempo  a  negociação  da 
mediação  entre  as  coroas  de  Roma  e  Vienna,  mediação  que 
devia  ser  negociada  a  oitocentas  léguas  de  Lisboa,  no  clima 
da  Allemanha,  muito  mais  frio  que  o  da  Inglaterra,  onde  a 
minha  saúde  se  tinha  arruinado,  e  mediação  que  não  pro- 
mettia  a  menor  esperança  de  poder  ter  effeito,  contra  a  forte 
e  já  declarada  opposição  dos  ministérios,  com  quem  se  devia 
negociar;  presentando-se,  digo,  esta  remota  e  quasi  impossivel 
negociação,  demonstraram  os  factos  que  não  faltou  quem  me 
inculcasse  para  ella. . .  Não  ha,  nos  livros  políticos,  e  nos 
exemplos  da  historia  ministerial,  intriga  mais  trivial  e  mais 
surrada,  do  que  o  é  aquella  em  que  se  promovem  a  seme- 
lhantes commissões,  muito  remotas  e  summamente  difficeis, 
os  ministros  que  algum  interesse  particular  procura  afastar 
da  sombra  do  throno,  e  arruinar  no  conceito  do  amo, . .  Os 
referidos  meios  escabrosos  tiveram  por  fim  excluir-me  do 
estabelecimento  da  sobredita  Companhia  Oriental,  de  sorte 
que   eu   não   podesse   ter  a   menor  parte   nella»  ^. 

Com  a  recommendação  do  embaixador,  Cleland  partira 
para  Lisboa,  confiando,  pelo  enthusiasmo  d'aquelle,  encontrar 
na  corte  portuguesa  favorável  acolhimento  a  seus  planos. 
Já  se  imaginava  á  testa  da  Companhia,  e  o  caminho  da 
fortuna  se  lhe  presagiava  seguro.  A  pouco  espaço,  sobreveio 


^     Carta  particular  a   Marco  António  de  Azevedo  Coutinho,  Vienna. 
15   Novembro    1748.   CoII.    Pomb.,   Cod.   613. 


o     MARQUES     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  4 


50  CLELAND  E  O  CARDEAL  DA  MOTTA 


O  protector,  que,  com  o  pretexto  de  doente,  regressava  á 
pátria,  trazido,  porém,  em  parte,  pela  anciã  de  pessoalmente 
amparar,  com  seu  prestigio,  o  projecto,  expor  as  vantagens, 
dissipar  as  duvidas,  e  de  viva  voz  supprir  a  insufficiencia  do 
relatório    escripto. 

Deslembrara-se  o  ardente  innovador  do  atrazo  dos  espí- 
ritos, no  seu  paiz;  dos  hábitos  inveterados  de  indolência  e 
rotina ;  das  invejas  mesquinhas  da  corte ;  da  provável  resis- 
tência que  lhe  haviam  de  suscitar  os  interesses,  realmente, 
ou  por  mera  supposição,  ameaçados.  Mal  a  noticia  do 
projecto  transpirou,  levantou-se  contra  elle  a  liga  dos  inve- 
josos e  medíocres.  O  cardeal  da  Motta,  ministro  omnipotente, 
apesar  de  muito  adulado  por  Carvalho,  negou-lhe  o  bene- 
plácito, invocando  a  falta  de  meios  do  thesouro.  Também  a 
occasíão  não  seria  propicia  ao  ensaio,  no  momento  em  que, 
pela  invasão  dos  mahratas,  estávamos  a  pique  de  perder  o 
império  da  índia,  Cleland  retirou-se  á  Inglaterra,  desenganado 
da  tentativa,  como  do  valimento  d'aquelle  que  a  tinha 
recommendado. 

Contra  este  ultimo  trabalhava  entretanto  o  ciúme  dos 
cortesãos.  Não  faltou  quem  menoscabasse  o  projecto,  e 
porventura  a  limpidez  dos  intentos  de  quem  á  corte  o 
trouxera.  A  alguns  affrontava  de  certo,  na  sua  nullidade,  a 
ousadia  d'aquelle  homem,  que  buscava  intervir  na  adminis- 
tração publica,  contra  a  rotina  a  que  se  haviam  costumado. 
Outros  temeriam,  realizando-se  a  empresa,  vir  a  perder  a 
occasião  dos  governos,  e  pingues  empregos,  com  que  as 
desmanteladas  casas  fidalgas  se  refaziam.  Alguns,  em  menor 
numero,  acreditando  na  efficacia  da  proposta,  não  quereriam, 
por  ciúme,  que  d'ella  aproveitassem  a  gloria  e  os  proventos 
ao  obscuro  diplomata,  subitamente  arvorado  em  reformador. 
Talvez  D.  João  V,  em  torno  de  quem  todos  estes  sentimentos 
trabalhavam,  quizesse  dar  uma  lição  a  Carvalho,  cortando-lhe 
o  vôo  ás  ambições.  Nestas  circumstancias,  a  transferencia 
para  Vienna  foi   resolvida. 

Com  a  escolha,  rejubilaram  os  invejosos,  lisonjeando-se 
de  que,  pelas  difficuldades  da  missão,  o  insuccesso  seria 
fatal   ao    Enviado.    E   não  se   illudiram    nos   cálculos.    Não  se 


CARVALHO   EM  VIAGEM  51 


mallogrou  a  intervenção,  como  vaticinavam,  mas,  nos  escolhos 
da  mesma,  não  esquecendo  os  que  Sampaio  lhe  suscitou,  o 
escasso  vahmento  de  Carvalho  com  o  monarcha  tinha  de 
sossobrar. 

II 

Sahindo  de  Lisboa,  em  dezembro  de  1744,  pela  via 
maritima.  Carvalho  dirigiu-se  primeiramente  á  Inglaterra. 
Tinha  de  olhar  pelos  negócios  da  embaixada,  a  cargo  de 
Francisco  Caetano,  'e  pelos  seus  próprios,  embaraçados  por 
despesas  de  representação,  que  em  muito  excediam  os  orde- 
nados do  emprego,  e  exigiam  sacrifício  da  fortuna  particular, 
então  pouco  avultada.  O  seguimento  do  plano  da  Companhia 
para  a  índia  devia  também  prendel-o  alli.  Cldland  retirara 
de  Portugal,  molestado  e  sem  esperança;  mas  não  era  do 
génio  de  Carvalho  abandonar  sem  lucta  um  propósito,  logo 
ao  primeiro  revez.  O  que  d'elle  sabemos,  pelo  contrario, 
leva  a  tsuppôr  que  o  ministro  não  abriria  mão  do  intento,  e 
que  algum  dos  motivos  que,  por  espaço  de  seis  meses,  o 
retiveram  longe  do  logar  da  sua  missão,  se  relacionaria  com 
o   emprehendimento,   em   cuja    realização   nutria   fé. 

Só  em  maio  do  anno  seguinte  partiu  para  o  continente. 
O  objecto  da  viagem  não  era  sabido,  por  isso  que  a  Gazeta 
de  França,  bem  informada  do  movimento  das  cortes,  menciona 
que  o  embaixador  se  dirigia  ao  Hanover,  onde  então  se 
encontrava  o  rei  da  Orã-Bretanha.  Em  Lisboa  causava  extra- 
nheza  a  demora.  A  rainha,  summamente  interessada  na 
mediação,  manifestava  desgosto.  D.  João  V  mostrava-se 
impaciente  também,  mas  com  outro  motivo.  Queria  que  o 
Enviado  lhe  desse  a  conhecer  a  pragmática  que  prohibia 
na  corte  de  Vienna  as  carruagens  de  menos  de  quatro  rodas. 
«Suspeito  ser  trovoada,  que  se  arma  contra  as  nossas  seges», 
escrevia  Abarco  António;  e  explicava  ter  por  causa  a  teimosia 
do  patriarcha  em  servir-se  de  taes  carros,  contra  o  voto 
do    soberano,    que    reputava    isso    prejudicial    ao    decoro. 

Estas  communicações  encontraram  a  Carvalho  finalmente 
em   caminho. 


52  VIAGEM    DE   CARVALHO    PARA   A     ALLEMANHA 

Esteve  primeiro  em  Haya,  depois  no  Hanover,  d'ahi 
passou  a  Vienna,  aonde  chegou  nos  primeiros  dias  de 
julho  de   1745, 

Breve  reconheceu  o  ministro  quanto  lhe  ia  ser  escabrosa 
a  missão  naquella  corte.  A  situação  politica  de  Áustria  era 
muito  mais  solida  que  meses  antes,  quando  elle  deixara 
Lisboa,  O  Eleitor  da  Baviera,  filho  de  Carlos  Vil,  cujas 
pretenções  tinham  sido  um  dos  motivos  da  guerra,  desistira 
de  qualquer  direito  ao  throno  de  Áustria,  ou  aspiração  á 
dignidade  imperial.  O  grão-duque  de  Toscana,  marido  de 
Maria  Theresa,  era  agora  o  candidato  apontado  para  cingir 
a  coroa  germânica.  Já  a  dieta  se  reunia  em  Francfort,  para 
proceder  á  eleição,  Achando-se  m.ais  forte,  o  gabinete  de 
Vienna  insistia  pertinaz  em  suas  exigências,  ao  passo  que 
a  Cúria,  a  quem  os  progressos  do  contendor  estimulavam  o 
despeito,  recusava  egualmente  ceder  a  minima  parcella  de 
suas    próprias. 

Não  era  isto  só.  A  corte  de  Roma  dera  a  mão  ás  potencias 
inimigas  da  casa  de  Áustria,  para  tolher  que  a  esta  revertesse 
a  coroa  do  império.  Em  Francfort,  para  onde  já  a  rainha  de 
Hungria  se  encaminhava,  os  representantes  da  Prússia  e  do 
Eleitor  palatino  requereram  o  adiamento  do  acto.  O  núncio 
procurava  de  sua  parte  ganhar  os  votos  dos  eleitores  eccle- 
siasticos.  Apesar  d'isso,  a  eleição  realizou-se  no  dia  deter- 
minado, 13  de  setembro  de  1743,  e  a  coroa  foi  concedida, 
como  se   esperava,   ao  marido  de  Maria  Theresa. 

Seguiu-se  o  protesto  dos  dois  príncipes,  que  tinham 
recusado  tomar  parte  na  assembléa.  Na  véspera  da  coroação, 
o  Núncio,  por  ordem  do  Papa,  sahiu  da  cidade,  sem  ter 
ido  desejar  as  boas  vindas  ao  soberano  eleito  e  á  rainha, 
Dava-se  elle  por  aggravado  com  uma  decisão  da  Dieta,  sobre 
pragmática.  Estabelecia  esta,  entre  outras  clausulas,  que  os 
membros  da  assembléa  eleitoral  não  pagariam  as  visitas  aos 
representantes  extrangeiros,  nem  mesmo  ao  do  Pontífice  que, 
pelo  antigo  formalismo,  se  julgava  com  direito  a  especiaes 
regalias.  Este  facto  veio  tornar  mais  acerba  a  pendência  entre 
Roma  e  Vienna;  animou  a  corte  papal  a  demorar  o  reco- 
nhecimento do  Imperador;  e  gerou  mais  tarde  um  incidente. 


CARVALHO  ENCARREGADO  DA  MISSÃO  PARTICULAR  53 

que  kvou  tempo  a  derimir,  e  mais  tornou  difficil  a  já  sem 
isso   complicada   missão    do   Enviado   português. 

Não  eram  somente  os  obstáculos,  originados  da  inelu- 
ctavel  marcha  dos  acontecimentos,  que  se  offereciam  a 
Carvalho.  Logo  á  chegada  outros  se  lhe  depararam,  que, 
menos    importantes,    não    deram    pouco    trabalho    a   vencer. 

Em  Vienna  reinava  a  opinião  que  a  mediação  portuguesa 
não  fora  solicitada  pelo  Papa,  mas,  pelo  contrario,  offerecida 
por  nós.  Era  além  d'isso  convicção  geral  que  o  plenipo- 
tenciário não  tomaria  a  peito  os  interesses  da  coroa  austro- 
hungara,  nem  d'elle  se  poderia  esperar  sequer  um  proceder 
imparcial.  Na  intervenção  seria  apenas  o  servo  dedicado  e 
submisso  da  Cúria, 

Em  taes  condições,  não  podia  o  ministro  encontrar  acolhi- 
mento que  lhe  prenunciasse  bom  êxito.  A  isto  accresciam 
difficuldades  de  outra  ordem,  com  que  a  má  vontade  do 
gabinete    austriaco    se    desculpava. 

Na  carta,  inteiramente  familiar,  em  que  o  rei  de  Portugal 
annunciava  a  Maria  Theresa  a  enviatura  de  Carvalho,  fazia-lhe 
saber  que  este,  seu  ministro  na  corte  de  Londres,  ia  particu- 
larmente á  de  Vienna,  tratar  da  mediação,  conservando  o 
seu  posto.  Â  imperatriz  viuva,  Maria  Christina,  sua  cunhada, 
dizia :  «Faço  passar  a  essa  corte,  encarregado  de  uma  missão 
particular,  a  Sebastião  José  de  Carvalho,  do  meu  conselho». 
As  cartas  de  crença  designavam  o  representante  real  por 
emissário.  Finalmente,  as  instrucções,  entregues  ao  mesmo, 
impunham  que  não  havia  de  tomar,  na  corte  de  Vienna, 
caracter  algum  diplomático,  mas  dar-se  por  simples  viandante, 
ou  emissário  particular,  o  que  se  confirmou  no  aviso  passado 
a   Manuel  Telles  da  Silva. 

Em  toda  a  espécie  de  negócios,  as  formalidades,  que 
o  uso  consagra,  são  a  garantia  das  partes ;  em  muitos  se 
tornam  indispensáveis,  para  salvaguardar  sagrados  direitos; 
nunca,  porém,  a  necessidade  d'ellas  tanto  se  faz  sentir,  como 
nas  relações  dos  governos  entre  si,  nos  graves  assumptos 
de  que  dependem  a  paz  e  a  guerra,  os  bens,  o  socego,  ias 
vidas,  os  destinos  de  tantas  pessoas.  Para  isso,  a  experiência 
dos   homens   creou   normas,   que   não   é  licito   derogar. 


54  QUESTÕES  DE  ETIQUETA 

Na  enviatura  a  Vienna  todas  as  praxes  se  desprezaram. 
Quer  por  satisfazer  a  vaidade  de  Sampaio,  que  ficaria  sendo, 
como  ambicionava,  o  interventor  official ;  quer  por  uma 
pretenção  de  finura,  sem  objecto  e  ridicula,  d'essa  a  que, 
por  escarneo,  chamamos  saloia;  talvez  pela  supposiçao  de 
que  o  pleito  se  poderia  resolver  sem  attricto  e  de  golpe; 
por  qualquer  d'estas  razões,  ou  por  todas,  fora  vedado  ao 
representante  de  Portugal  assumir  a  posição  de  ostensiva 
actividade,  única  que  no  caso  em  questão  seria  efficaz. 
Assim  o  gabinete  de  Lisboa,  que  offerecera  a  intervenção, 
só  como  que  occultamente  agia  em  Vienna.  Seu  Enviado 
não  tinha  qualificação  diplomática.  Para  o  publico  era  um 
ministro  de  corte  extrangeira,  viajando  na  Europa.  Para  a 
rainha,  um  emissário,  confidente  dos  reis  de  Portugal.  D'esta 
situação  que,  sendo-lhe  pessoalmente  indecorosa,  por  lhe 
diminuir  as  funcções,  compromettia  o  êxito  da  incumbência, 
Carvalho,  com  justa  razão,  se  magoava.  «Nas  instrucções,  com 
que  sahi  d'essa  cíôrte  —  escrevia  a  Marco  António  — ,  me 
ordenou  el-rei  nosso  senhor  que  me  intitulasse  simples  vian- 
dante. Nas  cartas  de  crença  me  denominou,  quem  as  escreveu, 
emissário.  E  d'aqui  resultaram  duas  cousas.  Primeira,  que 
eu  quando  aqui  cheguei,  para  cohonestar  a  falta  dos  meios, 
que  não  havia  nas  minhas  faculdades,  disse  que,  com  eífeito, 
era  viandante,  e  deixara  a  minha  casa  na  Inglaterra,  porque 
a  minha  missão  nesta  dôrte  era  restricta  a  um  objecto,  que 
não  podia  ser  de  grande  duração.  Segundo,  que  a  dita  palavra 
emissário  causou  a  esta  corte  notável  extranheza,  parecen- 
do-Ihe  absolutamente  nova,  e  não  a  achando  conforme  com 
a  gravidade  do  negocio,  que  eu  vinha  tratar»  i. 

Surgiram  as  primeiras  duvidas  pela  questão,  sempre  grave, 
da  etiqueta.  Discutiu-se  em  que  logar  devia  o  Enviado  ser 
recebido,  e  houve  quem,  no  conselho,  alvitrasse  que  era 
sufficiente,  para  a  qualidade  d'elle,  a  ante-camara,  onde  a 
rainha  habitualmente  dava  audiência  aos  simples  particulares. 
Maria   Theresa   redarguiu   que   o   termo  emissário  seria   lapso 


1     Carta    particular.    31    maio    1746,    CoU.    Pomb.,    Cod.    062. 


SEGUNEX)    CASAMENTO    DE    CARVALHO  55 


de  quem  escreveu  as  cartas  de  crença,  e  decidiu  conceder 
ao  representante  português  as  mesmas  honras  que  era  de 
uso  tributar  aos  embaixadores,  regularmente  acreditados. 
Neste  particular  tudo  se  fez  que  podia  contentar  a  Carvalho. 
«Até  as  guardas  d'esta  corte  —  elle  referia — ,  me  fazem  a 
distincção  de  pegar  nas  armas,  quando  passa  a  minha 
carruagem.» 

Sem  embargo  do  acolhimento  cordial  da  soberana,  nenhum 
ensejo  se  offerecia  ao  ministro  de  dar  principio  á  sua  tarefa. 
As  disposições  do  gabinete  de  Maria  Theresa,  tanto  como 
as  da  Cúria,  não  deixavam  enxergar  probabilidades  de 
accordo.  Os  incidentes  da  eleição  imperial,  augmentando  os 
aggravos,  ainda  mais  apartavam  uns  e  outros  da  conciliação. 
Carvalho,  que  acompanhara  a  corte  a  Francfort,  e  assistira 
ao  escandaloso  procedimento  do  Núncio,  voltou  desenganado. 
Na  sua  opinião,  o  único  meio,  que  ao  governo  português  tse 
offerecia  de  sahir  airosamente  d'este  passo  difficil,  era  não 
encetar  em  Vienna  as  negociações.  Trabalhava-Ihe  no  animo, 
também,  porventura,  o  desejo,  que  sempre  manifestou,  de 
regressar  á  sua  antiga  residência  de  Londres.  Como  quer 
que  fosse,  aquelle  seu  modo  de  vêr  transmittiu-o  elle  logo, 
ainda  de   Francfort,   para   Roma  e  para   Lisboa. 


III 


Entretanto,  a  viagem  á  Allemanha  que,  pelo  lado  de 
sua  carreira  diplomática,  tão  pouco  promettia  a  Carvalho, 
teve  influencia  decisiva  nos  destinos  da  sua  vida.  Nas  visitas 
que  fazia  ao  paço,  e  festas  da  corte,  deixou-se  elle  captivar 
dos  encantos  de  uma  nobilíssima  joven,  cuja  mãe  era  dama 
da  imperatriz  viuva.  O  florir  das  vinte  e  quatro  primaveras 
de  Leonor  Daun  devia  ser  attrahente,  em  grau  subido,  para 
seduzir  á  primeira  vista,  e  accender,  no  coração  de  Carvalho, 
o  imperativo  desejo  que  o  levou  a  consorciar-se,  cinco  meses 
apenas  chegado  a  Vienna,  em  dezembro  de  1745.  Se  nos 
lembrarmos  que  era  Carvalho  alli  um  forasteiro,  para  todos 
desconhecido,  e  àbstrahirmos,  do  prazo  acima,  o  tempo  neces- 


56  CONTRACTO  DE  CASAMENTO 

sario  para  as  reciprocas  indagações  de  nobreza  e  fortuna, 
para  o  pedido,  as  consultas,  a  licença  dos  respectivos  sobe- 
ranos, os  aprestos  indispensáveis  do  casamento,  devemos 
suppôr  que  a  resolução  foi  súbita,  e  o  temperamento  do 
apaixonado  era  ainda  o  mesmo  que,  treze  annos  atraz,  o 
levara   á   acção   violenta   de   um   rapto. 

É  custoso  de  representar  que  egual  ardor  de  sentimentos 
levasse  a  noiva.  Carvalho  tinha  quarenta  e  seis  annos  de 
edade,  e  os  achaques,  sobretudo  o  rheumatismo,  que  já  em 
Londres  o  torturavam,  por  certo  lhe  haviam  de  quebrantar 
o  physico,  e  arrebatar  essa  virente  louçania,  que  fascina  os 
corações  juvenis.  O  que  nelle  foi  impulso  da  paixão,  na 
donzella  podemos  attribuir  á  obediência  filial,  á  refjexão, 
talvez  ao  simples  condescender  em  galanices,  a  que  dava 
sabor  especial  o  respeito  da  edade,  a  qualidade  de  extran- 
geiro,  o  prestigio  de  um  cargo,  que  parecia  envolver  a 
confiança   pessoal  de   três   monarchas. 

O  contracto  de  casamento  proveu  amplamente  aos 
interesses  da  desposada.  Carvalho  dotou  sua  mulher  em  4:000 
florins,  e  mais  2 :000,  que  a  escriptura  qualifica  de  contra- 
dote,  além  de  outros  2:000  como  presente  de  núpcias.  Conce- 
deu-lhe  1 :500  florins  annuaes  para  despesas,  e  uma  pensão 
de  4  :000  cruzados,  afora  certas  prerogativas,  por  viuvez.  Em 
declaração,  annexa  ao  contracto,  os  irmãos  de  Carvalho  asse- 
guravam o  apanágio  á  cunhada,  no  caso  em  que,  vindo 
aquelle  a  morrer  sem  successão,  o  morgado  revertesse  a 
qualquer  d^elles.  Manifesta  a  escassez  de  meios  da  família 
o  facto  de  não  receber  a  noiva  a  legitima  paterna.  Por 
acto  de  16  de  março  de  1746,  mãe  e  filha  passaram  reciproca 
quitação  uma  a  outra:  esta  do  valor  da  herança  paterna, 
aquella  das  despesas  do  enxoval.  Da  mesma  data  existe 
documento  em  que  a  primeira  se  confessa  devedora  a 
Carvalho   de   2 :000   florins,    recebidos   para   uma   necessidade. 

D'esta  maneira  parece  explicar-se,  por  conveniências  de 
ordem  material,  a  accedenda  da  nobre  familia  Daun,  a  premiar, 
com  a  posse  do  seu  gentil  rebento,  a  paixão  já  serôdia  do 
Enviado    português. 

Entretanto,  a  desproporção  das  edades  e  dos  sentimentos 


1 

i 


PRIMEIROS    FILHOS:    ADÃO    E    EVA 


não  impediu  a  ventura  d'esta  união.  Um  dos  muitos  folicu- 
larios,  que  escreveram  contra  Pombal,  refere  que,  por 
indiscretos  zelos  d'este,  a  joven  esposa  se  retirara  uma  vez 
para  casa  de  sua  familia,  de  onde  custou  muito  a  voltar. 
Não  merecem  fé  as  allegações  de  um  escripto,  em  que 
abundam  as  falsidades.  A  despeito  d'elle,  podemos  acreditar 
que  foi  Leonor  Daun  a  esposa  modelo,  tão  dedicada  e  fiel 
nas  horas  de  amargura,  como  estimável,  e  digna  de  sua 
alta  posição,  na  época  das  prosperidades.  O  que  para  si 
ganhou  em  bem  estar  e  segurança  do  futuro,  largamente 
o  compensou  a  seu  marido  no  favor,  que  lhe  grangeou, 
primeiro  na  corte  de  Vienna,  depois  com  a  rainha,  sua 
compatriota,  nos'  dias  de  incerteza,  que  succederam  á  sua 
entrada,  em  Lisboa.  O  affecto  reciproco  dos  cônjuges  prompto 
desabrochou  em  prole,  da  qual  os  primeiros  rebentos,  um 
filho  e  uma  filha,  tiveram  entre  outros  nomes,  recebidos  no 
baptismo,  o  primogénito,  rapaz,  o  de  Adão,  a  menina^  o  de 
Eva,  Seria  a  idéa  uma  innocente  phantasia  dos  pães,  acaso 
tradição  do  lado  materno,  ou  deveremos  vêr  nella  um  pensa- 
mento reservado,  que  d'esta  maneira  Carvalho  consubstan- 
ciava em  formula  mystica?  Porventura  antecipava  elle,  para 
a  sua  geração,  vida  nova,  em  um  mundo  também  novo.  Os 
laços,  que  o  prendiam  ao  passado,  quebravam-se  alli. 
Acabava-se  a  estirpe,  pouco  limpa,  que  as  genealogias,  inven- 
tadas na  familia,  não  conseguiam  exaltar.  Os  herdei-os  do 
seu  nome  traziam  já  o  sangue  illustre  dos  Dauns,  cuja 
sequencia  facilmente  se  destrinçava,  até  aos  primeiros  annoc 
do  século  duodécimo.  Um  Adão,  uma  Eva,  d'este  sangue 
nascidos,  iam  ser  o  tronco  da  nova  familia,  essa  agora  de 
nobreza    incontestada. 


IV 


Ao  tempo  do  seu  consorcio,  o  ministro  de  Portugal  não 
tinha  dado  o  primeiro  passo  para  o  desenmpenho  de  sua 
missão,  e  o  aspecto  dos  acontecimentos  cada  vez  se  lhe 
antolhava   menos   propicio.    As   instrucções,    que   recebera   em 


5S       NOVOS  INCIDENTES  ENTRE  A  IMPERATRIZ  E  A  GURIA 

Lisboa,  prescreviam-Ihe,  como  base  preliminar,  que  a  corte 
de  Vienna  abandonasse  a  injuriosa  pretenção  sobre  o  secre- 
tario do  Papa,  e  que  a  Cúria,  pela  sua  parte,  cedesse  ^la 
questão  do  capello.  Ora,  se  Maria  Theresa  condescendia  nesta 
parte .  de  suas  exigências,  o  Pontifice  é  que,  de  nenhuma 
maneira,  parecia  disposto  a  afrouxar  na  recusa.  Motivando 
esta,  allegava  ter  já  dado  sufficiente  prova  de  sua  amizade 
á  rainha  de  Hungria,  quando  removera,  a  instancias  d'ella, 
os   legados   de   Bolonha  e   Ferrara,   contrários   á  sua   causa. 

Os  incidentes  de  Francfort  eram  novo  obstáculo  á  conci- 
liação. Além  do  succedido  com  o  Núncio,  a  corte  de  Roma 
não  queria  reconhecer  o  Imperador.  Allegava  não  ter  partici- 
pação official  da  eleição.  Exigia  que  esta  lhe  fosse  com- 
municada  em  certos  termos,  de  que  em  tempo  se  servira 
o  imperador  Carlos  VI,  e  que  o  gabinete  de  Vienna  agora 
repudiava  por  inconvenientes.  Nos  Estados  romanos  houvera 
distúrbios,  por  causa  da  eleição.  Na  capital,  onde  ella  era 
festejada  pelos  partidários  da  casa  de  Áustria,  foram  estes 
atacados  por  um  grupo  de  facinorosos,  havendo  feridos  e 
mortos.  Attribuia-se  o  attentado  a  um  membro  da  Cúria,  o 
cardeal  Aquaviva.  Solicitado  por  Sampaio,  para  intervir  na 
questão  do  reconhecimento,  Carvalho  escusava-se,  allegando 
que  as  suas  instrucções  lhe  incumbiam  a  mediação  entre  o 
Pontifice  e  a  rainha  da  Hungria,  não  entre  aquelle  e  o 
Imperador. 

Desde  o  principio,  o  intercessor  em  Vienna  se  mostrou 
desaffecto  á  corte  de  Roma.  O  tortuoso  de  sua  politica 
descoroçoava-o.  Produzia-lhe  irritação  a  tenacidade  com  que 
ella  insistia  nas  suas  exigências.  É  bem  possivel  que  d'ahi 
começasse  a  germinar  o  ódio  profundo,  que,  mais  tarde, 
no  poder,  manifestou  contra  a  Cúria.  Sampaio,  que  tinha 
a  peito,  acima  de  tudo,  os  interesses  do  Papa,  enfadava-o 
com  o  seu  modo  de  vêr  as  cousas;  offendia-o  com  impor- 
tunas considerações.  Já  antes  de  partir  para  Francfort,  Carvalho 
dizia  para  Lisboa  que  as  informações  de  Roma  brigavam 
com  a  verdade  dos  factos. 

Não  vendo  Benedicto  XIV  inclinado  a  ceder,  dando  o 
barrete  a  Mellini,  o  ministro,  de  accordo  com  suas  instrucções, 


AMOFINAÇÕES    DE    CARVALHO  59 

julga  que  a  intervenção  se  não  realizará.  O  que  de  Lisboa 
respondem  á  sua  communicação,  talvez  mal  entendida,  con- 
firma-o  nesse  pensamento.  Em  novembro,  dá  parte  á  Rainha 
de  Hungria  que  os  negócios  da  sua  embaixada  o  chamam  ia 
Inglaterra.  Por  €ssa  razão,  talvez,  apressa  o  consorcio,  effe- 
ctuado  no  mez  seguinte.  Deu  isto  ensejo  a  diz^erem  seus 
adversários,  mais  tarde,  que  o  pretexto  tinha  por  objecto 
somente  violentar  a  família  da  noiva,  que  não  -  decidia  a 
união,  antes  de  receber  de  Portugal  seguras  noticias  sobre 
a  nobreza  e  fortuna  do  pretendente;  e,  chegando  estas  depois, 
muito  ao  revez  do  que  elle  dizia,  deixaram  a  todos  descon- 
solados. Pelas  condições  do  contracto  de  núpcias,  e  conhe- 
cimento dos  successos  políticos,  o  asserto  parece  calumnioso. 

Da  declaração  do  ministro  resultou,  com  o  despeito  de 
Maria  Theresa,  o  descontentamento,  manifestado  com  estré- 
pito, em  Roma  e  Lisboa.  A  opinião  de  Sampaio  tão  acerba- 
mente se  pronunciou,  que  a  sua  carta,  sobre  a  matéria,  é 
recebida  por  Carvalho  como  uma  «incompetente  increpação 
e  petulante  sátira».  O  governo  português  reprova  egualmente 
o  proceder  do  seu  representante.  As  ordens  que  lhe  dá  são 
que,  até  onde  fôr  possível,  volte  atraz  com  a  deliberação  de 
retirar-se.  Presumia-se  em  Lisboa  que  os  despachos  encon- 
trariam o  ministro  já  a  caminho  da  Inglaterra,  se  não  já 
nesse  paiz;  mas,  na  duvida,  diziam-lhe  que,  embora  em 
jornada,  achando-se  ainda  no  continente,  retrocedesse  para 
dar  principio  ás   negociações. 

Quiz  a  boa  estrella  de  Carvalho  que  ainda  o  topassem 
as  instrucções  em  Vienna,  onde  provavelmente  interesses  de 
familia  o  detinham.  Forçoso  lhe  foi,  pois,  contrariar  o  seu 
juizo,  e  as  aspirações  de  voltar  a  Londres,  onde  o  nunca 
abandonado  projecto  da  Companhia  Oriental  o  chamava 
ainda.  Violentado  permaneceu  na  corte  germânica,  e  encetou 
a   tarefa   da   mediação. 

Seu  desgosto  era  justificado,  por  contrariedades  que  de 
todas  as  partes  lhe  surgiam.  Reprehendido  pela  Secretaria 
de  Estado,  na  qual,  apesar  do  parentesco,  e  da  affeição  de 
Marco  António,  as  suggestões  de  Sampaio  eram  as  que 
vingavam ;  perseguido  pelas  impertinentes  insinuações  d'este, 


60  DESGOSTOS    COM    MANUEL    PEREIRA    DE    SAMPAIO 

que  não  deixara  as  preterições  de  tudo  dirigir  em  nome  do 
Papa;  luctando,  de  uma  banda,  com  as  desconfianças  da 
corte  de  Vienna,  da  outra,  com  a  má  vontade  dos  delegados 
da  Cúria,  com  quem  se  entendia;  Carvalho  encarava  receoso 
as  difficuldades  da  sua  posição,  calculando  que,  ao  mallogro 
de  seus  esforços,  correspondia  o  naufrágio  de  suas  ambições 
de   progresso   futuro. 

Nas  rodas  politicas  de  Vienna,  não  se  apagara  a  suspeita 
de  ter  o  ministro  português  por  encargo  especial  zelar  os 
interesses  do  Papa,  Oppostamente,  em  Roma  o  consideravam 
partidário  extreme  de  Maria  Theresa.  Sampaio  era  constante 
em  propagar  tal  juizo,  a  que,  aliás,  o  consorcio  do  embai- 
xador,  com   uma   dama    da   corte,   prestava   verosimilhança. 

Das  censuras,  motivadas  por  intrigas  do  seu  emulo, 
Carvalho  amargamente  se  lamentava.  Em  uma  das  cartas  a 
Marco  António  dizia  assim :  «Estou  recebendo,  desde  24  de 
janeiro  até  á  data  d'esta,  successivas  e  multiplicadas  repre- 
hensões,  em  cada  despacho  que  recebo  da  nossa  corte. 
D'esta  combinação  vem,  pois,  a  resultar  a  minha  pena. 
Porque,  meu  senhor,  ser  inalteravelmente  approvado,  pelo 
discurso  de  tantos  annos,  porque  entendi  sempre  as  ordens 
de  S.  M.,  e  porque  sempre  as  executei  no  seu  verdadeiro 
sentido,  e  ser  agora  tantas  vezes  reprehendido,  depois  de 
tantas  experiências,  porque  não  entendo  as  ordens  de  Manuel 
Pereira  de  Sampaio,  e  porque,  antes  de  as  entender,  as  não 
executo  contra  o  dictame  da  minha  consciência. . .  de  tudo 
isto   se    tira    na    verdade  .uma    tristíssima    combinação»  i. 

Temia  Carvalho,  com  fundamento  justificado  depois 
pelos  factos,  que  as  accusações  de  Sampaio  lhe  fizessem 
detrimento  á  carreira.  Preoccupava-o  ficarem  consignadas, 
nos  livros  da  secretaria,  as  censuras,  que  mais  tarde  podiam 
ser  invocadas,  contra  o  seu  adeantamento.  «Não  tenho 
momento  algum  —  dizia  —  livre  de  vexações,  ou  de  fazer 
apologias,  para  convencer  calumnias,  que  nunca  mereci,  ou 
de  padecer  as  censuras,   que  das  mesmas  calumnias   resultam 


^     31   maio    1746,   Coll.    Pomb.,   Cod.   cit. 


A    BROA    DE    MILHO    DE    SOURE  61 

contra  mim,  primeiro  em  Roma,  depois  em  Lisboa,  e  ultima- 
mente  em    Vienna    d'Austria,    por   modo   indirecto»  ^ 

É  nessa  occasião  que  o  ministro  orgulhosamente  recorda 
a  época  de  sua  mocidade,  em  que,  por  um  Ímpeto  de  altivez, 
se  afastou  dos  parentes,  desprezando  a  protecção  de  Paulo 
de  Carvalho,  rico  e  influente  na  corte,  para  viver  com  escassez 
no  isolamento:  «Observo  que,  ao  tempo  que  tinha  pouco 
mais  de  vinte  annos  de  edade,  quando  no  interior  da  minha 
familia  houve  algumas  apparencias  de  dissensão,  se  lembrará 
V.  Ex.a  de  que  eu,  por  fugir  ás  controvérsias,  me  degradei 
voluntariamente  para  o  campo  de  Coimbra,  preferindo,  por 
mais  de  sete  annos,  a  broa  de  milho  de  Soure  á  mesa 
de  meu  tio»  -. 

Estas  palavras,  melhor  que  nenhuma  consideração,  nos 
descobrem  o  estado  de  penosa  irritabilidade,  a  que  o  senti- 
mento  das   injustiças    levava    um   orgulhoso   caracter. 


V 


Por  algum  tempo  os  acontecimentos  deram  razão  a 
Carvalhcí,  e  o  alvitre,  que  suggerira,  de  abandonar  a  mediação, 
e  regressar  á  sua  embaixada  de  Londres,  parecia  ser  o  mais 
consentâneo  ao  decoro  de  Portugal.  A  despeito  da  estima 
pessoal  da  soberana,  e  do  valimento  que,  pelo  seu  matrimonio, 
podia  ter  com  ella,  a  negociação  não  progredia.  O  principal 
obstáculo  residia  em  que,  se  as  partes  interessadas,  a  Impe- 
ratriz e  o  Papa,  pessoalmente  se  achavam  dispostas  á 
concórdia,  as  chancelarias,  em  cada  um  dos  Estados  conten- 
dores, antes  de  tudo  trabalhavam  para  annuUar  uma  inter- 
venção, que  lhes  era  displicente.  O  gabinete  austríaco,  como 
já  vimos,  entendia  que  a  idéa  da  mediação  não  partira  do 
Pontifice,  e  era,  pelo  contrario,  um  intromettimento  importuno 


1  31   maio    1740,   Coll.    Pomb.,   Cod.   cit. 

2  Idem. 


62  HOSTILIDADE  À  INTERVENÇÃO  PORTUGUESA 

do  governo  português.  Em  Roma  se  dizia  que  o  assumpto 
fora  secretamente  disposto  entre  Benedicto  XIV  e  Sampaio, 
sem  audiência  de  nenhum  cardeal,  de  sorte  que,  quando  veio 
ao  conhecimento  d'elles,  já  havia  correspondência  travada, 
que  não  foi  possível  revocar.  Com  estes  motivos,  em  ambas 
as  cortes,  na  primeira  por  altivez,  na  segunda  por  despeito, 
reinava  o  empenho  de  tolher  a  intercessão. 

Cumpre  também  lembrar  um  facto,  que  talvez  fosse 
causa,  em  parte,  da  reluctancia  do  gabinete  austríaco.  O  rei 
de  Portugal,  que,  pelos  thesouros  do  Brasil,  era  o  Creso 
do  seu  tempo,  e,  por  sua  estulta  prodigalidade,  estimulava 
a  cobiça  de  um  governo  em  apuros,  negara  a  Maria  Theresa 
o  soccorro  pecuniário,  por  ella  requerido,  para  manter  a 
sua  causa.  Era  assas  forte  esta  razão,  para  gerar  o  despeito 
da   soberana. 

Em  tal  conjunctura  bem  se  pôde  assentar  que  os  esforças 
de  Carvalho,  ainda  os  de  melhor  quilate,  seriam  infructuosos. 
Em    Lisboa,    porém,    não    o    comprehendiam    assim. 

No  mez  de  abril  o  governo  recommenda  ao  seu  repre- 
sentante que  saia  d'essa  longa  inacção,  e  acerbamente  por 
ella  o  reprehende.  O  Enviado  replica,  demonstrando  a  impos- 
sibilidade de  agir  com  tantos  tropeços,  que  se  lhe  antolham. 
Em  sua  irritação  contra  Roma,  e  cedendo  aos  impulsos  do 
génio  insoffrido,  suggere,  como  único  recurso,  o  emprego 
das  armas.  O  alvitre  é  para  nós  interessante,  porque  elle  o 
ha  de  propor,  volvidos  annos,  no  calor  das  suas  dissensões 
com  a  Santa  Sé,  a  propósito  dos  jesuitas.  Tirante  este  meio, 
só  vê  de  efficacia  a  pressão  diplomática  sobre  a  Áustria. 
Neste  sentido  diz:  «A  reconciliação  do  Papa  com  a  Imperatriz 
será  impraticável,  em  quanto  se  não  verificar  uma  de  duas 
cousas,  a  saber:  ou  uma  oppressão  tal  do  Estado  da  Egreja 
pelas  tropas  austriacas,  que  constitua  a  Cúria  de  Roma  na 
extrema  necessidade  de  pedir  a  paz  a  esta  corte;  ou  a  paci- 
ficação geral  da  Europa,  na  qual  França  e  Hespanha,  ou 
uma  d'estas  potencias,  tomem  á  sua  conta  a  mesma  recon- 
ciliação, com  o  Papa  e  com  o  seu  ministério,  constrangendo 
esta  corte  a  se  esquecer  das  queixas,  que  naturalmente  fazem 


CARVALHO  PEDE  DISPENSA  DO  CARGO  63 

impossível  este  ajustamento,  pela  indisposição  de  ambas 
as    partes»  i. 

Entretanto,  havendo  o  Pontífice,  afinal,  pelo  voto  do 
Sacro  Collegio,  reconhecido  o  Imperador,  pareceu  abrir-se 
para  a  reconciliação  um  caminho,  onde  os  delegados  das 
duas  partes  buscavam  concertar-se,  excluindo  o  mediador. 
Já  as  pessoas  affectas  á  Cúria  publicavam  que  o  melhor 
intercessor,  para  com  a  Imperatriz,  seria  decerto  seu  marido. 
De  Paris,  o  nosso  embaixador,  D.  Luiz  da  Cunha,  participava 
ter  carta  do  cardeal  secretario  de  Estado,  assegurando-lhe 
que  o  congraçamento  se  differia  para  a  paz  geral,  que  todos 
julgavam  imminente.  Em  Vienna  o  primeiro  ministro,  conde 
de  Weldfeld,  negociava  com  o  representante  do  Papa,  a 
occultas  do  Enviado  português.  Cada  vez,  assim,  mais  se 
justificava  a  repugnância  que  elle  sempre  demonstrara,  por 
esta,   que   chamava,   encaracolada   e  retorcida   negociação. 

A  impossibilidade,  pois,  em  que  se  via,  de  a  levar  a 
bom  termo,  e  com  honra  do  seu  governo;  a  inimizade,  incan- 
savelmente aggressiva  de  Sampaio  a  minar-lhe  a  reputação 
em  Lisboa;  as  frequentes  reprimendas  que  o  faziam  dizer 
a  Marco  António:  «Louvo  muito  que  V.  Ex.a  prefira  (as 
obrigações  do  officio  aos  effeitos  da  amizade  e  do  paren- 
tesco» ;  sobre  isto,  contrariedades  de  ordem  material,  motivadas 
por  embaraços  pecuniários;  tudo  contribuía  para  tornar-lhe 
penosa  a  'situação,  e  lhe  aguçar  o  desejo,  sempre  constante, 
de  sahir  de  Vienna.  No  mez  de  maio,  terminantemente  offe- 
receu  a  sua  demissão.  «Entre  todos  os  expedientes,  que 
S.  M.  pôde  tomar  —  dizia  —  me  parece  que  o  primeiro  deve 
ser  o  de  commutar  a  prorogação  da  minha  actual  residência, 
na  nomeação  de  outro  ministro,  que  supra  aqui  a  minha 
grande  insufficiencia;  que  tenha  a  felicidade,  que  a  mim  me 
tem  faltado,  para  promover  a  boa  intelligencia  entre  o  Papa 
e  a  Imperatriz;  e  que  possa  ser  mais  agradável  ao  Santíssimo 
Padre,    do    que   as    calumnias,    com    que   Manuel    Pereira    de 


1     Relação   de    17   de   maio    1746.    Coll.    Pomb.,    Cod.    658. 


64  MONSTROS    DE   ROMA,   LISBOA   E   VIENNA 


Sampaio  me  denegriu  em  Roma,  permittem  que  eu  seja,  na 
acceitação   de    Sua    Santidade»  i. 

Por  imperiosas  que  suas  razões  fossem,  e  vivo  o  desejo 
de  voltar  á  Inglaterra,  o  ministro  não  ousou  insistir  .em 
demasia.  Offerecia  retirar-se,  como  sacrificio,  necessário  ao 
desfavor,  que  contra  elle  pairava  nas  altas  regiões,  mas 
acataria  submisso  as  vontades  do  amo,  se  estas  lhe  impuzessem 
ficar.  Entretanto  encobria  o  desejo  com  o  zelo  de  serviço 
real:  «A  razão  é  porque,  por  uma  parte,  verá  V,  Ex.a  que 
é  impossivel  que  eu  possa  fazer  em  Vienna  d*Austria,  cousa 
que  boa  seja,  faltando-me  hoje  o  credito  necessário,  para 
se  attenderem  as  minhas  informações,  assim  em  nossa  corte, 
como  na  Cúria  romana;  e,  por  outra  parte,  porque  nem  a 
minha  saúde,  nem  as  minhas  forças  se  acham  já  com  toda 
a  robustez,  que  se  faz  mister,  não  só  para  combinar,  referir 
e  superar  as  difficuldades  d'uma  tão  intrincada  negociação, 
.mas  também  para,  a  cada  passo,  que  eu  procure  adeantar, 
debellar  primeiro,  á  força  de  fadigas,  que  me  são  superiores, 
os  horrendos  monstros,  que  em  Roma,  Lisboa  e  Vienna 
produz,  e  arma  contra  mim,  e  contra  as  minhas  diligencias, 
a  fértil,  infesta  e  poderosa  inimizade  de  Manuel  Pereira  de 
Sampaio»  2. 

Não  será  mediocre  a  surpresa  de  vermos  o  poderoso 
luctador,  que,  passados  tempos,  já  sob  o  peso  dos  annos, 
ha  de  assombrar  o  mundo  com  sua  energia,  invocar,  o  pretexto 
do  abatimento  physico,  dizendo  agora:  «V.  Ex.a  compre- 
henderá  que  um  temperamento  tão  débil,  como  é  o  meu, 
não  pôde  deixar  de  estar  rendido  ás  mesmas  fadigas,  que 
eram  capazes  de  arruinar  as   forças   mais   robustas»   ^. 

Marco  António  de  certo  percebia  que  o  sobrinho,  para 
seus  fins,  exagerava  os  achaques,  e  imputava  alcance  maior 
ás  contrariedades,  subjectivas,  se  assim  é  licito  dizer,  que 
o    proceder   malicioso    de    Sampaio    lhe    deparava.    Mediana 


1  Carta  cit.  de   31   maio   1746. 

2  Carta   cit.   de   31   maio   1746. 

3  Idem. 


INTRIGAS    DIPLOMÁTICAS  65 


importância  ligaria,  pois,  ao  trecho  pathetico,  em  que  o 
ministro,  disposto  a  ficar,  offerecia  o  sacrificio  da  sua  vida, 
se  tanto  era  preciso,  para  cumprir  os  desejos  do  rei,  retirando 
a  renuncia:  «As  escusas,  que  acima  faço  da  minha  pessoa, 
não  são  escusas  senão  emquanto  se  achar  que  podem 
contribuir  para  o  melhor  successo  das  negociações  que  S.  iVl. 
manda  proseguir  nesta  corte,  e  emquanto  S.  JVl.  não  ordenar 
o  contrario,  do  que  a  mim  me  parece':  porque,  se  o  mesmoi 
senhor  ainda  assim  resolver  que  eu  continue  em  Vienna  a 
minha  residência,  e  se  as  minhas  débeis  forças  me  desam- 
pararem no  meio  dos  trabalhos,  cumprirei  com  a  minha 
primeira  e  ultima  obrigação,  obedecendo  a  S.  M,.,  e  acabando 
a  vida  no  seu   real  serviço»  i. 

Como  era  de  presumir,  a  suggestão  de  Carvalho  não 
foi  acceita  em  Lisboa.  A  affeição  pelo  sobrinho  não  permittia 
a  Marco  António  patrocinar-lhe  o  intento,  Sahir  de  Vienna, 
em  tal  momento,  seria  desertar  de  um  posto  difficil,  confes- 
sar-se  incapaz,  e  perder,  com  a  própria  reputação,  o  favor 
do  soberano.  Convinha  pelo  contrario,  sustentar-se  na  brecha, 
destruir  os  obstáculos  e  vencer  a  demanda.  Por  isso,  ás 
observações  do  Enviado  responde  a  ordem  terminante  de 
restabelecer   immediatamente    a    mediação. 

A  occasião  mostrava-se  cada  vez  menos  propicia.  Para 
compensar  a  demora  na  promoção  de  Mellini,  o  gabinete 
austríaco  pedia  já  segundo  barrete.  Reclamava,  para  a  coroa 
da  Hungria,  o  direito,  chamado  de  nomina,  de  eleger  um 
cardeal,  que  outras  potencias  fruiam.  Em  Vienna  era  corrente 
que  Sampaio  se  oppunha  sem  recato  á  nomeação  de  Mellini, 
e  que,  trabalhando  de  accordo  com  os  ministros  de  França 
e  Hespanha,  em  vez  de  applacar,  accendia  a  discórdia.  Por 
sua  vez  a  Cúria  enxergava  propósito  na  inacção  de  Carvalho, 
e,  por  intermédio  do  Núncio,  fomentava  a  indisposição, 
fazendo  constar  que  a  chancelaria  romana  não  sabia  ao  certo 
se  a  iniciativa  da  mediação  partira  do  Pontífice,  se  do  próprio 
Sampaio. 


1     Carta   cit. 

o    MARQUÊS     De     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  5 


6Ó  MORTE     DE     FILIPE    V     DA    HESPANHA 

No  mez  de  julho,  sabendo-se  em  Lisboa  que  a  corte  de 
VieniKi  entabolára  negociações  directas  com  a  Santa  Sé, 
decidiu-se  a  ruptura  da  intervenção,  e  tudo  parecia  conjurado 
para  esse  desenlace,  quando  inesperado  acontecimento  subita- 
mente mudou  a  face  das  cousas. 


VI 


A  morte  de  Filippe  V,  occorrida  em  julho  de  1746,  não 
só  transformou  a  situação  politica  da  Europa,  em  geral, 
como,  por  instante,  realçou  a  da  monarchia  portuguesa.  O 
príncipe  que  agora  subia  ao  throno  castelhano  era  genro 
de  D.  João  V;  e  o  dominio  sobre  elie  exercido  pela  rainha 
sua  mulher,  a  inclinação  d'esta  ultima  pelo  seu  paiz  natal, 
a  participação  importante  da  Hespanha  nas  dissensões  exis- 
tentes, faziam  provável  uma  acção  preponderante  do  gabinete 
de  Lisboa,  no  pleito  que  dividia  as  nações  mais  poderosas. 

Cansada  de  uma  já  longa  campanha,  em  que  a  gloria 
dos  combates  não  bastava  a  recompensar  as  enormes  perdas 
materiaes,  a  França  suspirava  pela  paz.  Os  outros  bellige- 
rantes  nutriam  eguaes  desejos,  e  por  isso  a  intervenção  de 
Portugal  foi  lembrada.  Logo  que  a  Paris  chegou  a  nova  de 
ter  fallecido  o  rei  de  Hespanha,  o  ministro  Mr.  d'Argenson 
propôz  ao  ínosso  Enviado,  D.  Luiz  da  Cunha,  tratarem-se  as 
pazes  por  intermédio  do  soberano  português. 

Já,  por  outra  parte,  a  Imperatriz  se  antecipara  escrevendo 
sobre  a  matéria  á  rainha  Maria  Anna,  sua  tia.  Deu  isto 
causa  a  sustar-se  a  sabida  do  nosso  embaixador  de  Vienna. 
Como  vimos,  a  correspondência,  encetada  com  a  corte  de 
Roma,  não  foi,  para  a  de  Lisboa,  segredo.  Carvalho  achava-se 
em  difficultosa  posição.  Medianeiro  perante  o  gabinete  de 
Vienna,  via-se  relegado  das  negociações,  e  assim,  como 
diplomata,  despojado  de  todo  o  prestigio.  E  de  notar,  não 
obstante,  que  a  desconsideração  não  attingia  pessoalmente 
o  ministro,  a  quem  Maria  Theresa  sempre  dispensou  gracioso 
acolhimento.  Recahia  sobre  o  cargo,  reflectindo,  por  natural 
consequência,   no  governo   português.    Um   episodio,    referido 


NUA4A     FESTA     DE     MARIA    TEREZA  67 

por  Carvalho,  descreverá  esta  situação  singular:  «Cahiu  a 
data  de  S.  João  no  próximo  sabbado',  e,  por  consequência,  la 
festividade  do  augusto  nome  d'el-rei  nosso  senhor  no  dia 
de  sexta-feira,  que  regularmente  é  dia  de  concurso  na  corte 
imperial.  Era  preciso,  na  forma  da  etiqueta  da  mesma  corte, 
que  eu  e  minha  mulher  apparecessemos  alli,  vestidos  com 
a  nossa  maior  gala,  porque  assim  o  pedia  a  solemnidade  de 
tal  occasião.  Logo  que  a  Imperatriz  viu  minha  mulher,  lhe 
disse  em  publico  estas  formaes  palavras :  —  Se  eu  não  vir 
vosso  marido,  dizei-ihe  que  o  felicito.  —  Bem  presenti  eu, 
pelas  antecedencias,  e  pelo  conhecimento  que  tenho  da  deli- 
cadeza dos  pensamentos  da  Imperatriz,  que  aquellas  palavras 
não  tinham  sido  proferidas  por  casualidade.  Para  sahir  da 
duvida,  que  ellas  me  fizeram,  me  fui,  meia  hora  depois, 
postar  entre  o  Núncio  e  o  ministro  de  Veneza,  junto  do 
bufete,  onde  a  Imperatriz  se  achava  jogando.  Alli  observei 
logo  que  S.  M.  I.,  á  minha  mão  direita  e  á  minha  mão 
esquerda,  fallou  repetidas  vezes  a  ambos  os  dois  ministros, 
que  eu  tinha  aos  meus  lados,  não  só  sem  me  dizer  a  mim 
uma  única  palavra,  mas  até  sem  pôr  os  olhos  na  minha 
pessoa,  para  examinar  a  côr,  de  que  me  achava  vestido.  O 
que  verificou  o  meu  presentimento,  demonstrando  que,  com 
as  palavras  referidas,  quiz  a  Imperatriz  significar  que  não 
queria  attender  o  ministro  de  Portugal,  mas  que  nada  tinha 
com  o  marido  d'aquella  mulher,  que  publicamente  honrou 
na   forma   acima   declarada»  i. 

Estavam  as  cousas  neste  pé,  quando  sobreveio  a  morte 
de  Filippe  V,  e  a  corte  de  Vienna  considerou  a  possibilidade 
de  effectuar  as  pazes  com  a  Hespanha,  por  intervenção  de 
Portugal.  Carvalho  foi  chamado  a  uma  audiência  particular, 
em  que  a  soberana  lhe  desvendou  esse  propósito.  O  conten- 
tamento do  ministro,  em  tal  occurrencia,  facilmente  se  eoncebe. 
O  afastamento,  em  que  a  Imperatriz  o  collocara,  significava 
para   elle   o  sossobro   de   todas   as   suas   aspirações   ao   favor 


^     Carta    particular  a    Marco   António,    27  julho    1746.    Coll.    Pomb  , 
Cod.    662. 


6S       PORTUGAL    MEDIANEIRO    ENTRE    HESPANHA  -  ÁUSTRIA 


de  D.  João  V.  D'esia  maneira  via  já  o  horizonte  sem  sombras. 
A  vingar  o  plano  apresentado,  seguro  lhe  estava  o  vaUmento 
em  Vienna,  e,  no  seu  paiz,  o  governo  não  deixaria  esquecido 
um  serviço,  que  tanto  exaltava  a  importância,  nesse  momento 
abalada,  do  soberano.  Às  considerações  de  mero  interesse 
pessoal,  accrescia  o  prazer  de  participar  em  um  facto,  cujo 
alcance  politico,  por  uma  illusão,  assas  natural,  de  sua  vaidade, 
elle  se  achava  inclinado  a  exagerar.  Também  o  lidimo  patrio- 
tismo ahi  tinha  seu  quinhão.  Na  projectada  combinação  de 
separar  a  Hespanha  da  França,  para  entrar  no  agrupamento 
da  Áustria  e  seus  alliados,  Carvalho  descortinava,  para  a 
monarchia  portuguesa,  um  penhor  de  seg^urança.  E  nesta 
orientação  o  fazia  notar:  «A  conjunctura  em  que  f aliei  á 
Imperatriz  era  e  é  tal,  que  os  interesses  d'ella  podem  decidir, 
não  só  da  conservação  da  casa  de  Áustria,  mas  da  liberdad^e 
da  Europa  inteira. . .  Se  a  paz  geral  se  fiz^er,  como  até  agora 
se  tinha  projectado,  e  se  por  ella  se  dividirem  os  Estados 
da  casa  de  Áustria ;  se  assim  fizessem  as  duas  potencias 
marítimas  (Inglaterra  e  Hollanda)  uma  publica  confissão  da 
sua  impotência  presente,  para  sustentarem  a  indivisibilidade 
dos  mesmos  Estados  e  da  sua  maior  impotência  futura, 
depois  que  os  sobreditos  Estados  se  achassem  uma  vez 
divididos :  em  tal  caso  todos  os  tratados,  que  até  agora 
fizemos,  com  o  fim  da  nossa  conservação,  por  uma  parte 
ficariam  inúteis  para  nos  sustentarem,  porque  apesar  d'elles 
ficaríamos  obrigados  a  fazer  o  que  a  França  quizesse;  pela 
outra  parte  ficariam  em  vigor  para  nos  affligirem ;  porque 
Inglaterra  e  Hollanda,  emquanto  não  forem  de  todo  anni- 
quiladas,  sempre  continuarão  a  gosar  de  sua  observância, 
e  a  nos  fazerem  as  vexações,  que  ella  traz  comsigo.  Se, 
pelo  contrario,  aquelles  nossos  alliados  augmeníam  o  seu 
poder  e  a  sua  força,  pelo  meio  da  nossa  alliança  com  ia 
Hespanha,  tudo  vem  a  ficar,  pelo  menos,  no  estado  antigo>  ^ 
Além  das  vantagens,   que   resultariam,  para  Portugal,  de 


'     Carta   particular  a  Marco  António,   8  agosto    1746,   Coll.   Pomb., 
Cod.    662. 


o    REI    FERNANDO   E   A    RAINHA   MARIA  BARBARA  69 


intervir  por  este  modo  na  pacificação  geral  da  Europa, 
Carvalho,  como  os  gabinetes  extrangeiros,  attribuia  grande 
influencia  á  nossa  corte  nas  decisões  das  de  Madrid.  Importava 
aprov!eital-a,  para  estabelecer  em  bases  solidas  a  paz,  de 
tanto  tempo  periclitante,  entre  as  duas  nações;  proceder  ao 
ajuste  definitivo  das  fronteiras  na  America;  finalizar  a 
contenda,  sobre  a  colónia  do  Sacramento,  segurando,  com 
o  auxilio  da  rainha,  a  posse  do  terreno  litigioso.  Mas  uma 
nuvem  escurecia  ainda  o  futuro,  e  era  essa  que,  sendo  estéril 
a  união  real,  por  morte  de  Fernando  VI  se  renovasse  a, 
politica  de  Isabel  Farnese,  sempre  contraria  aos  interesses 
portugueses.  Ainda  com  successão,  que  já  se  não  esperava, 
o  mesmo  €ra  de  temer,  faltando  a  rainha.  Entretanto,  bem 
aproveitadas  as  vantagens  actuaes  tal  se  tornaria  a  nossa 
posição,  que  difficilmente  nol-a  poderiam  disputar  em  seguida. 
D'estas  idéas  Carvalho  fazia  confidente  seu  tio.  A  influencia 
da  rainha  Maria  Barbara  era  o  alicerce  em  que,  nas  suas 
cogitações,  um  Portugal  forte  e  rejuvenescido  se  levantaria. 
«Emquanto  ella  durar  —  affirmav^a  —  podemos  aproveitar  os 
seus  preciosos  dias,  para  nelles  se  emendarem  as  vexações, 
que  se  nos  teem  feito.  Podemos  obrar  de  commum  accordo 
com  a  Hespanha.  Podemos,  por  meio  d'esta  intima  união, 
restabelecer  o  nosso  commercio,  reduzindo  os  ingleses  e 
hollandeses  aos  limites  dos  tratados.  Podemos,  por  meio 
d'aquella  reducção,  engrossar  logo  a  substancia  do  reino. 
Podemos  com  ella  augmentar  as  nossas  forças,  á  mesma 
proporção.  E,  desde  que  Portugal  se  achar  uma  vez  opulento 
em  cabedaes  e  forças,  ainda  que  depois  nos  venha  a  faltar 
a  união  de  Sua  Magestada  Catholica,  hoje  reinante,  nos 
acharemos  em  estado  de  não  ter  que  recear,  porque  todo 
o  mundo  procurará  a  nossa  união,  á  proporção  do  augmento 
que   vir   nas    nossas   forças»  i. 

Não  se   realizaram   todavia   as   previsões   do  ministro.   As 
relações  com  a  Hespanha,  se  bem  que  ganharam  cordiahdade. 


1     Carta   particular  a    Marco   António,    8   agosto    1746,    CoU.    Pomb., 
Cod.    662. 


70  D.    JOÃO    V    PACIFICADOR 


não  trouxeram  ao  nosso  paiz  as  vantagens,  que  um  enthu- 
siasmo,  fácil  de  accender,  antecipava.  A  diplomacia  egualmente 
se  enganou  sobre  os  méritos  da  intervenção  para  a  paz 
geral,  que  o  governo  de   D.  João  V  não  logrou  efíectuar*. 

Com  a  supplica  de  Maria  Teresa  se  cruzaram  os 
despachos,  em  que  o  gabinete  de  Lisboa  communicava  lao 
seu  representante  o  projecto  do  ministro  d'Argenson,  e  o 
propósito,  em  que  se  achava,  de  acquiescer,  cumprida  que 
fosse  uma  indeclinável  condição.  Era  esta  interromperem-se 
as  conferencias,  então  por  iniciativa  dos  Estados  Geraes 
iniciadas  em  Breda.  Resultou  d'ahi  protelar  a  corte  de 
Lisboa  a  sua  resolução  definitiva.  Decorreram  alguns  meses. 
A  3  de  dezembro  seguinte,  Carvalho  deu  parte  officialmente 
á  Imperatriz  da  insinuação  da  França,  e  da  vontade  que  o 
soberano  português  tinha  de  a  executar.  Este  assumpto  nada 
tinha,  porém,  com  a  mediação  pedida  pela  Áustria.  Já  um 
delegado  do  gabinete  de  Vienna,  o  conde  de  Rosenberg, 
negociava  em  Lisboa,  e  Carvalho  tivera  ordem  para  tratar 
dos   assumptos   relativos   á   paz   com   a   Hespanha. 

Por  esse  tempo  Fernando  VI  solicitava  também  a  inter- 
cessão do  sogro,  para  se  conciliar  com  a  Grã-Bretanha.  A 
Lisboa  convergiam,  portanto,  os  interesses  das  maiores 
potencias,  e  D.  João  V  parecia  fadado  a  desempenhar  rele- 
vante papel  nos  successos  que  agitavam  a  Europa.  Não  foi, 
todavia,  sem  reluctancia  que  se  rendeu  ás  instigações.  A 
paralysia,  quebrando-lhe  as  forças  physicas,  esmoreceu  nelle 
porventura  o  amor  das  grandezas.  Para  um  espirito,  escravo 
da  vaidade,  qual  o  seu,  a  occasião  era  única.  Não  obstante, 
só  a  contra-gosto,  e  quando  se  viu  de  muitas  partes  esti- 
mulado,  acceitou  a   honrosa   missão   de   pacificador. 

Não  tardou,  infelizmente,  que  os  acontecimentos  lhe 
justificassem  a  hesitação.  Os  representantes  de  França  e 
Hespanha  continuavam  a  discutir  em  Breda,  com  os  de 
Hollanda  e  Inglaterra,  os  preliminares  da  paz.  O  amor 
próprio  de  D.  João  V  revoltoy^se  contra  isso,  que  reputava 
desconsideração  pessoal.  Mais  se  doía  ainda  pela  recusa, 
que  da  mediação  fizera  a  Grã-Bretanha,  tendo  comnosco 
alliança,    e    tão    apreciada    que    nesta    máxima  —  guerra    com 


I 


I 


FRACASSO    DAS    NEGOCIAÇÕES  71 

todo  o  mundo  e  pazes  com  a  Inglaterra  —  a  corte  de  Lisboa, 
pelas  bocas  mais  conspicuas,  fazia  a  synthese  de  sua  politica. 

Correspondem  a  tsi^  periodo  de  desgosto  as  cartas 
celebres,  trocadas,  acerca  doestes  negócios,  entre  D.  Luiz  da 
Cunha  e  Alexandre  de  Gusmão.  Procurava  o  primeiro,  como 
dizia,  que  a  paz  se  tratasse  em  Lisboa,  sob  os  auspicios  de 
D.  João  V.  O  monarcha  escusava-se,  descobrindo  no  alvitre 
a  peçonha  das  idéas  francesas,  muito  do  agrado  do  embai- 
xador. Porventura  instava  elle  para  que  o  caso  de  Breda 
não  servisse  de  estorvo,  e  as  diligencias  pela  paz  se  adian- 
tassem, muito  embora  não  acceitas  de  todos  os  belligerantes. 

Entretanto  rompem-se  as  conferencias  na  Hollanda  e 
reaccende-se  a  guerra.  Terminando  o  motivo  da  recusa,  o 
gabinete  de  Lisboa  novamente  se  interpõe,  mas  a  opposição 
do  governo  britannico,  as  tergiversações  da  politica  francesa 
inutilizam-lhe  os  esforços.  No  derradeiro  periodo  da  campanha 
póde-se  dizer  que  todos  os  belligerantes  estavam  de  accordo 
em  repellir  Portugal  das  negociações.  Não  obstante  isso, 
quando  em  Aqulsgrana  se  reuniu  o  congresso,  em  que  afinal 
se  trataram  as  pazes,  D.  Luiz  da  Cunha  para  lá  se  dirigiu 
com  poderes  especiaes  de  mediador.  Nessa  occasião  se 
revelou  também  a  opposição  da  Hespanha,  não  querendo 
admittir  o  plenipotenciário  português,  que  tinha  por  missão, 
ao  mesmo  tempo,  submetter  á  decisão  das  potencias  o  litigio 
relativo  á  colónia  do  Sacramento.  A  pretenção  era  excessiva, 
não  tendo  Portugal  participado  na  guerra.  A  nossa  repre- 
sentação foi,  portanto,  recusada,  e  as  pazes  se  ajustaram, 
sem  audiência  do  governo,  cuja  intervenção  os  mais  pode- 
rosos  dos   belligerantes   haviam    requerido. 


VII 


As  combinações,  a  que  deu  origem  a  morte  de  Filippe  V, 
facultando  a  Carvalho  a  confiança  de  Maria  Teresa,  alha- 
navam-lhe  o  caminho  para  as  negociações  com  a  corte  de 
Roma.  Logo  na  primeira  conferencia,  como  quer  que  o 
embaixador  fizesse  notar  á  Imperatriz  o  que  havia  de  offen- 


72  RENOVA-SE   A    A\EDIAÇÃO    PARA   Cv)M    ROMA 

sivo,  para  seu  amo,  no  facto  de  tratar  o  gabinete  de  Vienna 
directamente  com  a  Cúria,  a  soberana  lhe  prometteu  espaçar 
a  solução  definitiva,  que  ficaria  pendente  da  resposta  do 
governo  português  ao  pedido  de  intervenção  com  a  Hespanha. 
Sendo  aquella  favorável,  pareceu  encaminharem-se  as  cousas 
para  um  fácil  accordo.  Póde-se  dizer  que  só  então  Carvalho 
foi  realmente  investido  nas  attribuições  do  seu  encargo.  O 
decreto  de  18  de  outubro  d'este  anno  de  1746  deu-lhe  poderes 
para  negociar,  concluir  e  assignar  quaesquer  tratados  ou 
convénios,  relativos  á  mediação,  reconhecida  então  official- 
mente  pela   corte  de   Vienna,   que  até  ahi  o   não  fizera. 

O  Pontifice  concedia  por  fim  o  capello  a  Melliai,  consi- 
derado este  porém  eleito  da  coroa  de  Hungria,  cujo  direito 
á  nomina  ficava,  por  esse  facto,  assegurado.  Em  consequência 
d'isso,  a  Imperatriz  desistia  do  outro  barrete,  que  solicitava. 
No  mez  de  dezembro  dava-se  o  reconhecimento  de  Fran- 
cisco I  pela  Santa  Sé.  Ao  mesmo  tempo,  o  governo  português 
outorgava  autonomia  ao  seu  representante,  permittindo-lhe 
cumprir  as  ordens  do  Papa,  sem  esperar,  como  antes, 
confirmação  de   Lisboa. 

Tudo  parecia  assim  encaminhar  o  litigio  para  immediata 
conclusão,  quando  novo  ponto  de  controvérsia,  surgindo 
entre  as  partes,  a  veiu  protrahir. 

A  discussão  versava  agora  sobre  caso  de  interesse  parti- 
cular do  Eleitor  de  Moguncia,  como  arcebispo  que  era 
d'aquella  diocese  dependente  da  Cúria,  e,  como  o  príncipe 
do  Império,  extremado  partidário  da  casa  de  Áustria.  Pre- 
tendia o  Eleitor  ser  provido  em  certos  benefícios,  que  uniria 
á  sua  mitra,  mas  não  o  podia  fazer,  sem  autorização  do 
Pontifice  por  meio  de  um  breve  especial,  dito  de  elegibilidade. 
Francisco  I,  que  requerera,  por  seu  ministro  em  Roma,  a 
concessão,  considerava  a  annuencia  regalia  do  Império,  e 
não  soffria  que  a  Cúria  lh'a  podesse  negar.  Com  surpresa 
de  Carvalho  apparecia  este  novo  debate  quando,  regulado 
o  assumpto  escabroso  da  nomina,  a  sua  tarefa  parecia  termi- 
nada. Em  fevereiro  de  1747,  um  memorial  longamente  dedu- 
zido do  primeiro  ministro  conde  de  Welfeld  fazia  o  ministro 
português    sciente    de    que,    para    o    gabinete    de    Vienna,    a 


o    CASO    DO    ELEITOR    DE    MOQUNCIA  73 


concessão  do  breve  seria  clausula  indispensável  da  concór- 
dia. A  questão  vinha  de  traz,  e  a  recusa  de  Benedicto  XIV 
tinha  menos  por  objecto  cercear  os  privilégios  do  imperador, 
que  tirar  um  desforço  do  caso  de  Francfort,  em  que  o 
arcebispo,  como  presidente  da  Dieta,  tivera  parte  principal. 
Mas  o  incidente  não  se  desenhava  em  principio  comi  a  gravi- 
dade que  depois  assumiu.  Tendo  fallecido,  tempos  antes,  o 
bispo  de  Bamberg,  fora  a  mitra  requerida,  pela  corte  de 
Vienna,  para  o  Eleitor,  seu  amigo.  Escusou^se  o  Pontífice, 
allegando  ter  aggravos  d'este  ultimo.  Offereceu,  todavia, 
prover  a  diocese  em  qualquer  outro  prelado,  que  o  Imperador 
designasse.  D'ahi  a  pouco  assentiu  em  parte,  e  propoz 
conceder  o  beneficio,  dando  o  Eleitor  satisfação  pela  offensa 
que   fizera   á   Santa   Sé. 

Por  este  caminho  se  chegaria  breve  a  um  accordo,  se 
o  capricho  de  ambas  as  partes  o  não  frustrasse.  Cada  (uma 
d'ellas  declarou  a  sua  exigência  preceito  irrevogável.  Cada 
uma  tomou  por  indecoroso  ceder  á  imposição  do  contrario. 
E  agora  não  se  tratava  já  de  uma  só  diocese.  Francisco  I 
exigia  um  breve  illimitado  —  Ad  ouasrumquc  ecclesias  —  auto- 
rizando a  eleição  do  arcebispo  para  qualquer  mitra  vacante, 
que   lhe   conviesse   unir   á   de   Moguncia. 

Os  esforços  de  Sampaio  ante  a  Cúria,  os  de  Carvalho 
com  os  ministros  do  Imperador,  lograram  trazer  para  um 
terreno  da  conciliação  a  discordância.  O  Eleitor  cedia  da 
pretenção  illimitada,  contentava-se  com  o  direito  a  cinco 
vagas  determinadas;  restringiu-se  depois  a  duas,  e  neste 
ponto  finalmente  parou  a  questão.  Mas  ahi  da  parte  da 
Santa  Sé  novas  difficuldades  surgiram.  O  Pontífice  exigiu 
que  o  arcebispo  e  os  Eleitores  de  Treves  e  Colónia,  tambeí^m 
ecciesiasticos,  apresentassem  desculpas  pelo  procedimento 
havido  com  o  Núncio  na  eleição  de  Francfort.  Sem  o  que 
não  faria   a   concessão. 

O  debate  foi  renhido  e  prolongou-se  até  abril  de  1748. 
Carvalho  e  Sampaio,  cada  um  pela  parle  a  que  mais  era  dado,  o 
primeiro  pelo  Império,  o  segundo  pela  Cúria,  apresentavam 
factos,  commentavam  textos,  descobriam  razões,  argumen- 
tavam e  decidiam.  Entretanto  o  Eleitor,  mirando  as  vantage'ns, 


74  TERMO    DA   QUESTÃO    ROMA-VIENNA 

negociava  directamente  por  seu  procurador  em  Roma,  prompto 
a  ceder,  como  fez,  com  surpresa  de  Carvalho,  e  conseguindo 
que  os  seus  collegas,  desinteressados  na  questão,  fizessem 
também  as  apologias,  que  o  Santo  Padre  demandava.  Satis- 
feito este  no  seu  amor  próprio  não  recusou  por  mais  tempo. 

Estava  assim  terminada  a  longa  contenda.  O  Imperador 
dirigiu  immediatamente  ao  Papa  uma  carta  de  agradecimentos, 
não  faltando  em  lhe  assegurar  a  sua  consideração  de  filho 
submisso.  O  Eleitor  de  Moguncia  escreveu  a  Carvalho,  parti- 
cipando-lhe  a  sua  gratidão,  e,  como  prova  tangivel  da  mesma, 
lhe  offertou  um  grande  tonel  de  vinho  do  Rheno,  que  valia 
dois   mil   florins. 

Nenhuma  outra  questão  se  achava  pendente  entre  as 
cortes  de  Roma  e  Vienna.  O  objecto  da  enviatura  de  Carvalho 
fora   portanto   realizado. 


VIII 


Embaraços  pecutiiarios  tinham  avivado  o  desgosto  de 
Carvalho,  pela  sua  missão  na  corte  imperial.  Seus  honorários 
de  ministro  eram  os  mesmos  de  Londres :  328  mil  réis  de 
ordenado  mensal,  e,  sobre  isto,  4:000  cruzados,  por  uma  só 
vez,   como  ajuda   de   custo,   que   recebera   em   Lisboa. 

Os  vencimentos  eram  por  si  mesquinhos,  para  o  decoro 
e  representação  do  embaixador  que  já  na  Inglaterra  se  vira, 
desde  os  primeiros  tempos,  a  braços  com  difficuldades.  Em 
outubro  de  41,  se  acreditarmos  o  que  dizia,  eram  muitos  os 
credores,  por  gastos  dos  últimos  três  annos.  Para  se 
desobrigar,  pediu,  ao  cardeal  da  Motta,  autorização  para  da 
herança  vinculada  de  seu  tio,  Paulo  de  Carvalho,  retirar  uma 
verba  de  mil  moedas,  por  conta  de  mais  que  tinha  de  receber, 
de  quantias  devidas  ao  finado,  de  subsidios  na  Patriarchal. 
Advogava  o  requerimento  com  o  dictame  que  «se  exceptua 
da   inalienabilidade    dos   bens   vinculados   a   causa   publica». 

A  isto  sobrevinha  não  serem  pagos,  no  reino,  com  a 
devida  pontualidade,  os  saques,  movidos  por  Carvalho,  para 
occorrer   aos   dispêndios   da    embaixada,    e   d'estes    era   verba 


EMBARAÇOS  FINANCEíROS   DE  CARVALHO  75 

importante  a  dos  correios,  sempre  em  caminho  i.  De  Vienna 
continuava  ainda  a  dispor  sobre  os  gastos  de  Londres,  entre 
elles  a  custosa  reconstrucção  da  capeila,  no  pa.lacete,  resi- 
dência do  embaixador,  onde  os  catholicos  extrangeiros 
concorriam  ás  cerimonias  do  culto.  Esta  despesa,  convém 
dizer,  não  sobrecarregava  o  bolsinho  do  diplomata,  mas  a 
incerteza    do    pagamento    augmentava-lhe    os    embaraços. 

Em  1746  eram  peiores  as  circumstancias.  Carvalho,  quando 
se  retirou  de  Lisboa,  obtivera  provisão  real  para  empenhar 
o  morgado  em  vinte  mil  cruzados.  A  viagem,  porém,  algumas 
dividas  de  Londres,  as  despesas  de  installação,  as  do  casa- 
mento, absorveram  depressa  isso,  e  os  quatro  mil  cruzados 
da  ajuda  de  custo.  Na  Inglaterra  os  credores  mostravam-se 
insoffridos,  e  Francisco  Caetano  era  ameaçado  com  penhoras. 
A  demora  em  Vienna,  além  do  tempo  que  tinha  imaginado, 
exgottava-o  de  recursos  pessoaes.  No  mês  de  julho,  quando 
suppóz  realmente  frustrada  a  mediação,  e  pensava  deixar 
logo  a  corte  allemã,  expunha  elle  a  Marco  António  nos 
termos  seguintes  as  suas  angustias :  «Se  S.  M.  não  deferir 
aos  meios  de  eu  poder  sahir  d'esta  terra  pagando  o  que 
devo,  expôr-me-ei  a  não  cumprir  as  suas  reaes  ordens,  o 
,que  não  cabe  no  possível,  ou  a  ser  embargado  pelo  marechal 
da  corte»  2.  Supposto  seriam  attendidas  as  reclamações  do 
ministro,  ao  menos  parcialmente,  é  de  presumir  que  os 
recursos  lhe  não  sobrassem.  Os  honorários  insufficientes  na 
Inglaterra,  não  lhe  bastariam  para  sustentar  em  Vienna  a 
representação  de  um  cargo  proeminente.  Dois  annos  depois, 
quando  lhe  foi  nomeado  successor  para  Londres,  Carvalho 
apurava  dinheiro  vendendo  áquelle  uma  parte  dos  moveis, 
os  menos  preciosos,   que  lá  deixara. 

Ao  dedicado  servo  Francisco  Caetano  faz  na  occasião 
a    confidencia    de    seus    desgostos:    «Vejo    que    a    jornada    le 


^  Consta  cie  uma  nota  de  Carvalho  a  tarifa  dos  correios:  Vienna 
a  Roma,  ida  e  volta  420  mi!  reis;  a  Paris  400  mil  reis;  a  Portugal, 
sem  retorno  570  mil  reis. 

-'      27   julho    1746.    Coll.    Pomb.,   Cod.    662. 


76  BANQUEIROS  DE  CARVALHO 

residência  na  Allemanha  me  tem  accrescentado  os  empenhos; 
que  é  melhor  diminuil-os  em  vida,  que  deixar  esse  cuida:do 
aos  que  ficam  depois  da  minha  morte;  que  nem  tenho  espe- 
rança de  que  se  me  permitta  recolher-me  tão  cedo  a  gosar 
do  descanço,  de  que,  na  verdade,  necessito,  nem  é  inverosimii 
que  me  recolha  em  termos  de  não  poder  sustentar-me  em 
Lisboa ;  e  que  me  será  necessário  restituir-me  ao  refugio 
da  Gramella,  onde  passei  com  descanço  e  saúde  o  tempo 
mais  útil  da  minha  vida,  sem  ser  inquietado  por  credores, 
e  sem   pedir  moratória,   para  ihes   não  pagar»  i . 

O  banqueiro  de  Carvalho,  em  Vienna,  era  o  barão  Diogo 
de  Aguilar,  hebreu  português  foragido  na  Allemanha,  por 
medo  da  fogueira,  ou,  como  dizem  alguns,  criminoso  'de 
delapidações  da  venda  de  tabacos,  de  que  no  reino  fora 
contractante.  Carlos  VI,  que  porventura  o  conheceu  em 
Portugal,  quando  pretendia  a  coroa  de  Hespanha,  dera-lhe 
cargo  equivalente,  nos  seus  Estados,  e  pagara-lhe  a  boa 
administração  com  o  titulo  de  nobreza.  As  relações  de 
Carvalho  com  este  israelita  português,  e  outros,  residentes 
em  Londres;  o  soccorro  que  d'elles  teve  para  o  meneio  da 
parte  financeira  de  sua  missão  diplomática,  não  foram  talvez 
extranhos  á  mudança  do  juizo,  que,  ainda  na  Inglaterra, 
manifestava,  sobre  a  raça  perseguida,  e  ás  providencias  que, 
decorridos  annos,  em  beneficio  da  mesma,  no  seu  governo 
promulgou. 

Em  Lisboa  era  agente  do  ministro,  para  seus  negócios 
pecuniários,  talvez  prestador  de  fundos,  o  doutor  Ignacio  da 
Costa  Quintella,  corregedor  da  corte  e  crime.  A  protecção, 
que  depois  outorgou  a  um  parente  doeste,  abrindo-lhe 
caminho  á  opulência,  prende-se,  com  verosimilhança,  a  factos 
d'este  tempo.  Que  o  magistrado  era  amigo  a  cujos  serviços 
frequentes  vezes  o  diplomata  recorria,  facilmente  se  depre- 
hende  do  seguinte  trecho:  «Ha  tempo  que  me  tenho  proposto 
arrumar  a  minha  casa,  de  sorte  que  possa  viver  e  morrer, 
com   o  descanso   que   resulta   das   contas   ajustadas.   Para   as 


16    março    1748.    Idem,    Cod.    664. 


DESPRENDIMENTO   DE  CARVALHO  77 


que  ahi  tenho  com  differentes  pessoas,  e  para  as  que  me 
não  faltam  doestas  partes,  hei  de  recorrer  á  amizade  e  ao 
favor  de  V.  Mercê,  com  o  tempo  que  presentemente  me 
falta. . .  Entretanto  supplico  a  V.  Mercê  que  se  sirva  mandar 
pagar  por  minha  conta,  á  ordem  do  barão  Diogo  de  Aguilar, 
quatrocentos  mil  réis,  valor  de  uma  letra  de  cambio,  que 
hoje  saquei  a  seu  favor,  na  consideração  de  que  ia  sem 
perigo  da  falta  de   recebimento»  i. 

No  meio  doestas  difíiculdades,  occorreu  um  incidente, 
que  nos  obriga  a  reconhecer  o  desprendimento  do  ministro, 
em  questões  monetárias,  quando  a  sua  dignidade  pessoal, 
e  do  cargo  que  occupava,  se  achavam  em  jogo. 

Chegara  o  momento  de  Carvalho  se  despedir  da  embai- 
xada na  Inglaterra.  Era  costume  darem  os  soberanos,  ao 
diplomata  que  se  retirava,  um  presente,  que  naquelle  paiz 
consistia  em  dinheiro:  trezentas  libras  sterlinas  ou  quinhentas, 
segundo  a  categoria  da  respectiva  nação.  A  Marco  António 
de  Azevedo  se  tinha  attribuido  a  menor  quantia,  que  elle 
rejeitou,  como  depreciativa  do  seu  monarcha.  Fôra-lhe  retor- 
quido que  a  espórtula  superior  pertencia  somente  aos 
Enviados  de  Hespanha,  da  França  e  do  Imperador;  mas, 
insistindo  elle  na  recusa,  o  governo  britannico  concedera 
afinal  as  quinhentas  libras.  Na  presumpção  de  que  se  reno- 
varia com  elle  a  tentativa.  Carvalho  recommendava  a  Fran- 
cisco Caetano,  o  qual,  como  sabemos,  ficara  de  posse  da 
embaixada,  que  desistisse  do  presente  em  dinheiro,  se  lh'o 
propuzessem  inferior  ao  do  precedente  ministro;  em  caso 
de  disputa,  ficaria  contente  com  a  offerenda  d'um  retrato 
do  rei  Jorge,  na  proporção  de  outro,  que  possuia,  do  rei 
de  Portugal.  Acceitou  o  governo  britannico  o  alvitre?  O 
que  é  certo  é  que  não  foram  recebidas  as  trezentas  libras, 
e  d'isso  resultou  não  se  dar  também,  d'ahi  por  deante,  ;em 
Lisboa  presente  ao  embaixador  do  Reino  Unido.  Já  por  esse 
tempo   Carvalho    nada    devia    na    Inglaterra,    como   se    vê    do 


1     1    julho    1748,    Coll.    Pomb.,   Cod.   cit. 


78  SUCESSOS    DIPLOAUTICOS 


annuncio,  que  mandou  publicar  na  Gazeta  de  Londres,  SLXOCdnáo 
algum   credor   esquecido. 

Outra  vez  provou  o  nosso  diplomata  seu  desinteresse, 
servindo  de  occasião  a  dadiva  do  Eleitor  de  Moguncia. 
Consistia  esta,  como  sabemos,  em  uma  cuba  de  vinho  de 
Rheno,  mimo  do  valor,  pelo  tamanho  do  recipiente,  tanto  como 
pela  qualidade  preciosa  do  conteúdo.  Não  quiz  elle  acceitar 
de  golpe,  e,  depositando  o  enorme  tonel  fora  de  sua  casa, 
pediu   instrucções   de    Lisboa. 

Póde-se  considerar  esta  manifestação  menos  espontânea 
que  a  precedente,  e  acaso  duvidar  se  Carvalho  assim  proce- 
deria por  natural  escrúpulo,  ou  por  fazer  praça  no  reino  de 
sua  inteireza.  É  certo,  porém,  que  na  Inglaterra  egualmente 
não  acceitara  o  reembolso,  pelo  governo  d'esse  paiz,  dos 
direitos,  que  havia  pago  na  alfandega,  insistindo,  todavia, 
pela  isenção  como  regalia  do  cargo,  e  até  da  sua  naciona- 
lidade. «A  única  desapprovação,  que  tive  no  ministério  de 
Londres  —  observou  quando  consultava  sobre  a  dadiva  do 
Eleitor  —  foi  com  o  motivo  de  haver  recusado  receber  a 
indemnização  pecuniária,  que  aquella  corte  me  orfereceu,  pela 
franqueza  dos  direitos  da  sua  alfandega,  depois  de  haver 
reconhecido  que  tinha,  para  me  indemnizar,  a  mesma  razão 
com  que,  por  especialidade,  dá  seiscentas  libras  por  anno, 
ao   Enviado  da   Rússia,   para   pagar  as   casas   em   que  vive»  i. 

Em  qualquer  das  hypotheses  não  se  pôde  escurecer  que 
o  ministro,  por  este  procedimento,  tanto  ganhava  em  repu- 
tação pessoal,  como  dava  lustre  ao  cargo,  que  em  terras 
extrangeiras  exercitava.  Mais  tarde,  no  ápice  da  fortuna  e 
das  honras,  não  foi  tão  grande  a  sua  inteireza.  Aos  rendi- 
mentos, que  fruia  largamente,  quando  dispôz  do  erário,  não 
duvidou  ajuntar  as  vantagens  particulares,  que  as  regalias 
do   poder   lhe   facultavam. 


1     Officio  de   27  junho   1748,   publicado  em   1893  no  Commerrlo  de 
Portugal. 


CORRESPONDÊNCIA    DE   CARVALHO    E   SAMPAIO  79 


IX 


Recuemos  um  pouco,  para  reatar  o  fio  dos  successos 
diplomáticos. 

Em  fevereiro  de  47  achava-se  na  t€ia  somente  a  nomeação 
de  Meliini.  A  Cúria  repellia  o  candidato  de  Maria  Theresa, 
e  dispunha-se  a  realizar  a  promoção  dos  cardeaes,  indicados 
pelos  outros  isoberanos,  deixando  para  occasião  posterior  a 
nomina  da  coroa  de  Hungria.  Com  isto  exacerbaram-se  os 
ânimos  em  Vienna,  e  o  governo  fez  constar  que  mandaria 
sahir  o  Núncio,  se  o  adiamento,  que  lhe  annunciavam,  tivesse 
effeito.  A  intervenção  de  Carvalho  foi  também  útil  nesta 
conjunctura,  e  a  12  de  março  trocaram-se  as  reversaes,  que 
decidiram   a   disputa   a   contento   do  gabinete   austriaco. 

O  incidente  do  breve  protrahiu,  como  vimos,  por  mais 
de  um  anno,  o  accordo  final.  Durante  esse  tempo  reaccen- 
deram-se  as  dissenções  pessoaes,  entre  os  ministros  portu- 
gueses em  Roma  e  Vienna.  Cada  um  d'elles,  inclinado  a 
defender  os  interesses,  senão  o  capricho,  da  corte  perante 
a  qua!  era  acreditado,  increpava  o  companheiro  de  parcia- 
lidade. As  observações  de  Sampaio,  suas  réplicas  a  Carvalho, 
a  quem  sempre  julgava  subalterno,  eram  em  geral  imperti- 
nentes: sua  linguagem  não  poucas  vezes  offensiva.  «Assim 
o  Papa  como  os  cardeaes  duvidam  da  sinceridade,  com  que 
V.  S.a  obra. , ,  Fizeram  entrar  o  Papa  no  animo  de  dar  conta 
a  Sua  Majestade  e  de  servir-se  somente  do  Núncio».  Estas 
phrases  nos  dão  idéa  da  animosidade  do  embaixador  em 
Roma  contra  o  seu  collega.  Como  não  é  de  extranhar,  e 
muito  menos  conhecendo-lhe  o  caracter,  este  ultimo,  irrita- 
va-se,  retorquia  em  termos  acres,  não  poupava  as  allusões, 
que  pudessem  ferir  o  adversário:  «Pouco  podem  significar 
a  meu  respeito  os  avisos  lucrosos  e  abstractivos  d'estes  ou 
d'aquelles  mexeriqueiros  particulares,  os  quaes  regularmente 
costumam  escrever  o  que  lhes  ordena,  para  seus  fins,  quem 
fez  a  V.  S.a  a  ameaça  que  V.  S.a  me  participa,  porque  não 
vejo  motivo  algum  para  o  receio  justo,  nem  o  receio  injusto 


80  INTRIGAS    DE    MANUEL    PEREIRA    DE    SAMPAIO 


seria  compatível  com  a  firme  confiança,  que  devemos  pôr, 
e  pomos,  na  justiça  do  Papa  e  de  Sua  Majestade»  i. 

Não  ha  mister  de  insistir  mais  nos  incidentes  d'csia 
discórdia,  tão  intensa  que,  superior  ás  próprias  negociações 
diplomáticas,  parece  ter  sido  ella  a  preoccupação  constante 
de  Carvalho,  em  todo  o  tempo  que  residiu  em  Vienna.  É 
incalculável  o  numero  de  paginas,  que  a  propósito  da  mesma, 
e  relativamente  ao  emulo,  escreveu.  Correspondência  official 
para  o  reino,  cartas  particulares,  relatórios,  apontamentos 
pessoaes,  raro,  entre  tantos  papeis,  cujo  volume  é  immenso, 
o  que  não  encerra  uma  defesa,  um  queixume,  uma  reclamação 
contra  algum  acto  ou  escripto  do  embaixador  em  Roma.  A 
inimizade  era  de  ambas  as  partes  violenta  e  pertinaz,  e  tão 
profunda  foi  ella  no  que  por  victima  se  tinha,  que,  volvidos 
muitos  annos,  entre  os  de  sua  familia,  ainda  o  nome  do 
adversário  se  usava  para  objectivar  um  sentimento  de  aversão, 
irresistível  e  ferrenho.  No  mais  acceso  da  campanha  contra 
os  jesuitas,  Francisco  Xavier  de  Mendonça,  governador  do 
Grão-Pará,  irmão  de  Carvalho,  exprimia-se  acerca  d'aquelles 
padres,  nestes  termos:  Estas  gentes  são  o  meu  Manuel  Pereira 
de    Sampaio ! 

O  ministro  em  Roma  era  sujeito  de  excessiva  vaidade, 
grosseiro,  intrigante,  rancoroso.  Inchado  de  vangloria,  pela 
amizade  do  Pontífice,  ambicionara  representar  um  papel  na 
politica  da   Europa,   intervindo  na  contenda  das  potencias., 

Não  é  possível  contestar  que,  em  mais  d'uma  occasião, 
foi  por  elle  tolhido  o  accordo,  pela  vaidade  de  dominar  no 
animo  do  Santo  Padre,  confirmando-o  na  resistência.  Suas 
primeiras  relações  com  o  residente  em  Vienna  foram  cortezes 
e  benévolas.  Pensava  ainda  encontrar  nelle  o  dócil  executor 
de  suas  lucubrações  politicas,  cuja  efíicacia  reputava  infallível. 
Escrevia-lhe  em  termos  caríciosos  e  melifluos :  «O  Papa  envia 
a  V.  S.a  a  Sua  benção,  e  espera  tudo  da  sua  actividade). 
Mandava-lhe,  como  lembrança  de  Roma,  sagrados  amuletos... 


1     Carta    a    Manuel    Pereira    de    Sampaio.    20    janeiro     1748.    Coll. 
Pomb.,   Cod.   665. 


CARVALHO    SUBSTITUÍDO    NA    CORTE    DE     LONDRES         81 

«uma  boceta  com  um  agnus-dei  de  Innocencio  XI,  uma  relíquia 
do  santo  lenho,  e  outra  de  S.  Sebastião,  liberdade  que  tomo, 
para  justificar  a  V.  S.a  os  affectos  com  que  sei  estimar  os 
seus  merecimentos».  Quando  porém  o  collaborador  se  lhe 
revelou,  não  o  adjuvante  secundário,  com  que  contava,  mas 
um  fino  caracter,  altivo,  cônscio  da  própria  superioridade, 
ambicioso  também,  firme  nas  suas  resoluções,  e  prompto 
á  resistência;  quando  Sampaio,  o  que  cedo  aconteceu,  veri- 
ficou o  seu  engano,  toda  a  benevolência  affectada  se  lhe 
transtornou  em  fel.  Logo  se  voltou  contra  aquelle  que  ousava 
discutir-lhe  as  opiniões;  accusou-o,  perseguiu-o,  e  não  parece 
duvidoso  que  de  sua  influencia  tenha  resultado  muito  damno 
a  Carvalho.  Por  ella,  a  indisposição  de  D.  João  V,  contra 
este,   foi   talvez   em    grande   parte   motivada. 

A  inimizade  dos  diplomatas  produziu  em  Lisboa  descon- 
tentamento, e  ao  de  Vienna  se  imputavam  as  culpas  d'ella. 
Frei  Gaspar  da  Encarnação,  já  arbitro  da  politica  nacional, 
o  padre  Carbone,  confidente  do  rei,  por  entre  rodeios,  no 
tom  agridoce  de  suas  cartas,  lh'o  deixam  perceber.  ^Eu  tcnrio 
sentido  quanto  pôde  V.  S.a  imaginar  —  dizia  o  jeimita  —  que 
houvesse  motivos  de  desconfiança,  entre  V.  S.i  e  S-tmpaio, 
ao  mesmo  tempo  em  que  mais  desejável  era  a  boa  hannonia, 
para  o  'serviço  de  Sua  Majestade.»  Frei  Gaspar,  concluídas 
as  negociações,  diluía  a  censura  num  vago  elogio:  «Nem 
as  impressões  de  que  V.  S.a  tinha  concebido  alguma  paixão 
contra  Manuel  Pereira  de  Sampaio,  nem  a  lembrança  de 
que,  preoccupado,  se  enganara  em  alguns  pontos,  foram 
bastantes  para  que  Sua  Majestade  mude  do  justo  i.onceito, 
que  tem.  feito  de  V.  S.a»  i.  Marco  António  carecia  de  força 
que  pudesse  contrastar  as  influencias  hostis  ao  bolrrinho.  Só 
a  rainha  D.  Marianna  se  dava  por  contente,  e  essa  manifestou 
o  seu  agrado  por  um  acto,  que  repentinamente  desmoronotu 
as  antigas  aspirações   de   Carvalho. 

Em  dezembro  de  47  foi-lhe  nomeado  successor,  na  corte 
britannica.  Assim  viu  o  diplomata  frustrada  a  esperança  que 


i     Coll.    Pomb.,    Coei.    661. 

o    MARQ'JÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  6 


82  O    SUCCESSOK    DE    CARVALHO    EM    LONDRES 

alimentava  ainda,  de  regressar  á  sua  embaixada.  «Quanto  á 
mudança  de  nicho  de  V.  S.a,  passando  de  Londres,  para  n 
propriedade  de  Vienna,  também,  entre  nós,  foi  muita  cousa 
a  Rainha  nossa  senhora,  pois  segura  que  essa  mesma  Rainha 
e  augustissima  Imperatriz,  não  levaria  a  bem  que  d'ahi  lh'o 
tirassem.»  Por  esta  forma  Marco  António  pensava  dourar 
a  pilula,  tão  amargosa  para  aquelle  a  quem  se  mascarava 
o  desfavor  com  fingida  honraria.  Mais  adeante  exhortava-o: 
«Console-se  V.  S.a  que  sei  tem  o  amo  bom  conceito  de  si.» 
Tão  flagrante,  comtudo,  era  a  repugnância  de  suas  palavras 
com  a  realidade  dos  factos,  que  chamar  o  sacrificado  á  resi- 
gnação lhe  pareceu  opportuno.  «Onde  está  sr.  Sebastião  José 
a  grandeza  de  animo,  se  não  servir  nas  que  parecem  contra- 
dicções    e    adversidades?»    '. 

Como  se  vê,  a  estrella  de  Carvalho,  nunca  de  sobejo 
rutilante,  empallidecia  em  Lisboa,  e,  pelo  que  sabemos  dos 
meneios  de  Sampaio,  a  elles  se  pôde  attribuir  a  maior  causa. 
Uma  coincidência  singular  confirmou  o  ministro  no  seu 
desgosto.  Exonerado  da  embaixada  de  Londres,  não  fora, 
conforme  se  lhe  dissera,  promovido  na  de  Vienna.  Davam-lhe 
como  razão  ter  a  Imperatriz  revocado  o  seu  ministro,  fazen- 
do-se  representar  em  Lisboa  por  um  simples  Residente,  e 
assim  não  consentia  a  pragmática,  ao  Enviado  de  Portugal, 
declarar  seu  caracter.  Quer  o  motivo  allegado  fosse  o  único 
real,  quer  facultasse  á  inimizade  um  pretexto  bemvindo,  certo 
é  que,  por  elle,  o  governo  português  collocava  o  seu  repre- 
sentante em  posição  verdadeiramente  mais  dúbia  do  que 
aquella  que,  no  principio  da  missão,  provocara  os  reparos  da 
corte  de  Vienna.  Ficavam  em  vigor  as  cartas  de  crença,  que 
o  annundavam  por  simples  emissário;  se  quizerem,  também 
os  poderes,  que  o  autorizavam  a  representar  o  soberano,  no 
ajuste  dos  convénios;  mas,  concluídos  estes,  faltava,  para 
lhe  realçar  a  importância,  a  dignidade  de  embaixador,  com 
que  se  apresentara  na  capital  germânica. 

O   despeito   de   Carvalho   logo   se   revelou   no   trato   com 


I     Idem,    Cod.    717. 


ENCERRABODES  SUCCESSOR  DE  CARVALHO  EM   LONDRES     83 


seu  successor,  e  não  foi  porventura  extranho  á  catastrophe, 
com  que  a  carreira  diplomática  d'este  ultimo,  o  desemDar- 
gador  Encerrabodes,  bruscamente  terminou.  Além  d'isso,  não 
estaria  elle  longe  de  imputar,  ás  intrigas  do  nomeado,  o 
ver-se  excluído  de  um  posto,  que  tanto  lhe  era  caro,  A 
Francisco  Caetano,  em  quem  depositava  illimitada  confiança, 
não  receia  elle  abrir  o  seu  animo  doesta  forma :  «O  que  lhe 
sei  dizer  sobre  o  ministro  que  para  ahi  se  nomeou,  é  que, 
no  tempo  em  que  fui  a  Portugal,  importunei  o  sr.  cardeal 
da  Motta,  e  o  sr.  Marco  António,  para  o  promoverem  a 
ser  empregado  nas  cortes  extrangeiras ;  que  lhe  desejei  sempre 
este  e  outros  bens;  que,  depois  que  estou  nesta  corte,  se 
me  escreveu  de  Lisboa,  por  vias  seguras,  que  elle  me  fazia 
as  ausências,  que  eu  não  merecia,  nem  podia  esperar  do 
maior  inimigo;  que  como  tal  o  tenho,  e  como  tal  lhe  perdoo»  ^. 
Do  perdão  fazem  duvidar  os  successos  posteriores;  nem 
tal  grandeza  de  alma  era  própria  de  quem  veremos  sempre 
perseguir  com  furor  os  seus  contrários.  Desde  já,  não  podendo 
attingir  de  outro  modo  o  substituto  malvindo,  Carvalho  não 
desdenha  baixar  aos  acintes,  em  que  se  compraz  o  rancor 
impotente.  Instigado  por  elle,  recusa  ministrar  ao  novato 
indicações  sobre  os  negócios  até  ahi  a  seu  cargo,  e  o  faz 
em  termos,  que,  no  animo  d'aquelle,  apagariam  qualquer 
duvida,  respeitante  á  causa  da  negativa.  Eis  o  que  lhe  dizia: 
É  moralmente  impossível  que  eu  presentemente  haja  de  entrar 
na  vasta  applicação,  que  seria  necessária,  para  revolver  a 
diffusa  papellada,  em  que  se  contém  o  que  ahi  se  passoiu 
desde  1738,  para  separar  e  deduzir  cada  uma  das  depen- 
dências, que  tratei  nessa  corte,  quando  a  sua  estreita  união 
com  a  nossa  faz  que  todos  os  dias  estão  ahi  apparecendo 
incidentes,  cuja  fertilidade  V.  S.a  verá  em  pouco  tempo,  e 
que,  sendo  multiplicada  por  todos  os  annos  da  minha  resi- 
dência, não  poderá  deixar  de  fazer  uma  obra  de  estudo  e 
de  vastidão,  absolutamente  incompatíveis  com  o  presente 
estado    das    minhas    queixas,    das    minhas    occupações,    e    da 


27  de?etiibro   1747.   Coll.   Pcmb.,   Cod.   664. 


84  RETIRADA     DE     VIENNA 

distancia  em  que  ellas  teem  posto  a  minha  memoria  das 
dependências  de  Londres,  achando-me  ha  annos  occupado 
em  matéria  totalmente  extranha  aos  negócios  de  Inglaterra-)  ^. 

As  desculpas,  que  sobre  a  matéria  manda  a  seu 
tio  Marco  António,  não  valem  mais  do  que  as  precedentes. 
O  pretexto  dos  achaques,  amparado  em  um  vulgar  apoph- 
tegma,  é  a  melhor  de  suas  razões.  «O  nosso  insigne  padre 
António  Vieira  decidiu  que  bastavam  as  queixas  para  desobri- 
garem os  doentes  de  escrever,  tanto  como  os  mortos  de  falar». 

Em  1748,  fallecido  o  cardeal  da  Motta,  o  projecto  da 
Companhia  Oriental  resuscitou,  sob  a  égide  de  Marco  António. 
Mas  a  influencia  d'este  não  bastou  para  fazel-o  vingar.  Preva- 
leciam na  administração  ainda  as  idéas  do  ministro  defuncto. 
Sua  memoria,  por  este  só  facto,  não  devia  ser,  para  Carvalho, 
credora  de  bênçãos.  Entretanto,  esta  morte  dá-nos  ensejo 
de  reconhecer  um  recanto  curioso  do  seu  caracter.  Uma 
carta  de  pêsames,  a  um  familiar  do  cardeal,  e  de  seu  irmão, 
Pedro  da  Motta,  também  ministro,  diz-nos  até  onde  o  futuro 
dictador  sabia  baixar  o  seu  orgulho,  lisonjeando  os  potentados. 
«Não  devo  nem  posso  dispensar-me  de  protestar  a  Vossa 
Mercê  e  a  toda  a  mesma  familia,  em  geral  e  em  particular, 
com  um  verdadeiro  affecto,  que,  se  na  distancia  em  que  me 
acho,  ou  em  qualquer  outro  logar,  ainda  mais  remoto,  onde 
me  leve  o  tempo,  houver  cousa  em  que  eu  possa  iservir, 
não  isó  a  qualquer  de  Vossas  Mercês,  como  ao  mínimo  creado, 
de  escada  abaixo,  dos  que  o  Eminentissimo  sr.  cardeal  da 
Motta  deixou  nessa  casa,  com  qualquer  aviso,  que  se  me 
faça,  do  tal  ou  qual  serviço,  que  eu  puder  render,  farei  o 
mesmo  que  se  Sua  Eminência  se  achasse  presente  na  mesma 
casa,  e  d'ella  me  escrevesse  uma  carta  de  recommendação»  } 

Em  julho  d'esse  anno  o  diplomata  recebia  ordem,  para 
dar  por  finda  a  mediação.  Só,  porém,  no  anno  seguinte  se 
retirou  de  Vienna.  As  recredenciaes,  de  31   de  maio  de  1749, 


1  Carta    a    Encerrabocles,    17    março    1748,    Idem,    Cod.    663. 

2  Carla    ao    Beneficiado    José    Henriques    Leitão,     27    abril     1748, 
Coll.    Pomb.,   Cod.   664. 


RETIRADA    DE    VIENNA  85 


diziam  que  vinha  em  licença,  para  tratar  de  negócios  da 
sua  casa,  os  quaes,  sem  isso,  ficariam  em  risco.  A  3  de 
setembro  foi  a  partida.  Mais  de  três  meses  durou  a  cansada 
viagem  por  terra,  atravessando  França  e  Hespanha,  com 
mulher,  creanças  e  servos.  No  principio  de  dezembro  chegou 
a    Lisboa. 

Dissera-se  em  Vienna  ter  sido  o  ministro  português 
chamado  para  o  cargo  de  secretario  dos  negócios  extran- 
geiros,  que  seu  tio  occupava.  Talvez  d'este  ultimo  partisse 
a  insinuação,  e  o  próprio  Carvalho,  nella  crente,  a  publicasse. 
Breve,  porém,  tinha  de  se  convencer  da  inanidade  de  suas 
esperanças.  Nem  os  serviços  á  Imperatriz,  que  reputava  de 
alta  valia,  nem  a  influencia  de  Marco  António  conseguiram 
demover  a  D.  João  V  da  sua  manifesta  aversão.  Debalde 
pretendeu  Carvalho  um  posto,  em  que  suas  aptidões  fossem 
utilizadas.  Seu  destino  só  com  a  morte  do  soberano  tinha 
de  se   desannuviar. 


CAPITULO    III 


O    NOVO    REINADO 


L  tftado  mental  da  sociedade  portuguesa  no  século  XVIII.  Influencia 
do  mesmo  no  espirito  de  Carvalho.  Influencia  do  que  viu  no 
extrangeiro.  —  II.  Carvalho  mal  recebido  em  Lisboa.  Morte  de 
D.  João  V.  D.  José  escolhe  os  ministros.  Resentimento  de 
Alexandre  de  Gusmão.  —  III.  A  administração  nova.  Decisão 
sobre  as  minas  do  Brasil.  Alexandre  de  Gusmão  reprimido.  — 
IV^.  Resoluções  sobre  o  tabaco  e  o  assucar.  A  mineração  dos 
diamantes.  Episodio  do  contratante  Caldeira  Brant.  —  V.  Os 
hebreus  e  o  oojnmercio  das  pedras  preciosas.  Providencias  acerca 
dVlle.  —  VI.  Legislação  sobrre  as  frotas.  Empresa  de  nave- 
gação   para   a    índia. 


Ao  bárathro  de  fanatismo  e  ignorância,  em  que  a  alma 
portuguesa,  no  meado  do  século  XVIII,  merg'ulhava,  alg^uns 
privilegiados  espiritos  escapavam  ainda.  Na  muralha  que 
opprimia  as  intelligencias  havia  fendas,  A  inquisição,  vigilante 
no  interior,  perdia  seus  foros  na  fronteira.  Além  de  Hespanha, 
tão  opprimida  como  nós,  não  ia  o  seu  poder,  e  com  os 
extrangeiros,  no  reino  mesmo,  poucas  vezes  contendia.  Os 
portugueses  que  em  terras  extranhas  uma  vez  experimen- 
tavam a  suave  embriaguez  do  pensamento  livre  traziam  um 
pouco  d'esse  ar  vivificante,  respirado  lá  fora,  e  d'elle  faziam 
participar  algum  amigo  mais  fiel.  Outros  que,  pela  posição 
social   e   protecção  do   monarcha,   se  julgavam  a   coberto  de 


8S  ESTADO   MENTAL  DA  SOCIEDADE  PORTUGUESA 


perseguições,  arrojavam-^se  a  mostrar  o  abysmo  aonde  a  nação 
resvalava.  D.  Luiz  da  Cunha,  o  eminente  diplomata,  e  o 
mordaz  e  esclarecido  Alexandre  de  Gusmão,  não  lhes  bas- 
tava condem narem  a  rotina  e  a  frivolidade  das  praticas 
administrativas,  apontarem  os  erros  da  gerência  económica: 
ousavam  provocar  o  monstro  do  fanatismo,  denunciar  a 
acção  funesta  da  Inquisição,  mais  digna  de  maldições,  se 
é  possível,  pelo  que  obrou  nos  espíritos,  do  Xjue  pelas  victimas. 
arrastadas  ao  cárcere,  aos  tormentos   e  á  fogueira. 

Marco  António  de  Azevedo,  a  quem,  nos  extremos  do 
seu  affecto,  D.  Luiz  da  Cunha  chamava  filho,  também  bebera 
na  Inglaterra  e  em  França  os  novos  princípios.  Para  elle 
conipoz  o  provecto  diplomata  uma  Instrucção  politica,  em 
que  indicava  as  principaes  e  mais  urgentes  reformas,  exigidas 
pela  situação  do  paiz.  Mas  taes  innovações  não  podiam  ser 
comprehendidas  do  soberano,  nem  dos  atrazados  espíritos, 
por  cujos  dictames  se  orientava  o  governo.  Ou  por  certeza 
d'isso,  ou  por  desconfiança  em  que  entrou  depois  acerca 
do  destinatário,  nunca  D.  Luiz  da  Cunha  passou  o  escripto 
a  Marco  António,  ainda  que  sob  outra  forma,  repetiu  a 
tentativa.  Corre  impresso  o  seu  Testamento  politico,  carta 
dirigida  a  D.  José,  ainda  príncipe,  onde,  se  bem  com  menos 
largueza,  se  encontram  os  mesmos  princípios  que  expuzera, 
como   norma   de   governo,   ao   seu   predilecto   discípulo. 

Outro  contemporâneo,  António  Ferreira  Encerrabodes, 
era  também  d'esses,  que  algo  discerniam  dos  males  da  pátria, 
avantajando-se  de  entre  a  incapacidade  geral.  Para  a  embai- 
xada de  Londres  o  tinham  impellido  desaffeições  eguaes  ás 
que  levavam  Carvalho  a  Vienna.  Alexandre  de  Gusmão  escre- 
via-lhe  nestes  termos:  «Não  se  esqueça  V.  S.a  dos  amigos, 
que  aqui  deixou  luctando  com  as  ondas,  no  mar  da  super- 
stição e  da  ignorância,  e  agradeça  aos  seus  inimigos  o  mimo 
ue  que  actualmente  gosa.  Eu  também  havia  descompor  os 
meus,  se  tivesse  a  certeza  de  merecer-Ihes  semelhante  des- 
terro» 1.  Mais  celebre  que  nenhum  outro,  pela  independência 


1      16    fevereiro    1750.    Ms. 


o  MEIO  PORTUGUÊS  NO  ESPIRITO  DE    CARVALHO  89 


das  idéas,  foi  o  cavalheiro  de  Oliveira,  que  o  Santo  Oíficio 
deixou  escapar  uma  vez,  para  mais  tarde,  no  tempo  de 
Pombal,  o  queimar  em  estatua.  Muitos  mais  haveria,  que 
a  escassez  de  memorias  da  época  não  deixa  descobrir.  Por- 
ventura os  documentos  secretos  da  Inquisição  revelam  alguns, 
de    que    nem    por   sombras    suspeitaríamos. 

O  inlellecto  de  Sebastião  José  de  Carvalho  não  era, 
como  o  d'esses,  accessivel  ás  idéas  de  liberdade  mental  e 
politica,  já  então  dominantes  entre  as  classes  illustradas,  lá 
fora.  Não  tivera  elle,  como  D.  Luiz  da  Cunha  e  Alexandre 
de  Gusmão,  a  fortuna  de  sahir  da  pátria  em  annos  juvenis, 
quando  o  entendimento,  ainda  malleavel,  facilmente  se  deixa 
vencer  e  subjugar.  O  seu  fora  modelado  por  esse  mesmo 
ensino  coimbrão,  que  mais  tarde  havia  de  ruidosamente 
condemnar;  e  inteiriçara-se  nas  formas  rígidas,  que  lhe 
impunha  o  ambiente  intellectual  da  universidade,  mixto  da 
boçalidade  fradesca  com  o  pedantismo  académico.  Por  isso 
do  extrangeiro  só  trouxe  um  progresso,  se  tal  é  licito  dizer, 
tardio.  Seus  voos,  altos  para  o  nivel  da  razão  no  paiz,  foram, 
se  em  absoluto  os  considerarmos,  mesquinhos.  Nenhum  dos 
grandes  ideaes,  que  agitavam  os  cérebros  pensantes  da  Europa, 
teve  guarida  no  seu.  Modelos  foi-os  buscar  mais  de  cem 
annos  atraz.  Em  assumptos  económicos  quiz  por  mestre  a 
Sully;  em  politica  tomou  por  guia  Richelieu.  Acaso  da  appli- 
cação  de  processos  antiquados  resultou  o  mallogro  da  sua 
obra.  Influencias  exteriores,  de  idéas  e  factos  materiaes, 
producto  de  uma  civilização  mais  intensa,  de  cujo  reflexo 
não  era  possível  segregar  o  paiz,  contrariavam  esses  expe- 
dientes de  outra  época.  D'ahi  resultou  que  a  ephemera 
revivescência  da  nação,  no  periodo  pombalino,  não  passa 
de  um  curto  parenthesis,  no  decahir  que,  principiando  dois 
séculos  antes,  mais  se  accentua  no  seguinte   reinado. 

Entretanto  seria  extranha  myopia  a  de  Carvalho  se  nada 
tivesse  visto  e  aprendido   em  suas   viagens. 

Na  Inglaterra,  já  fica  apontado,  colheu  elle  abundante 
cabedal  de  conhecimentos.  Mas  deteve-se  na  apparencia  das 
cousas,  que  eram  as  leis  e  regulamentos,  e  as  manifestações, 
por  assim  dizer,  só  externas,  do  caracter  dos  habitantes.  Não 


90     INFLUENCIA   DO  QUE   CARVALHO  VIU   NO   ESTRANGEIRO 


percebeu  que  o  fundamento  d'essa  grandeza  nacional  era 
o  respeito  e  o  amor  da  liberdade,  enraizados  no  animo  dos 
cidadãos,  e  consagrados  pelas  leis.  Vira  de  perto,  sem  o 
comprehender,  um  povo,  cioso  de  seus  direitos,  e  que  já 
duas  vezes,  para  mantel-os,  expulsara  os  monarchas  do 
throno.  O  precedente  ensinava  os  governantes  a  acatarem 
as  prerogativas  da  nação,  e,  por  isso  mesmo,  entrava  nos 
interesses  d'esta  manter  em  todas  as  classes  o  inviolável 
respeito   pelas   leis. 

Em  Portugal  tudo  era  ao  revez  d'isso.  Lei  propriamente 
não  havia  mais  que  a  vontade  do  soberano,  que  fazia  e 
reformava  o  código  a  seu  falante.  Com  a  lei  e  contra  a  lei, 
quem  tinha  a  menor  parcella  do  mando  vexava  e  opprimia 
os  pequenos.  Estes,  por  sua  vez,  desprezavam  a  Themis 
nefasta,  que  lhes  não  dava  protecção,  e  agiam  contra  ella, 
impunemente  muitas  vezes,  porque  o  poder,  violento  em 
perseguir,  era  por  Índole  frouxo  na  repressão  justa  do  crime. 
O  exemplo  dos  grandes  que,  livres  de  pena,  delinquiam, 
repetia-se  no  povo,  a  quem,  se  tinha  o  terror  do  magistrado, 
faltava  a  veneração  pela  lei, 

Q  só  tribunal,  cuja  implacável  severidade  abrangia  todas 
as  classes,  era  o  da  Fé.  Sua  jurisdicção  mantinha-se  não 
só  temida,  senão  respeitada  também.  Os  mais  elevados  fidalgos 
não  lhe  escapavam  aos  golpes.  O  povo  fanatizado  experi- 
mentava por  elle  um  sacro  temor,  ao  mesmo  tempo  que  filial 
veneração.  Era  timbre  dos  primeiros,  na  jerarchia  social,  o 
servirem-no.  Os  pequenos  applaudiam-lhe  as  crueldades. 
Considerava-se  a  delação  um  acto  meritório,  e  ao  denun- 
ciante, muitas  vezes  calumniador,  trazia  honra  a  torpeza  em 
vez   de   labéo. 

A  Europa,  nos  mesmos  paizes  do  catholicismo,  olhava 
com  pasmo  o  que  se  passava  na  Peninsula,  o  abysmo  a 
que  a  superstição  e  a  falta  de  cultura  mental  tinham  lançado 
estes  povos.  Considerava  que,  emquanto  nos  Estados  do 
Papa  os  hebreus  eram  livres,  na  Hespanha  e  em  Portugal, 
por  frágeis  indicios,  se  votavam  christãos  á  fogueira.  Em 
toda  a  parte  as  pessoas  illustradas  condemnavam  tão  atroz 
situação.    O    horror,    o    ridiculo,    que    mais    tarde,    na    phrase 


o    TRIBUNAL    DA    INQUISIÇÃO  91 

de  Voltaire,  caracterizou  o  supplicio  de  Malagrida,  acompa- 
nhava, em  terras  extranhas,  o  nome  português. 

A  um  espirito  observador  e  arguto,  qual  era  o  de 
Carvalho,  não  podiam  factos  semelhantes  passar  desperce- 
bidos. Tratando,  nas  suas  embaixadas,  com  individuos  cultos, 
quantas  vezes  não  teria  de  corar,  ouvindo  as  expressões  de 
censura  e  de  mofa,  com  que  algum,  mais  ousado,  alludisse 
á  deprimente  obra  da  Inquisição  na  sua  pátria! 

O  próprio  governo  consentia  que  seus  Enviados  tran- 
sigissem com  o  espirito  da  civilização.  Súbditos  de  Portugal, 
perseguidos  no  reino  pelo  Santo  Officio,  eram  no  extrangeiro, 
sem  escrúpulo,  acolhidos  nas  embaixadas,  e  até  ali  ás  vezes 
exerciam  cargos.  A  favor  de  um  hebreu,  Jacob  de  Castro 
Sarmento,  seu  medico,  fizera  Carvalho  em  Londres  a  recla- 
mação feobre  o  imposto  de  parochia.  Diogo  de  Aguilar,  da 
mesma  religião,  foragido  para  não  comparecer  no  tribunal 
da  Fé,  era  quem  lhe  adiantava,  em  Vienna,  as  quantias  neces- 
sárias, como  privativo  banqueiro  do  embaixador.  Antes  d'isso, 
na  mesma  capital,  o  conde  de  Tarouca  tomara  ao  serviço 
da  legação  portuguesa  o  cavalheiro  de  Oliveira,  que  a  perse- 
guição   religiosa    expeliira    da    pátria. 

Carvalho,  em  cujo  peito,  como  durante  sua  embaixada 
na  Inglaterra  pudemos  vêr,  o  preconceito  secular  hereditário, 
fontra  os  hebreus,  se  conservara,  deixava-se  neste  ponto 
vencer  pela  influencia  do  meio.  Na  catholica  monarchia  austro- 
hungara,  como  na  protestante  e  quasi  republicana  Grã-Bre- 
tanha,  via  esses  homens,  parias  em  terras  da  pen;  isula, 
acatados  e  muitas  vezes  poderosos.  A  Hollanda,  onde  os 
filhos  de  Israel  abundavam,  era  um  paiz  eminente  no  com- 
mercio,  e  por  essa  razão  soberbo  nos  mares.  As  outras  nações 
iam  alli  aprender  as  artes  da  colonização  e  os  segredos  do 
trafico.  Ao  nosso  diplomata  não  lhe  foi  difficil  comprehender 
a  parte,  que  tivera  nesse  desenvolvimento  de  riquezas  a 
raça  proscripta.  Com  individuos,  a  ella  pertencentes,  tivera 
trato  nessas  terras,  e  não  os  achara  humilhados  nem  timidos. 
Não  se  julgara  tão  pouco  obrigado  ao  desprezo,  que  era 
de  bom  tom  mostrar-lhes  no  reino.  Puzera  de  parte  o  senti- 
mento    religioso,     e     observava     a    sangria,     que    dava,     na 


92     INFLUENCIA   DO  QUE   CARVALHO  VIU   NO   ESTRANGEIRO 

substancia  da  nação,  o  constante  defluxo  de  cabedaes,  fugindo 
ao  confisco,  de  laboriosas  existências,  furtando-se  á  prisão 
e  á  morte.  Era  evidente  que  essas  riquezas  e  essas  actividades 
engrandeciam  o  paiz,  quando  nelle  sem  receio  se  podessem 
fixar.  Estas  observações  completava-as  elle  pela  leitura,  e 
estudando  os  factos  do  desenvolvimento  económico  em  outros 
povos,    convencia-se    da   justeza    de   suas    reflexões. 

Ao  mesmo  tempo,  levava-o  isto  a  meditar  nos  inconve- 
nientes do  fanatismo.  O  Pontífice  não  obrava  por  certo  de 
boa  fé  em  approvar,  na  península  hispânica,  a  perseguição 
que  não  consentia  nos  seus  Estados.  As  disputas  de  D.  João  V 
com  a  Santa  Sé;  o  despejo  d'esta  em  explorar  o  beatismo 
e  a  vaidade  d'aquelle  rei;  o  exemplo  da  Grã-Bretanha,  onde 
vivera,  e  dos  outros  paizes,  onde  o  poder  régio,  independente 
de  toda  a  sujeição  exterior,  governava  a  egreja  nacional; 
idéas  bebidas  na  roda  cosmopolita  da  diplomacia,  mais  que 
nenhuma  outra  accessivel  ao  scepticismo  reinante;  tudo  con- 
tribuía para  dissipar  nelle  o  respeito,  que  porventura  em 
algum  tempo  alimentasse,  pela  supremacia  de  Roma.  Sua 
missão  á  Allemanha;  o  espectáculo  das  intrigas,  da  má  fé, 
das  fraquezas  da  diplomacia  pontifícia;  as  queixas  que  clle 
próprio  tivera  d'ella;  o  desastre  de  suas  ambições,  em  parte 
attribuido  ás  tortuosidades  da  Cúria ;  eis  outros  tantos  motivos 
de   desaffeição   a   um    poder,    que   via   ovante    na   sua   pátria. 

Taes  antecedentes  explicam  talvez  o  que  tanto  distanciou 
a  gerência  de  Carvalho  dos  governos  anteriores;  a  obediência 
ás  leis  imposta  a  todo  o  transe;  o  nivelamento  geral  ante  ia 
rasoura  da  majestade;  o  confisco  da  Inquisição  em  beneficio 
do  poder  régio;  finalmente  a  ousadia  e  a  violência  do  repto 
á   autoridade   papal. 


II 


Os  oito  meses,  que  decorreram,  desde  que  chegou  a 
Lisboa,  até  á  morte  de  D.  João  V,  foram  para  Carvalho 
cheios   de   inquietação    e   desgosto.    Ao   contrario   de    quanto 


CARVALHO    MAL    RECEBIDO    EM    LISBOA  93 


pudera  imaginar,  nem  a  influencia  do  secretario  de  Estado, 
seu  tio,  nem  o  apoio  da  Rainha  lograram  vencer  a  antipathia 
do  monarcha.  Durante  esse  tempo,  debalde  postulou  um 
logar  de  Conselheiro  ultramarino  ou  da  fazenda,  premio,  a 
seu  vêr,  de  nenhum  modo  exagerado,  aos  serviços  que  pres- 
tara. Todos  os  esforços,  porém,  naufragaram,  ante  a  persis- 
tente m.á  vontade  do  rei,  que  a  hostilidade  dos  cortesãos 
alimentava.  A  desillusão  devia  pungir  bem  fundo  o  preten- 
dente, tanto  mais  que  o  estado  de  sua  fazenda,  comprom.ettida 
por  gastos   excessivos,   nada   tinha   de   prospero   nessa   época. 

Morrera  entretanto  o  influente  jesuita  Carbone,  a  quem 
no  periodo  da  doença,  Carvalho,  como  outras  pessoas  da 
corte,  assiduamente  visitava.  Quer  fosse  a  manifestação  de 
carinho  sincera,  quer  propósito  de  simulada  dedicação,  não 
faltou  quem  depois  attribuisse  a  tal  proceder  o  intuito  de 
propiciar  a  Companhia  de  Jesus,  ainda  poderosa,  ás  suas 
pretenções    no   paço. 

Inesperadamente,  no  mês  de  maio  falleceu  Marco  António. 
O  rei,  na  decadência  da  paralyâia  adeantada,  agarrado  aos 
seus  bentinhos  e  imagens,  póde-se  dizer  agonizou  desde 
então.  A  tarefa  de  governar  incumbia  agora  a  Pedro  da 
Motta  e  Silva,  também  invalido,  a  frei  Gaspar  da  Encarnação, 
acaso  mais  ignorante  ainda  que  fanático.  Ao  lado  d'este 
ultimo,  Alexandre  de  Gusmão  exercia  um  influxo  benéfico, 
supprindo  a  incapacidade,  e  temperando,  até  onde  era  possível, 
os  desatinos  do  rei  e  dos  ministros.  De  qualquer  d'estes, 
não  podia  Carvalho  lograr  protecção.  Com  frei  Gaspar,  que 
tinha  a  maior  autoridade,  prevaleciam  as  queixas  de  Roma, 
e  o  effeito  das  intrigas  de  Sampaio.  A  Pedro  da  Motta,  se 
bem  que  neutral,  nada  movia  de  sua  apathia  e  indifferença. 
Gusmão,  esse  bandeava-se  francamente  com  o  grupo  que 
o    antigo    embaixador    considerava    de   seus    inimigos. 

Só  podia  elle  pois  contar  com  a  Rainha,  e  a  sua  coniiança 
não  foi  vã.  Se  a  situação  existente  perdurasse.  Carvalho 
teria  de  realizar  o  propósito,  já  antigo,  de  se  recolher  a 
Pombal,  e  alli  obscuramente  viver,  consagrado  á  educação 
de  seus  filhos,  e  fazendo  valer  as  suas  terras.  O  desfallecer 
rápido  de  D.  João  V  era-lhe  comtudo  uma  esperança.  Deixou-se 


94  MORTE   DE   D.   JOÃO  V 


ficar  na  corte,  onde  em  breve  a  rota  de  sua  vida  foi  tal, 
como  nos  máximos  desvarios  da  imaginação  nunca  a  sonhara. 

O  primeiro  signal  da  mudança  foi  ainda  antes  da  morte 
do  Rei,  A  Rainha  assumira  a  regência,  e  como  quer  que  s€ 
offerecesse,  para  immediata  solução,  dar  certas  providencias 
sobre  a  importação  e  commercio  de  trigos,  occorreu-lhe  tomar 
o  parecer  de  Carvalho.  O  assumpto  attingia  as  relações  do 
paiz  com  a  Inglaterra,  e  o  voto  do  antigo  ministro  era  por 
isso  competente.  Todavia  a  exclusão  de  todo  o  serviço  publico, 
em  que,  após  a  chegada  de  Vienna,  elle  se  tinha  conservado, 
singulariza  a  escollia  e  denota  favor,  tanto  mais  que  já  o 
Desembargo  do  Paço,  o  maior  tribunal  do  paiz,  havia  dito 
sobre  a  matéria. 

Dentro  de  poucos  dias,  no  ultimo  de  julho,  D.  João  V 
succumbiu.  No  animo  do  príncipe,  herdeiro  da  coroa,  traba- 
lhavam, desde  algum  tempo  já,  suggestões  de  sua  mãe,  É 
de  crer  reconhecesse  elle  próprio  aproveitáveis  dotes  do 
protegido  da  Rainha.  Como  futuro  monarcha,  assistia  por 
vezes  ao  conselho,  e  teria  lido  despachos,  alguns  bastante 
notáveis,  redigidos  por  Carvalho.  Dos  ministros  de  seu  pae 
nenhum  lhe  merecia  os  affectos,  nem  porventura  a  confiança. 
Apesar  dos  thesouros  do  Brasil,  não  faltavam  prenúncios  de 
ruina  financeira.  Os  desmandos  da  administração  interior  eram 
patentes  ao  menos  sagaz.  Nas  colónias  o  commercio  lan- 
guescia; ao  goveí-no  local  presidia,  quasi  em  exclusivo,  o  arbítrio 
de  mandões  incapazes.  O  que  era  a  politica  exterior  tinha-se 
visto  nos  desprezos  da  Inglaterra  e  na  desenvoltura  com  que 
o  plenipotenciário  português  fora  despedido  do  congresso  da 
paz  em  Aquisgrana.  Urgia  acudir  a  tudo  isto:  levantar  no 
extrangeiro  os  créditos  do  paiz,  fortalecer  no  interior  a  auto- 
ridade, restaurar  as  finanças,  emfim,  por  adequadas  provi- 
dencias, assegurar  o  trafico  mercantil  com  as  colónias,  e 
reanimar  as   decadentes   industrias. 

Para  cumprir  tão  árdua  tarefa  requeria-se,  bem  o  veria 
o  Rei,  um  ministro  de  capacidade  superior,  e,  lançando  os 
olhos  em  volta  do  throno,  não  se  lhe  deparava,  entre  os 
aulicos,  vulto  sobrelevante  da  mediocridade  geral.  Por  exclusão 
dos   que   de    perto   conhecia,   e   instigações   de   mais    de   uma 


o   NOVO   REI   E   CARVALHO  95 


parte,  escolheu  a  Sebastião  José.  Era  este,  por  assim  dizer, 
homem  novo  na  corte,  e  não  eivado  ainda  dos  vicios  d'el!a. 
Em  suas  conversações,  nos  trabalhos  de  gabinete,  em  aspi- 
rações que  não  escondia,  dava  mostras  de  um  culto  espirito 
e  de  esclarecido  patriotismo.  Trazia  do  extrangeiro  idéas  de 
reforma,  sem  comtudo  sacrificar,  aos  propósitos  revolucio- 
nários já  então  correntes  na  Europa,  os  preconceitos  caros 
á  nação.  Se  acreditarmos  o  que  nos  diz  Carvalho,  em  uma  das 
apologias,  escriptas  após  a  sua  queda,  ouvia  D.  José  ao 
cardeal  da  Motta  muitas  vezes  repetir  que  elle  o  tinha  mandado 
á  Inglaterra  instruir-se  nas  matérias  referentes  ao  commercio, 
e  essa  foi,  segundo  o  próprio  monarcha  lhe  referiu,  a  razão 
de  o  chamar  ao  ministério.  Podíamos,  talvez,  rejeitar  o  asserto, 
como  invenção  d'aquelle  que,  perseguido,  queria  do  alto  de 
sua  grandeza  confundir  os  adversários.  Temos,  porém,  não 
menos  valiosa,  a  opinião  de  D.  Luiz  da  Cunha  que,  no 
Testamento  politico,  offerecido  a  D.  José,  quando  príncipe, 
lh'o  recommendou  para  o  cargo.  Não  existe  objecção  seria  á 
versão  jesuítica,  segundo  a  qual  a  protecção  do  padre  José 
Moreira,  confessor  do  monarcha,  egualmente  influiu.  É  pro- 
vável que  todos  estes  elementos  conjugados  entrassem  na 
decisão.  Certo  é  que,  com  geral  surpresa  da  corte,  o  diplomata, 
até  ahi  pretendente  repelhdo,  conquistou,  como  de  assalto, 
o  poder,  e  em  breve  a  sua  autoridade  offuscou  a  dos  outros 
membros   do   gabinete. 

No  dia  3  de  agosto  foi  a  nomeação  participada  a 
Carvalho,  mas  o  aviso  não  menciona  que  secretaria  lhe  será 
confiada,  somente  diz  que  entrará  immediatamente  em  exer- 
cício. O  decreto,  que  lhe  distribue  os  negócios  extrangeiros 
e  da  guerra,  tem  a  data  de  5.  Entrava  pois  o  sobrinho  de 
iVlarco  António  na  posse  do  cargo  que  em  outro  tempo,  como 
direito  de  familia,  se  habituara  a  julgar  seu.  O  arcipreste 
Paulo  de  Carvalho  herdara-lhe  os  morgados.  D'este  outro 
tio  esperara  egualmente  o  cargo  politico,  por  doação  ou 
legado;  e  a  expectativa,  que  já  em  Vienna  declarava,  somente 
no  prazo,  e  esse  curto,  lhe  foi  enganosa. 

Logo  á  primeira  entrevista,  D.  José  manifestou  ao  novo 
secretario  de  Estado  o  intento  de  o  occupar  em   assumptos 


96  CARVALHO   TRIUMPHANDO 


diversos  dos  que  particularmente  lhe  competiam.  Reconhecia 
nelle  conhecimentos  vastos  do  que,  na  algaravia  da  época, 
se  chamava  «arithmetica  politica».  Pretendia  assentar  o  regimen 
de  navegação  e  commercio  «em  princípios  geométricos,  e 
como  lacs  sólidos  e  infalliveis»,  segundo  o  próprio  Carvalho 
nos  instrue.  A  intrusão  d'este  ultimo,  em  outros  assumptos, 
não  se  podia  dispensar,  quando  á  testa  da  secretaria  do  reino, 
de  todas  a  mais  importante,  ficava  ainda  Pedro  da  Motta  e 
Silva,  maníaco,  indolenle  e  valetudinário,  que,  na  indisciplina 
do  reinado  precedente,  só  dava  audiências  passada  a  meia 
noite,  e  consagrava  ao  somno  as  horas  do  dia.  Além  d'isso, 
havia  muitos  annos,  não  sahia  de  casa.  Com  Diogo  de 
Mendonça  Corte  Real,  individuo  de  medíocres  talentos,  eccle- 
siastico,  filho  do  estadista  do  mesmo  nome,  se  completou 
o  gabinete.  Pertenceu-lhe  a  secretaria  de  marinha  e  ultramar, 
na   qual   o   influente   Carvalho   superintendia   também. 

Para  muitos  foi  surpresa  não  entrar  Alexandre  de  Gusmão 
no  ministério ;  para  elle  próprio  desillusão  penosa.  É  provável 
que  nas  decisões  de  D,  José  tivessem  parte  duas  individua- 
lidades que,  influentes  nos^  primeiros  dias  do  reinado,  desappa- 
receram  depois  completamente  da  scena  politica:  o  patriarcha 
lisbonense,  cardeal  Almeida,  e  o  cardeal  D.  Nuno  da  Cunha, 
inquisidor.  Pertenciam,  é  licito  suppôr,  á  facção  adversa  na 
corte  ao  ministro  frei  Gaspar,  repellindo  com  horror  o  grupo 
fanático,  denominado  dos  jacobeus,  que  o  mesmo  patrocinava. 
O  monge,  despedido  do  governo,  era  natural  arrastar  na 
sua  queda  o  subordinado,  a  quem  os  triumphadores  de  um 
momento  não  perdoavam  a  collaboração  no  governo  ante- 
cedente, e  muito  menos  a  irreligiosidade. 

Gusmão  desabafou  o  seu  despeito  cm  termos  amargos. 
As  informações  dos  diplomatas  extrangeiros  dão  conta  d'isso. 
Entre  os  escriptos,  que  se  conservam  seus,  o  seguinte  trecho 
de  uma  carta  sem  data.  póde-se,  talvez  sem  forçada  interpre- 
tação, referir  a  esse  motivo:  «O  Baxá  (Sebastião  José  de 
Carvalho?)  conseguiu  o  fim  do  seu  empenho,  taes  são  as 
cousas  do  mundo!  O  povo  é  quem  o  ha  de  soffrer,  e  passará 
a  noticia  aos  tempos  futuros,  que  hão  de  admirar  os  feitos 
das  suas  largas  idéas,  em  tudo  o  que  fôr  da  sua  repartição, 


FIiM    DE    ALEXANDRE     DE    GUSMÃO  97 

se  nas  outras  não  tiver  parte»  i.  Se  taes  palavras  effectiva- 
mente  se  applicam  ao  ministro  de  D.  José,  bem  se  pôde 
dizer  que  o  autor  d'ellas  possuia  mais  do  que  não  vulgar 
penetração,  até  mesmo  o  d-om  prophetico.  Na  accepção 
natural,  ou  com  a  ironia  que  nellas  existe,  o  governo  de 
Pombal   acha-se   definido   naquellas   linhas. 

Relegado  para  um  logar  do  Conselho  Ultramarino, 
Gusmão  rematou  a  sua  carreira  de  estadista,  e  dentro  em 
pouco  a  existência.  Não  lhe  foi  dado  mostrar  a  craveira  de 
seus  talentos,  que  teve  de  sacrificar  á  inépcia,  prevalente  na 
corte  de  D,  João  V.  O  acerto  de  limites  com  Hespanha  na 
America,  contra  a  geral  vontade  dos  portugueses,  é  obra 
sua,  pela  qual  as  gerações  successoras  lhe  devem  ser  gratas. 
Por  elle,  a  troco  da  onerosa  posse  da  colónia  do  Sacramento, 
as  fronteiras  do  Brasil  foram  seguras  contra  as  reivindicações 
decorrentes  da  bulia  de  Alexandre  VI.  Os  dominios  portu- 
gueses alargaram-se  para  o  Sul,  dando  origem  ao  famoso 
Estado  do  Rio  Grande,  cuja  população  vivaz  e  progressiva 
é  uma  das  glorias  da  nossa  raça.  Os  males  de  que  o  reino 
padecia  mereceram-lhe  cuidados,  infelizmente  sem  realização 
pratica.  A  ruina  económica,  a  dissipação  das  rendas  publicas, 
a  desidia  dos  funccionarios,  o  atrazo  mental,  o  monachismo, 
a  inquisição,  todas  essas  ulceras  da  vida  nacional  conheceu 
e  apontou,  para  algumas  d'ellas  offerecendo  remédio.  Não 
se  temeu  das  iras  dos  grandes,  cujos  excessos,  como  alto 
funccionario,  confidente  do  monarcha,  reprehendia ;  cujos 
ridiculos,    na    intimidade,    castigou    com    finos    remoques. 

Tão  pouco  receou  a  ira  dos  beatos,  e  o  ódio  popular  que 
a  superstição  instigava,  affirmando-S€  nos  pasquins.  Quem 
merece  a  inquisição?  Gusmão!  diziam  as  sátiras.  O  autorita- 
rismo truculento,  que  se  ia  vêr  no  reinado  seguinte,  não  era 
do  seu  feitio  moral.  Pelo  contrario,  mostrava-se  empenhado 
em  diminuir  as  contravenções  para  evitar  os  castigos.  Foi, 
segundo  todos  os  dados,  um  espirito  superior,  annullado 
pelo  meio  hostil  e   retrogrado. 


í     A   Martinho   Velho   Oldemberg.    Ms. 

o    MARQUÊS     Dí:     POMRAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  7 


98     FACÇÕES  OA  CORTE  ANTES  DA  EXALTAÇÃO   DE  D.    JOSÉ 

Não  se  conformando  com  a  queda  definitiva,  pretendeu 
ainda  arcar  com  o  poder  novo,  que  assomava,  impugnando 
no  Conselho  Ultramarino  as  disposições  de  Carvalho  sobre 
as  minas  do  Brasil,  que  revogavam  as  suas  próprias.  Com 
a  brutalidade,  que  não  supportava  contradictores,  uma  repri- 
menda  arrogante  do  ministro  tolheu-lhe  as  representações. 
Uma  só  vontade,  indomável,  presidia  agora  a  todos  os  actos 
do  governo,  e  por  mais  de  um  quarto  de  século  se  impoz, 
afastando  os  obstáculos  e  destruindo  quem  se  atreveu  a 
levantar-lh'os. 


III 


Defendendo-«e,  após  a  sua  queda,  em  um  processo 
famoso.  Pombal,  respondendo  ao  libello,  que  lhe  exprobava 
abusos  de  poder  e  violências,  traçou  na  contrariedade  o 
relatório  e  a  apologia  da  sua  administração.  Tão  escandaloso, 
a  conceito  do  governo,  foi  o  debate,  que  por  um  decreto 
se  mandaram  queimar  os  autos,  corn  todos  os  traslados,  e 
prender  os  advogados  de  ambas  as  partes.  A  arbitrariedade, 
como  sempre  em  casos  taes,  foi  sem  effeito.  Evidentemente 
tinha  Carvalho  copia  sua,  que  divulgou;  doesta  se  tomaram 
outras,  e  a  prohibição,  açulando  a  curiosidade,  prestou  a 
importância  do  mysterio  a  um  escripto,  valioso  como  resenha 
de  factos,  mas  nada  encerrando  que  fosse  segredo  de  Estado, 
ou  pudesse  affectar  o  prestigio,  quer  do  governo  existente, 
quer  do   anterior. 

Por  este  documento  sabemos  quaes  foram,  pelo  critério 
de  Carvalho,  os  actos  culminantes  da  sua  gerência,  e  conhe- 
cemos as  circumstancias  em  que  foi  chamado  a  exercel-a. 
A  deducção  principia  do  tempo  em  que  D.  João  V,  oito 
annos  antes  de  morrer,  teve  o  primeiro  accesso  de  paralysia. 
O  caracter  da  doença  fez  suppôr  que  não  seria  larga  a 
existência  do  soberano,  e  logo  se  dividiu  a  corte  em  facções, 
que,  procurando  ganhar  a  confiança  do  príncipe  herdeiro, 
aspiravam  a  supremacia  no  reinado  seguinte.  À  volta  do 
cardeal  da  Motta,   primeiro   ministro  nessa   época,   e   de   frei 


A    FIGURA    ENIGMÁTICA    DE    D.    JOSÉ    I  9Q 

Gaspar,  que  lhe  succedeu,  se  formou  um  dos  grupos.  Cabeças 
do  outro  seriam,  provavelmente,  aquelles  que  mais  tarde 
ajudaram  Pombal  a  subir;  e  d'esse  numero  a  Rainha,  cuja 
influencia  elle  próprio  sem  escrúpulo  depois  annullou.  Entre- 
tanto, que  fazia  D.  José?  «Esteve  vendo  —  dizia  Carvalho  — 
com  o  mais  profundo  silencio,  arruinar  pelos  interesses  e 
pela  cobiça  dos  referidos  dois  partidos,  o  exercito;  e  a  marinha, 
o  commercio,  as  artes,  até  á  extrema  decadência  em  que 
cahiram,  sem  que  pessoa  alguma,  ainda  das  mais  intimas, 
lhe  ouvisse  jamais  proferir  uma  palavra  de  reparo,  sobre 
cousas  feitas  debaixo  da  real  rubrica  de  seu  pae. . .  Logo 
que  a  divina  providencia  lhe  devolveu  a  coroa  de  Portugal, 
tendo  comprehendido  que  as  duas  secretarias  de  Estado, 
então  vagas,  fariam  os  principaes  objectos  dos  referidos  dois 
partidos,  e  dos  seus  sequazes,  procurou  provêl-as  immedia- 
tamente  em  ministros,  que  não  tivessem  associação  alguma 
com  aquellas  facções. . .  Consequentemente  entrou  na  sua 
real  pessoa,  e  fechou  dentro  do  seu  recatado  gabinete  ijis 
resoluções  de  todos  os  negócios  das  cortes  extrangeiras,  e 
todos    os    domésticos    da    sua   jurisdicção   suprema»  ^. 

Eis  um  depoimento  que  alguma  luz  deita  sobre  essa 
enigmática  figura  de  rei,  acerca  de  quem  não  poud^  a  historia 
ainda  assegurar  se  foi  realmente  um  tyranno  consciente  e 
sanguinário,  como  deu  a  entender  o  seu  valido,  ou  apenas 
malleavel  instrumento  nas  mãos  d'elle.  Aqui  o  vemos  assistir 
taciturno  á  ruina  de  uma  herança  que,  por  muitas  razões, 
devia  suppôr  no  fundo  magnifica,  assim  como  também  o 
veremos,  no  correr  do  reinado,  não  intervir  jamais,  ao  menos 
ostensivamente,  nas  decisões  de  Pombal.  Seria  isso  boçalidade, 
indifferença,  desapego  das  cousas  graves  para  dar  preferencia 
aos  gosos  da  vida?  A  resolução  que  tomou,  assumindo  a 
coroa,  de  tirar  o  governo  aos  potentados  da  véspera,  de 
chamar  a  si  as  questões  importantes,  de  outorgar  o  poder 
a    um    homem    superior,    denota,    pelo    contrario,    previdência 


^     Contiariedadc   ao   libe  lio   offerecido   por  Francisco   José   Caldeira 
Oalhaido    Mendanha.    Coll.    Pomb.,    Cod.    680. 


100  DECISÃO  SOBRE  AS  MINAS  DO  BRASIL 


atilada.  Pôde  ser  — e  parece  foi  assim  —  que  em  vida  do  pae 
lhe  não  permittisse  este,  cioso  do  mando,  intervir  em  negócios 
do  Estado.  Pôde  ser  que  em  seguida,  seguro  do  homem  que 
escolheu,  d'elles  se  desinteressasse,  deixando-se  levar  pelo 
natural  pendor  á  indolência,  ao  prazer,  rematando  por  não 
ser  mais  que  um  autómato  que  o  ministro  meneava.  Como 
quer  que  fosse,  o  facto  de  conservar  nelle  a  confiança,  a 
despeito  das  numerosas  influencias  adversas,  todo  o  tempo 
do  reinado,  demonstra  que  possuía  pelo  menos  firmeza  de 
vontade  não  vulgar.  A  não  ser  que,  dominado,  não  pudesse 
mais  fugir  á   suggestão. 

O  primeiro  negocio,  alheio  á  secretaria  de  Carvalho, 
que  o  Rei  lhe  entregou,  foi  o  das  minas  do  Brasil.  O  caudal 
de  imprevistas  riquezas,  que  por  um  instante  parecera  rewovar 
o  antigo  sonho  da  índia,  ameaçava  exhaurir-se.  O  ouro 
português  defluia,  atravéz  da  Europa,  deixando  o  reino  mise- 
rável. Na  colónia,  onde  eram  as  jazidas,  uma  legislação  impo- 
tente e  barbara,  a  pretexto  de  regularizar,  suffocava  as 
iniciativas,  paralysava  a  natural  industria  do  homem.  Á  volta 
da  região  aurífera  creara  a  lei  uma  imaginaria  barreira,  que 
era  delicto  de  summa  gravidade  transpor,  a  não  ser  por 
três  únicos  caminhos,  guardados,  para  evitar  o  contrabando; 
e  além  do  território  defeso,  a  vigilância  extendia-se,  atravéz 
do  continente,  até  aos  portos  de  mar. 

A  quinta  parte  do  ouro  minerado  tocava  por  direito 
á  coroa;  pesado  tributo,  que  absorvia  o  mais  liquido  da 
exploração.  O  lucro  era  portanto  enorme,  e  a  tentação  irre- 
sistível, para  os  que  podessem  illudir  a  suspeita  do  fisco, 
que  em  todas  as  comarcas  abria  devassa  permanente,  atra- 
vessava o  oceano,  e  vinha  surprehender  os  extravios,  ao 
desembarque,  nas  praias  da  metrópole.  Nenhuma  providencia 
impedia  a  natural  reacção  do  interesse  particular  contra  essa 
extorsão.  O  ouro  em  pó,  que  no  território  das  minas  corria 
livremente^  e  era  a  única  moeda,  tinha  de  ser  quintado  á 
sahida,  e  reduzido  a  barras,  com  o  cunho  do  governo.  Mas 
essa  obrigação  illudia-se,  e  grandes  porções  de  metal,  trazido 
clandestinamente  ás  cidades,  passavam  depois  com  marca 
falsa,  ou  se  convertiam  em  obras  grosseiras  de  ourives.  Não 


AS    CASAS    DE    FUNDIÇÃO    DE    OURO  101 


logrando  vencer  o  atrevimento  e  a  astúcia  dos  defraudadores, 
Carvalho  recorreu  mais  tarde  a  um  de  seus  meios  radicaes: 
mandou,  nas  principaes  cidades  do  Brasil,  fechar  as  officinas, 
destruir  as  forjas,  e  apprehender  os  utensilios  de  ourivesaria; 
determinou  que  grande  numero  de  operários,  na  maior  parte 
gente  de  côr,  sentassem  praça,  e  aos  restantes  se  applicasse 
a  pena  dos  moedeiros  falsos,  quando,  fora  de  certos  casos 
restrictos,  e  licença  dos  governadores,  praticassem  a  sua  arte. 

Ao  subir  ao  throno  D,  José,  as  circumstancias  em  que 
a  industria  da  mineração  se  encontrava  eram  das  menos 
prosperas.  No  reinado  antecedente  o  governo,  verificando 
a  sua  impotência  de  cohibir  o  contrabando,  reduzira  o  imposto 
do  quinto  a  metade,  e,  sendo  isso  improficuo,  o  substituirá 
depois  por  uma  taxa  pessoal,  por  cada  trabalhador  empregado 
nas  minas.  Este  systema  de  cobrar  o  tributo  provocara  também 
protestos.  Com  razão  ou  sem  ella,  attribuia-se  á  capitação 
a  decadência  da  industria  mineira.  É  provável  que,  por  esta 
sorte,  sendo  menos  fácil  o  enganar  os  exactores,  o  imposto 
^pesasse  mais  duramente  sobre  os  mineiros,  que,  como  é 
sabido,  inão  trabalhavam  por  si,  mas  tinham  seus  escravos 
occupados  na  extracção.  O  certo  é  que  o  numero  doestes 
últimos  diminuia  a  olhos  vistos.  No  espaço  de  dois  annos, 
em  1748  e  49,  cerca  de  quinze  mil  negros  abandonaram  ,o 
serviço.  Os  exploradores,  a  quem  restavam  alguns  meios, 
iam  buscar  fortuna  a  outras  paragens. 

As  razões,  que  se  invocavam  contra  a  capitação,  pare- 
ceram acceitaveis  a  Carvalho,  não  pelo  que  podia  affectar 
a  propriedade  dos  mineiros,  mas  para  fazer  rendoso  o  tributo. 
Em  1734  tinham  aquelles  proposto  quitarem-se  do  direito 
senhorial,  pelo  pagamento,  repartido  entre  todos,  de  cem 
arrobas  de  ouro  em  cada  anno.  A  avença  rejeitada  por 
D.  João  V,  foi  o  systema  adoptado  por  Carvalho,  modificado, 
porém,  de  sorte  que  se  tornou  menos  gravoso  aos  tributados. 
Foi  portanto  restabelecido  o  processo  de  cobrança,  anterior 
á  capitação.  Tomavam-se  as  cem  arrobas  como  base  fixa 
do  imposto.  Todo  o  ouro  que  sahia  do  districto  devia  ser 
levado  ás   casas  de   fundição,   nas   cabeças   de  comarca,   para 


102        O   IMPOSTO   DE   CEM  ARROBAS  DE  OURO  ANNUAES 


se  reduzir  a  barras,  deixando  ficar  a  quinta  parte  do  seu 
peso,   valor  dos   direitos. 

Como  o  metal  bruto  era  a  única  moeda,  succedia  que, 
nos  pagamentos  e  nas  vendas  que  os  mineiros  faziam,  se 
descontava  logo  o  quinto  devido  á  fazenda,  e  assim,  com 
esta  quebra  de  valor,  o  ouro  em  pó  ia  correndo,  de  maneira 
que  sem  incommodo  do  productor  se  arrecadava  a  con- 
tribuição. 

Segundo  a  proposta  de  1734,  agora  acceita  pelo  governo, 
o  imposto  consistia  nas  cem  arrobas  de  ouro,  ou  o  mais  que 
os  quintos  produzissem,  compleíando-se,  por  derrama  entre 
os  extractores,  a  quantia  determinada,  quando  aquelles  não 
chegassem.  Como  se  disse,  uma  concessão,  favorável  aos 
tributados,  vinha  pela  nova  lei  suavizar-lhes  o  encargo.  O 
excesso,  que  em  um  anno  se  verificasse  sobre  o  minimo  do 
ajuste,  levava-se  em  conta,  como  garantia  de  renda  do  anno 
seguinte;  revertia,  porém,  á  coroa,  quando  preenchido  o 
limite  pela  entrada  regular  da  contribuição. 

Sem  que  a  mudança  obstasse  aos  contrabandos,  aos  quaes 
o  enorme  valor  da  imposição  convidava,  os  colonos  deram-se 
por  satisfeitos:  o  producto  conhecido  das  minas  augmentou; 
e  a  fazenda  real  teve  á  sua  parte  muito  mais  do  que  a 
quantia  minima,  arbitrada  na  lei  para  cada  anno.  Segundo 
um  historiador,  que  bem  entendeu  as  cousas  do  Brasil,  o 
inglês  Roberto  Southey,  foi  esta  a  edade  de  ouro  do  governo 
português.  No  anno  de  1753,  por  exemplo,  ascendei-am  os 
quintos   a   quatrocentas   mil   libras   esterlinas. 

Em  Lisboa  a  camarilha  adversa  á  nova  administração 
não  applaudiu  a  reforma,  e  do  Conselho  Ultramarino  sahiu 
um  protesto,  no  qual,  á  primeira  vista,  o  despeito  de 
Alexandre  Gusmão  se  revela.  O  tribunal,  incumbido  de  espe- 
cializar em  regulamentos  parciaes  os  differentes  pontos  da 
lei,  formulou  em  consulta  uma  extensa,  miúda  e  muitas  vezes 
acrimoniosa,  analyse  da  mesma,  que  nenhuma  parte  vulne- 
rável deixa  encoberta,  e,  em  mais  de  um  logar,  obscurece  e 
condemna  o  que  de  si  mesmo  é  claro,  e  os  factos  demon- 
stravam vantajoso. 

Carvalho    não    era    homem    para    soffrer    ou    perdoar    a 


ALEXANDRE   DE   GUSMÃO   REPRIMIDO  103 


contradicção,  que  demais  lhe  era  feita  em  forma  aggressiva. 
Retorquiu  de  modo  áspero,  —  «O  Conselho  fique  sabendo  que 
as  suas  mais  obvias  e  mais  indispensáveis  obrig-ações  con- 
sistem no  profundo  e  sempre  inviolável  respeito  ás  minhas 
leis»  —  dizia  em  nome  do  Rei.  —  A  combatividade  innata  de 
Gusmão,  a  altivez  do  seu  caracter,  não  lhe  permittiam  receber 
sem  tornas  a  censura.  Redigiu,  em  nome  do  Conselho  uma 
Consulta  submissa,  expondo  que  podiam  os  tribunaes  dis- 
sentir do  parecer  régio,  sobre  o  conteúdo  das  leis,  e  todavia 
respeital-as.  «Dizendo  o  Conselho  no  seu  voto  tudo  o  que 
entende,  satisfaz  o  fim  para  o  que  é  destinado,  ainda  que 
não  seja  approvado  o  seu  parecer». 

Por  acertado  e  justo  que  o  conceito  fosse,  não  agradou 
ao  ministro,  que  entendia,  para  seu  uso  próprio,  attribuir 
ao  Rei,  além  da  indiscutível  autoridade,  a  omnipotência  do 
saber.  Um  aviso,  subscripto  por  Diogo  de  Mendonça,  lacónico 
e  severo,  devolvendo  a  consulta  sem  despacho,  foi  a  resposta 
que  lançou  em  consternação,  e  deixou  aterrados,  os  do 
Conselho.  Com  esta  primeira  explosão,  se  bem  que  benigna, 
se  abriu  o  cam.inho  para  o  apertado  rigor  do  governo 
pombalino. 

IV 


Outras  providencias,  também  sobre  o  commercio  do 
Brasil,  em  contraste  impressivo  com  a  habitual  inércia  da 
administração  portuguesa,  afastaram  a  ruina,  que  parecia 
inevitável,  do  trafico,  e  deram  inesperadamente  vida  nova  ás 
relações  do  paiz  com  as  colónias  da  America  e  com  o  extran- 
geiro. 

O  tabaco  e  o  assucar  eram  os  principaes  géneros  de 
commercio  do  Brasil,  commercio  opprimido  por  vexações  de 
toda  a  ordem,  tolhido  na  sua  expansão  pelos  invencíveis 
liames  do  systema  colonial.  Não  falamos  do  productor,  á 
mercê  dos  negociantes  da  metrópole,  e  para  quem  a  permuta 
com  as  possessões  ultramarinas  representava  um  monopólio. 
A  navegação  pouco  frequente,  e  só  pelas  frotas,  dava  causa 


104  O  TABACO  E  ASSUCAR  DO  BRASIL 


á  irregularidade  dos  abastecimentos,  e  á  carestia  dos  fretes, 
cujo  ónus  duplamente  carregava  sobre  o  género  colonial. 
No  reino  o  imposto  da  exportação  e  as  dispendiosas  forma- 
lidades da  alfandega  prejudicavam  a  sabida  para  as  praças 
extrangeiras,  de  sorte  que  muitas  vezes  se  accumulavam  os 
depósitos,  as  mercadorias  se  deterioravam,  e  sobre  esse  privi- 
legiado commercio,  que  tanto  ciúme  resguardava,  frequentes 
vezes  se  via  passar  um  tufão  de  ruína. 

Era  o  que,  na  occasião  de  que  nos  occupamos,  succedia. 
Provimentos  successivos  de  producíos  brasileiros  tinham-se 
agglomerado  na  alfandega  da  capital.  A  quantidade  enorme 
das  caixas  de  assucar,  tendo  enchido  os  armazéns,  abarrotava 
as  lojas  e  cavallariças  do  Palácio  Corte  Real,  alli  contíguo, 
apinhando-se  por  ultimo  em  telheiros,  para  esse  fim  levan- 
tados, de  cuja  grandeza  se  julgará  pelo  facto  de  ter  custado 
a  construcção  cerca  de  60  mil  cruzados.  Estava  para  chegar 
a  frota  de  Pernambuco,  e  não  se  deparava  meio  de,  pela 
diminuição  do  existente,  abrir  logar  para  o  futuro  deposito. 
Com  o  tabaco  não  era  menor  o  impedimento,  nem  mais 
obviavel  o  embaraço.  Como  tantas  vezes  succede,  quando 
meios  officiaes  obstam  á  livre  circulação  dos  productos,  essa 
abundância,  que  em  outras  condições  seria  indicio  de  prospe- 
ridade e  riqueza,  significava  agora,  para  todos  os  interessados 
no  commercio  do  Brasil,  uma  perda;  para  muitos  a  decadência 
da  fortuna,  talvez  a  miséria.  No  aperto  da  conjunctura,  aos 
que  tinham  a  responsabilidade  da  administração  não  occorrera 
até  ahi  meio  de  acudir  ao  perigo  dos  particulares;  e  para 
garantir  interesses  do  Estado,  a  Junta  do  Tabaco  alvitrou 
que  se  lançasse  ao  fogo  a  enorme  porção  existente  d'esse 
género,  a  fim  de  abrir  espaço  ao  que,  a  todo  o  instante, 
devia  chegar. 

Além  da  perda  dos  proprietários,  orçava-se  a  despesa 
da  queima  em  quatro  mil  cruzados.  A  praça  de  Lisboa, 
aterrada,  representou  contra  a  selvagem  medida,  que  arrui- 
nava muitas  casas  da  metrópole,  além  dos  lavradores  da 
Bahia.  Nesse  momento  interveio  Carvalho,  para  quem  o 
ensinamento  colhido  na  Inglaterra  não  fora  baldado.  Vira 
talvez  alli  como  a  instinctiva  observação  das  leis  económicas, 


DECRETOS  DE  6  E  17  DE  JANEIRO  DE  1751  105 

por  um  governo  intelligente,  facilitava  a  expansão  do  com- 
mercio,  livre  de  peias.  Mais  attentamente  poderia  notar  que 
a  livre  circulação  dos  productos  favorece  o  consumo,  e  esta- 
belece o  equilibrio  dos  mercados.  Não  podia  o  ministro 
entender,  e  muito  menos  acceitar,  este  principio  de  absoluta 
liberdade,  a  que  por  temperamento  era  infenso,  tanto  como 
por  tradição  e  doutrina ;  mas  d^elle  tomava  o  bastante  para 
reconhecer  que,  desobstruidos  os  canaes  da  exportação  e 
consumo,  os  productos  circulariam,  assumindo  nas  diversas 
praças,  em  face  da  procura  universal,  o  mesmo  nivel,  por 
effeito  de  uma  lei  semelhante  á  que  determina  o  movimento 
dos  liquidos,   em   vasos   communicando   entre  si. 

Foi  isso  o  que  realizou  com  os  decretos  de  16  e  27 
de  janeiro  de  1751,  pelos  quaes  diminuiu  e  tornou  menos 
dispendiosa  a  formalidade  dos  despachos;  facilitou  no  porto 
as  baldeações,  reduziu  os  direitos  da  entrada,  e  concedeu 
abatimento  de  metade,  aos  que  se  destinassem  para  fora  do 
paiz.  Com  isto  se  estimulou  o  mercado,  e  a  exportação, 
favorecida,  em  breve  fez  desapparecer  o  excesso  de  productos 
accumulados,  que  trazia  a  ruína. 

Não  faltaram,  todavia,  nestas  leis,  as  clausulas  em  que 
os  preconceitos  económicos  da  época,  e  os  pessoaes  do 
ministro,  se  revelavam.  Todas  as  particularidades  d'este 
negocio  dos  tabacos  tinha-as  elle  estudado  na  Inglaterra,  por 
indicação  do  cardeal  da  Motta,  que  projectara  um  tratado  de 
commercio  com  a  França,  tendo  por  base  a  introducção  d'este 
género  das  nossas  colónias  naquelle  paiz.  A  concessão  do 
premio,  em  abatimento  de  direitos,  á  exportação,  era  adoptada 
da  pratica  britannica,  assim  como  a  nova  disposição  creando, 
nos  centros  productores,  as  mesas  de  inspecção,  destinadas 
a  fiscalizar  a  qualidade  dos  tabacos,  condemnando  os  ruins. 

A  acção  de  Carvalho  não  se  limitou,  todavia,  a  estas 
providencias,  de  incontestável  utilidade.  No  intuito  de  favo- 
recer os  intermediários,  que  traziam  á  Europa  os  dois  valiosos 
productos  da  agricultura  colonial,  fixou  o  preço  máximo,  que 
era  licito  aos  lavradores  exigirem,  taxou  os  fretes,  e  deter- 
minou a  ordem  dos  embarques,  com  um  regulamento 
minucioso  e  oppressivo. 


106  OPINIÃO    DE    DIPLOMATAS    SOBRE    CARVALMO 


Estas  disposições,  violando  as  leis  económicas,  eram  por 
sua  vez  desattendidas.  Surgiam  protestos  e  resistências,  e  as 
penas  da  transgressão,  aggravadas  por  leis  posteriores,  raras 
vezes  impediam  que  o  justo  interesse  individual,  por  ellas 
offendido,    readquirisse,    por    meio    da    fraude,    seus    direitos. 

A  energia  de  Carvalho,  revelada  em  suas  decisões,  a 
novidade  de  algumas  d'ellas,  neste  como  em  outros  ramos  da 
administração,  por  tal  forma  destoavam  do  torpor  habituai, 
que  dentro  do  paiz  e  fora  d'elle  estes  actos  provocaram  reparo 
e  surpresa.  Em  Hespanha,  que  caminhava  no  mesmo  compasso 
comno«co,  a  impressão  foi  de  escândalo.  O  gabinete  de 
Madrid  capitulava  de  extravagantes  as  idéas  de  Carvalho ; 
não  tinha  confiança  em  suas  aptidões,  nem  em  suas  máximas 
de  governo.  O  embaixador,  descrevia-lhe  de  Lisboa  o  caracter 
do  ministro :  «5/  algo  se  puede  figurar  en  lo  general  es  una 
espécie  de  quijotismo  cstadistico,  con  que  se  batalla  con  molinos 
de  viento»  i.  Os  diplomatas  das  outras  nações  achavam  o 
homem  phantastico  nas  ídéas,  cavilloso  e  tomado  de  ambição 
de  poder  e  de  fama.  Entretanto  ia  crescendo  a  sua  autoridade 
sobre  a  dos  outros  ministros,  e  o  seu  ascendente  no  espi- 
rito do   rei. 

Outro  assumpto,  que  directamente  affectava  a  prospe- 
ridade do  commercio  nacional  e  as  rendas  da  coroa  exigiu 
dentro  em  pouco  a  acção  de  Carvalho.  O  opulento  terreno 
do  Brasil  não  dava  á  metrópole  somente  productos  da  agri- 
cultura e  o  metal  por  excellencia  precioso.  À  torrente  fulva 
do  ouro  tmham  accrescido  os  diamantes,  descobertos,  em 
1729,  nesse  privilegiado  districto  das  Minas,  onde,  se  é 
verdadeira  a  tradição,  um  individuo  familiarizado  com  as 
gemmas  da  índia,  pela  primeira  vez  os  conheceu.  Um  acaso 
vulgar,  a  visita  do  forasteiro  á  cabana  de  um  sertanejo,  deu 
repentinamente    valor   a   «ssas    p-edras,    até    ahi    desdenhadas, 


^     Despacho  do  duque  de  Sotomayor  em   um   curioso  artigo  do    P. 
B.    Duhr:    Ziir    Chutaktetisiik    Pombais    nach    den    snanisclien    Papiereu 
in     Si  mancas,     na     revista     Zeííschrift    fiir    kath.     Theologle,     vol.     xxni. 
iSOO   pacr.    444. 


A    MINERAÇÃO    DOS    DIAMANTES  107 

e  recolhidas,  como  crystaes  vulgares,  na  areia  dos  regatos, 
ou   nos   tejucos   dos   pântanos. 

O  contentamento  foi  enorme,  mas  bem  depressa  se 
converteu  para  uns  em  miséria,  para  outros  em  cuidados. 
No  local  onde  manava  essa  opulência,  o  circulo  das  prohi- 
bições  e  castigos,  existentes  por  causa  do  ouro,  apertou-se 
ainda  mais.  Na  corte  toda  a  casta  de  receios  assaltou  ia 
avareza.  Chegou-se  a  temer  que  a  producção  copiosa  e, 
como  a  'muitos  parecia,  inexhaurivel,  tirasse  ao  diamante  a 
nobreza,  para  o  reverter  em  simples  calhau.  E,  na  verdade, 
até  certo  ponto,  os  acontecimentos  iam  justificando  o  temor. 

Poucos  annos  eram  passados,  e  já  o  diamante  de  boa 
agua  baixara  no  preço  para  2S400  réis  o  quilate.  A  explo- 
ração era  livre,  como  a  do  ouro,  mediante  o  imposto  da 
capitação,  e  o  producto  excedia  consideravelmente  a  capa- 
cidade de  emprego  no  paiz.  Quando  o  fausto  da  coroa,  a 
ostentação  dos  santuários,  a  vaidade  dos  fidalgos,  o  capricho 
das  mulheres,  chegaram  ao  limite  de  saturação;  quando  as 
bolsas  exgottadas  nada  mais  podiam  dar,  fechou-se  o  mercado 
nacional  para  a  inútil  mercadoria.  Estagnavam  os  thesouros, 
nas  mãos  dos  possuidores,  como  a  agua  nos  paiíes.  Procu- 
rou-se  dar-lhes  sabida  para  outros  paizes,  mas  a  dique  dos 
judeus,  que  em  Londres  e  Amsterdam  monopolizava  o 
commercio  da  pedraria,  promettia  desbaratar  toda  a  concur- 
rencia.  Em  1734,  D.  João  V  mandou  cessar  inteiramente  a 
extracção. 

Um  hebreu  português,  residente  na  Inglaterra,  a  quem 
o  Enviado  Marco  António  consultou  por  ordem  do  governo, 
suggeriu  o  regimen  d'ahi  por  deante  seguido.  A  prohibição 
existente  ficou  definitiva,  creando-se  o  estanco,  pelo  qual 
a  extracção  dos  diamantes  se  deu  em  privilegio  a  um  só 
individuo,  mediante  arrematação.  As  vantagens  pareciam 
importantes.  A  capitação,  que,  no  principio  de  cinco  mil  réis, 
passara  a  34  mil,  elevou-se  a  230  mil  réis.  Para  conter  a 
producção  limitou-se  a  área  explorada,  e  fixou-se  o  máximo 
numero  dos  trabalhadores  em  seis  centos.  A  organização, 
permittindo   ao   contratante,   livre   da   concurrencia,    regular   a 


108  O    CONTRACTO    DOS    DIAMANTES 

offerta,  e  escolher  o  momento  opportuno  das  vendas,  afastava 
o  receio  de  se  tornar  o  producto,  pela  abundância,  depreciado. 

Todavia,  não  corresponderam  jamais  os  resultados  á 
expectativa.  O  privilegio  era  dado  por  quatro  annos.  Em 
1753  terminava  o  de  Francisco  Caldeira  Brant.  Pela  tradição 
brasileira,  o  periodo  d'este  contrato  representa  uma  era  de 
excepcional  prosperidade  e  socego,  para  os  habitantes  da 
região  diamantifera.  A  vigilância,  tão  ferrenha  sob  o  regimen 
da  mineração  livre  e  dos  primeiros  contratos,  afrouxou.  As 
devassas  cxtinguiram-se,  e  o  contrabando,  não  reprimido, 
facultou  virtualmente  a  todc-^s  a  exploração.  Tudo  com  assenti- 
mento de  Caldeira  que,  não  obstante  renunciar  ás  principaes 
vantagens  do  privilegio,  a  olhos  vistos  enriquecia,  segundo 
a  opinião  geral. 

A  tradição  da  bondade  do  arrematante  parece  enganosa. 
Ou  elle  era  por  Índole  negligente,  ou  lhe  conviria  fechar  os 
olhos  ás  alheias  transgressões,  para  lhe  não  descobrirem  as 
próprias.  Certo  é  que,  com  taes  desvios,  não  lhe  poude 
o  cabedal  progredir.  O  monopólio,  pago  tão  alto,  e  em  que 
o  principal  valor  do  contrato  consistia,  deixava  de  existir; 
as  despesas  da  exploração  eram  enormes;  e,  se  bem  que  o 
numero  de  trabalhadores  fosse,  conforme  a  tradição,  clandes- 
tinamente elevado  a  quatro  mil,  o  edifício  d'essa  imaginaria 
prosperidade    em    breve    desmoronou. 

Além  dos  gastos,  aviolumados  pela  faustosa  existência 
do  contratador,  e  pelo  suborno  dos  fxmccionarios,  que 
encobriam  os  íabusos,  havia  o  empate,  pelo  valor  das  pedras 
em  deposito,  representando  avultadas  sommas.  Para  não 
depreciar  o  mercado,  fora  estabelecido,  neste  contracto,  que 
os  diamantes,  a  elle  pertencentes,  só  se  venderiam  quando 
acabados  os  remanescentes  do  período  anterior.  Nesta  época 
achava-se  Caldeira  em  débito  de  594  contos,  por  impostos 
e  adeantamentos,  com  a  fazenda  real;  mais  449  em  Lisboa, 
com  varias  pessoas,  por  empréstimos  sobre  o  penhor  de 
diamantes;  e  chegava  a  frota  com  saques,  no  valor  de  quasi 
300   contos,    que   não  puderam   ser   pagos. 

No    Brasil   declarava   Caldeira   a   sua   insolvência,   preten- 


EMBARAÇOS  ATTRIBUíDOS   AOS   HEBREUS  109 

dendo,  para  a  explicar,  haverem-lhe  subtrahido  dos  cofres 
pedraria  no  valor  de  duzentos  mil  cruzados.  Este  roubo 
nunca  se  ponde  piov^ar,  e,  pela  dolosa  fallencia  e  conhecidas 
transgressões,  foi  o  arrematante  preso  e  remettido  para  o 
reino,   perdendo   todos   os    bens. 


V 


A  conjunctura  era  de  risco  para  os  interesses  da  coroa, 
empenhada  na  alta  do  preço.  Carvalho,  que,  por  temperamento 
e  systema,  em  toda  a  parte  enxergava  conspiradores, iattribuiii 
logo  os  embaraços  a  um  conluio  de  hebreus,  cujo  agente 
seria  Francisco  Salvador,  quando  fez  adoptar  pelo  governo 
português  o  regimen  existente.  A  grei  exultava  agora,  recupe- 
rando o  monopólio,  que  de  tempos  immemoriaes  fora  seu. 
Pelos  portos  do  Mediterrâneo,  em  outras  eras;  mais  tarde, 
quando  as  nossas  descobertas  o  permittiram,  torneando  a 
Africa,  eram  sempre  os  israelitas  que  á  Europa  traziam  as 
pedras  preciosas,  adquiridas  na  índia.  A  apparição  de  tiia- 
mantes  no  Brasil  seria  para  este  commercio  golpe  fatal,  se 
a  intervenção  de  Salvador  o  não  tivesse  a  tempo  desviado. 
Taes  eram,  em  semelhante  matéria,  as  convicções  do  ministro, 
quando  dizia:  «Os  hebreus,  que  constituem  uma  republica, 
cujos  individuos,  espalhados  por  todas  as  quatro  partes  do 
mundo,  observam  entre  si  umia  tal  e  tão  estreita  ligação,  e 
uma  tão  intima  correspondência  de  recíprocos  interesses,  e 
mútuos  auxilios  que,  sem  terem  um  chefe  que  lhes  sirva 
de  centro  de  união,  se  fazem  muito  poderosos,  havia  muitos 
séculos  que  faziam  este  precioso  commercio  exclusivo,  pelas 
escalas  do  Levante,  e,  quando  as  nações  christãs  da  Europa 
foram  ao  Oriente,  pela  navegação  do  cabo  da  Boa  Espe- 
rança, 

Achando-se  pois  já  então  os  ditos  hebreus  tão  instruídos 
em  todos  os  interesses  e  em  todas  as  opporf unidades  do 
mesmo  commercio,  quando  as  outras  nações  da  Europa  se 
achavam   destituirias    d'estes    conhecimentos,    se    propuzeram 


110  EAABARAÇOS  ATTRIBUIDOS   AOS   HEBREUS 


por  objecto  conservarem-se  na  posse  do  fechado  monopólio, 
que  antes  s€  tinham  arrogado»  i. 

ÍZ  acerca  de  Francisco  Salvador,  e  do-  seu  projecto  posto 
em  pratica,  cessando  a  exploração  livre  das  jazidas:  «Causou 
ao  dito  famoso  hebreu  uma  grande  alegria  não  só  ver 
fechadas  as  minas  do  Brasil,  que  lhe  tinham  envilecido  um 
gcnero,  em  que  consistia  uma  das  mais  importantes  partes 
dos  seus  grossos  cabedaes,  e  dos  outros  monopolistas  da 
sua  nação,  com  elle  associados,  mas  também  achar-se  auto- 
rizado para  fazer  cessar,  com  os  seus  sinistros  conselhos, 
o  grande  prejuizo  que  lhe  tinha  causado,  €  causaria,  o  novo 
descobrimento  das  minas  do  Brasil.  Com  estes  pontos  de 
vista,  para  elle  tão  claros  quanto  foram  escuros  para  'as 
pessoas  que  o  dito  senhor  rei  D,  João  V  havia  encarregado 
d'este  importante  negocio,  formou  pois  o  mesmo  hábil  le 
astuto  hebreu,  e  mandou  o  dito  ministro  plenipotenciário 
á  sua  corte,  o  plano  tíe  ruina,  que  foi  logo  mandado  pôr 
em  execução,  como  effectivamente  se  fez,  com  as  tristes 
consequências  que  eram  naturaes  de  um  tal  antecedente^)  2. 

Se  a  existência  de  uma  liga  de  israelitas,  ostensivamente 
ou  por  tácito  accordo,  para  conservarem  entre  si  algum  ramo 
de  commercio,  particularmente  o  das  pedras  finas,  por  muitos 
factos  se  pode  comprovar,  outro  tanto  não  succede  com 
o  propósito,  attribuido  a  Salvador  por  Carvalho,  que  tinha 
a  idéa  fixa  dos  conspiradores  como  outros  o  delirio  da 
perseguição.  Este  exagero  de  conceito  não  lhe  obstava, 
todavia,  a  comprehensão  nitida  das  necessidades  do  momento, 
e  foi  com  a  sua  habitual  decisão  que  afastou  a  crise  pendente 
sobre  o  commercio  da  capital.  Â  noticia  de  terem  sido 
protestadas  as  letras,  assumiu  para  o  thesouro  o  encargo 
das  mesmas,  mandando-as  pagar  pela  Casa  da  Moeda,  Exo- 
nerou os  caixas,  sacados,  representantes  do  fallido,  e  substi- 
tuiu-os   por  outros,    que   nomeou,   incumbindo-lhes   tomassem 


1  Deducção   compendiosa  do   contrato  da  mineração   dos   diamantes, 
Cc-ll.    Pomb.,   Cod.    695. 

2  Deducção    compendiosa,    etc. 


MONOPÓLIO    DOS    DIAMANTES  111 


conta  das  pedras  existentes  e  das  que  chegavam,  e  fossem 
realizando  vendas  paulatinamente,  para  não  ser  o  preço 
envilecido.  Sobre  isto,  deu  ordem  para  se  arrolarem  os 
diamantes  empenhados,  intimando  aos  detentores  que  os  não 
poderiam  vender,  ou  passar  de  mão,  sem  preceder  licença 
regia.  Com  estas  providencias  foi  o  perigo  do  momento 
conjurado. 

Feito  isso,  para  salvar  da  perda  imminente  este  negocio 
rendoso  do  Estado,  não  se  lhe  deparou  melhor  recurso  que 
a  continuação  d'esse  mesmo  regimen  de  monopólio,  impu- 
tado á  malicia  dos  judeus.  Guidoíu,  pois,  de  restabelecer, 
na  sua  integridade,  o  privilegio,  que  a  incúria  do  precedente 
concessionário  verdadeiramente  annullara.  E,  para  o  tornar 
mais  effectivo,  declarou,  por  um  decreto,  que  d'ahi  por  diante 
a  coroa  tomava  o  contrato  debaixo  da  sua  immediata  prote- 
cção. Por  effeito  d'isso,  novas  disposições  sahiram  á  luz, 
excluindo  o  publico  do  tráfico.  Até  esse  tempo  limitava-se 
o  privilegio  á  extracção.  Pelo  recente  decreto  foi  clle  também 
extendido  ao  commercio  das  pedras.  Vedou-se  aos  particu- 
lares, em  Portugal  e  nas  colónias,  a  compra  ou  a  venda 
dos  diamantes  em  bruto.  Estes  só  podiam  vir  para  o  reino 
devidamente  manifestados,  e  nos  cofres  reaes.  Para  fora  do 
paiz,  tinham  de  levar  uma  guia  do  contratador.  Renovava-se, 
com  maior  aperto,  o  regulamento  da  entrada  e  sahida  de 
pessoas  e  géneros  no  districto  diamantifero,  onde  não  era 
consentida  a  permanência  de  vagabundos,  ou  adventicios 
sem  occupação  constante  e  conhecida.  Na  mesma  occasião 
foram  mandados,  por  uma  carta  régia,  expulsar  do  Serro 
Frio,  vários  ecclesiasticos,  que  para  alli,  chamados  pela  cubica, 
tinham  ido.  Pesadas  comminações  contra  os  transgressores 
deviam  manter,  conforme  as  idéas  do  tempo,  a  estricta  obser- 
vância  do  decretado. 

Ao  mesmo  tempo  occorreu  ao  ministro  oppôr  á  dique 
dos  hebreus  um  syndicato  christão,  para  vender  as  pedras 
nas  praças  da  Europa.  Com  este  objecto,  D.  Luiz  da  Cunha, 
nosso  ministro  em  Londres,  fez  naquella  cidade  algumas 
diligencias.  Mal  succedida  alli,  a  tentativa  teve  bom  êxito 
na  Hollanda,  onde,  por  intermédio  de  Hermano  José  Braamcamp, 


112  DEFESA   E    VAI.ORISAÇÃO    DO    DIAMANTE 

estabelecido  em  Lisboa,  o  plano  grangeou  o  concurso  de 
vários  capitalistas.  A  surpresa  do  grupo  da  especulação  foi 
grande,  segundo  Martinho  de  Mello  deixa  ver  em  um 
despacho:  «O  negocio  dos  nossos  diamantes  tem  feito  um 
tal  ruido  na  Bolsa  de  Amsterdam,  que  presentemente  é  o 
objecto  em  que  falam  e  se  accordam  a  maior  parte  dos  nego- 
ciantes d'aquella  cidade;>.  Atterrados,  os  judeus  pretenderam 
subornar  a  Carvalho,  oíferecendo-lhe  uma  somma  avultada, 
cem  mil  libras  esterlinas.  Pelo  menos  elle  assim  o  affirmou: 
«Procuraram  lançar  sobre  mim  aquella  pesadíssima  bomba, 
que  no  modo  de  imaginar  d'aquelles  paizes  não  entendiam 
que  me  causasse  grande  espanto;  e  só  depois  que  viram 
que,  na  serenidade  philosophica  que  Deus  me  ajtidou  sempre 
a  observar,  não  era  nem  podia  ser  a  mesma  bomba  de  effeito 
algum,  trataram  de  subornar  e  corromper  aquelles  outros!»  ^ 
É  singular  que,  nesta  matéria  delicada,  o  ministro  cale  o 
por  quem  e  o  como  ia  tentativa  se  realizou.  Nada,  todavia, 
nos  impede   de  acceitar  o  facto  por  verdadeiro. 

Entretanto  ia  avante  o  plano  de  defesa,  em  Portugal. 
Um  grupo,  de  que  Braamcamp  fazia  parte,  tomcu  o  privi- 
legio da  exportação  dos  diamantes.  Entre  os  sócios  occultos 
da  empresa,  encontramos,  se  Carvalho  é  digno  de  fé,  esse 
mesmo  Francisco  Salvador,  alvo  de  tantas  suspeitas.  Seriam 
estas  fundadas  e  devemos  nós  considerar  o  concurso  do 
israelita  como  uma  nova  insidia,  para  fazer  abortar  o  negocio? 
É  muito   difficil   responder  com  segurança  sim   ou   não. 

O  contrato,  que  se  fizera  por  seis  annos,  foi  annullado 
antes  do  prazo,  a  pedido  dos  concessionários,  quer  vencidos 
na  competência,  e  exhaustos  de  recursos  pecuniários,  consoante 
ao  que  allegavam,  quer  sobre  elles  obrasse  a  corrupção, 
segundo  Carvalho  insinua.  A  segunda  hypothese  justificava 
para  este  a  presença  de  Salvador  no  syndicato.  Só  Braamcamp 
sahia   immune    de   susp^eita. 

Outro  grupo  de  negociantes,  substituindo  o  primeiro, 
não   foi   mais   feliz,   e   ao   cabo   de   três   annos   abandonou    a 


^     Deducção    compendiosa,    etc. 


INSPECTORIA    GERAL     DOS    DIAMANTES  113 

empresa,  com  o  pretexto  de  que  a  pedraria  da  índia,  affluindo 
aos  mercados,  não  deixava  vender  a  do  Brasil.  Ainda  d'esta 
vez  Carvalho  attribue  o  insuccesso  ao  suborno  pelos  hebreus. 

Para  nova  arrematação  foi  preciso  reduzir  o  preço  pelo 
qual  se  entregavam  os  diamantes.  De  9S200  réis  por  quilate, 
que  tinha  sido  antes,  passou  a  8^600  réis.  A  producção, 
que  nos  termos  do  primeiro  contrato  não  devia  exceder  de 
35  mil  quilates  annuaes,  elevou-se  a  50  mil  no  segimdo,  € 
chegou  a  muitos  mais  no  terceiro,  que  durou  desde  1760 
até   1771  1. 

A  despeito  da  protecção  régia,  affirmada  em  violentas 
medidas  de  vigilância  e  repressão,  a  empresa  da  mineração 
no  Brasil  não  prosperou.  As  despesas  eram  enormes,  e,  a 
cada  remessa  para  o  reino,  o  thesouro  tinha  de  adeantar 
fundos  aos  caixas,  para  o  pagamento  dos  saques.  Agora 
que  já  não  existiam  as  causas  encontradas  nos  meneios  de 
Salvador  ou  na  improbidade  de  Brant,  o  monopólio  da  mesma 
forma  não  dava  os  resultados  promettidos.  Em  1771,  Carvalho 
resolveu  transferir  ao  Estado  a  exploração.  Para  isso  tomou 
conta  das  casas,  ferramentas  e  escravos,  pertencentes  ao 
arrematante,  organizou  os  serviços  locaes,  e  entregou  a 
gerência  superior  á  Inspectoria  Geral  dos  Diamantes,  annexa 
ao  Erário,  e  subordinada,  portanto,  directamente  ás  suas 
ordens.  Occorre  perguntar  se  foi  d'ahi  por  diante  a  adminis- 
tração mais  zelosa;  se  a  parte  de  lucros  do  arrematante, 
revertendo  á  coroa,  augmentou  em  proporção  considerável 
os  rendimentos  d'ella.  Ainda  sem  algarismos,  que  nol-o 
confirmem,  a  notória  inferioridade  da  gerência  do  Estado 
em  qualquer  ramo  de  indjustria,  do  que  Portugal  não  poderia 
exceptuar-se,   e   a   situação   precária   da   fazenda   publica   nos 


^     A    eslatis+ica    da    exportação    dá    o    seguinte: 

Primeiro  periodo:  1753  a  55,  arrematantes  Bristow  Ward  Hf  C.'>, 
121.814  3/4  quilates,  valor  1.188:348$425.  Segundo  periodo:  1757  a 
60,  João  Gore  e  Josué  Van-Neck,  115.659  quilates,  valor  1.067:198$ 850. 
Terceiro  periodo:  1760  a  71,  Daniel  Gil  de  Meester  925.589  3/4  qui- 
lates,    valor     8.144:165§537.     Deducção    Compendiosa,    cit. 

o    AtARQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  8 


Ill  ABOLIÇÃO     DAS     FROTAS 


ultimos  annos   de   D,   José,  autorizam  a  suppôr  q^ue   nenhum 
dos   casos  se   realizou. 


VI 


Com  as  providencias  económicas  referidas,  e  que  eram 
contadas  por  Carvallio  entre  as  mais  relevantes  da  sua  admi- 
nistração, convém  mencionar  o  regulamento  das  frotas, 
estabelecendo  as  épocas  de  sahida  para  o  Brasil  e  da  volta, 
e  regulando  a  ordem  do  ser\iço  dos  portos;  e  o  privilegio 
do  trafico  da  índia,  concedido  a  Feliciano  Velho  Oldemberg, 
que  para  o  explorar  constituiiu  uma  companhia, 

O  regulamento,  fazendo  embaraços  e  atrop-ellando  a  nave- 
gação, occasionou  vehementes  protestos,  já  na  metrópole,  já 
no  Brasil,  onde  nunca  poude  ser  á  lettra  executado.  Dando 
conta  a  seu  irm.ão,  governador  do  Pará,  d'esías  opposições, 
que  se  jactava  de  vencer  com  mais  apertados  e  severos 
preceitos.  Carvalho,  nessa  mesma  carta,  tinha  de  confessar 
a  justiça  das  reclamações,  e  o  improficuo  da  sua  lei.  «O 
tempo  tem  aqui  corrido  tão  contrario  —  dizia  no  post-scriptum 
—  que  a  frota  não  poude  deixar  de  exceder  na  sua  partida 
o  termo  prescripto  pelo  decreto»  i.  A  occasião  não  foi  única, 
e  repetida  muitas  vezes,  num  tempo  em  que  as  contingências 
do  mar  eram  innumeras,  convenceu^e  afinal  o  ministro  a 
melhor  doutrina.  Em  1765  aboliu  a  navegação  em  commum 
obrigatória,  e  deu  a  liberdade  ao  commercio  marítimo,  reco- 
nhecendo nessa  nova  lei  os  grandes  inconvenientes  e  graves 
prejuizos   da    prática    anterior. 

A  empresa  da  índia,  que  seria  um  timido  ensaio  da 
proposta  de  Cleland,  terminou  por  um  desastre  conimercial. 
A  concessão,  varias  vezes  modificada,  veiu  a  consistir  final- 
mente no  privilegio  da  navegação  para  a  índia  e  a  China, 
por  dez  annos,  mediante  certa  renda  paga  ao  Estado,  le 
com  a  obrigação  de  trazer  cargas  de  salitre  no  retorno,  para 


15   março    1755.    Coll.    Pomb.,    Cod.    626. 


FALLENCIA    DA    EMPRESA    DA    ÍNDIA  115 

O  governo  comprar.  Muito  favorecida,  a  companhia  em  pouco 
tempo  se  constituiu  devedora  de  grandes  quantias,  appli- 
cadas  a  gastos  que  o  trafego  diminuto  não  cobria.  Do 
núncio  alcançara  600  mil  cruzados,  extrahidos  do  cofre  da 
Terra  Santa,  com  escândalo  do  Provincial  franciscano,  admi- 
nistrador, que  protestou  contra  o  abuso.  À  fazenda  real  devia, 
em  abril  de  1754,  400  mil  cruzados,  recebendo  mais,  nessa 
occasião,  69  contos,  e  em  junho  80  contos  de  réis.  Todo 
o  acervo  social  estava  em  hypotheca  ao  Estado.  O  emprehen- 
dimento  terminou  pela  fallencia,  liquidando  a  companhia 
passado  o  terremoto.  Havia  durado  três  annos  i.  Primeira 
tentativa  infeliz  de  um  systema,  em  que  não  tiveram  melhor 
sorte   as    seguintes. 

A  execução  do  tratado  de  limites  no  Brasil,  o  estabe- 
lecimento da  Companhia  do  Grao-Pará,  a  declaração  da 
liberdade  dos  indigenas  da  America,  pertencem  a  este  periodo 
do  governo  pombalino,  antecedente  ao  terremoto,  e  constituem 
na  sua  ligação  o  facto  culminante  de  todo  o  reinado.  Com 
effeito,  esses  actos  levaram  Carvalho  á  lucta  com  os  jesuitas, 
e  d'ahi  por  deante  toda  a  sua  administração  se  orienta  pela 
idéa,  sobreposta  a  tudo  o  mais,  de  os  vencer,  e  anniquillar. 
Com   mais   detença,   pois,   serão   considerados. 


1     Cf.    docun-ientos    na    Co!!.    Pomb.,    Cod.    651. 


CAPITULO  IV 


A    CORTE    E    AS    FACÇÕES 


Hábitos  da  corte  portuguesa.  As  duas  rainhas.  Juizes  sobre  Carva- 
lho. Lentidão  das  decisões  ministeriaes  e  suas  causas.  —  II. 
Inicio  feliz  do  novo  governo.  Carvalho  e  Pedro  da  Motta.  Os 
descontentes.  Procedimentos  contra  os  nobres.  Os  funccionarios. 
O  grupo  clerical.  —  III.  Os  jesuítas  no  Pará-Maranhão.  A 
escravidão  dos  indígenas.  Variações  dos  jesuítas.  —  IV.  Inter- 
venção do  Summo  Pontífice.  Esforços  de  um  colono  contra  os 
missionários  Tratado  de  limites  na  America.  Desagrado  que 
causa  em  Madrid  e  Lisboa.  —  V.  As  sete  reducções  do  Uru- 
guay.  Rebellião  dos  Índios.  Opposição  ao  tratado  no  Pará.  — 
VI.  Xavier  de  Mendonça  propõe-se  libertar  os  indígenas.  Pro- 
jecta uma  Companhia.  Cria-se  a  do  Grão-Pará  e  Maranhão.  Pro- 
testo do  commercio  lesado.  Os  jesuítas  guerreiam  a  Companhia. 
Carvalho    reprime    as    reclamações. 


Não  começou  a  predominante  influencia  de  Carvalho, 
como  geralmente  se  cuida,  na  hora  trágica  do  terremoto. 
O  que  já  fica  dito  de  confissão  sua  própria,  que  testemiunhos 
contemporâneos  abonam,  mostra  ter  elle,  desde  os  primeiros 
teímpos,  possuído  a  illimitada  confiança  do  novo  rei.  A 
assiduidade  do  ministro  ao  trabalho,  em  contraste  com  o 
principal  secretario  de  Estado,  Pedro  da  Motta,  a  clareza 
de  seu  entendimento,  o  manifesto  espirito  de  reformar  praxes 
antiquadas,   e   corrigir  abusos   passados   e   recentes,   depressa 


lis  A    RAINHA     D.     MARIANNA    VICTORIA 


lhe  grangearam  a  estima  do  rei.  E  este  tinha  por  fortuna; 
o  ver-se  aliiviado  dos  cuidados,  de  que  fora  excluido  até 
á  edadc  madura,  podendo  hvremente  entregar-se  ás  diversões 
que  liie  eram  caras,  e  para  as  quaes  a  rainha,  em  extremo 
ciumenta,  lhe  animava  a  inclinação,  no  intuito  de  o  guardar 
junto  de  si. 

O  enviado  de  Áustria,  conde  Stahremberg  traça,  em 
despachos  interessantes,  o  viver  da  corte  portuguesa  naquelle 
tempo.  O  theatro,  a  caça,  a  equitação  eram  os  favoritos 
prazeres  da  familia  real.  Todos  os  dias,  fizesse  bom  ou  mau 
tempo,  ia  D.  José  para  a  quinta  de  Belém,  acompanhado 
da  rainha,  que  o  não  largava,  algumas  vezes  das  infantas 
suas  filhas,  e  de  um  séquito  de  fidalgos  e  damas  do  paço. 
Alli  passavam  o  dia,  em  exercícios  no  picadeiro,  ou  então 
jogando  as  cartas.  O  pharaó,  jogo  de  parar  muito  em  voga, 
era  o  predilecto.  Das  oito  para  as  nove  horas  voltava-se  ao 
paço  da  Ribeira,  indo  o  rei  trabalhar  com  os  ministros  até 
á  meia  noite  ou  depois ;  mas  havia  quem  dissesse  não  entrar 
elle  para  o  gabinete  antes  das  onze  horas,  limitando-se  ,a 
dar  as   assignaturas,   que   eram   em   grande   numero  i, 

A  rainha  D.  Marianna  Victoria  fora,  aos  cinco  annos 
de  edade,  noiva  de  Luiz  XV.  Roto  o  projecto  de  consorcio, 
quando  já  havia  estado  em  França  algum  tempo  para  se 
habituar  aos  usos  da  corte,  viera  para  Lisboa,  aos  onze 
annos,  esposa  de  D.  José.  Foi  na  occasião  em  que,  entre 
Portugal  e  Hespanha  se  realizou  a  celebre  troca  de  princezas 
no  Caia.  O  matrimonio  consummou-se  ao  completar  a  infantil 
desposada  quatorze  annos.  Como  o  marido,  tinha  ella  gosto 
excessivo,  verdadeira  paixão,  pela  caça.  Passavam  grande 
parte  do  tempo  em  Salvaterra,  ambos  o  dia  inteiro  a  cavallo, 
ou  pisando  mattos,  em  busca  do  que  matassem.  Uma  vez, 
por  descuido  da  pontaria,  ou  imprevisto  accidente,  alguns 
bagos  de  chumbo  da  arma  da  rainha  attingiram  no  rosto  a 


1  Rei.  de  12  fevereiro  1751,  cf.  o  artigo  de  B.  Duhr  na  revista 
Sfimmen  aus  Maria  Laac/i,  anno  1890,  fascículo  2,  pag.  187,  ed. 
Herder.    Vienna. 


A   RAINHA  VIUVA  119 

D.  José,  que  por  maravilha  não  perdeu  um  olha.  Calcule-se 
o  alarido.  Mais  do  que  ninguém,  a  rainha  viuva  se  pronun- 
ciava contra  o  ardor  venatorio  da  nora,  cujo  dominio  no 
espirito  do  rei  não  lograva  rebater.  Mas  não  era  essa  a 
única  sua  queixa.  Quando  pensava,  elevando  ao  poder  um 
protegido,  ter  algum  voto  nos  públicos  negócios,  via-se  d'elles 
inteiramente  afastada  pela  personalidade  absorv^ente  d'aqueile 
mesmo  a  quem  dera  importância  e  a  mais  brilhante  situação. 
Nem  ella,  nem  o  infante  D.  Pedro,  destinado  marido  da 
sobrinha,  herdeira  da  coroa,  tinham  a  menor  parcella  de 
influencia  politica;  e  o  casamento  parecia  projecto  esquecido, 
se  não  definidvamente  abandonado.  O  despeito  materno  e 
de  rainha  desabafava  a  miúdo  em  confidencias  ao  conde 
Stahremberg,  taxando  a  Carvalho  de  refalsado;  mas  por 
outra  piíarte,  talvez  pelo  decoro  da  posição,  D.  Marianna  de 
Áustria  cedia  em  tudo,  até  nas  matérias  do  seu  próprio 
interesse,  á  vontade  do  secretario  de  Estado,  tão  paciente 
sempre    que   pasmava   d'isso    o    diplomata   seu   compatriota  \ 

Chegado  este,  havia  pouco,  a  Lisboa,  dizia  á  sua  corte : 
«Segundo  oiço,  Carvalho  procura  dilatar  o  mais  possível  as 
suas  attriboições  aos  outros  departamentos,  de  modo  a 
tornar-se  pessoa  necessária».  Observava  ser  o  caracter  do 
rei  em  extremo  bondoso,  e  por  tal  razão  fácil  de  dominar; 
antes,  pois,  o  dirigisse  um  homem  de  mérito,  como  aquelle, 
do  que  um  padre,  como  i\o  precedente  reinado,  ou  então 
algum  valido  ^  Prova  do  favor  crescente  do  secretario  de 
Estado  dava  a  escolha  de  seu  irmão,  para  a  capitania  geral 
do  Grão-Pará,  sendo  obscuro  official  de  marinha  e  sem 
antecedentes  que  para  tão  elevado  cargo  o  recommendassem  3. 

O  rei,  que  no  principio  dava  mostras  de  se  applicar 
ás  coisas  do  governo  «está  agora  —  diz  Stahremberg  —  inteira- 
mente   mudado,    e   gasta    o    mais     do    tempo     na    caça,     em 


^     Stahremberg.    Rei.   ao   imperador,    26  dezembro    1751.    Duhr   art. 
cit.    pag.    194. 

-     Relat.    revista    cit.,    18S. 

3     Despacho  ao  conde  CoUoredo,   Id.,   189. 


120  juízos  de  diploautas  sobre  carvalho 

cavalgadas,  jogo,  concertos  e  que  taes  diversões,  deixando 
a  Canalho,  em  quem  põe  absoluta  confiança,  inteiramente 
senhor  do  poder  '.  A  elle  c  a  Diogo  de  Mendonça  considera 
o  mesmo  diplomata  «homens  serias,  trabalhadores,  e  bem 
intencionados,  de  quem  tudo  se  pode  esperar,  se  perma- 
necerem   nos    cargos»  ^. 

Todavia,  meses  depois,  já  de  outra  forma  se  exprime. 
Julga  fora  do  commum  e  cega  a  confiança  do  soberano  em 
Carvalho  «que  tudo  governa  qual  um  déspota  ao  sabor  de 
seu  capricho»  ^  Da  actividade  que  em  principio  louvara  já 
profere  outro  conceito.  Em  todos  os  ramos  da  administração 
.encontra  desleixo  e  incúria  ^  Principalmente  nas  relações  com 
os  representantes  extrangeiros.  «Tudo  aqui  vae  de  vagar  — 
argúe  —  todas  as  cousas  com  vagar  são  tratadas,  e  de  vagar 
se  executam.  Da  minha  promemoria,  entregue  ha  dois  meses, 
ainda  não  tenho  resposta,  se  bem  que  todos  os  dias  a  soli- 
cite» '.  O  ministro  de  Hespanha,  que  aliás  gosava  de  toda 
a  consideração  na  corte,  assegurava  não  ter  podido  ainda 
obter  a  mais  simples  resposta,  sim  ou  não,  sobre  qualquer 
assumpto.  Ao  da  Grã-Bretanha  não  só  faltavam  com  a 
solução  das  questões,  como  ás  vezes  nem  sequer  lhe  davam 
troco  aos  communicados.  A  carta  pessoal  do  rei  Jorge,  a 
participar  o  fallecimento  do  príncipe  de  Galles,  apesar  de 
muitas  instancias,  ao  cabo  de  dois  meses,  não  lh'a  tinham 
ainda  accusado  ^  O  embaixador  francez,  conde  de  Baschi, 
queixava-se  da  lentidão  com  que  tudo  se  fazia  em  Portugal; 
por  exemplo:  passado  um  mez  que  pedira  a  Carv^alho  o 
protocollo  do  ceremonial  para  a  sua  entrada  publica,  ainda 
não  fora  attendido  l  Notava  não  se  poder  alcançar  despacho 
algum   de   Carvalho,   que   se   esquecia   das   cousas   frequente- 


1  Relat.    idem,     193. 

2  Icl.,    id.,    1S9. 

3  Rei.    12    novembro    1751,    Id.,    193. 
*  Id..    id. 

••  Desp.    de    21    abril    1751,    rev.    cit.    191. 

c  Desp.    de    22    Junho    1751,    Id.    191. 

'  Santarém,    Quadro    elementar,    VI,    34. 


LENTIDÃO    DAS    DECISÕES    MINISTERIAES  121 


mente,  dando  motivo  a  desagrados;  e  explicava  que,  ou 
o  ministro  não  tinha  idóneos  auxiliares,  ou,  desconfiado, 
preferia  fazer  tudo  por  suas  próprias  mãos,  ou  finalmente 
«folgava  mais  do  que  devia  de  esperdiçar  o  tempo  em 
conversações»  ' . 

E  não  occorria  isto  somente  no  dominio  da  diplomacia; 
na  administração  interna  reinava  desídia  egual.  Em  1751 
cuidava-se  de  uma  promoção  no  exercito,  cujos  quadros 
importava  preencher  e  renovar.  A  esse  respeito  dizia  Stah- 
remberg  que  «este  e  outros  actos  importantes  do  governo 
successivamente  se  adiavam  e  a  csperançta  de  os  ver  realizados 
cada  vez  mais  se  perdia  2,  Nesse  anno  a  frota  do  Maranhão, 
prompta  a  fazer-se  de  vela,  ficou  retida  três  meses,  com 
grande  prejuizo  do  commercio,  á  espera  dos  despachos  do 
governo.  «E  assim  é  sempre  —  accrescenta  o  diplomata  —  e 
com  todos  os  negócios,  sejam  estes  os  mais  importantes  e 
complicados,  ou  os  de  menos  peso  e  difficuldade»  ^.  Em 
todo  o  tempo  do  governo  pombalino  foi  assim.  Na  casa  do 
ministro  amontoavam^se  os  papeis.  Quando  deixou  o  poder, 
levaram  auxiliares  seus  de  confiança  muitos  dias  a  queimar 
mais  de  dez  mil  cartas  fechadas,  existentes  entre  elles,  refere 
um  contemporâneo  "*;  e,  ficaram  ainda  tantas  outras,  e  reque- 
rimentos sem  despacho,  que  o  separar  e  ler  o  acervo  foi, 
para  o  seu  successor,  trabalho  de  muito  tempo  ^.  Não  seriam 
rigorosamente  assim  os  factos,  mas  correndo  por  taes,  cara- 
cterizam o  methodo.  A  nova  administração  não  desmentia  a 
tradicional  fama  da  somnolencia  portugueza,  e  o  mais  vivaz 
de  nossos  estadistas,  trabalhador  incansável,  incorria  nas 
mesmas  culpas  de  um  Pedro  da  Motta,  e  outros  seus  prede- 
cessores, por  temperamento  escravizados  á  inércia  e  á  rotina. 


1      Id.,     48. 
^      Rei.    cit.    192. 
3      Id.    191. 

*     Cartas    de   A.    W.    Costigan,    Ms.    Coll.    Pomb.,    Cod.    682. 
5     Carta    de    um    agente    francez    ao    cônsul    geral    Simonin.    L.\tino 
Coelho,  Hist.  politica  e  militar  de  Portugal,   I,   283. 


122  CAUSAS    DA    LENTIDÃO    MINISTERIAL 

A  razão  c  que,  além  do  amor  da  papelada  e  espirito 
burocrático,  que  nelle  sempre  foram  característicos,  o  accu- 
mulo  de  negócios  não  permittia  a  Carvalho  prestar  a  cada 
um  d'elles  a  attenção  necessária.  Sempre  á  cata  de  alargar 
o  âmbito  das  suas  attribuições,  e  querendo  elle  próprio  ter 
em  mão  o  mecanismo  inteiro  do  governo,  não  vencia,  apesar 
de  um  labor  enorme,  a  tarefa  diária.  No  seu  propósito  de 
tudo  inquirir,  reformar  e  prover,  a  cada  momento  assumptos 
novos  lhe  reclamavam  a  attenção,  e  o  projecto  do  dia  seguinte 
supplantava  o  da  véspera.  Também  os  deveres  sociaes,  rece- 
pções e  visitas,  a  que,  pela  sua  posição,  não  podia  esquivar-se; 
o  adeantar  de  suas  ambições;  o  cuidar  dos  seas  interesses 
domésticos,  tudo  isso  representava  tempo  perdido,  que  aliás 
se  compensaria  pela  racional  distribuição  dos  serviços  entre 
adequados   auxiliares. 

Ao  envez  d'isso,  foi  a  norma  constante  de  Carvalho 
guardar  em  si  com  ciúme  todas  as  iniciativas.  Seus  collegas, 
secretários  de  Estado,  haviam  de  ser  meros  subordinados, 
O  que  sobre  o  assumpto  dizia  Stahremberg  repetiram-no  os 
seus  successores.  Khevenhiiller  em  1757:  «Segundo  o  lumor 
publico,  e  também  as  apparencias,  Carvalho  é  quem  exclusi- 
vamente governa»  i.  Em  1771  Lebzelterrt:  «Pombal  entende 
resolver  todos  os  negócios,  tanto  internos  como  externos, 
sem  excepção  dos  de  infimo  valor»  ~.  E  mais  tarde,  quando 
falleceu  D.  José :  «Nestes  vinte  e  seis  annos,  o  marquês  de 
Pombal  é  quem  sósinho  e  por  si  mesmo  tudo  tem  resolvido»  ■'. 
Às  vezes  sem  conhecimento  e  contra  a  própria  vontade  do 
rei.  Em  1765  os  mouros  acometteram  Mazagão,  que  tivemos 
de  abandonar,  e  havia  já  dez  dias  partira  uma  frota  de 
soccorro  quando,  e  somente  por  acaso,  D,  José  soube  que 
Marrocos  se  levantara  em  guerra,  e  então  pela  primeira  vez 
se   mostrou    agastado    com    o    ministro  *.    As    informações    da 


1     Despacho    de    23    dezembro    1756,    citado    por    Duhr,     Pombal 
sein    Charakter    iind   seinc    PoUíik,    pag.    14. 
'     Desp.    11  maio    1771.    Id.,    15. 
3     ReL    Vi   de?.    1776.    Id.,    16. 
*     Desp.    28    março    1769.    Id.,    15. 


os  COLLEGAS  DE  CARVALHO  123 


corte  de  França  revelam  o  mesmo.  Choiseul  diz,  nas  instru- 
cções  ao  embaixador  conde  de  Merle,  que  D,  Luiz  da  Cunha, 
ministro  dos  extrangeiros,  e  Thomé  Corte  Real,  da  marinha, 
não  passam  de  creaturas,  e  como  que  empregados,  de 
Carvalho,  «que  só  lhes  deixa  um  vão  titulo  e  funcções  subal- 
ternas», em  quanto  elle  <;sem  o  titulo,  exerce  realmente  as 
funcções  de  primeiro  ministro»  i.  Subordinados  servis  do 
conde  de  Oeiras  —  d'este  modo  as  instrucções  posteriores,  para 
os  enviados  Saint-Priest  e  Clermont  d'Amboise,  designam  os 
collegas  de  Carvalho  -.  Acerca  de  D.  Luiz  da  Cunha  referia 
Khevenhiiller  que  se  alguém  lhe  falava  de  assumpto  já  antes 
submettido  ao  conde  de  Oeiras,  tivesse  por  certo  ouvir  a 
mesma   resposta,   e  até   ás   vezes   nas   mesmas  palavras  •^, 


II 


Nos  primeiros  tempos  do  reinado,  a  attracção  da  novi- 
dade, a  expectativa  de  melhor  governo,  excitavam  geral 
satisfação.  A  eleição  dos  dois  novos  secretários  de  Estado 
foi  acolhida  com  applauso.  Parecia  restabelecer-se  a  ordem 
nos  ser\'iços  públicos,  e  a  administração  sahir  do  chãos,  em 
que  se  achava  no  ultimo  período.  Ambos  manifestavam  acti- 
vidade. A  situação  do  erário  parecia  mais  prospera.  Conti- 
nuavam as  obras  do  Estado,  e  as  tenças  concedidas  por 
D.  João  V  pagavam-se  rcgularmerne  1  Cuidava-se  dos  débitos 
atrazados,  e  avisadamente  se  destinaram  fundos  para  amor- 
tizar quatro  milhões  que  a  fazenda  real  devia  á  praça  de 
Lisboa,  passavam  já  vinte  annos  ^  A  impressão  de  conten- 
tamento era  por  isso  commum.  É  o  que  em  taes  circtim- 
stancias,    em    toda   a    parte,   usa    succeder. 


^     Recneií  dei,  instructions  aux  ambassadeurs  et  ministres  de  trance. 
Portugal,   pag.   324,    323. 

2  Id.    345,    360. 

3  Dcsp.    23    dezembro    1756.    Duhr,    Pombal    14. 

*     Quad.  Elem.  VI,   4,  oíficio  do  cônsul   francez   Duvernay, 
5      Id.    12,    off.    de    Duvernav. 


121  OS  DESCONTENTES 


A  mesma  devoção  que,  antes  de  ministro,  Carvalho 
testemunhara  ao  padre  Carbone  enfermo,  demonstrava  agora 
ao  inváhdo  Pedro  da  Motta.  Com  elle  se  desvelava  em 
manifestações  de  respeito  e  carinho.  D'estas  foi  o  ekgel-o 
padrinho  de  um  filho,  no  baptismo.  Affectava  constiltal-o  em 
tudo;  e,  sob  pretexto  de  o  alliviar  de  trabalho,  excessivo 
para  seus  annos  e  achaques,  avocava  a  si  as  attribuições  do 
velho  ministro,  que  entrou  a  ser  parte  inactiva  no  mecanismo 
governamental.  Sequestrado  dos  negócios,  sem  ir  ao  paço, 
nem  falar  ao  rei,  Pedro  da  Motta  não  podia  exercer  influencia 
alguma  na  administração.  Até  1756  conservou  nominalmente 
o  posto,  e  desappareceu  da  vida  ignorado,  como  ignorado 
pouco  a  pouco  desapparecera  da  scena  politica. 

Entretanto,  e  como  não  é  de  extranhar,  formara-se  um 
partido  de  descontentes  de  que  Alexandre  de  Gusmão  e  o 
ex-valido  frei  Gaspar,  apeados  de  toda  a  autoridade,  seriam 
provavelmente  os  fautores.  Mas  não  foi  difficil  a  Carvalho 
annullar  estes  émulos,  e  para  isso  bastaria  lembrar  a  D.  José 
o  afastamento  em  que,  governando  elles,  seu  pae  o  manti- 
vera, não  lhe  consentindo  interferência,  por  minima  que 
fosse,  em   negócios  do   Estado. 

A  morte,  que  occorreu  dentro  em  breve,  de  frei  Gaspar 
dissipou  quaesquer  esperanças  que  sobre  o  retorno  de  seu 
predomínio  se  houvessem  fundado.  Os  descontentes  acerca- 
vam^se  agora  do  infante  D.  Pedro,  desilludido  na  expectativa 
de  algum  dia  reinar,  desposando  a  sobrinha.  O  régio  casal 
não  descrera  ainda  de  lhe  ser  possível  successão  varonil. 
Impetrava  esse  favor  do  céo  com  votos  e  novenas,  e  appel- 
lava  para  o  tempo,  na  esperança  de  afinal  mudarem  as 
condições   da   natureza,  ou  se  dobrar  a  vontade  divina. 

Á  testa  do  grupo  adverso  ao  ministro  era  natural  achar-se 
o  fidalgo,  que  depois  consummou  a  mina  da  sua  casta,  e 
ao  contendor  preparou  o  decisivo  triumpho.  José  de  Masca- 
renhas, marquês  de  Gouveia,  occupava  entre  a  nobreza  do 
reino  logar  conspícuo.  Sobrinho  de  frei  Gaspar,  e.  pela 
protecção  d'este,  mordomo-mór,  presidente  do  Desembargo 
do  Paço;  v^aidoso  da  sua  estirpe,  em  que  havia  sangue  real, 
e  da  fortuna,  accrescentada  pela  herança  que  lhe  viera  com 


os   DESCONTENTES   DA   NOBREZA  125 

O  titulo  do  duque  de  Aveiro,  não  se  consolava  de  haver 
perdido  de  uma  vez  influencia  e  prestigio.  À  volta  d'elle 
congregava-se  a  fidalguia,  offuscada  pelas  audácias  de 
Sebastião  José  —  assim  por  desdém  nomeava  o  parvena  — 
e  menoscabada  nas  preferencias  que,  por  habito  e  tradição 
reputava  prerogativas  suas.  Com  o  intruso,  que  sem  linhagem 
ostentava  patrício,  uma  hoste  de  plebeus  arremettera  a 
tomar  posse  dos  cargos,  até  ahi  reservados  á  classe  privi- 
legiadia.  Causava  irritação  e  assombro  a  escolha  para  os 
postos  diplomáticos.  Stahremberg  não  occulta  o  seu  pasmo: 
«Além  do  visconde  de  Ponte  de  Lima,  (embaixador  em 
Madrid),  nem  um  só  dos  Enviados  ás  cortes  extrangeiras  é 
pessoa  de  distincção»  i.  Taes  os  ministros  em  Londres,  Haya 
e  Vienna.  A  rainha  viuva  queixava-se  de  terem,  apesar  das 
instancias  d'ella,  mandado  para  Vienna  Encerrabodes,  plebe,u, 
simples  desembargador,  em  correspondência  á  pessoa  de 
Stahremberg,   do    mais   azulado   sangue. 

Nessa  época,  (dezembro  de  1751),  já  este  ultimo,  com 
lastima  fazia  ver  que  era  «a  nobreza  opprimida  e  castigada 
com  o  máximo  rigor  por  qualquer  leve  culpa».  E  accres- 
centava:  «Os  fidalgos,  por  melhores  dotes  que  possuam,  e 
mais  se  distingam  por  seus  actos,  não  conseguem  emprego 
na  corte,  e  muito  menos  qualquer  posto  diplomático.)  2^  Este 
modo  de  ver  de  um  extranho  assas  reflecte  a  irritação  que 
naquelle   tempo    fermentava   nos   espíritos. 

O  proceder  do  governo  com  os  grandes,  soberbos  das 
tradições  gloriosas  de  seus  nomes,  escandalizava  tanto  pelo  insó- 
lito como  pelo  propósito  de  agressão,  que  no  conceito  d'elles  re- 
velava. Em  1752,  o  marquez  de  Alorna,  que  regressava  da  índia, 
orgulhoso  do  seu  passado  guerreiro,  e  do  novo  titulo,  que 
fora  o  premio  de  uma  brilhante  conquista,  recebia,  ao  desem- 
barcar, ordem  de  não  ir  á  presença  do  soberano,  até  ser 
realizado  o  inquérito  aos  seus  actos  de  vice-rei.  Arguido 
de    prevaricações,    nunca    lhe    consentiram    justificar-se ;    em 


1  Relatório,    Dihr.   art.   cit.    pag.    194. 

2  Relatório,    Duhr.   art.   cit.    pag.    194. 


126  PROCEDIMENTO  CONTRA  OS   NOBRES 

desagrado  morreu,  e  o  segundo  marquês,  muitos  annos 
depois,  na  bastilha  da  Junqueira,  reclamava  ainda  a  syndi- 
cancia,   que   lhe   desaggravasse   o   nome   do  pae. 

No  anno  antecedente,  vários  mancebos  da  nobreza  tinham 
sido  desterrados,  entre  elles  o  conde  de  S.  Vicente  para  a 
ilha  Terceira,  o  de  Athouguia  para  Bragança,  o  da  Vidi- 
gueira para  Villa  Viçosa,  mediante  julgamento  camarário; 
três  réos,  que  não  haviam  nascido  fidalgos,  condemnados  a 
açoites  c  galés.  O  delicto  era  dos  que  então  se  tinham  por 
veniaes :  tomada  de  preso,  fâmulo  de  um  dos  rapazolas,  a 
um  juiz  de  fora  suburbano,  que  o  mandara  agarrar  por 
desordem  e  sahira  do  conflicto  maltratado.  Com  espanto  e 
indignação  das  famílias  e  amigos,  o  soberano  desattendeu 
ás  supplicas;  os  moços  arruaceiros  cumpriram  as  penas,  que 
só  foram  relevadas  quando  a  rainha  de  Hespanha  por  tiles 
intercedeu  i.  Este  e  casos  similhantes  demonstravam  entrar 
agora  o  paiz  la  reger-se  por  novos  princípios,  contra  los 
quaes  era  patente  a  reacção  dos  hábitos,  dos  interesses  e 
das  vaidades.   E  isso  não  somente  nas  altas  espheras. 

No  mundo  somnolento  da  burocracia,  acordavam  também 
descontentamentos.  Inesperadas  reformas  supprimiram,  aos 
empregados  de  justiça  e  fazenda,  certas  propinas  que  abusi- 
vamente recebiam ;  a  todos  os  funccionarios  se  exigia  mais 
aturado  trabalho  e  disciplina  mais  estricta;  e,  investindo 
contra  a  rotina  secular,  novos  methodos  espertavam  para 
acção  muitas  partes  ankylosadas  do  velho  organismo  adminis- 
trativo. Era  um  prurido  de  corrigir  e  melhorar,  que,  excitando 
de  toda  a  parte  clamores,   raras  vezes  ia  á  meta,   porque  as 


^  D3C.  da  Bibliothcca  Nacional.  Coll.  Moreira,  Cod.  854.  Com 
este  successo,  passado  em  junho,  provavelmente  se  relacionam  os  al- 
varás de  28  de  julho  e  14  de  agosto  de  1751,  que  aggravam  as 
penalidades  de  delictos  semelhantes.  Se  bem  que  referendados  por 
Pedro  da  Moita  e  pelo  marquez  de  Gouveia,  mordomo-mór,  por  isso 
na  presidência  do  Desembargo  do  Paço,  é  licito  attribuil-os  a  Carvalho 
que  já  em  tudo  supcnntcndia.  A  celebre  lei,  de  risonha  memoria, 
sobre  u  delicto  de  pôr  cornos  nas  portas,  sahiu  da  mesma  collaboração. 


os    FUNCCIONARIOS    E    O    GRUPO    CLERICAL  127 

providencias   ora,    insufficientes,   ficavam   áqaem,    ora,    e   esse 
era  o   caso  mais   frequente,  por  excessivas  a   traspassavam. 

Cioso  do  poder  régio  para  maior  consolidação  do  seu 
próprio,  difficilmente  poderia  Carvalho  esquivar  o  conflicto 
com  o  clero.  No  tempo  de  D.  João  V,  frei  Gaspar  da  Encar- 
nação personificava  o  fanatismo  na  sua  forma  boçal.  Esse 
mesmo  fanatismo,  por  assim  dizer  intellectualizado,  resuni- 
brava  no  outro  confidente  régio,  o  jesuita  Carbone.  Ambas 
as  concepções  correspondiam  a  modalidades  diversas  do 
espirito  nacional.  Ambos  os  validos  tinham  deixado  succes- 
sores  e  asseclas,  e  estes,  cubiçosos  da  herança,  eram  natos 
adversários  do  poder  novo.  Se,  despedido,  o  ministro  monge 
pouco  tempo  de  vida  teve  para  reivindicar  a  perdida  proemi- 
nência, a  sociedade  de  Jesus  conservava,  no  intimo  do  paço, 
representantes  que  não  perderiam  ponto  de  contrastar  a 
influencia,  perante  a  qual  a  d*elles  se  desvanecia.  O  despeito, 
primeiro,  mallogrados  interesses,  em  seguida,  excitaram  os 
jesuítas  contra  o  ministro,  O  choque  determinou  o  fatal 
destino  da  Ordem,  os  successos  mais  graves,  e  toda  a  politica 
do  reinado, 

III 

Qual  o  sentimento  do  governo  acerca  dos  jesuítas,  veri- 
fica-se  das  instrucções  dadas  ao  novo  governador  do  Grão- 
Pará,  Francisco  Xavier  de  Mendonça.  Não  desponta  nellas 
hostilidade.  Ao  contrario,  mandando  fundar  no  Amazonas 
novas  missões,  disppem  que  as  de  perto  da  fronteira,  mais 
importantes,  se  dêem  aos  padres  da  Companhia,  como  os 
mais  capazes.  Alguma  prevenção  se  descobrirá  contra  Gabriel 
Malagrida,  que  pretendia,  com  o  producto  de  esmolas,  esta- 
belecer iio  Brasil  recolhimentos,  seminários,  e  mosteiros  de 
monjas;  mas  os  exageros,  já  então  conhecidos,  do  visionário 
justificam  a  reserva  opposta  a  seus  projectos.  Em  um  acabado 
plano  de  governo,  as  instrucções  apontavam  a  urgência  de 
pôr  cobro  aos  abusos  dos  missionários,  sobretudo  no  refe- 
rente ao  dominio  dos  indios.  Era,  porém,  o  preceito  applicavel 
a    todos    os    religiosos,    e    de    nenhum    modo    particular   aos 


128  INSTRUCÇÕES    PARA   O   GOVERNO    DO   QRÃO-PARÁ 

jesuítas.  Velha  questão,  latente  agora,  mas  que,  res urgida, 
ia  ter  as  consequências  mais  graves.  De  tudo  se  vê  que  o 
accusado  ódio  de  Pombal  aos  jesuítas  se  não  manifestava 
ainda. 

As  instnicções,  é  certo,  firmava-as  Diogo  de  Mendonça, 
que  geria  os  negócios  ultramarinos,  mas  dífficíl  fora  acreditar 
que  as  approvasse  o  rei,  contra  o  voto  de  Carvalho,  que 
aliás  já  resolvera  assumptos  graves,  como  o  das  minas,  e 
outros  da  administração  colonial.  De  mais,  era  o  irmão  d'este 
quem  tinha  de  as  executar,  investido  para  isso  em  governador 
do  Pará-Maranhão,  com  o  titulo  de  capitão  general,  para 
mais  lustre  do  cargo.  A  essa  dignidade  accrescia  a  de  chefe 
da  commissão  de  limites  com  a  Hespanha,  na  execução  do 
tratado  do  anno  antecedente,  Mendonça  ao  norte  do  Brasil, 
Gomes  Freire  de  Andrade  no  Rio  da  Prata,  eram  os  dois 
chefes  de  missão,  pelo  cargo  mais  na  dependência  de 
Carvalho,  ministro  dos  extrangeiros,  que  da  secretaria  do 
ultramar.  Nova  razão  para  suppôrmos  que  as  idéas  expressas 
nas  instrucções  fossem  communs,  quando  não,  como  é  mais 
provável,   inteiramente   suggeridas   por   aquelles. 

É  de  crer  que  então  lhe  fossem  desconhecidas,  até  certo 
ponto,  as  variadas  phases  da  lucta  entre  jesuítas  e  mora- 
dores do  Brasil,  lucta  que  vinha  dos  primeiros  dias  do  desco- 
brimento e,  sob  diversos  pretextos,  tinha  por  objecto  único 
a  exploração  do  indígena,  de  cujo  domínio  cada  uma  das 
partes  queria  a  outra  excluída.  Seg^uindo  a  pratica,  iniciada 
em  Africa  pelo  infante  D.  Henrique,  que  foi  o  primeiro  dos 
nossos  negreiros,  os  colonos  tinham  por  doutrina  assente  o 
direito  á  escravização  dos  naturaes.  Debalde  leis  successívas 
lh'o  vedaram,  debalde  protestavam  contra  isso  os  missio- 
nários; mais  que  todas  as  opposições  podia  o  interesse  e  a 
necessidade.  O  paiz  era  pobre.  Nada  se  encontrava  allí  da 
opima  pilhagem  da  índia.  Riquezas  haviam  de  se  tirar  das 
leivas,  ou  do  seio  das  florestas,  com  lavor  inaudito,  sob  o 
clima  impiedoso.  Para  isso  não  tinham  lá  ido  elles,  que 
buscavam  a  opulência  fácil  e  melhor  sorte  que  na  terra  natal. 
Com  o  poder  das  armas  subjugavam  os  naturaes.  A  esses  a 
tarefa    dura,    que    o    europeu,    ente    superior,    repellia,    como 


A    ESCRAVIDÃO    DOS    INDÍGENAS  129 

desnecessária  fadiga.  Tanto  mais  que  eram  em  numero  espan- 
toso, que  surprehendia  os  descobridores.  «Ainda  que  os 
cortassem  em  açougue,  nunca  faltariam»,  —  dizia  o  primeiro 
governador  Thomé   de  Sousa. 

Os  usos  do  reino,  a  tradição  da  antiguidade  consentiam 
a  escravidão.  As  leis  diziam  que  seria  livre  o  americano,  mas 
permittiam  que  de  Africa  se  transportassem  negros,  para 
escravos  no  Brasil.  A  isto  retorquiam,  no  século  XVIIl  os 
colonos :  «Se  os  ethiopes  podem  ser  captivados,  porque  não 
podem  sel-o  os  indios  do  Maranhão?».  Contra  tal  pugnavam 
os  jesuítas  que,  para  salvarem  o  indio,  tinham  feito  levar  o 
africano  ao   Brasil. 

Mais  intensa  e  duradoura  que  em  parte  alguma,  foi  a 
contenda  no  Pará.  Ao  começar  o  século  XVII,  quando  a 
occupação  portuguesa  lá  chegou,  deparava-se  ao  invasor  p 
filão  abundante  e  virgem  da  vida  humana  para  explorar. 
Tribus  numerosas,  acossadas  desde  o  sul,  tinham  subido  a 
costa,  vindo  augmentar  a  população  do  território  vasto  e 
fértil,  onde  a  raça  prolífica  facilmente  medrava.  As  narrativas 
dos  primeiros  exploradores,  por  muito  que  se  desconte  ao 
exagero,  são  unanimes  em  descrever  o  continuo  alinhar  das 
palhotas,  á  beira  de  agua,  na  interminável  jornada  pelos 
rios,  em  busca  de  cabeceiras  desconhecidas,  ou  caminho  da 
foz.  Essas  entradas  de  agua  eram  a  portada  ampla  por  onde 
os  colonizadores  se  lançavam  ás  batidas.  Tinham  ido  primeiro 
á  cata  de  ouro  e,  desenganados,  depois  só  queriam  escravos. 

Contra  elles  se  levantou  a  grandiosa  voz  de  António 
Vieira  e,  por  espaço  de  um  século,  a  lucta  continuou,  pendendo 
a  fortuna,  conforme  os  tempos,  para  um  ou  para  outro  dos 
contendores.  Porém,  a  disputa,  que  fora  a  principio  sobre 
se  os  indios  haviam  de  ser  ou  não  escravizados,  versava 
depois  sobre  o  direito  exclusivo,  que  cada  um  queria,  de 
os  escravizar.  Para  si  pretendiam  os  colonos,  pela  lei  da 
necessidade;  reclamavam-no  os  missionários,  para  o  fim  da 
salvação   das   almas. 

Com  esse  objecto  tinham,  em  outra  parte,  no  Paraguay, 
fundado  um  império  próprio,  vassallo,  se  assim  quizermos, 
da  monarchia  de  Hespanha,  mas  onde  a  só  autoridade  preva- 

O    MARQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  9 


130  OS    JESUÍTAS    E    OS    COLONOS 


lente  era  a  d'elles.  No  Brasil  não  lhes  vingara  o  plano,  se 
acaso,  como  é  de  presumir,  o  tiveram.  Às  tentativas,  nos 
primeiros  tempos  esboçadas,  respondeu  a  opposição,  a  miúdo 
violenta,  dos  colonos.  Em  muitas  partes,  vieram  as  mãos: 
de  uma  banda  os  caçadores  de  escravos,  da  outra  os  indí- 
genas, capitaneados  pelos  seus  padres.  Ao  Sul,  íis  depre- 
dações dos  bandeirantes  semeavam  terror  entre  os  selvagens. 
No  Maranhão  os  esforços  dos  jesuitas  cohibiam  as  algaras; 
em  paga  duas  vezes  foram  expulsos  pelos  colonos  r'. voltados. 

No  século  XVIII  os  religiosos  levavam  a  melhor  aos 
adversários.  As  leis  não  fechavam  de  todo  a  porta  aos  capti- 
veiros  e,  serviçaes  assalariados  ou  lídimos  escravos,  os  indios 
realmente  perdiam  a  liberdade.  Mas  os  missionários  estavam 
alerta,  sempre  promptos  a  estorvar,  oppondo-se  ás  caçadas, 
assistindo  aos  contratos,  acolhendo  os  fugitivos,  guardando 
com  ciúme  aquelles  que  reuniam  nas  denominadas  aldeias, 
que   governavam. 

Tal  qual  no  Paraguay,  alli  só  elles  dispunham.  Aos 
brancos  de  fora  era  vedado  o  accesso.  Para  melhor  guarda, 
não  satisfeitos  da  vigilância  constante,  erguiam,  entre  seus 
pupillos  e  a  m alicia  dos  extranhos,  a  barreira  difficil  da 
linguagem.  Os  indios  não  aprendiam  o  português.  Trocavam 
a  giria  própria  pelo  idioma  particular  de  uma  das  grandes 
íamilias  indígenas,  o  tupi,  que,  adoptado  em  toda  a  costa, 
se  nomeou  por  língua  geral,  O  obstáculo  era,  para  os  colonos, 
na  maioria  ineptos  em  tal  fala,  assas  duro  de  superar.  Não 
podiam  seduzíi-os  com  promessas,  nem  convencel-os  com 
enredos  a  deixarem  os  padres.  Quando  os  levavam  para  o 
serviço,  a  necessidade  de  uma  língua  era  sempre  descom- 
modo.  Contra  o  ardil,  justificado  como  defesa,  em  todos  os 
tempos   protestaram   os   colonos   e  sempre   debalde. 

Senhores  absolutos  do  índio,  pelo  intellecto,  os  missio- 
nários não  hesitavam  ante  as  violências  corporaes,  se  a 
persuasão  não  bastava.  Isso,  e  o  habito  de  compellírem  os 
neophytos  ao  trabalho  em  proveito  commum,  naturalmente 
fez  resurgir  a  idéa  da  escravidão.  Lícita  esta,  de  qualquer 
modo,  em  proveito  dos  missionários,  tinha  de  o  ser  tam.bem, 
embora    com    temperamentos,    a    beneficio    dos    seculares.    E 


INTERVENÇÃO  DE  BENEDICTO  XIV  131 

d'esta  arte,  colonos  e  jesuítas,  por  mais  de  um  século  em 
aberta  lucta,  congraçavam-se  partilhando  a  presa.  Por  esse 
facto  perdiam  os  padres  a  razão  do  seu  prestigio  ante  o 
poder  civil.  Á  corte  chegavam  denuncias  e  reclamações,  e 
d'esta  vez  bem  fundadas.  O  governo  commoveu-se.  D.  João  V, 
para  corrigir  o  abuso  da  gente  ecclesiastica  requereu  a 
intervenção  pontifical. 


IV 


Benedicto  XIV  acudiu  em  1741  com  um  breve  que, 
proscrevendo  a  escravidão  dos  americanos,  pronunciava  a 
excommunhão  contra  quem  os  violentasse  nas  pessoas,  bens 
e  liberdades.  Seculares  e  ecclesiasticos  eram  incluídos  nas 
mesmas  penas,  e  de  notar  é  que,  na  enumeração  das  ordens 
religiosas,  o  breve  somente  nomeia  os  cavalleiros  de  5.  João 
de  Jerusalém,  com  que  os  Índios  nada  tinham,  e  a  Com- 
panhia de  Jesus.  Posto  isto,  e  se  attendermos  a  que  subscrevia 
o  édito  pontifício  o  cardeal  Passionei,  aquelle  mesmo  que 
se  jactava  de  não  possuir  nas  suas  estantes  um  só  volume 
de  autor  jesuíta,  acertaremos  em  que  a  severa  reprimenda 
exclusivamente  visava   a   Ordem. 

Mas  os  interesses  ligados  ao  abuso  podiam  mais  que 
as  determinações  de  reis  e  pontífices.  Não  se  deu  publicidade 
ao  breve,   que  ficou  retido  em   Lisboa. 

O  caso  da  intervenção  papal  deriva  do  ferrenho  caracter 
da  contenda  no  Pará,  quando,  cerca  de  1730,  parecia  terem 
os  missionários  definitivamente  ganho  o  demorado  pleito. 
O  colono  paraense  Paulo  da  Silva  Nunes  foi  o  primeiro  e 
obscuro  artífice  do  final  desbarato.  Exilado  do  Pará  pela 
opposição  aos  jesuítas,  por  mais  de  quinze  annos  contra 
elles  denunciou,  requereu,  declamou.  Em  successivas  repre- 
sentações, uma  após  outra  abafadas  nas  secretarias  do  Estado, 
escarnou  os  abusos  e  sophismas  da  Companhia,  notou-lhe 
as  desobediências,  exprobou-lhe  as  ganâncias,  compendiou  as 
accusações   que   de   toda  a   parte   brotavam   contra   ella. 

Sumidos   taes    escriptos   por   muitos    annos   no   Conselho 


132  TRATADO    DE    LIMITES    NA    AMERICA 


Ultramarino,  cahiram  nas  mãos  de  Pombal  em  1756,  quando, 
embebido  na  lucta,  cubiçoso  rebuscava  argumentos  e  factos 
para  lançar,  como  pedras  de  catapulta,  sobre  os  jesuitas;  e. 
reunidos  em  volume,  ficaram  designados  com  o  titulo  de 
Tcrribilidades,  palavra  muito  d'elle  e  que,  no  exagero  do 
significado,  bem  caracteriza  a  importância  em  que  tinha  a 
rancorosa    compilação    de    Paulo    da    Silva    Nunes. 

Como  a  estas  representações,  no  breve  de  1741  puzera- 
se-lhe  também  pedra  em  cima.  As  instrucções  de  Xavier  de 
Mendonça  não  fazem  menção  d'elle,  signal  de  que  o  governo 
o  ignorava.  Sem  alludir  ao  breve  de  Benedicto  XIV,  orde- 
nava-se  ao  capitão  general  que  de  modo  nenhum  consentisse 
os  captiveiros,  revogavam^se  ;as  leis  anteriores,  que  em  certas 
condições  os  permittiam,  e  insistia-se  no  velho  alvitre  de  se 
introduzirem  escravos  negros,  idéa  primitiva  dos  jesuitas. 
Os  religiosos  e  pessoas  ecclesiasticas  deviam  primar  na 
obediência,  dando  o  exemplo  de  pagarem  aos  Índios  que 
tinham  a  serviço,  aliás  perderiam  as  terras  publicas,  onde 
tinham  suas  casas  e  lotes  agrícolas,  e  de  onde  tiravam  o 
melhor  parado  de  suas  rendas.  Contra  o  excessivo  poder 
d'esses  ecclesiasticos,  particularmente  sobre  os  Índios,  o 
governador  devia  precatar-se.  Pesava  ainda  o  silencio  sobre 
as  Terribilidadcs,  guardadas  no  Conselho  Ultramarino,  mas 
os  ecos  da  demorada  contenda  não  se  tinham  de  todo  abafado. 

O  assumpto  importante  do  governo  de  Xavier  de 
Mendonça  era  porém,  sobre  todos,  o  tratado  de  limites.  As 
instrucções  impunham-lhe  que  recolhesse  noticias  do  terri- 
tório, por  onde  se  ia  demarcar  a  fronteira,  e  o  juizo  que  do 
accordo  faziam  as  pessoas  experientes  da  colónia.  Era  preciso 
também  prover  á  expedição,  que  por  campos,  florestas  e 
aguas  ia  traçar  a  linha  ideal  descripta  nos  mappás ;  prepanar 
barcos,  mantimentos,  tripulações;  estas  compostas  dos  Índios, 
sujeitas  aos  missionários,  barcos  os  d'elles,  e  os  mantimentos 
também,  na  maior  parte,  productos  de  lavouras  dos  mesmos 
Índios. 

O  tratado,  lev^ado  a  effeito  por  diligencias  de  Alexandre 
de  Gusmão,  produzira  descontentamento,  tanto  em  Hespanha 
como   em    Portugal.    De   ambas   as   partes   se  julgava   lesivo. 


GUSMÃO   SOBRE   A    COLÓNIA    DO   SACRAMENTO  133 


Bem  inspirada,  a  rainha  Maria  Barbara  pensara  perpetuar 
a  paz  entre  a  pátria  de  seu  marido  e  a  sua,  terminando  a: 
questão  sempre  azeda  da  colónia  do  Sacramento.  Infelizmente 
a  opinião  geral  era-lhe  contraria.  Em  Madrid  attribuia-se  o 
convénio  a  meneios  da  Inglaterra,  que  meditava,  por  meio 
d'elle,  excluidos  os  portuguezes  do  Prata,  fazer  sósinha  p 
clandestino  commercio  com  as  possessões  castelhanas.  Em 
Portugal  dizia-se  que  todos  os  que  intervieram  no  tratado 
haviam  sido  subornados  pela  Hespanha.  O  próprio  rei  não 
escapava  á  suspeita.  Havia  quem  pretendesse  que,  sendo 
principe  herdeiro,  fora  corrompido  por  grande  somma,  para 
se  não  manifestar  adverso.  Dando  conta  do  boato,  Stah- 
remberg  fazia  o  seguinte  venenoso  commentario :  cisto  ,é 
apenas  um  vago  dizer,  porém  tem  seus  visos  de  verdade»  i. 
Talvez  por  ser  a  rainha  viuva  contraria.  Carvalho  suppunha-se 
que  o  fosse   também,   muito  embora  se   não   declarasse. 

Segundo  a  opinião  mais  commum,  o  accordo  seria  por- 
tador de  grandes  damnos  ao  commercio.  Perdia-se,  com  a 
colónia  do  Sacramento,  «a  chave  mestra  dos  domínios  ameri- 
canos»—  diziam  os  descontentes — ,  e,  mal  nós  largássemos, 
lá  se  iriam  metter  os  ingleses,  cobiçosos  havia  muito  d'aquella 
possessão.  A  isto  Alexandre  de  Gusmão,  fautor  do  convénio, 
redarguia  que  minimo  seria  o  prejuízo,  visto  consistir  o 
trafico  da  Colónia  principalmente  em  fazendas  extrangeiras, 
que  por  fraude  se  introduziam  em  terras  castelhanas;  e 
afinal  supportavamos  despesa  grande  e  dissensões  constantes, 
só  por  manter  uma  praça  de  gwerra  que  não  passava  de  um 
covil  de  contrabandistas.  Prejuízo,  se  havia,  era  dos  extran- 
geiros.  Cedíamos  um  presidio  encravado,  distante  de  nossos 
portos,  e  em  permanente  disputa,  a  troco  de  extenso  terri- 
tório, com  o  qual  dávamos  grande  fundo  ao  Estado  do 
Brasil  ^  E  com  elle  estava  o  justo  interesse  e  a  razão. 


1  Rei.  12  fevereiro  1751.  Zeitschrifí  filr  kath.  Theologie,  T.  22, 
1898,  arí.   de    B.   Duhr,   pag.   691. 

-  Resposta  a  António  Pedro  de  Vasconcellos,  governador  que  foi 
da  Colónia  do  Sacramento.  Ms. 


134  AS    SETE    MISSÕES    DO    URUGUAY 


V 


Nas  terras  que  a  Hespanha  ia  largar  incluia-se  uma 
área,  a  leste  do  Uruguay,  onde  os  jesuítas  administravam, 
ou  melhor  possuíam,  sete  colónias  ou  redacções,  com  cerca 
de  trinta  mil  índios  neophytos.  Aos  habitantes  era  facultavel 
deixarem  os  locaes,  com  seus  missionários,  e  irem  pousar  em 
terras  próximas,  que  ficavam  á  Hespanha.  Por  este  arbítrio 
os  superiores  em  Roma  se  pronunciaram.  Todavia,  tão  nocivo 
era  o  tratado  ás  missões  estabelecidas  que  não  admira 
puzessem  os  jesuítas  o  máximo  esforço  em  o  mallograr.  Se 
o  Geral,  padre  Retz,  escrevera  aos  missionários,  ordenando 
que  sahissem  das  reducções  com  os  índios,  e  d'ellas  fizessem 
entrega  aos  régios  commíssarios,  o  Provincial  do  Paragua}^ 
protestava,  representando  a  Fernando  VI  que  perdia  a  coroa 
de  Hespanha  trezentos  mil  vassalos,  e  introduzia  no  coração 
de  seus  domínios  uma  potencia  rival.  Dentro  em  pouco  se 
veria  penetrarem  os  portugueses,  com  os  ingleses  seus  amigos, 
no  Paraguay,  e  chegarem  a  Potosi,  assenhoreando-se  das 
minas,  cobiçadas  do  mundo  inteiro.  Tal  era  a  these  dos 
jesuítas  e  mais  oppositores  do  tratado. 

Em  accordo  com  os  padres,  o  governador  de  Buenos- 
Ayres  representava  também.  De  Madrid,  o  marquês  de  la 
Ensenada,  ministro  de  Fernando  VI,  mandava  secreto  aviso 
ao  rei  de  Nápoles,  herdeiro  da  coroa,  para  que,  por  seu 
embaixador,  protestasse.  Suspeito  da  inconfidência,  o  marquês 
perdeu  por  este  acto  o  seu  posto  'e  o  régio  favor;  mas  a 
força  do  aviso  que  dera  prevaleceu,  e  foi  um  dos  primeiros 
cuidados  de  Carlos  III,  succedendo  no  throno,  repudiar  o 
tratado. 

As  ordens  de  Retz,  que  entretanto  fallecera,  foram  confir- 
madas por  Visconti,  novo  Geral.  Infelizmente  repugnava  aos 
Índios  a  perspectiva  de  abandonarem  casas,  povoações  e  a 
gleba  á  qual,  pela  nascença  e  pelo  trabalho,  gerações  succes- 
sivas  se  tinham  vinculado.  O  sentimento  da  resistência, 
natural  nas  almas  ainda  as  mais  rudimentares  e  passivas, 
despertou  n'elles;  e  é  de  vêr  que  da  parte  dos  missionários 


REBELLIÃO   DOS   ÍNDIOS   DAS  MISSÕES  135 

encontraria  estimulo.  Estes,  se  ostensivamente  acatavam  as 
ordens  do  Geral,  com  disfarce  acirravam  a  reluctancia  dos 
Índios,  que  afinal  se  levantaram  em  g^uerra,  para  defesa  de 
seus   lares. 

Por  justa  que  fosse  a  rebellião,  não  a  approvaram  ps 
superiores  da  Companhia.  Foi  de  boa  fé  que  o  Geral  mandou 
cumprir  as  ordens  régias.  Talvez  elle  próprio  não  medisse 
as  difficuldades.  Para  o  fim  tinha  enviado  ao  Paraguay  um 
missionário,  o  padre  Altamirano,  encarregado  de  assistir  á 
mudança  das  reducções.  É  este  quem  accusa  os  regulares, 
principalmente  os  extrangeiros.  «Os  missionários  —  escreve 
elle  ao  confessor  de  Fernando  VI  —  não  teem  nenhuma  devo- 
ção ao  rei  nem  á  monarchia.  Os  Índios  já  teriam  realizado 
a  mudança  se  os  padres  seriamente  o  quizessem.  No  meu 
parecer  são  os  missionários  os  causadores  da  rebellião  e  da 
má  fama  que  d'ella  possa  resultar  á  Companhia»  i.  O  núcleo 
d'esta  resistência  ia  ser  apontado  ao  mundo  como  a  repu- 
blica jesuítica  do  Paraguay,  e  ás  forças  combinadas  do 
Portugal  e  Hespanha  esse  Estado  famoso  offereceria  batalha. 

Não  se  dirá  que  da  campanha  sahissem  as  hostes  dos 
soberanos  cobertas  de  gloria.  Com  seus  arcos  e  frechas, 
algumas  espingardas,  frágeis  canhões,  feitos  de  grossa  taquara, 
rija  canna  da  America,  cintada  de  couro  e  ferro,  além  d'isso 
arrojados  cavalleiros,  os  índios  bateram-se  com  denodo  2l 
principio.  O  terror  e  a  superstição  augmentavam-lhes  ia 
innata  crueldade.  Aos  portug^ueses  feridos  e  mortos  cortavam 
as  cabeças,  que  deviam  collocar  a  um  palmo  do  tronco,  pelo 
menos,  para  não  resuscítarem,  segundo  a  crença  sua.  As  diffi- 
culdades do  caminho,  por  bosques  e  várzeas  alagadiças,  deti- 
nham as  tropas.  Por  espaço  de  dois  meses,  na  estação  das 
chuvas,  tiveram  os  nossos  de  acampar,  abrigados  pela 
ramagem,  no  cimo  das  arvores.  Tudo  isso  inspirava  desgosto 
e  desanimo;  porém,  vindo  ás  mãos  em  campo  raso,  não 
podia  o  êxito  ser  duvidoso.  Por  final  chegou-se  a  isso,  e  a 
chacina  foi  enorme.  Milhares  de  selvagens  perderam  as  vidas. 


1     Zeitschtift   fiier   kath.    Theol.    art.   cit.,    pag.    698. 


136  PROPOSTAS    DE    XAVIER    DE    MENDONÇA 

e  os  alliados  occuparam  as  reducções.  A  empresa,  por  mes- 
quinha que  fosse,  teve  a  sua  epopeia.  O  Uruguay  de  José 
Basilio  da  Gama  foi  os  Lusíadas  do  século  de  Pombal. 

Na  outra  zona  das  demarcações,  ao  norte  do  Brasil, 
não  teve  o  tratado  melhor  acolhimento.  As  opiniões,  colli- 
gidas  pelo  novo  governador,  sahiram  todas  contrarias.  Um 
dos  mais  notáveis  habitantes  da  colónia,  João  de  Sousa  de 
Azevedo,  habituado  a  percorrer  a  fronteira,  dizia  pareccr-lhe 
o  accordo  dos  limites  por  aquella  parte  uma  traição  formal; 
e  o  próprio  Xavier  de  Mendonça  resumira  as  impressões 
esclarecendo  ao  irmão  que  «naquelle  contrato  tiveram  os 
outros    melhores    procuradores    que    os    portugueses»  i. 

Os  Jesuítas  de  lá,  por  solidariedade,  não  podiam  vêr  de 
boamente  o  concerto,  que  mutilava  a  melhor  obra  dos  seus, 
e  lhe  principiava  a  ruina.  intimados  pelo  governador  a  pro- 
verem de  barcos,  remadores  e  mantimentos  a  expedição,  qu€ 
devia  encontrar  na  fronteira  os  commissarios  castelhanos, 
illudiam  com  ardis  ingénuos  a  obrigação :  tinham  as  embar- 
cações desmanteladas,  os  Índios  desertavam,  e  as  terras, 
subitamente  estéreis,  não  podiam  ao  mesmo  tempo  abastecer 
a  frota  e  acudir  ao  sustento  dos  que  ficavam. 


VI 


Outra  razão  punha  em  conflicto  os  missionários  com  a 
corte  portuguesa.  Mendonça  propuzera-se  dar  ao  seu  regi- 
mento execução  cabal,  terminando  os  captiveiros  e  contendo 
os  missionários  na  área  restricta  das  suas  regalias.  Conjun- 
tamente pensava  em  substituir  o  escravo  selvagem  por  gente 
de  Africa.  Iniciativa  impossível  á  penúria  dos  habitantes,  pois, 
convocando  os  mais  ricos,  para  fazerem  uma  companhia,  não 
excedeu  o  cabedal,  que  se  apurou,  de  trinta  mil  cruzados, 
«Esta  pequena  quantia  —  informava  elle  —  que  poiíde  iuntar-se, 
é  a  ultima  substancia  da   capitania ;   e   se   S,   M.,   com  a  sua. 


1     Off.    20    Janeiro    1752.    Coll.    Pomb.,    cod.    631. 


A  LIBERTAÇÃO   DOS  SELVAGENS  137 


real  piedade,  não  a  protege  e  ampara,  experimentarão  certa- 
mente estes  moradores  a  sua  total  ruina,  de  onde  esperavam 
achar  a  sua  redempção;;  i.  Esta  redempção  era  a  que  o 
governador  lhes  promettia,  quando  tivessem  elles  próprios 
remido  os  indígenas.  Na  colónia  ninguém  nella  acreditava, 
e  até  os  missionários  com  espanto  viam  desapparecer  a 
melhor  fonte  dos  seus  réditos,  porque,  como  sabemos,  já 
agora  conformados  com  as  escravidões,  faziam  causa  commum 
com  os  seculares,  pugnando  pela  manutenção  d'ellas.  E  o 
testemunho  iam  dal-o  d'ahi  a  pouco,  quando  o  Reitor  do 
Pará,  em  supplica  ao  rei,  assim  se  explicava :  «Notável  é  a 
afflicção  e  susto  em  que  me  vejo,  porque  o  governador 
pretende  que  todos  os  Índios,  servos  d'este  collegio,  com 
os  mais  do  Estado,  sejam  declarados  por  forros;  pretenção 
assas  dura  e  injusta,  porque,  na  realidade  ha  neste  Estado 
muitos  escravos  legítimos  >  -. 

Entretanto,  sem  os  africanos,  não  se  podiam  realmente 
remir  os  indígenas.  A  companhia  ia  formar-se  e,  pelas  con- 
dições da  sua  fundação,  pelo  facto  de  libertar  os  selvagens, 
molestando  os  jesuítas,  ia  chamar  estes  á  liça  com  mais  esti- 
mulo, €  dar  alarma  para  a  sanhosa  e  dilatada  guerra  que, 
acima  de  tudo,  deu  fama  na  historia  a   Pombal. 

O  projecto  do  governador  do  Pará  não  podia  mal  parecer 
a  seu  irmão,  tão  interessado  antes  em  suscitar  a  Companhia 
oriental.  Não  foi  tropeço  a  falta  de  elementos  na  colónia. 
Convidados  os  m.agnates  financeiros  de  Lisboa,  assentou-se 
que  seria  d'elles  o  emprehendimento ;  o  capital  um  milhão 
e  duzentos  mil  cruzados.  Estudaram-se  as  vantagens,  isenções, 
e  direitos  que  podiam  trazer  prosperidade  á  instituição,  e 
attrahir  o  concurso  de  sócios.  O  próprio  Carvalho  segura- 
mente participava  do  negocio.  Pelo  menos  seus  inimigos  o 
increpavam  de  haver  recebido,  em  nome  da  mulher,  certo 
numero  de  acções  beneficiarias.  O  ministro,  enthusiasmado, 
considerava  de  grande  alcance  a  empresa,  «fundamento  solido 


i     Off.    18   Janeiro    1754.   Archivos   do    Pará. 

2     3  maio   1737.   Bibliotheca  Eborense,   Cod.   cxv. 


138  COMPANHIA    DO    GRÃO-PARÁ    E    MARANHÃO 

das  felicidades  espirituaes  e  temporaes  d'esse  Estado»,  escrevia 
ao  irmão;  além  d'isso,  ponto  de  partida  para  as  duas  reformas 
que  meditava  —  declarar  livres  definitivamente  os  indigenas, 
e  transferir  dos  religiosos  para  a  coroa  o  governo  das 
missões. 

Ambos  os  projectos  feriam  interesses  preponderantes  da 
colónia':  as  liberdades  extinguiam  toda  a  industria,  que  era 
O  trabalho  forçado  dos  indigenas ;  a  secularização  estancava 
aos  missionários  a  foni'e  do  poder  e  da  riqueza.  Isto  pelo 
que  directamente  importava  ao  Grão-Pará.  Na  metrópole,  a 
creação  da  Companhia,  rica  de  privilégios,  arruinava  de  vez 
o  commercio  livre.  Colonos,  jesuitas  e  mercadores  ligaram-se 
todos,  em  um  clamor  de  protesto  contra  a  nova  fundação. 

A  Companhia  teve  o  exclusivo  da  navegação,  do  trafico 
de  negros,  da  introducção  de  géneros  da  Europa,  da  compra 
e  venda  de  productos  da  colónia,  cujos  preços  ella  taxava, 
À  sua  disposição  estavam  duas  fragatas  de  guerra,  para 
comboio  das  frotas.  Seus  empregados  tinham  categoria  de 
officiaes  de  justiça;  os  administradores  e  caixeiros  foro  espe- 
cial, com  seu  juiz  conservador,  como  os  ingleses  e  outros 
extrangeiros  privilegiados;  crime,  em  qualquer  parte  com- 
mettido  por  elles,  somente  em  Lisboa,  por  aquelle  juiz,  podia 
ser  julgado.  A  estas  insólitas  regalias  se  juntavam  e  accres- 
ceram  depois  muitas  outras,  contradictorias  ao  direito 
e  á   razão. 

Sobre  as  injustas  disposições  não  tardaram  os  interesses 
magoados  a  pronunciar-se.  O  bradar  foi  geral.  A  Mesa  do 
Bem  Commum,  ao  estylo  da  época  irmandade  com  seu  orago, 
o  Espirito  Santo,  e  camará  de  commercio,  que  representava 
a  classe  aggravada,  protestou  levando  ao  paço  longa  e  bem 
fundada  petição.  Nella  apontava  as  perdas  imminentes,  os 
direitos  feridos  d'aquelles  que  até  alli  exploravam  um  licito 
commercio ;  previa  os  damnos  futuros,  recordando  que, 
setenta  annos  antes,  o  mesmo  Estado  do  Pará-Maranhão  se 
rebellara,  por  motivos  eguaes  —  uma  Companhia  com  privi- 
legio do  trafico,  os  indios  intangiveis,  a  promessa  da  copiosa 
escravatura  da  Africa  para  os  substituir. 

Mas,    ao    contrario    da    companhia    de    1682,    bemquista 


os   jesuítas  guerreiam  a  companhia   do  GRÃO-PARÁ     139 

dos  jesuítas,  a  presente  era  arma  apontada  contra  elles,  e 
particularmente  destinada  a  prival-os  dos  indios,  que  a  outra 
lhes  puzera  mais  á  vontade  nas  mãos.  O  commercio,  que 
faziam  as  missões,  e  de  que  estas  se  mantinham,  ia  ser-lhes 
também  vedado.  Não  mais,  como  até  aqui,  poderiam  mandar 
para  o  reino  os  géneros  por  seus  neophytos  fabricados,  ou 
extrahidos  das  mattas ;  tão  pouco  receber  de  conta  própria 
fazendas  de  que  usavam  suppril-os.  Sem  negocio  e  sem  indios, 
impendia  a  ruina  sobre  a  obra  tão  prospera,  e  que,  na  impo- 
nência, só  tinha  por  superior  o  maravilhoso  Paraguay. 
Nenhuma  duvida  agora  de  que  a  politica  de  Carvalho  lhes 
era  decididamente  hostil.  Contra  ella  pois  os  appellidava  a 
obrigação  da  defesa;  e  a  reacção,  esboçada  no  Pará  contra 
o  governador,  ia  ser  francamente  declarada  na  corte,  lem 
desafio   ao   ministro. 

Na  representação  collaborou,  se  não  foi  elle  o  só 
redactor,  o  padre  Bento  da  Fonseca,  graduado  jesuita,  procu- 
rador do  Maranhão.  Por  casas  de  seus  familiares  buscavam 
os  padres  agitar  a  opinião,  dando  a  entender  que  o  infante 
D.  Pedro  animava  os  protestos.  Como  golpe  mais  directo, 
um  pregador  jesuita  verberou  na  Patriar.chal,  em  transpa- 
rentes allusões,  a  companhia  de  commercio,  e  os  que  nella 
participavam.  Christo,  dizia  elle,  propunha  uma  sociedade, 
em  que  só  entrariam  aquelles  que  por  meios  illicitos  tivessem 
enriquecido,  pois  com  isso  remiriam  seus  peccados.  «Eu, 
senhores  —  malicioso  proferia  —  não  intento  impugnar  as 
Companhias  dos  homens,  porque  o  commercio,  quando  é 
licito,  não  se  prohibe.  O  meu  intento  é  só  persuadir,  aos  que 
enriqueceram  por  meios  illicitos,  que  entrem  na  Companhia, 
que  Christo  quer  hoje  com  elles  estabelecer»  i.  Assim  rezava 
o  texto  escripto,  apresentado  em  justificação  depois,  satírico, 
porém  anodíno;  mas  o  ministro  pretendia  ter  o  orador 
clamado  que  não  entrariam  na  Companhia  de  Christo  aquelles 
que  entrassem   na  de   commercio,  agora  creada,  antes  seriam 


Sermão    do   padre    Ballester.    Bibl.    Nac.    Ms. 


140  CARVALHO     REPRIME    AS     RECLAMAÇÕES 

réprobos  e  condemnados  ao  fogo  eterno  i.  O  crime  era 
grave,  e  o   castigo   não  lhe  tardou. 

Aos  ataques  respondeu  Carvalho  com  a  violenta  decisão, 
própria  do  seu  caracter.  O  pregador  e  o  confrade  Bento  da 
Fonseca  foram  logo  desterrados  da  corte.  Desterrados  seriam 
também  os  da  Ah-sa  do  Bem  Commam^  e  entre  esses,  três,  os 
de  mais  culpas,  para  o  presidio  de  Mazagão.  Antecipando 
resistência  no  Pará,  ordenou  fossem  presas  as  pessoas,  que 
se  pronunciassem  contra  a  Companhia,  porquanto  «é  crime 
de  lesa-magestade  dizer  mal  das  leis  de  el-rei»;  e  que  fossem 
expulsos  os  religiosos  que,  como  o  jesuíta  lisbonense,  do 
púlpito  se  manifestassem.  Finalmente,  suppondo  os  missio- 
nários capazes  de  instigarem  a  algum  acto  de  sublevação, 
ameaçava-os  com  graves  castigos,  por  mais  sensível  que  se 
vos  faça  a  sua  execução,  —  escrevia  a  Francisco  Xavier  -  — 
provavelmente  os  inhospitos  degredos  e  os  cárceres,  como 
se   viu   depois. 

O  colérico  arranco  do  ministro  era  desnecessário.  Não 
faltaria  vontade  aos  jesuitas  de  agitarem  a  colónia,  mas  não 
encontravam  na  população,  miserável  e  aterrada,  apoio  para 
algum  acto  de  resistência;  e  na  insurreição  dos  Índios, 
que  os  successos  do  Paraguay  levariam  o  ministro  a  appre- 
hender,  não  pensaram  sequer.  Nesse  tempo  todo  o  empenho 
d'elles  era  impedir  a  demarcação,  e  foram  nisso  bem  succe- 
didos,  porque  os  commissarios  hespanhoes  não  vieram  ao 
encontro  ajustado  com  os  portugueses.  Debalde  os  esperou 
Xavier  de  Mendonça  no  seu  posto  da  fronteira.  Teve  de 
retirar-se,  e  os  limites  ficaram  ainda  por  longos  annos  vagos, 
por  essa  banda. 

Nesse  tempo,  quatro  jesuitas,  por  desavenças  com  auto- 
ridades e  delictos  mal  provados,  foram  expulsos  do  Pará- 
Maranhão.  Era  o  primeiro  acto  de  força  contra  a  Sociedade 
de  Jesus.  Chegaram  a  Lisboa  no  dia  seguinte  ao  terremoto 
e,  na  turvação  do  momento,  escaparam  ás  penas  que  lhes 
seriam  sem  isso  infligidas. 


1     Sebastião    José    de    Carvalho    a    Francisco    Xavier    de    Mendonça. 
4   Agosto    1557.    Coll.    Pomb.,    cod.    626. 
-     Idem,    id. 


CAPITULO    V 


O  TERREMOTO 


A  caíastrophe.  Perdas  materiaes.  Actividade  de  Carvalho.  Soccorros 
do  exlrangeiro.  —  II.  Intervallo  de  hostilidades.  Impressão  do 
terremoto  no  resto  da  Europ:'..  Goethe  recorda-o  nas  suas  Memo- 
rias. Influencia  do  fanatismo.  A  Junta  da  Providencia.  Martinho 
Velho  Oldemberg  conspira  contra  Carvalho.  Libello  escandaloso 
de  Teixeira  de  Mendonça.  —  III.  Intervenção  dos  barbadinhos 
italianos.  Carvalho  vinga-se  dos  conspiradores.  Desgraça  de  Diogo 
de  Mendonça  Corte  Real.  —  Terror  da  população  que  Mala- 
grida  alimenta  com  suas  pregações.  O  Juizo  da  verdadeira  cansa 
do  terremoto.  Castigo  do  seu  autor.  —  V.  Sedição  no  Porto 
contra  a  Companhia  dos  Vinhos.  Cruel  repressão  ordenada  por 
Carvalho.  José  Mascarenhas  Pacheco  escrivão  da  alçada.  Prisão 
posterior  d'este  magistrado.  —  VI.  Os  jesuítas  e  a  opposição 
a  Carvalho.  Os  missionários  reagem  no  Pará-Maranhão.  Emanci- 
pação dos  índios.  São  despedidos  os  confessores  do  paço.  A 
Relação  abbreviada.  Nicolau  I  rei  do  Paraguay.  Representações 
a    Benedicto    XIV.    Breve    de    reforma   dos    jesuítas. 


Chega  o  tétrico  dia  l.o  de  novembro  de  1755.  Linda 
manhã  de  outomno  em  Portugal.  Ceo  puríssimo;  ar  tépido. 
Dia  santificado.  As  egrejas  apinhadas  de  povo,  ao  badalar 
alegre  dos  campanários.  As  nuvens  brancas  do  incenso 
enchiam,  com  o  murmurinho  das  preces,  as  claras  naves. 
Súbito,  um  ronco  pavoroso,  enorme  trovão  subterrâneo.  Caval- 
gada  de   cyclopes    que   se   approximava   em    doida    correria; 


142  A   CATASTROPHE   DE    1    DE   NOVEMBRO   DE    1755 


arrastar  de  carros  gigantes  nos  abysmos  da  terra.  Nos  altares 
oscillam  as  imagens;  as  paredes  bailam;  dessoldam-se  traves 
e  columnas ;  ruem  as  paredes  com  o  som  cavo  de  caliça  que 
esbrôa,  e  de  corpos  humanos  esmagados ;  no  chão,  onde  os 
mortos  repousam,  aluem  os  covaes,  para  tragar  os  vivos. 
O  terror,  a  surpresa,  recalcam  por  um  instante  as  vozes,  que 
logo  repontam  em  brados  de  misericórdia,  no  chamar  de 
entes  caros,  e  afinal  se  extinguem  em  gemidos  e  estertores. 
O  horror  todo  das  gchennas  em  ais  e  tormentos.  Fuga  desor- 
denada, com  atropellos  fataes,  e  o  tropeçar  continuo  em 
pedras   e   cadáveres. 

Muitos  correm  para  o  rio.  As  aguas,  sacudidas  como  em 
apertado  vaso,  transbordam  em  arranco  imprevisto,  trazendo 
comsigo  barcos,  vidas,  toda  a  espécie  de  despojos.  Duzentas 
mil  pessoas  vagueiam  loucas;  e  aqui,  além,  de  entre  a  poeira 
dos  desabamentos,  erguem-se,  para  o  firmamento  azul,  negros 
rolos  de  fumo  e  os  rubros  lampejos  dos  incêndios.  Por  toda 
a  parte  ruinas. 

Immenso,  como  é  de  imaginar,  foi  o  pânico,  que  durou 
muitos  dias.  Sem  abrigo,  aterrada  e  faminta,  grande  parte 
da  população  abandonava  Lisboa.  Da  provincia,  os  regimentos 
da  Extremadura  e  Alemtejo.  Entre  os  destroços  fumegantes, 
a  ralé  dos  peores  bairros  discorre  em  cata  de  salvados  para, 
a  rapina.  Ha  rixas  e  assassínios ;  e,  a  cada  passo,  as  forcras 
onde  pendem  os  roubadores,  colhidos  em  flagrante,  accentuam 
em  traços  lúgubres  a  nota  do  pavor. 

Vidas  perdidas  muitas,  principalmente  nas  egrejas,  e  entre 
a  gente  do  povo,  que  assistia  ás  primeiras  missas.  Os  fidalgos 
e  pessoas  abastadas,  que  só  iam  mais  tarde,  ás  onze  horas, 
foram  por  isso  poupados.  De  ministros  extrangeiros  perecpu 
o  de  Hespanha.  O  de  França  conseguiu  salvar  os  moveis  e 
objectos  preciosos.  Como  sempre  em  casos  taes,  exagerou-se 
no  primeiro  instante  a  conta  das  victimas.  Assim  Carvalho 
o  disse  aos  governadores  ultramarinos,  calculando  afinal  os 
mortos  em  seis  a  oito  mil.  Talvez  ainda  de  mais.  Os  feridos 
é  que  eram  em  grande  numero,  principalmente  os  que,  na 
fuga,  cahindo,  atropellados,  esmagados,  com  o  pânico  faziam 
mais  horrenda  a   convulsão   da   natureza. 


CARVALHO   SUPERHOMEM?  143 

Prejuízos  materiaes  consideráveis.  Dez  mil  casas  des- 
tmidas,  além  dos  edificios  públicos,  egrejas,  conventos,  palácio 
real  e  muitos  de  fidalgos.  Em  moeda  dez  milhões  de  cruzados, 
principalmente  dos  mineiros,  gente  de  torna  viagem,  que 
eram  os  ricaços  da  época.  As  perdas  em  trastes  de  casa,  jóias 
e  preciosidades  deviam  ser  enormes.  «Desde  o  reinado  de 
Pedro  II  —  diz  luma  realção  contemporânea  —  descobertas  as 
minas  do  Brasil,  tinha-se  estabelecido  em  Portugal  o  laxo 
das  mobílias.  Cada  palácio  era  um  thesouro  particular,  de 
quadros,  tapeçarias  e  outras  riquezas.  Suppõe-se  que  o  pre- 
juízo, comprehendidas  as  casas  dos  extrangeiros,  alcance 
1200   milhões»  i. 

Às  urgências  da  situação  Carvalho  acudiu  com  a  firmeza 
e  intelligencia  que  tornaram  famoso  o  seu  nome.  Nas  horas 
angustiosas,  em  que  foi  preciso  proporcionar  soccorros, 
mantimentos,  abrigo,  defesa;  prestar  consolo  a  milhares  de 
creaturas,  vencidas  de  terror;  em  fim,  cuidar  dos  vivos  e 
enterrar  os  mortos,  na  phrase  syntetica,  que  lhe  é  attribuida ; 
dos  três  ministros,  Pedro  da  Motta,  invalido,  Diogo  de 
Mendonça,  fugitivo,  elle  foi  só  a  dispor,  a^gir  e  mandar.  As 
celebres  palavras  pôde  ser  que  as  não  proferisse.  Mas,  nesie 
caso,  como  em  muitos  outros  da  historia,  o  inexacto  é  mais 
verdadeiro  que  a  realidade  própria.  O  dito  permaneceu  na 
tradição  como  a  formula  de  um  caracter,  e  ficará  para  sempre 
vinculada  ao  nome  de  Pombal. 

k  distancia  secular  que  nos  separa  do  acontecido,  a 
imaginação  vê  ainda  o  super-homem,  Sebastião  José  de 
Carvalho,  a  emergir  sósinho  dos  fumos  da  catastrophe.  Elle 
enterrou  os  mortos;  elle  cuidou  dos  vivos;  elle  nivelou  as 
luinas,  traçou  as  ruas,  desenhou  as  construcções,  gizou  a 
estatua  equestre,  e,  triumphador,  fez-se  retratar,  delineando 
a  Lisboa  nova  que  de  entre  os  destroços  resurgia.  O  epitheto 
de  pombalina,  que  tem  a  architectura  do  seu  tempo,  designa 
mais  que  um  estylo  e  uma  época:  denuncia  uma  vontade  em 


1     Relation  Historique  da  íremblement  de  terre  survenu  à  Liiboitne. 
La   Vlaye    17  56,    pag.    214. 


144  SOCCORROS    DO   EXTRANGEIRO 


acção,  e,  para  os  espíritos  simplistas,  foi  essa  vontade  que 
moveu  e  alçou  cada  uma  das  pedras  de  Lisboa  reconstruída, 

A  verdade  é  que,  em  emergência  semelhante,  nenhum 
estadista  mediano,  com  eguaes  responsabilidades,  lhe  ficaria 
somenos.  As  circumstancias  forçavam;  tinha  de  operar  mila- 
gres, ou  deixar  subverter  tudo  em  destroços  e  na  anarchia. 
Carvalho  esteve  á  altura  da  situação.  À  roda  d*elle,  a  fidalguia 
recordando  hereditárias  tradições  de  sacrifício;  os  religiosos 
com  a  devoção  altruísta  e  a  força  da  disciplina  monástica; 
e  os  homens  de  tempera  sã  que,  passado  o  pânico,  buscavam 
um  centro  onde  as  energias  dispersas  se  congregassem ;  todos 
esses  foram  da  primeira  hora  a  enterrar  mortos  e  cuidai 
de   vivos. 

De  fora  do  reino,  a  solidariedade  humana,  que  alvorecia 
já,  mandava,  com  reflexos  de  sympathia,  soccorros  materiaes. 
A  Hespanha,  a  França  offereciam  auxílios  pecuniários,  altiva- 
mente recusados,  A  Grã-Bretanha,  com  o  direito  de  alliada, 
enviou  dinheiro,  viveres,  roupas  e  ferramentas  —  cem  mil 
libras,  votadas  pelo  parlamento  —  em  uma  frota  comboiada 
por  barcos  de  guerra.  Se  não  mentem  as  memorias  do  tempo, 
compostas,  é  certo,  por  inimigos  de  Carvalho,  a  moeda  foi 
distribuída  pelos  titulares  e  apaniguados  do  ministro;  os 
géneros  arruinaram-se  nos  armazéns ;  as  ferramentas  empre- 
garam-se,  passado  tempo,  nas  obras  do  Estado,  Um  fidalgo 
de  brioso  caracter,  o  marquês  de  Valença,  dignamente  rejeitou 
dezoito  mil  cruzados,  que  lhe  queriam  dar,  dizendo  que 
melhor  applícados  seriam  aos  necessitados  i.  Mas  nem  todos 
foram   de   tanta   isenção. 


II 


A  convulsão  da  natureza  abateu  por  momentos  a  ira 
dos  homens.  Atalhou-se  a  refrega  entre  Carvalho  e  as  facções. 
O  persistente  sobresalto   dos  ânimos,   o   lamentar  das   vidas 


1     Vida    de    Sebastião    José    de    Carvalho    e    Mello,    Ms.    Bibl.    Nac. 


INTERVALLO   DE  HOSTILIDADES  145 


preciosas,  dos  bens  perdidos  nos  incêndios  e  desmorona- 
mentos ;  o  balancear  das  fortunas,  após  os  damnos  da  catas- 
trophe  1 ;  com  o  ministro  os  cuidados  e  obrigações  da  tarefa 
reparadora;  tudo  levava  para  outro  rumo  propósitos  e  acti- 
vidiades.  À  'sombra  da  trégua,  os  jesuitas  deportados  do 
Pará-Maranhão  desembarcaram  livres  em  Lisboa.  Os  presos 
da  Mesa  do  Bem  Commiim  e  outros,  que  os  tinham  acompa- 
nhado no  protesto,  receberam  indulto;  só  um  d'elles,  o 
advogado  Negreiros,  ficara  sepultado  nas  ruinas  do  calabouço. 
Em  outubro  corria  na  cidade  que  os  confessores  jesuitas  das 
pessoas  reaes  iam  ser  despedidos.  Mas  os  serviços  prestados 
na  occasião  do  terremoto,  os  escrúpulos  do  rei,  preoccupações 
mais  iwgentes  de  Carvalho  detiveram  a  resolução.  Os  padres 
desterrados  por  causa  da  companhia  de  commercio  voltaram 
á  capital.  Emfim,  íao  collegio  de  S.  Antão  se  deu  um  subsidio 
para  restaurar  a  torre,   damnificada  pelo  abalo. 

Logo,  porém,  'a  discórdia  antiga  renasceu.  Malagrida  que, 
por  milagre,  se  dizia  ter  salvo  a  vida  no  terremoto,  bradava, 
contra  os  vicios  dos  homens,  com  agrado  da  corte  e  indi- 
gnação do  ministro  valido.  Na  roda  dos  fidalgos  os  ódios 
recolhidos  exsudavam  em  acerados  sarcasmos.  Observava 
D.  José,  pasmado  da  assombrosa  actividade  d'aquelle,  que 
a  providencia  divina  não  só  lhe  poupara  a  vida,  para  remédio 
de  tão  grande  calamidade,  como  deixara  illesa  a  sua  habitação 


^     As    perdas   do    commercio    extrangeiro   avaliaram-se    em    244    mi- 
lhões, dinheiro  v  mercadorias,  sendo: 

Inglaterra 160   milhões 

Hamburgo 40         i 

Itália 25         > 

Hollanda 10         j 

Franca 4         » 

Suécia 3         » 

Allemanha 2         »                    -v 

Esta  lista  dá   idéa   do   trafico  com   cada   um   dos    paizes. 
O   prejuizo   total,    causado   pelo   cataclysmo,  elevou-se,    segundo    cál- 
culos   do   mesmo    informador,    a    2:284   milhões  de    libras   tornezas. 
Relation    Historique,    cit.,    pag.    215,    216. 

o    MARQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  10 


146      IMPRESSÃO   no  TERRKAAOTO   NO   RESTO   DA   EUROPA 


na  rua  Formosa.  —  «Isso  não  quer  dizer  nada,  —  tornou  um 
fidalgo  —  também  las  casas  da  rua  Suja  (alfiurja  das  meretrizes) 
ficaram  de  pé.»  É  apocrypha  a  anecdota?  Não  importa.  Como 
o  dito  lapidar  de  Carvalho,  o  facto  de  existir  na  tradição 
faz  que  'ella   caracterize   o   periodo. 

Fora  de  Portugal,  o  sentimento  de  pavor,  resultante  do 
abalo,  propagou-se  com  intensidade  que  a  relativa  indifferença 
ante  os  recentes  cataclysmos  da  Martinica,  de  S.  Francisco, 
mesmo  o  de  Messina  mal  deixa  presentir.  A  noticia  correu 
por  toda  a  parte  com  extranha  rapidez.  Em  pontos  distantes 
da  Europa  ise  experimentou  a  influencia  sismica.  Phenomenos 
até  ahi  não  vistos  assombravam  os  ânimos,  e  as  imaginações 
compraziam-'se  em  crear  outros  mais  singulares  e  tecriveis. 
Em  alguns  logares  appareciam  vestigios  de  abalos ;  em  outros 
seccavam  as  fontes,  principalmente  os  mineraes.  Goethe,  de 
seis  annos  naquelle  tempo,  deixou  na  sua  auto-biographia 
brevemente  estereotypada  a  impressão  geral.  «Porventura  em 
tempo  algum  —  diz  o  poeta  —  o  demónio  do  terror  espalhou 
por  toda  ;a  terra,  com  tanta  rapidez  e  força  tal,  o  arrepio 
do  medo ;  e  o  pequenito  —  era  eile  —  que  tantas  vezes  ouvia 
do  Buccedido,  não  foi  dos  menos  impressionados.»  A  propó- 
sito recorda  que  «não  faltavam  considerações  das  almas 
piedosas,  confortações  de  philosophos,  nem  exhortações  de 
pregadores»  i. 

Em  Portugal,  como  de  razão,  havia  d'isso  mais  que  em 
qualquer  outra  parte,  salvo  que  philosophos  raros  se  conta- 
riam. D'elles  «ra  Sebastião  José  de  Carvalho,  no  governo, 
a  única  pessoa  que  as  razões  da  sciencia  contentariam. 
D.  José,  obsesso  de  suggestões  do  fanatismo,  era  pela  acção 
divina  e  para  ella  appellou,  esco'lhendo  S.  Francisco  de  Borja 
por  intercessor  ante  o  throno  celestial.  Por  intermédio  de 
Car\'alho,  o  ministro  em  Roma  foi  incumbido  de  solicitar  o 
despacho  do  bemaventurado  a  padroeiro  do  reino.  Sendo 
o  eleito  corypheu  da  Companhia  de  Jesus,  é  fácil  inferir  de 


1     Dichtung    und   Wahrheit,    Liv.    I. 


INFLUENCIA  DO  FANATISMO  147 


onde  a  insinuação  partiria.  O  credito  dos  jesuitas,  ultima- 
mente  incerto,   recuperava   terreno, 

O  susto  geral,  alimentado  pela  continuação  dos  tremores 
ultimamente  ligeiros,  dava  ensejo  ao  recrudescer  do  senti- 
mento religioso,  que  a  opposição  aproveitou.  Carvalho,  que 
sustentava  ter  sido  o  terremoto  successo  da  natureza,  e  não 
o  explodir  da  cólera  divina,  falava  como  impio.  Seus  actos 
desagradavam  ao  Eterno,  e  o  descalabro  do  governo  certa- 
mente pedia  reforma,  para  se  evitar  o  retorno  do  tremendo 
castigo.  D.  José  não  desprezava  meio  de  propiciar  a  corte 
celestial.  O  Senado  de  Lisboa,  convocado  em  consulta  por 
aviso  régio,  votou  que  em  todo  o  reino  se  realizassem  pro- 
cissões em  honra  da  Virgem,  no  domingo  segundo  de 
novembro  em  quanto  o  mundo  durar ^  Agradecimento  que  dava 
a  nação  á  misericórdia  suprema,  por  não  terem  continuado 
os  estragos  do  terremoto.  Padres  fanáticos  e  missionários 
frequentavam  o  paço,  exploravam  a  facil  crendice  da 
familia   reaL 

A  occasião  pareceu  azada  para  um  golpe  ao  ministro. 
A  perturbação  inevitável  de  toda  a  machina  do  governo,  em 
seguida  .á  catastrophe,  o  desanimo  do  rei,  assaltado  de 
duvidas  e  religiosos  terrores,  convidavam  a  nobreza  espezi- 
nhada, e  os  profissionaes  da  beatice  a  um  desforço  contra 
o  inimigo  commum.  O  descontentamento  popular,  acirrado 
pelas  misérias  do  terremoto  offerecia-Ihes  supporte  moral. 
Diogo  de  Mendonça,  estomagado  por  lhe  fazer  sombra  o 
collega,  devia  ser  do  conluio.  Pelo  menos  dava-lhe  indirecto 
apoio,  no  esforço  constante  de  minar  a  influencia  de  Carvalho. 
Ajustados,   lançaram-^se   com   animo   na  aventura. 

António  da  Costa  Freire,  desembargador  e  conselheiro 
de  fazenda,  organizou  um  plano  de  governo,  em  que  haviam 
de  entrar  os  duques  de  Lafões  e  de  Aveiro,  marquezes  de 
Anjeja,  de  Marialva  e  conde  de  S.  Lourenço,  —  o  escol  da 
nobreza  do  reino.  A  designação  de  Junta  da  Providencia 
manifestava   o   caracter  salvador   e   religioso   da   colligação. 

Martinho  Velho  Oldemberg  —  chimerico  negociante,  lhe 
chamou  Pombal  —  encarregou-se  de  ir  como  esculca  sondar 
o  animo  do  Rei.  Constando-lhe  que  D.  José  pensava  em  se 


148  CONTRA   CARVALHO 

mudar  dos  barracões  que,  após  o  terremoto,  fora  habitar  na 
Ajuda,  offereceu  umas  casas  suas ;  e,  continuando  a  pratica, 
insinuou  que  facilmente  poderia  o  soberano  levantar  dinheiro 
para  a  reedificação  da  cidade.  Interrogado  sobre  os  meios, 
expoz  o  plano,  que  elle,  satisfeito,  lhe  mandou  submetter  a 
Carvalho.  A  isso  Martinho  Velho  replicou  que  tal  não  faria; 
com  semelhante  homem  não  queria  tratos ;  e  vagamente  deu 
a  entender  que  delapidava  a  fazenda  real.  Lançada  a  accusação, 
cumpria  justifical-a.  Prometteu  um  relatório  escripto,  que 
depois  mandou  ao  Rei. 

Francisco  Xavier  Teixeira  de  Mendonça,  advogado  de 
fama,  áspero  patrono  de  uma  demanda  estrondosa,  perdida 
contra  Carvalho,  compoz  o  memorial.  Este,  pouco  divergiria, 
se  não  era  o  próprio  escripto,  de  uma  Carta  que  de  Portugal 
se  escreveu  a  um  grande  de  Hespanha  i,  pamphleto  vehemente 
da  mesma  penna  junto  ao  processo,  que  se  fez  ao  autor  no 
juizo    da    Inconfidência. 

Vinte  e  oito  meias  folhas  contém  o  documento,  com- 
pendio de  quantos  malefícios  a  voz  geral  imputava  ao 
ministro,  de  tudo  o  que  a  maledicência  proterva  colligia  ou 
inventava.  Subindo  ás  origens,  mostrava  a  tendência,  here- 
ditária na  família,  para  usurpar  alheios  bens.  O  avô,  deman- 
dista  emérito,  espreitava  as  heranças  incertas,  reivlndicando-as, 
para  extorquir  compensações  áquelles  a  quem  podiam  reverter, 
e  que  temiam  o  laudo  fallivel  dos  tribunaes.  Por  este  pro- 
cesso, seu  tio,  o  arcipreste,  se  investira  no  morgado  de 
Carvalho,  pertencente  á  casa  de  Athouguia,  que  somente  ao 
cabo  de  annos  o  recuperou,  dando  Indemnizações,  e  com 
perda  dos  rendimentos  usurpados.  O  pae  tinha  dado  com 
supposto  nome  á  estampa  um  livro  de  genealogias,  para 
sobre  elle  instituir  fidalga  ascendência  ^\  e,  com  attestações 
d*elle,  Ise  mettera  em  posse  de  uns  morgados  da  casa  de 
Montalvão,   disputados   em    litigio   de   muitos   annos,   para    o 


1     Datada  de   25  de  fevereiro  de   1756. 

^  É  o  que  tem  por  titulo:  Theatro  genealógico  que  contem  as 
arvores  dos  costados  das  principaes  famílias  do  Reino  de  Portugal  e 
suas    conquistas,    por    D.   Tivisco   Nazao   Zarco   y    Colona;   abra    de   Ma- 


LIBELLO    ESCANDALOSO    DE    TEIXEIRA    DE   ^MENDONÇA      149 

qual  o  (Secretario  de  Estado,  já  no  cargo,  arrancara  aos  juizes 
a   finai  decisão   em   seu   favor. 

Outra  malícia  d'este  consistira  em  se  apoderar  com 
fingido  direito  de  um  deposito  de  prata,  de  antiga  e  conhe- 
cida proveniência,  existente  na  camará  de  Lisboa.  E,  dizia 
o  accusador,  com  isto  mostrara  ser  «muito  maior  sujeito  que 
seu  tio,  pae,  e  avô,  porque  não  só  vencera  um  pleito  (o  de 
Montalvão)  que  elles  se  não  animaram  a  continuar,  sendo 
vivos,  mas  recuperou  um  thesouro  da  sua  casa,  que  áquelles 
não  veio  ao  pensamento,  não  sendo  elles  negligentes  nos 
seus    negócios.» 

Anteriormente  á  sua  carreira  diplomática,  fizera-se  eleger 
sócio  da  Academia  Real  de  Historia  para,  com  o  pretexto 
de  estudos  e  busca  de  inéditos,  revolver  os  cartórios,  e 
haver  ás  mãos  antigos  papeis  das  casas  opulentas;  e,  subtra- 
hidos  os  que  lhe  convinha  desapparecessem,  em  logar  de 
memorias  académicas  lescrevia  os  provarás,  tendentes  a  esbu- 
lhar dos  bens  legitimos  áquelles  que  sem  desconfiança  ,lhe 
tinham    facultado   os    papeis. 

Concussionario,  recebera  para  favorecer  o  contrato  da 
pólvora,  50  mil  cruzados ;  600  mil  no  contrato  dos  diamantes ; 
150  mil  em  acções  da  Companhia  do  Grão-Pará,  offerecidas 
pelos  fundadores  a  sua  mulher. 

D'ahi,  analysando  a  administração  publica,  o  foliculario 
pintava  o  descontentamento  geral,  sobre  o  qual  se  calavam 
áquelles  a  quem  cumpria  avisar  o  soberano.  «Querem  todos 
receber  com  vivas  e  luminárias  as  leis  e  resoluções  de 
Sebastião  José,  approvando  o  damno,  a  vêr  se  do  mau  éffeito 
-póde  resultar  o  remédio».  D'esta  guisa  explicava  a  reserva 
dos  cortesãos.  Todavia,  «se  S.  M.  tivesse  a  bondade  de  ouvir 
e  perguntar  a  todas  as  pessoas  a  quem  concede  a  honra  de 
falar,   pelo    que   sabem    e   ouvem   d'este   homem,    certamente 


noel  de  Carvalho  de  Athayde,  pae  do  ministro,  declarada  pelo  Desem- 
bargo do  Paço  falta  de  fé  e  sem  credito,  e  mandada  por  esse  tri- 
bunal apprehender.  Foi  clandestinamente  impressa  em  Lisboa,  figu- 
rando que  eni  Nápoles. 


150  O  CASAMENTO   DA  HERDEIRA  DA  COROA 

não  acharia  uma  única  que  lhe  não  dissesse  a  sua  indignidade». 
E  terminava  o  hbello  pela  ajlusão  a  «outros  factos  mais  horro- 
rosos e  indesculpáveis,  porque  se  dirigem  a  não  menos  que 
arruinar  o  reino  de  todo,  embaraçando  a  dilação  da  ditosa  des- 
cendência dos  nossos  soberanos,  e  siiccessão  doesta  monarchia^->  ^. 
Taes  imputações  não  surprehendem,  nem  pelo  que  possam 
conter  de  aleivoso,  nem  pelo  que  d'ellas  será  licito  acreditar. 
Factos  deturpados  pelo  despeito,  invenções  do  ódio,  ou  tor- 
pezas reaes,  a  que,  pela  impunidade  segura,  a  humana 
fraqueza  se  deixa  tentar,  e  qiiie  em  todos  os  tempos,  e  com 
semelhantes  motivos,  se  irrogaram  aos  triumphadores.  As 
demais  accusações  sobreleva  consideravelmente  a  derradeira. 
A  opposição  ao  casamento  da  princesa,  deixada  até  aqui  no 
escuro  pelos  historiographos,  é  um  dos  factos  culminantes  do 
reinado.  À  volta  d'elle  gravita  a  politica  interna  de  Pombal, 
que  semprd  e  a  'todo  o  transe  quiz  afastar  do  throno  o  infante 
D.  Pedro,  com  quem  seus  adversários  viriam  ao  poder.  Por 
isso  embaraçou  por  muitos  annos  o  consorcio,  e  tentou  depois 
excluir  a  futura  Rainha  da  successão.  Pela  mesma  causa  se 
azedou  a  lucta  com  a  nobreza,  muitos  próceres  padeceram,  e 
a  ruina  dos  jesuitas  foi  mais  rápida  e  definitiva.  Entretanto 
ninguém  na  occasião  futurava  tão  grandes  consequências. 
Reduzido  o  denunciador  ao  silencio,  dois  annos  transcorreram 
até   ellas  se  manifestarem. 


III 


Na  intriga  contra  o  ministro  havia,  pelas  razoes  sabidas, 
de  participar  a  clerezia.  Dois  frades  barbadinhos  italianos 
gosavam  então  de  grande  credito  na  corte.  A  devoção,  conse- 
cutiva ao  'terremoto,  franqueara  as  reaes  barracas  a  estes 
e  outros  mensageiros  da  palavra  divina,  portadores  ora  "das 
ameaças   de   Javeh,   ora   das   consolações   do   Christo   miseri- 


^     Copia  de  uma   carta  que  se  escreveu   de   Portugal  a   um  grande 
de    Hcspanha      Ms.     Bibl.     Nac.     Cod.     852^    Coll.     Moreira. 


INTERVENÇÃO     DOS     BARBADINHOS     ITALIANOS  151 


cordioso.  Incerto  entre  o  'terror  €  a  razão,  D.  José  dava 
alternativamente  ouvidos  ás  homilias  dos  missionários  e  á 
supposta  impiedade  do  seu  ministro,  Encommendara  aos 
padres  italianos  uma  missão  no  paço,  que  se  realizou  com 
prédicas,  ladainhas,  confissões  e  exercícios  vários  de  piedade, 
muito  a  desgosto  de  Carvalho,  indignado  pela  intrusão 
d'aquelles  fanáticos  na  régia  confiança.  Recebendo  o  memo- 
rial de  Martinho  Velho,  D.  José  mandou  que  um  dos  barba- 
dinhos  o  lesse,  e  dissesse  o  seu  parecer.  O  frade,  astucioso, 
acaso  ganho  pelos  do  conluio,  deu  a  resposta  ambigua.  «Se 
era  aquillo  verdade,  andava  S.  M.  muito  enganado  com  o 
ministro.»  E,  á  cautela,  pediu  que  não  passasse  ás  mãos  d'elle 
o  papel,  o  que  o  Rei  lhe  prometteu.  De  tal  modo  não  haveria 
receio  de  justificação  ou  desforço. 

Tudo  parecia  á  feição  dos  conspiradores,  tanto  mais 
que,  declarado  ou  não,  tinham  dentro  do  gabinete  um  auxi- 
liar. Diogo  de  Mendonça  Corte  Real  havia  muito  machinava 
contra  o  coUega,  que  desde  a  primeira  hora  o  eclipsara.  Ao 
seu  papel  secundário  no  governo  devia  o  não  ser,  como  elle, 
detestado  dos  grandes,  captando  ao  contrario  as  sympathias, 
por  certa  uncção  de  maneiras,  que  em  um  doutor  de  cânones, 
como  era,  dizia  bem.  Sem  dotes  de  talento  ou  saber,  recom- 
mendava-se  pelo  trato  ameno,  com  que  se  grangeiam  las 
superficiaes  e  inúteis  amizades.  Do  corpo  diplomático  era 
querido;  não  regateavam  os  ministros  extrangeiros,  ao  abbé 
de  Mendonça,  as  mais  amáveis  referencias.  No  animo  do 
Rei  insinuara^se,  lisonjeando-lhe  o  gosto  dos  prazeres,  ani- 
mando-o  ás  prodigalidades,  que  mal  compadeciam  á  situação, 
quasi  sempre  apertada,  do  erário;  e  nesta  parte  não  deprimia 
o  collega,  experiente,  com  vantagem  sua,  do  methodo.  Contra- 
riando, sempre  que  havia  modo,  os  alvitres  de  Carvalho,  ia 
sósinho  ao  despacho,  para  evitar  que  lhe  impugnasse  os 
seus,  e  'nessas  occasiões  não  perdia  ponto  de,  por  algum 
dito  insidioso,  precatar  d'elle  o  soberano. 

Este,  taciturno  por  feitio,  não  se  pronunciava;  mas  a 
coalisão  já  se  julgava  vencedora.  Diogo  de  Mendonça,  nos 
jantares,  em  que  ao  domingo  reunia  os  amigos,  lamentava 
os  erros  da  administração,  denegria  em  confidencias  o  rival, 


152  CARVALHO    VINGA-SE    DOS    CONSPIRADORES 


deixava  entrever  sancções  imminentes.  Já  se  falava  em  devassa 
e  julgamento  criminal.  Encerrabodes,  então  ministro  em 
Haya,  aprestava-se  para  o  substituir.  Os  colligados,  em  con- 
versas intimas,  €  no  que  escreviam,  jactavam-se  do  triumpho 
próximo.  Foi  isto  a  perda  d'elles.  Interceptadas  as  cartas  no 
Gabinete  de  abertura,  leu-as  o  Rei  e  entrou  em  desconfianças; 
soube  d'ellas  o  ministro.  Este,  com  a  ousadia  natural  do 
seu  animo,  fez  face  á  tormenta.  Interrogado,  ou  provocando 
elle  próprio  as  explicações,  facilmente  se  justificou.  As  accu- 
sações  eram  dizeres  vagos,  sem  o  esteio  de  uma  prova, 
Illibado  elle,   quem   as   proferiu  havia  de  ter  o   retorno. 

Martinho  Velho,  Teixeira  de  Mendonça,  os  padres 
italianos,  outros  de  menos  vulto,  foram  presos  e  summaria- 
mente  sentenciados.  Um  decreto  severo  declarou  impostores 
e  sediciosos  aquelles  indivíduos,  que  se  diziam  inspirados 
por  Deus  para  reformar  os  costumes  da  corte  e  da  cidade, 
e  autorizados  pelo  Rei  a  promover  devassa  e  processo  a 
um  secretario  de  Estado  i.  Base  da  acção  penal  foi  o  escripto 
de  Teixeira  de  Mendonça.  Este  e  Martinho  Velho,  degre- 
dados com  alguns  mais  para  Angola,  alli  fajjeceram.  Os  dois 
religiosos  entraram,  para  detenção  de  longos  annos,  no  forte 
da  Junqueira.  Lá  se  lhes  juntaram  mais  tarde  Encerrabodes 
e  António  da  Costa  Freire,  quando,  pelo  attentado  de  1758, 
Carvalho  teve  as  mãos  soltas,  para  o  capricho  das  vindictas. 

Aos  seus  próprios  juizes  declarou  elle  que  o  Rei, 
indignado,  não  quizera  lêr  em  conselho  o  papel  de  Martinho 
Oldemberg,  e  ordenara  os  castigos.  El-rei  mandou,  foi  a 
perpetua  desculpa  de  Carvalho.  Acreditemol-o,  sem  todavia 
imaginarmos  que  violentado  obedecia  praticando  rigores. 
Pelo  contrario,  a  suggestão  era  tal,  que  não  admira  ante- 
cipar-se  o  Rei  nas  sentenças  que  lia  no  cenho  do  ministro. 
E  d'esta  vez  fora  o  ataque  pessoal  tão  directo  que  assas 
se    comprehende    o    deleite    d'elle    na    vingança. 

Effectuaram-se  as  prisões  em  junho.  No  dia  30  de 
agosto   surprehendeu   o   publico   a   demissão    de    Diogo    de 


1     20    junho    1750.    Ms.    da    Bibl.    Nac,    Coll.    Moreira.    Cod.    852. 


DESGRAÇA    DE    DIOGO    DE    MENDONÇA  153 

Mendonça,  desterrado  para  quarenta  léguas  da  corte.  Dera 
elle  na  véspera  um  jantar  ao  corpo  diplomático  e  nada  fazia 
suspeitar  do  seu  infortúnio  próximo,  quando,  á  meia  noite, 
D.  Luiz  da  Cunha,  ministro  dos  extrangeiros,  foi  acompa- 
nhado de  tropa,  intimar-lhe  a  ordem  de  exilio.  Qual  o  crime 
allegado?  «A  desordem  e  inquietação  que  tem  motivado  com 
bárbaros  e  infiéis  pretextos,  no  real  serviço»,  reza  o  decreto 
de  exterminio.  O  dizer  é  vago,  e,  para  os  contemporâneos, 
ficou  a  razão  verdadeira  mysteriosa,  assim  como  o  successo 
lastimável.  O  Enviado  francês,  conde  de  Baschi,  lamentava 
ter  D.  José  arredado  de  si  «o  homem  mais  amável  de  Por- 
tugal» 1.  Em  outros  officios  fazia  notar  que  era  Carvalho 
mal  visto  por  causa  do  seu  governo  despoticoí,  e  que  o  ódio, 
a  indignação  contra  elle  augmentaram  após  o  desterro  de 
Mendonça  ^.  Os  dois  juizos  definem  a  situação,  e  quasi  as 
culpas   pelas   quaes   cahira   o   ministro   em   desagrado. 

Além  do  esforço  em  solapar  a  influencia  do  collega, 
o  edito,  publicado  em  seguida,  permitte-nos  imaginar  cousa 
mais  grave.  «Sendo-me  presente  —  principia  —  que  houve 
pessoas  taes  le  tão  barbaras,  que  se  atrevessem  a  proferir 
que  podia  haver  quem  attentasse  contra  a  vida  dos  ministros, 
que  commigo  despacham. ..»  \  Diogo  de  Mendonça  despe- 
dido, morto  já  Pedro  da  Motta,  D.  Luiz  da  Cunha  ministro 
da  véspera,  Thomé  Corte  Real  do  dia  seguinte;  quem,  senão 
Carvalho,  podia  tser  o  ameaçado  ?  E  era  a  Diogo  de  Mendonça 
que  o  decreto  visava.  Desenganado  de  vencer  pela  intriga, 
o  emulo  aliciara  um  matador.  Coevos  bem  informados  assim 
julgavam  *,  e  a  dureza  do  tratamento  presta  verosimilhança 
á  imputação.  Exilado  primeiro  em  uma  quinta  sua,  de  lá 
transferido  a  Mazagão,  voltou,  annos  passados,  ao  reino, 
para    o    forte    das    Berlengas,    e    terminou    afinal    a    vida    no 


1  Ofí.    30    agosto    1751.    Quad.    Elem.    VI,    93. 

-  Oft.    29   iunho.    9    setemÍDro.    Quad.   Elem.    VI.    90,    93. 

^  Decreto  de   17  Agosto   1756,  af fixado  em    1    de  setembro. 

^  Cf.  Memorias  de  frei  João  de  S.  Joseph  Queiroz,  bispo  do  Grão 

Pará.  publicadas    por    Camillo    Castello    Branco^    pag.    125. 


154  O  TERROR  DO  NOVO  TERREMOTO 


encerro  de  um  mosteiro,  em  Peniche.  Vencidos,  os  inimigos 
do  ministro  preferido  desappareciam  para  sempre  da  exis- 
tência. Assim  foi  inaugurado  o  terror  pombalino. 


IV 


Entretanto  não  serenava  a  impressão  pávida  do  terremoto. 
De  boca  em  boca,  nas  mais  altas  como  nas  mais  baixas 
camadas  sociaes,  corriam  assustadoras  predições.  De  onde 
em  onde  repetiam-se  os  abalos.  Ao  menor  d'elles,  que  se 
julgava  o  ultimo  e  definitivo  para  a  destruição  da  cidade, 
estalavam  gritos  de  misericórdia.  A  vista  das  ruínas  aterrava 
sempre.  Annunciavam-se  novas  calamidades  para  o  dia  um 
de  novembro,  anniversario  da  catastrophe.  Uma  parte  de 
Lisboa  submersa  nas  ondas;  a  outra  lançada  aos  ares,  por 
explosão  da  pólvora  existente  no  Castello.  Horror  sobre 
horror  pesando  nas  imaginações.  No  primeiro  de  julho  houve 
um  tremor  de  terra  violento.  Por  fins  de  outubro  muita  gente 
deixou  a  capital,  mas  nos  dois  últimos  dias,  e  no  primeiro 
de  novembro,  as  autoridades  impediram  o  êxodo.  Lisboa 
ficou  encerrada  com  o  seu  terror,  e  passou  a  funesta  data 
sem  que  elle  de  todo  se  applacasse. 

Aos  medrosos  parecia  natural  ser  a  tremenda  calamidade 
castigo  divino.  Ambiente  de  temor  religioso.  Hora  magnifica 
de  milagres  e  prophecias.  Malagrida,  que  não  pudera,  pela 
opposição  do  governador  Mendonça,  realizar  no  Pará  as 
fundações  projectadas,  voltara  a  Lisboa  com  fama  de  santo. 
Por  toda  a  parte,  no  reino  como  no  Brasil,  se  contavam 
prodigios  seus.  O  Altissimo  tudo  concedia,  mediante  as 
preces  d'elle.  O  infante  D.  Pedro,  enfermo,  mandara-lhe  dizer, 
pelo  camarista,  que  impetrasse  a  sua  cura;  e  logo  melhorou, 
O  marquez  de  Louriçal  conseguira,  também  por  elle,  que 
o  céo  lhe  abençoasse  com  descendência  o  matrimonio  infe- 
cundo. Egual  felicidade  teve  um  magistrado,  de  avançada 
edade,  que  ás  orações  do  santo  varão  recorrera.  Não  obsta 
que  a  impiedade  attribuisse  este  milagre  a  outras  causas;  o 


VOLTA    DE    MALAQRIDA   A    PORTUGAL  155 

fervor  de  um  coração  acceito  do  sólio  celeste  realizara  o 
impossível. 

Além  d'isso  vaticinava.  Annunciara  a  morte  da  Rainha, 
viuva  de  D.  João  V,  e  os  confrades  jesuitas  asseguravam  ique, 
por  aviso  divino,  presentira  o  terremoto.  Por  egual  inspiração 
dizia  agora  que  outros  cataclysmos  sobreviriam,  em  castigo 
dos  peccados  da  nação. 

Se  Malagrida  tinha  alma  ingénua  de  apostolo,  e  agia 
somente  de  olhos  fitos  no  céo,  outros  jesuitas,  e  eram  quasi 
todos,  consideravam  mais  attentos  os  interesses  terrenos. 
Esses  aproveitavam  a  situação  para  o  prestigio  da  Ordem. 
A  pugna  sobre  a  Companhia  de  commercio  revivia,  com 
melhor  prospecto  para  elles,  na  interpretação  do  terremoto. 
De  uma  parte  Malagrida,  os  demais  religiosos  e  seus  affectos 
a  bradarem  que  fora  castigo  do  céo;  da  outra  Carvalho  e 
os  poucos  immunes  de  superstição,  imputando  a  catastrophe 
á  fatalidade  das  forças  naturaes.  Uns  empenhados  em  aterrar, 
promettendo  desastres  novos ;  outros  combatendo  pelo  racio- 
cínio as  suggestões  da  ignorância  e  do  medo,  Viram-se,  dizia 
Pombal,  os  jesuitas,  «ora  fingindo  peccados  públicos,  que 
realmente  não  havia,  para  attribuirem  a  castigo  d'elles  o 
tristíssimo  phenomeno, . . .  ora,  attentando  contra  os  sagrados 
arcanos  da  omnipotência  divina,  para  mais  aterrarem  os  povos, 
ameaçando-lhes  outros  futuros,  pretendidos  e  maiores  cas- 
tigos. . .»  1,  e,  exasperado  pela  vantagem,  que  os  jesuitas 
ganhavam  com  a  inclusão  do  seu  bemaventurado  Francisco 
de  Borja  entre  os  protectores  celestes  do  reino,  accrescentava : 
«ora  passando  a  esbulhar  Santo  Egydio,  bispo,  da  pacifica 
posse,  em  que  estava,  de  ser  advogado  contra  os  terre- 
motos. . .»  -.  Com  tudo  isto,  outro  avanço  dos  jesuitas,  em 
seguida,  mais  havia  ainda  de  o  indignar. 

Em  outubro  sahiu  á  luz  um  folheto  de  Malagrida,  Jiiizo 
da  verdadeira  causa  do  terremoto,  com  o  louvor  do  Santo 
Officio  que,  na  censura,  lhe  exaltava  a  doutrina.  «Sabe, 
Lisboa  —  exclamava  o  jesuita  —  que  os  únicos  destruidores  de 

*     Deducção    chronologica,    Parte    I,    Div.    XV,    §    867. 
"     Idem. 


156  UM     FOLHETO     DE     MALAGRIDA 


tantas  casas  e  palácios,  os  assoladores  de  tantos  templos  e 
conventos,  homicidas  de  tantos  seus  habitantes,  os  incêndios 
devoradores  de  tantos  thcsouros  não  são  cometas,  não  são 
estrellas,  não  são  vapores  ou  exhalações,  não  são  pheno- 
menos,  não  são  contingências  ou  causas  naturaes,  mas  são 
unicamente  os  nossos  intoleráveis  peccados.»  Era  geral  a 
impenitencia  e  o  desprezo  da  salvação.  As  almas  perdiam-se 
no  tropel  dos  insanos  prazeres.  Não  faltava  concurso  ás 
touradas,  ás  danças,  aos  theatros,  ás  diversões  de  toda  a 
espécie,  e  os  templos  ficavam  desertos.  Deus  tinha  revelado 
a  sua  ira  a  uma  santa  freira,  fallecida  antes  do  terremoto,  e 
também  outras  pessoas  haviam  tido  presentimento  do  castigo. 
Após  isso,  «haverá  —  perguntava  o  inspirado  —  não  digo 
catholico,  mas  herege,  turco,  ou  judeu,  que  possa  dizer  que 
este  tão  grande  açoite  foi  puro  effeito  das  causas  naturaes, 
e  não  fulminado  especialmente  por  Deus,  pelos  nossos 
peccados?» 

Correu  em  publico  a  obrinha,  a  que,  além  das  circum- 
stancias,  a  santidade  do  autor  conferia  relevo.  Circulou  dos 
tugúrios  humildes  ás  barracas  da  Ajuda,  transformadas  em 
paço  real.  Das  mãos  de  Malagrida  a  recebeu  D.  José. 
Desafio  ou  homenagem  —  mais  provavelmente  desafio  —  o 
missionário  offertou   também   a   Carvalho   um  exemplar. 

Era  demais  para  a  tolerância  do  ministro.  A  juizo  d'elle 
não  passava  o  jesuita  de  um  falso  vidente,  embusteiro  e 
audaz.  O  escripto,  que  o  Santo  Officio  approvara,  offensivo 
á  razão,  também  o  era  ao  governo,  attingido  nos  apodos 
contra  os  que  negavam  o  sobrenatural.  O  mystagôgo  appa- 
recia-lhe  um  jactancioso  inimigo,  atraz  do  qual  toda  a 
Companhia  de  Jesus  avançava.  Cumpria-lhe  reprimir  o  ataque 
pessoal,  que  via  na  publicação,  e  para  isso,  recorrendo  ao 
Núncio  obteve  que  Malagrida  fosse  desterrado  para  Setúbal, 
de  onde  só  tinha  de  voltar  caminho  da  prisão  e  do  cadafalso, 

V 

Em  fevereiro  de  1757  levantou-se  a  plebe  do  Porto 
contra  a  Companhia  alli   estabelecida   em  setembro  anterior. 


COMPANHIA  GERAL  DO  ALTO  DOURO  157 

Como  se  deu  o  movimento  é  sabido.  Nos  últimos  annos, 
antecedentes  ao  terremoto,  os  preços  dos  vinhos  finos  do 
Douro  haviam  baixado  consideravelmente  nos  mercados 
ingleses,  com  repercussão  inevitável  na  economia  da  região 
productora.  Colheitas  excessivas,  lotações  de  maus  vinhos, 
que  desgostavam  os  consumidores,  a  crise  geral  dos  negócios, 
aggravada  por  intempestivas  reformas,  tudo  facilitava  o 
natural  esforço  dos  compradores  pela  baixa,  e  arruinava  as 
provincias,  que  o  tratado  de  Methuen  tinha  enriquecido.  Como 
sempre,  attribuia-se  o  lídimo  effeito  de  causas  económicas  a 
escuros  conluios  de  ganância,  que  só  intervindo  as  leis  se 
poderiam  annullar;  e  logo  appareceram  salvadores,  prestes 
a  fazerem  a  fortuna  própria  com  o  pretexto  de  salvarem  a 
da   nação. 

A  Companhia  do  Grão-Pará,  que  se  estabelecera  antes, 
indicava  a  senda,  e  assim,  fiado  no  precedente,  frei  João  de 
Mansilha,  dominicano  do  Porto,  e  alguns  negociantes  e  lavra- 
dores, imaginaram  creação  idêntica,  com  seus  privilégios, 
incumbindo  o  religioso  de  expor  o  projecto  ao  governo.  Tão 
bem  acolhido  foi  este  que  Mansilha  desde  ahi  apparece  como 
um  dos  favoritos  e  avisadores  de  Carvalho,  À  vontade  dos 
que  a  idearam,  fundou-se  a  Companhia  Geral  da  Agricultura 
das  Vinhas  do  Alto  Douro,  com  o  monopólio  da  venda  na 
cidade  do  Porto  e  subúrbios,  e  da  exportação  para  o  Brasil. 
Mais  o  direito  de  compra  aos  vinhateiros  a  preços  taxados, 
a  producção  dos  vinhos  finos,  de  embarque  restricta,  para 
cada  productor,  á  media  dos  últimos  cinco  annos,  com  outras 
disposições  de  favor  e  regalias  varias,  depois  ampliadas  por 
leis  successivas,  em  todo  o  tempo  do  governo  pombalino. 

Em  regra,  nestas  colligações  de  interesses  vastos,  são 
os  dos  pequenos  e  humildes  sacrificados.  A  Companhia  dos 
Vinhos  não  fez  excepção.  Por  conveniência  d'ella,  que  tinha 
o  monopólio,  fecharam  muitas  casas  de  venda  na  cidade: 
desgosto  dos  prejudicados.  Encareceu  o  vinho  ao  quartilho: 
golpe  ao  conforto  e  alegria  dos  pobres.  Na  quarta-feira  de 
Cinzas,  23  de  fevereiro,  a  cólera  popular  explodiu.  Revolta 
dos  borrachos,  se  íhe  pode  chamar,  incitada  pelos  taverneiros, 
e  para  a  qual  decerto  as  libações  da  terça-feira  de  entrudo 


158  ABOLIÇÃO    DA   COMPANHIA 

concorreram.  Vadios,  soldados,  collarejas,  meretrizes,  escravos, 
a  ralé  da  cidade,  com  o  rapazio  á  frente,  a  bradar  Aqui  do 
povo!  morra  a  Companhia!  ao  toque  de  rebate  nos  campa- 
nários. Um  sargento  é  o  mais  graduado  dos  cabeças  de 
motim.  O  Negres,  o  Cozido,  o  Tativitate,  Maria  Pinta,  mulher 
do  soldado  Negres,  a  Brejeira;  —  os  nomes  dizem  a  qualidade 
dos  revoltosos  —  são  depois  d'elle  os  principaes.  Na  lista 
enorme,  uma  só  pessoa  de  alguma  importância  social:  o 
advogado  Nicolau  da  Costa  Araújo,  que  não  tomou  parte 
nas  desordens,  que  as  não  aconselhou,  culpado  somente  de 
não  denunciar  uns  desconhecidos,  a  quem  negara  a  minuta 
de  uma  representação  contra  a  Companhia,  verificando-se 
depois  serem  elles  dos  amotinados. 

Violentado  pela  plebe,  o  corregedor  que,  na  ausência  do 
chanceller  da  Relação,  era  o  supremo  magistrado  do  Porto, 
declarou  abolida  a  Companhia.  De  resto,  ataques  pessoaes 
nenhuns,  nem  offensas  de  vulto  ás  propriedades.  Apenas  os 
papeis  €  livros  da  sede,  os  moveis  do  Provedor,  agente 
principal,  que  se  occultara,  foram  destruidos.  Depois  voltou 
o  socego.  Extincto  por  dias  o  privilegio,  abriram-se  as  vendas 
por  lei  cerradas,  os  taverneiros  voltaram  a  supprir-se  directe- 
mente  dos  lavradores,  como  d'antes.  Isto  lhes  foi  imputado 
em  crime,  e  como  tal  punido    na  occasião  das   represálias. 

Insignificante  a  commoção  em  si  e  pela  qualidade  dos 
fautores,  para  Carvalho,  espirito  autoritário,  que  toda  a 
opposição  irritava,  foi  um  crime  nefando.  É  de  presumir 
também  a  cólera  do  Rei,  açulada  pelo  exagero  das  narrativas, 
Determinou-se  punir  severamente  os  que  gritavam  Aqui  do 
povo!  contra  as  ordens  de  El-rei,  e  a  cidade,  quel  a  taes  brados 
indifferente  assistira.  Encheu-se  o  Porto  de  tropas.  Nomeou-se 
uma  alçada,  com  extraordinários  poderes,  para  apurar  os 
delinquentes  e  promover  os  castigos.  A  ingénua  arruaça 
considerou-se  crime  de  lesa-majestade;  e,  como  alguns  magis- 
trados da  Relação  hesitassem  em  assentir  na  monstruosa 
qualificação,  Carvalho  mandou-os  publicamente  reprehender. 
A  opinião  d'elles,  dizia,  era  errónea,  absurda,  temerária  e 
opposta  ás  leis  do  reino.  Ao  juiz  da  alçada,  em  carta  parti- 
cular, tratando  do  assumpto  explicava  que  «a  majestade  não 


TRAGEDIA  DETERMINADA  POR  CARVALHO  159 


consiste  somente  na  pessoa  de  el-rei,  mas  também  nas  suas 
leis»  1 ;  e  lesta  máxima  foi  então  e  sempre  guia  da  sua  politica. 
Por  isso  exigia  rápida  e  severa  justiça.  «Acabe  depressa  com 
essa  tragedia»  ^,  insinuava  ao  mesmo  magistrado,  que  pro- 
trahia  a  instrucção  da  causa,  no  interesse  da  verdade,  ou 
para  mais  tempo  desfructar  a  autoridade  e  o  pingue  salário 
da  sangrenta   commissão. 

Tragedia  determinara  o  ministro  que  fosse,  e  não  lh'o 
podiam  recusar  os  juizes.  Sentenças  de  morte  proferiram 
vinte  e  seis,  das  quaes  só  dezesete  se  executaram,  escapando 
oito  homens  fugitivos,  e  uma  mulher,  que  a  maternidade 
imminente  salvou.  Açoites,  degredos,  prisões,  confiscos  e 
multas  a  cento  e  oitenta  e  quatro  pessoas.  Dezesete  rapazes 
sentenciados  a  palmatoadas,  e  a  cidade,  pelo  crime  de  pre- 
senciar inerte  a  manifestação  popular,  punida  com  o  boleto 
das  tropas  por  longos  mezes,  e  contribuição  equivalente  aos 
soldos,    qual   tributo   de   guerra   em   praça   conquistada  ^. 

Por  escasso  interesse  que  os  réos,  alguns  evidentemente 
de  ruim  condição,  mereçam,  o  episodio  fica  na  historia  como 
uma  das  sombrias  paginas,  que  não  são  poucas,  do  governo 
pombalino.  A  tradição  vingadora  exagerou  mesmo  a  pro- 
tervia  dos  juizes,  que  afinal  eram  algozes  subalternos,  obe- 
dientes e  timidos.  O  escrivão  do  processo,  José  de  Mascarenhas 
Pacheco,  poeta  edulcorado  das  Arcádias,  foi  o  mais  detestado. 
Seu    nome    passou    á    posteridade    com    ferrete    de     infâmia. 


'     F.    L.   Gomes,   Matquis   de   Pombal,    109. 

'•'     E.   L.   Gomes,   Marquis   de   Pombal,   106. 

3  De  modo  nenhum  se  attribuia  aos  juizes  o  rigor  das  sentenças. 
A  ttiria  de  quem  mandava  pedira  ainda  mais.  Temos  a  declaração  de 
Pombal  na  hora  das  responsabilidades:  «Resolveu  S.  M.,  com  aquella 
exorbitantíssima  clemência  que  a  ultima  pena  se  não  estendesse  alem 
dos  trinta  réos,  que  houvessem  suscitado  maior  escândalo.  E  navendo 
resplandecido  tanto  naquella  enormíssima  atrocidade  a  summa  clemên- 
cia do  dito  monarcha,  também  é  manifesto  que  do  castigo  d'elia  se 
não  podem  tirar  nem  ainda  pretextos,  para  se  arguir  de  deshumano 
o  marquez  de  Pombal.»  (Contrariedade  ao  libello  de  Galhardo  Mendanha). 
Quem  sabe  os  respectivos  papeis  do  rei  e  do  ministro,  em  viní^e  c 
sete   annos   de    valimento,    tirará   as   illações. 


160  JOSÉ     DE     MASCARENHAS     PACHECO 

Segundo  a  voz  publica,  esposas  e  mães,  embahidas  com 
promessas,  renderam-se  ao  libidinoso  magistrado,  para  sal- 
varem a  vida  de  entes  caros;  inútil  sacrifício,  porque  não  se 
abrandou,  para  nenhum  d'elles,  o  furor  do  tribunal.  Aqui 
se  intromette  a  lenda  do  Pombal  justiceiro.  Transferido  José 
de  Mascarenhas  para  o  Brasil,  mandou-lhe  o  vice-rei  que 
escolhesse,  em  uma  fortaleza  do  Rio  de  Janeiro,  a  mais 
lôbrega  das  enxovias,  para  um  odioso  facinora.  Deleitou-se 
com  o  encargo  o  animo  cruel  do  desembargador.  Indicou  a 
prisão,  onde  o  fizeram  entrar  a  elle  e  dezoito  annos  perma- 
neceu. Pelas  atrocidades  do  Porto?  Não;  por  suspeitas 
relações  com  os  officiaes  de  uma  frota  francesa,  quando 
esteve   na    Bahia. 


VI 


Mais  tarde,  o  ministro  increpou  os  jesuitas  de  motores 
da  sedição.  Diziam  elles  que  «os  vinhos  da  Companhia  não 
eram  capazes  do  sacrifício  da  missa»;  e,  instigando  a  malícia 
popular,  clamavam  depois  que  fora  o  levantamento  «cousa 
insignificante  em  que  só  entraram  mulheres  e  creanças»,  e 
a  repressão  injusta  e  desmedida  i.  Isto  será  exacto.  Mas 
participação  directa,  como  autores  ou  alliciadores  do  movi- 
mento, com  certeza  os  padres  não  tiveram.  A  devassa,  em 
que  o  feroz  José  de  Mascarenhas,  e  seu  pae,  presidente  da 
alçada,  tanto  se  desvelaram,  cargo  nenhum  lhes  faz.  Da 
mesma  forma,  na  conspirata  abortada  de  junho,  para  derrubar 
o  ministro,  se  por  ventura,  como  é  de  presumir,  intervieram, 
com  tal  cautela  foi  que  nada  os  descobre;  e,  não  obstante, 
o  seu  adversário  não  deixou  de  os  incriminar. 

Era,  porém,  no  Pará-Maranhão  que  a  lucta  proseguia 
ferrenha.  De  lá  escrevia  o  governador:  «Os  regulares  —  signi- 


^     Iri<ítrucção    a    Francisco    de    Almada    e    Mendonça,    10    fevereiro 
1758.    Coll.   dos   Negócios    de   Roma.    Parte    I,    46. 


os  jesuítas  E  a  OPPOSIÇÃO  de  carvalho  161 

ficava  principalmente  os  jesuítas  —  são  o  inimigo  mais  pode- 
roso do  Estado,  e,  por  isso  mesmo  que  domestico,  ainda 
mais  poderoso  e  nocivo»,  E  de  um  modo  typico  accentuava 
o  seu  pensar:  «Estas  gentes  são  o  meu  Manuel  Pereira  de 
Sampaio»,  dizia  recordando  ao  irmão  o  nome  aborrecido  do 
emulo  na   missão  de   Vienna  '. 

Entravam  em  vigor  as  leis  de  1755,  occulías  por  dois 
annos  ao  conhecimento  publico,  as  quaes  declaravam  livres 
os  Índios  do  Brasil,  e  extinguiam  as  missões.  Aos  religiosos 
era  licito  permanecerem  nos  povoados  como  parochos;  mas 
a  administração  temporal,  o  governo  dos  indígenas  mal 
tirados  da  barbárie,  passava  a  funccionarios,  que  o  governador 
nomeava. 

Não  acceitaram  os  padres  a  subalterna  posição  e,  ou 
abriram  conflicto  com  as  novas  autoridades,  ou  com  estrépito 
abandonaram  egrejas  e  presbyterios,  levando  comsigo  as 
imagens,  alfaias,  e  muitos  objectos,  que  pretendiam  disputar 
á  posse  do  Estado.  Alguns  queimavam  na  praça  publica  o 
que  não  podiam  transportar.  Dois  missionários  foram  accu- 
sados  por  Carvalho  de  tentarem  manter-se  nos  locaes  pelas 
armas,  de  accordo  com  os  religiosos  castelhanos,  seus  vizinhos 
de  fronteira.  Invenção  de  mente  fértil,  prompta  a  crear  os 
phantasmas  que  precisava  derrubar.  Foi  o  caso  que,  em 
certa  aldeia  do  rio  Madeira,  existiam  dois  pequenos  canhões, 
cujo  estampido  em  outros  tempos  afastava  pelo  terror  os 
Índios  bravios,  quando  aggressores,  e  depois,  submissos  estes, 
alegrava  nas  salvas  os  actos  festivos.  O  governador  Xavier 
de  Mendonça,  visitando  a  localidade,  fora  por  elles  saudado. 
Nenhum  encobrimento,  nenhum  disfarce;  e  sobre  isto,  grave- 
mente o  ministro  pronuncia  que  aquelles  padres,  um  dos 
quaes  vivia  bem  longe  do  sitio  das  peça's,  «em  vez  de  religiosos 
podiam  ser  dois   disfarçados   engenheiros»  ^. 


^  Carta  de  18  de  fevereiro  1754.  Bibl.  Nac.  de  Lisboa.  Archivo 
do  Conselho   Ultramarino. 

2  Relação  abbreviada  da  republica  que  os  religiosos  jesuítas  das 
províncias  de  Portugal  e  Hespanha  estabeleceram  nos  domínios  ultrama- 

O    MARQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  U 


162  OS    jesuítas    EXPULSOS    DO    PAÇO 

Publicadas  as  leis  no  Pará,  em  maio  de  1757,  grande 
foi  o  alvoroço  dos  jesuítas  quando  em  setembro  chegou  a 
noticia  a  Lisboa.  No  dia  20,  entrando  o  Rei  já  por  noite  da 
caça,  o  padre  José  Moreira,  seu  confessor,  que  o  esperava, 
tentou  falar  com  ellc,  expôr-lhe  a  inquietação  e  a  magoa  dos 
seus.  D.  José  recuáou  cuvil-o,  e,  lendo-se  em  conselho  os- 
despachos  do  Pará,  que  referiam  o  procedimento  irritante 
dos  religiosos,  determinou  fossem  no  próprio  instante  despe- 
didos os  padres  do  paço,  que  eram  os  confessores  das  reaes 
pessoas,  todos  jesuitas.  Às  quatro  da  madrugada  tiveram  elles 
de  largar  os  aposentos  e,  aterrados  e  confusos,  ir  bater  á 
portaria  conventual.  A  inesperada  apparição,  a  surpresa  do 
caso,  produziram  sobresalto  grande  no  interior.  O  provincial 
correu  á  presença  de  Carvalho,  que  costumava  tratal-o  com 
benevolência.  O  ministro  recebeu-o  de  semblante  carregado,, 
exprobou-lhe  os  procedimentos  do  Pará,  e,  em  nome  do- 
Rei,  vedou-lhe  para  o  futuro  a  entrada  no  paço,  a  elle  e  a 
todos   os   seus   subordinados. 

A  este  golpe  outros  mais  graves  iam  succeder.  Os  aconte- 
cimentos do  Pará,  primordial  causa  de  tudo  que  os  jesuitas 
agora  supportavam,  punham  em  acção  também  o  governo 
colonial.  Em  novembro,  dezeseis  missionários  sahiam  de  li 
deportados,  sendo  dez  jesuitas.  O  despeito,  o  desejo  de 
reacção  eram  communs  aos  religiosos,  egualmenle  prejudi- 
cados, e  manifestavam-se  por  actos  equivalentes ;  mas  a 
Companhia  de  Jesus  tinha  de  pagar  estas  faltas  e  muitas 
outras,  as  do  presente  e  as  do  passado;  e  por  isso  a  vindicta 
de  Carvalho  sobre  ella   recahia  implacável. 

Primeiramente  tornando-lhe  hostil  a  opinião  publica.  Em 
dezembro  sahiu  á  luz  a  Relação  abbreviada,  exposição  das 
queixas  do  governo  português,  por  actos,  verdadeiros  ou 
suppostos,  dos  jesuitas  na  America.  O  folheto,  redigido  na 
secretaria  de  Estado,  relata  os  successos  do  Paraguay. 
Denuncia  a   existência   de   uma   poderosa   republica  de   trinta 


ihws  dns  duas  monarckln'i.  Documento  da  CoU.  de  Negocias  de  Roma. 
Parte  I.  Impresso  e  distribuído  separadamente  —  reimpresso  na  Rev.  do 
Inst.   Hist. 


A  RELAÇÃO  ABBREVIADA  163 


e  uma  povoações  «tão  rica  e  opulenta  em  fructos  e  cabedaes 
para  os  padres,  como  pobres  e  infelizes  para  os  desgraçados 
índios»  1.  Refere  a  marcha  das  tropas  de  occupação,  a  revolta, 
os  encontros,  a  participação  dos  padres  na  resistência  dos 
indígenas.  Passando  aos  dominios  portugueses,  repisa  as 
velhas  arguições  dos  colonos :  os  indigenas  opprimidos,  seques- 
trados dos  brancos,  defraudados  sem  pejo  no  seu  trabalho ; 
as  decisões  reaes  desprezadas,  illudidas  as  leis  da  Egreja. 
Conta  que  usurpavam  a  hberdade  aos  Índios,  e  tinham  por 
esse  meio  a  agricultura  e  o  commercio  da  colónia  inteiramente 
em  suas  mãos.  Com  ameaça  de  graves  desordens  haviam 
impedido  que  a  bulia  de  Benedicto  XIV  fosse  publicada; 
emfim,  para,  como  no  Paraguay,  obstarem  ao  tratado  dos 
limites,  instigavam  os  Índios  a  faltarem  com  os  viveres  indis- 
pensáveis aos  demarcadores,  tentavam  sublevar  as  tropas, 
recorriam  por  fim  ás  armas,  como  a  existência  das  peças 
de  artilharia,  em  poder  dos  missionários  —  disfarçados  engc^ 
nheirns  —  demonstrava. 

O  effeito  d'esta  publicação,  com  os  foros  de  verídica 
que  a  chancela  do  governo  lhe  conferia,  foi  enorme.  O 
próprio  Núncio,  attonito,  se  não  podia  crer  em  tão  graves 
accusações,   também   não  sabia   como  as   contestasse. 

O  escripto  não  se  destinava  somente  á  corte  e  ao  reino. 
Traduzido  em  varias  línguas  circulou  pela  Europa.  Talvez 
vinte  mil  exemplares,  em  francês,  allemão,  italiano.  Houve 
depois  a  traducção  latina,  sabida  com  a  Deducção  chronolo- 
gíca,  outra  obra  de  combate  mais  extensa  e  erudita,  mas 
que  não  teve  a  divulgação  e  influxo  da  Relação  abbreviada. 

Para  o  êxito  d'esta  concorreu  a  curiosidade  e  o  escân- 
dalo que  os  successos  do  Uruguay  tinham  provocado,  e 
mais  que  tudo,  porventura,  a  fabula,  então  corrente,  de 
Nicolau  I,  Rei  do  Paraguay,  espalhada  por  uma  recente  publi- 
cação   anonyma  -.    A    obra    estampada,    ao    que    se    crê,     na 


i     Relação   abbreviada,   cit. 

2     tiisíoire    da   rol   Nicolas   I,    roi   dii    Paraguay    et   einpereur    des. 
Mamelucs,   S.     Paul    1756, 


164  CAMPANHA  CONTRA  OS  JESUÍTAS 


Allemanha,  com  objecto  exclusivamente  mercantil,  foi  com 
enthusiasmo  recebida  pelos  adversários  dos  jesuitas.  Desca- 
rada invenção,  não  contém  um  só  facto  verdadeiro.  Um 
jesuita  castelhano  excita  os  Índios  á  rebellião,  conquista  íi 
Nova  Colónia,  proclama-se  Rei  do  Paraguay  e  depois,  tomando 
S.  Paulo,  no  Brasil,  faz-se  alli  coroar  imperador  dos  mame- 
lucos; eis  o  trama  da  narrativa.  Em  França,  na  Allemanha, 
na  Itália  encontrou  a  novella  credulidade,  e  d'este  modo, 
republica  de  Carvalho  e  monarchia  phantastica,  parcíaes 
verdades  e  cabal  mentira,  uniam-se,  combinavam-se  e,  estabe- 
lecendo a  confusão  nos  espiritos,  creavam  a  universal  atmos- 
phera  de  suspeita  em  que  a  Companhia  de  Jesus  sossobrou. 

Ao  mesmo  passo,  o  governo  português  instruía  o  pontí- 
fice das  machinações  da  ordem.  Mostrava  os  jesuitas,  mais 
criminosos  que  os  templários,  erguendo  braço  armado  contra 
os  príncipes;  desenfreados  na  cobiça,  fechando  para  o  seu 
clandestino  commercio  as  duas  Américas,  hespanhola  e  portu- 
guesa, e  lá  estabelecidos  de  modo  tal  que,  dentro  em  dez 
annos,  não  haveria  na  Euorpa  poder  sufíiciente  para  os 
expugnar  i.  Vencidos  além,  desforravam-se  no  reino  suble- 
vando a  plebe  com  falsidades,  Propalav^am  ser  propósito  do 
Rei  abolir  o  Santo  Officio,  conceder  a  liberdade  de  con- 
sciência, desposar  com  um  herético  —  o  duque  de  Cumberland 
—  a  princesa  real  2.  A  reforma  do  instituto  era  pois  indis- 
pensável para  trazer  a  Sociedade  á  pureza  dos  primeiros 
tempos,  e  afastar  os  seus  membros  dos  enredos  da  politica, 
como  dos  interesses  mercantis,  a  que  tinham  grande  afinco. 
Mercadores,  soldados  ou  régulos  —  outra  cousa  não  eram  nos 
domínios  de  Portugal.  A  isto  cumpria  prover  definitivamente. 

Mercadores  —  foi  sob  este  aspecto  que  a  Santa  Sé  encarou 
a  questão.  Era  o  mais  provado,  o  menos  tétrico,  o  que  tinha 
nas  circumstancias  opportunidade.  Surgira  nessa  época  em 
França  o  escândalo  do  jesuíta  Lavalette,  accionado  por  banca- 
rota    nos    tribunaes.     Interviera    o     Geral    da    Companhia     e   o 


1  Instrucção,    8   outubro    1757,    ao    ministro    em    Roma. 

2  Instr.,    10   setembro    1758,    idem. 


BENEDICTO    XIV   E   OS    JESUÍTAS  165 

próprio  Santo  Padre;  mas  o  processo  continuava,  para  ter- 
minar pela  condemnação  da  Sociedade,  solidaria  nas  nego- 
ciações do  padre  fallido. 

Não  ha  duvida  que,  nos  dominios  portugueses,  os 
jesuitas  negociavam  também ;  não  pela  ganância,  que  o  ódio 
lhes  attribue,  mas  para  com  o  producto  manterem  suas 
missões,  collegios  e  hospicios.  Os  géneros,  que  os  Índios, 
seus  neophytos,  extrahiam  da  terra,  o  tabaco,  o  assucar, 
o  algodão,  eram  remettidos  á  Europa,  e  as  sommas  resul- 
tantes da  venda  applicadas  á  despesa  commum.  O  facto  em 
si  é  inatacável.  Houve,  porém,  como  é  de  imaginar,  abusos 
individuaes.  Nem  todos  os  missionários  eram  desinteressados ; 
pecúlios  não  podiam  accumular,  mas  fruíam  os  lucros  das 
boas  negociações.  As  denuncias  chegaram  a  Roma  e  fre- 
quentes vezes  os  Geraes  tiveram  de  acudir,  com  admoestações 
e  castigos.  Os  inimigos  da  Ordem,  e  alguns  curiaes,  mais 
ou  menos  subornados  pelo  Enviado  português,  fizeram  valer 
a  circumstancia  quando  a  corte  de   Lisboa   reclam.ou. 

Benedicto  XIV,  que  em  1741  interviera  no  assumpto  dos 
captiveiros,  não  menos  escabroso  para  os  jesuitas,  condem- 
nava-os  agora  por  chaíinagem.  Era  uma  satisfação  ao  gabinete 
português  e  á  Europa  escandalizada.  A  nomeação  de  tun 
visitador  com  poderes  de  reformar  a  ordem  em  Portugal 
foi  dos  últimos  actos  do  seu  pontificado.  Não  tinha  o  cardeal 
Saldanha,  designado  para  a  missão,  exercido  ainda  qualquer 
acto  d'el!a,  quando  Benedicto  XIV  succumbiu ;  —  os  jesuitas 
dizem   que   ao   remorso  d'este  aggravo   derradeiro. 

Seguiram-se  os  conhecidos  factos,  relativos  á  execução 
da  ordem  papal:  intimação  do  breve  ás  communidades,  manda- 
mento do  cardeal  reformador  prohibindo-lhes  o  commercio, 
interdição  de  pregar  e  confessar,  inventario  de  bens  prepa- 
ratório do  sequestro  final;  tudo  presagios  da  ruina  próxima. 


CAPITULO    VI 


ATTENTADO  CONTRA  O  REI 


I.  União  projectada  da  Princesa  do  Brasil  coin  o  infante  D.  Pedro. 
Opposição  de  Carvalho  e  D.  José.  Os  pretendentes.  Desgosto 
da  nobreza.  —  11.  Mí!laíjrid£  em  Setúbal.  Presagios  acerca  do 
rei.  Situação  do  duque  de  Aveiro.  A  noite  de  3  de  Setembro. 
Opiniões  varias  sobre  o  attentado.  Convicções  de  Carvalho.  O 
duque  procura  compromeííer  os  Tavoras.  —  111.  Providencias 
contra  os  presumidos  criminosos.  Interrogatórios  do  duque  de 
Aveiro.  Accusa  este  os  jesuítas,  os  parentes  e  muitas  outras 
pissoas.  —  IV.  Seguimento  do  processo  e  condemnação  dos 
léos.  Os  Tavoras  e  os  depoimentos  sobre  elles.  —  V.  Reconsti- 
tuição do  attentado.  As  denuncias.  Terror  no  paço  e  na  cidade. 
—  VI.  A  cumplicidade  dos  jesuitas.  Disposições  que  se  tomam 
contra  elles.  Declarações  de  Malagrida.  Propostas  da  Junta  de 
Inconfidência.  Sequestro  dos  hens  da  Ordem.  —  Vil.  Intervenção 
do  Santo  Officio.  Instancias  do  governo  português  em  Roma. 
A  Cúria  defende  os  iesuitas.  Decreto  de  expulsão  e  ?ipws  r-^- 
sjilíados.  —  VI 11.  .Vlalagrida  denunciado  á  Inquisição.  O  pro- 
cesso.   Morre   no    cadafalso. 


O  casamento  da  herdeira  do  throno  com  seu  tio,  o  infante 
D.  Pedro,  era  um  anhelo  da  nobreza,  justificado  por  zelos 
de  patriotismo  e  conveniências  de  camarilha.  Zelos  incul- 
cava-os  a  repugnância  de  obedecer  a  principe  extrangeiro, 
se  de  fora  viesse  o  noivo;  conveniências  provinham  da 
situação  a  que  ascendia  D.  Pedro,  cuja  personalidade  era  o 
eixo  da  reacção  politica  e  do  fanatismo. 


168      CASAMENTO    DA   PRINCESA   DO   BRASIL  COM  SEU  TIO 


Este  consorcio,  em  projecto  desde  o  tempo  de  D,  João  V, 
não  se  pudera  nunca  realizar,  pela  rcluctancia  de  D.  José. 
Chegara  a  vir  de  Roma  a  licença  papal,  que  ficou  esquecida 
entre  os  papeis  do  jesuíta  Carbone,  como  esquecido  parecia 
o  designio  do  casamento  desde  a  acclamação  do  novo  sobe- 
rano. Apartava  este  de  seu  irmão  o  mal  escondido  ciúme  da 
preferencia  paterna,  muitas  vezes  manifestada.  Por  outra 
parte  a  Rainha  não  se  dissuadia  da  esperança  de  um  filho 
varão,  cujo  nascimento  annullaria  as  conveniências  politicas 
do   consorcio. 

Esta  expectativa  e  a  emulação  de  D.  José  devia  Carvallio 
alenta-las,  compensando  instancias  da  Rainha  viuva,  a  quem 
pungiu  sempre  o  não  ver  cumprido  aqueíle  propósito  caro. 
Da  desaffeição  do  Rei  sabia-se  fora.  Dizia-se  que,  no  tempo 
do  Rei  failecido,  D.  Pedro,  jactancioso  da  predilecção  do 
pae,  mais  de  uma  vez  tratara  com  desconsideração  o  primo- 
génito. Subindo  este  ao  throno  a  discórdia  continuou.  Uma 
vez  correu  que  D.  José,  a  quem  o  valido  persuadira  que  o 
irmão  tramava  contra  elle,  o  tinha  mandado  para  Queluz, 
com  prohibição  de  sahir  de  lá  sem  nova  ordem.  Já  a  caminho 
o  infante,  intercedendo  a  Rainha  e  a  Princesa,  foi  revogado 
o  castigo,  e  a  suspeição  dissipou-se,  para  renascer  porém 
cada  vez  que  ao  ministro  pérfido  apparecia  brecha  por  onde 
a   instillasse. 

Entretanto  o  caracter  de  D.  Pedro  excluia  razões  de 
desconfiança.  A  intelligencia  era  curta.  «Socegado  e  muito 
timi.do  —  refere  Stahremberg  —  não  o  deixam  ter  voto  em 
cousa  alguma ;  tratam-no  como  se  tivera  dez  annos  de  idade. 
Segundo  a  apparencia,  nem  elle  de  tal  se  doe,  nem  o  minimo 
desejo  tem  de  possuir  mais  importância  e  autoridade^)  \  Era 
isto  em  1751.  Carvalho  começara  a  governar,  avocando  a 
si  todos  os  poderes.  A  Rainha  mãe,  a  quem  devia  o  engran- 
decimento, arguia-o  de  deslealdade,  queixava-se  de  que  nem 
mesmo  nas  eousas  do  seu  próprio  interesse  d'eila,  se  lhe 
dava  satisfação.  Do  casamento  nem  palavra.  «Quando  alguma 


1     Rei.    de   26   dezembro    1751.    Duhr   Rev.   cit.    192. 


PERSONALIDADE    DO    INFANTE    D.    PEDRO  169 


vez  falava  em  tal  ao  Rei  ou  la  Cangalho,  nem  sequer  lhe 
respondiam»,  dizia  Stahremberg,  com  quem  ella  despeitada 
se  abria  em  confidencias  '.  O  ministro^  sempre  de  sobre  aviso, 
não  consentia  que  nenhuma  influencia  superasse  a  sua,  e 
nesse  tempo  temia  ainda  que  D.  Pedro,  pelo  casamento, 
adquirisse   preponderância   certamente   incommoda. 

A  personaHdade  baça  do  infante  escasso  respeito  podia 
inspirar  á  nobreza.  Mofavam  d'eile  sem  rebuço.  O  recato  do 
seu  viver  austero,  em.  contraste  com  as  inclinações  frasearias 
do  irmão  e  a  soltura  do  temperamento  meridional,  dera 
motivo  a  boquejar-se  de  sua  capacidade  para  o  matrimonio, 
assoalho  que  os  acolytos  de  Pom.bal  satisfeitos  aproveitavam, 
como  nova  razão  contra  o  consorcio.  A  insignificância  pessoal 
do  príncipe  não  impedia  comtudo  que  a  facção  opposía  ao 
governo  nelle  depositasse  esperanças.  Quanto  mais  tibio  de 
intellecto  e  de  vontade,  tanto  mais  seguramente  essa  facção 
á  sombra  d'elle  dominaria.  Carvalho  apontava  o  perigo  a 
D.  José  e,  explorando  a  emulação  antiga,  insinuav^a  paraileios 
com   Affonso   VI    e   Pedro    II   ^ 

Desconfiado  da  nullidade  apparente  do  infante,  que  podia 
ser  affectada,  buscava  provas  da  sua  interferência  nas  tentativas 
da  opposição.  Constava  que  aos  membros  da  Mesa  do  Bem 
Ccmmum,  castigados  por  causa  da  Companhia  do  Grão-Pará, 
se  haviam  feito  perguntas  acerca  d'elle.  Mais  tarde,  os  fidalgos 
presos  depois  do  attentado  do  duque  de  Aveiro,  que  e.n  quan- 
tidade povoavam  as  masmorras,  eram  induzidos  a  fazer  decla- 
ções  contra  o  infante.  D' isso  pretendeu  Pombal  justificar-se  em 
uma  das  muitas  apologias,  escriptas  após  a  sua  queda;  mas 
o  valor  da  negativa  é  contestável.  Os  fidalgos  aífirmavam, 
e  as  palavras,  talvez  infundadas,  do  duque  de  Aveiro,  que 
vamos  vêr  no  processo  do  regicidio,  davam  razão  ao  pro- 
cedimento. 

Quaes  os  intuitos  de   Pombal   relativamente  á  successão 


1     Rei.    cií.    Id.    193. 

-     Off.    do    conde    de    Merle,    20    novembro    1759.    Quadro    Eletn. 
VI.    176.  , 


170  OS    PRETENDENTES    Á    PRINCESA    DO    BRASIL 


da  corôa  não  c  facil  averiguar.  O  p-acto  supposto  de  Lamego, 
lei  do  reino,  exigia,  para  marido  da  Princesa,  infante  ou 
fidalgo  português.  O  futuro  duque  de  Lafões,  D.  João  de 
Bragança,  que,  com  seu  porte  gentil,  fascinara  a  juventude, 
anhelante  de  ternura,  da  que  havia  de  ser  sua  Rainha,  fora 
por  essa  causa  obrigado  a  sahir  do  reino  depois  do  terre- 
moto 1.  Desembaraçado  do  competidor  que  invocava  o> 
direitos  do  coração,  D.  Pedro  devia  esperar  que  os  votos 
da  famiha  e  da  nação  se  realizassem.  Mas  não  foi  assim,  pela 
opposição  inflexivel  do  Rei.  Parece  que  os  infantes  de  Palhavã, 
bastardos  de  D.  João  V,  aHmentaram  um  momento  a  espe- 
rança de  ser  algum  d'elles  favorecido.  De  fora  houve  também 
pretendentes.  Falou-se  no  duque  de  Camberland,  o  vencido 
de  Fontenoy,  filho  de  Jorge  II  de  Inglaterra;  oppoz-se  porém 
o  partido  clerical,  e  interveio  a  corte  de  Madrid  com  ameaças 
de  guerra  ^  A  Rainha  de  Hespanha,  irmã  de  D.  Pedro, 
favorecia  a  alliança  de  familía.  O  projecto  foi  por  essa  razão 
abandonado.  O  infante  D.  Luiz,  irmão  de  Carlos  III,  para 
quem  mais  tarde  este  mandou  abertamente  pedir  a  Princesa, 
tivera  patrono  em  Diogo  de  Mendonça,  e  viera  a  Lisboa, 
onde  na  casa  d'elle  esteve  occulto.  Ao  facto  atíribuiram  alguns 
a  demissão  e  castigo  do  ministro.  Acaso  a  própria  Rainha, 
também  filha  de  Isabel  Farnese,  apoiou  a  tentativa,  justifi- 
cando assim  o  temor  manifestado  por  D.  Luiz  da  Cunha,  no 
Testamento  politico,  de  que  algum  dia  ella  viesse  a  ser  mais 
irmã  que  cunhada.  De  toda  a  maneira  é  certo  favorecer  Diogo 
de  Mendonça  o  pretendente,  e  fazer  coro  com  aquelles  que 
em  mofa  publicavam  a  im.potencia  de   D.  Pedro  ^ 


1  O  disiincto  escriptor  sr.  Carlos  Malheiro  Dias  viu  a  corres- 
pondcMcia  da  família  que  Uio  deixa  duvida  sobre  a  inclinação  reciproca 
da    princesa   e    do    fidalgo   de    sangue    real. 

2  Cf.  Mi^moria  do  embaixador  conde  de  Merle  ao  duque  de 
Choiseul.    Malouet.    Mémoircs,    Paris    1868,    II.    312. 

•'  Carvalho  dizin  que  desde  o  ministério  castelhano  de  Dingo  c'? 
Mendonça  a  Hespanha  tentara  o  casamento,  allegando  a  incapacidade 
do  noivo  português.  Carto  ao  morgado  de  Oliveira,  4  março  1778. 
ZEr-HVRiNO  Brandãc.  o  marquez  de  Pombal,  documentos  inéditos,  pag.  75. 


DESGOSTOS    DA    NOBREZA  171 


Completara  a  Princesa  vinte  e  três  annos,  e  D.  Pcdro« 
continuava  a  ser  o  consorte  presumptivo,  aquelle  que  as 
leis  da  monarchia,  o  decoro  da  coroa,  a  razão  de  Estado  e 
os  votos  da  nação  como  o  só  possível  indicavam ;  mas  esta 
união  parecia  propósito  definitivo  dos  governantes  não  a 
realizarem.  O  descontentamento  por  isso  era  geral.  Nos  serões 
da  fidalguia,  nas  cellas  monásticas,  nas  ante-camaras  do  paço, 
em  toda  a  parte  onde  então  se  conversava,  apparecendo 
alguém  da  legião  dos  descontentes  faziam-se  confidencias, 
exhalavam-se  queixumes,  lastimavam-se  as  perdidas  espe- 
ranças de  melhor  regimen.  O  desejado  casamento  nem  a 
Rainha  viuva,  tão  interessada  por  elle,  o  conseguira.  —  isso 
só  por  morte  do  Rei  —  commentava.  Da  mesma  forma,  o  poder 
do  valido  parecia,  em  quanto  vivesse  o  soberano,  inabalável. 
—  Cahir  Sebastião  José?  só  quando  o  Rei  morrer,  —  A  idéa  de 
eliminar  o  ministro  pelo  assassinato  necessariamente  occorria. 
Mas  o  temor  do  castigo,  o  abatimento  em  que  o  servilismo 
da  corte  lançara  a  nobreza,  atalhava  a  resolução.  Assim  pois, 
como  as  cousas  iam,  o  poder,  a  que  todos  mal  soff ridos  se 
acurvavam,  era  para  durar  largos  annos,  tantos  quantos 
durasse   o   reinado. 


II 


No  exilio  de  Setúbal,  Malagrida  recebia  as  visitas  de 
pessoas  nobres,  que  iam  fazer  com  elle  os  exercícios  de 
Santo  Ignacio.  O  concurso  era  grande.  Modo  de  protesto 
contra  o  governo,  que  relegara  o  jesuita  da  capital.  Este 
exultava  com  as  manifestações.  «Que  espectáculo  —  exclam.ava 
elle  —  esta  mansão  de  retiro,  onde  as  mais  illustres  damas 
da  sociedade  passam  dias  inteiros,  enclausuradas  como  freiras! 
Que  direi  da  concorrência  de  dignatarios  da  corte,  que  se 
retiram  para  a  casa  dos  exercícios!»  ^  Entretanto  o  triumpho 


'■^     Carta    citada    por    Míry,    Hist.    de    Gabriel   Malagrida,    trad.    por 
Camillo  Castello   Branco,   pag.    154. 


172  AIALAGRIDA    EM    SETÚBAL 

trazia  seus  riscos.  Espias  do  governo  vigiavam  as  reuniões 
c  o  jesuita  sentindo-se  ameaçado,  antevendo  a  represália, 
juntava:  «Mas  ah!  á  minha  feHcidade  seguir-se-á  brevemente 
a  minha  perdição!»  ^ 

Já  então  a  nevrose  se  apossara  inteiramente  do  illumi- 
nado.  Sempre  em  exahação,  tinha  presentimentos,  percebia 
os  dcsignios  da  divindade.  Do  púlpito  bradava  contra  as 
violências  feitas  aos  missionários,  contra  a  perseguição  da 
Companhia  de  Lo3ola,  dilecta  filha  da  Egreja.  Carvalho  era 
o  perseguidor,  o  inimigo.  Acerca  d'e!le  escrevia,  a  lasiimar-se, 
ao  papa  Clemente  XIII:  «Que  funesta  scena  esta!  Que  trists- 
simo  espectáculo!  Que  repentina  metamorphose!  Por  ordem 
real  expulsos  das  missões,  proscriptos  e  votados  á  ignominia, 
os  arautos  da  divina  palavra!,..  E  qu,3m  fez  tudo  isso?  Não 
o  monarcha  fidelissimo,  filho  de  D.  João  V  e  D.  Marianna 
de  Áustria,  mas  o  ministro  Carvalho,  cuja  vontade  é  suprema 
na  corte.  Elle  sim,  tem  sido  o  architecto  de  tantos  exicios, 
e  tenta  escurecer,  com  facciosos  escriptos,  espalhados  a  flux, 
o  esplendor  da  nossa  sociedade,  que  lhe  offusca  os  lívidos 
olhos;  escriptos  que  respiram  ódio  immenso,  virulento,  impla- 
cável. Se  elle  pudesse  degolar  de  um  só  gojpe  os  jesuilas 
todos  com  que  prazer  o  faria!»  ^ 

Em  tal  disposição  de  espirito  e  com  o  seu  temperamento 
mystico,  a  idéa  da  cólera  divina  e  do  castigo  naturalmente 
occorreu  a  Malagrida.  Contra  os  crimes  de  todos  manifes- 
lara-se  Deus  no  terremoto;  aos  actos  de  um  só,  execrando 
perseguidor,  cabia  a  pena  individual.  Mas  era  realmente  esse 
o  responsável?  Perante  o  supremo  julgador,  que  incumbe  aos 
Reis  os  destinos  dos  povos,  havia  outro,  D.  José;  sobre  esse 
recahiria  a  divina  vingança. 

Era  porém  a  alma  do  jesuita  compassiva,  incapaz  de 
malquerença,  muito  menos  ao  Rei,  que  por  ignorância  ou 
leveza  de  animo  delinquia,  não  por  iniquo.  Certo  do  castigo 


^     IHst     de    Gnbiicl    AW aferida,    154,    id. 

"     Mlri?.    Journal    ziir    Kunstgeschichte    und    alígcmeine    Liíferalur 
VIII.    Nurembcrg    1780,    pag.    100. 


PRESAOIOS    DE    MALAGRIDA   ACERCA  DO    REI  173 


próximo  tentou  precavel-o,  fazendo-lh€  saber  que  um  perigo 
imminente  o  ameaçava.  Falou  a  vários.  Escreveu.  Ninguém 
lhe  deu  credito.  Desde  o  terremoto  que  elle  vaticinava  debalde. 
Eram  tudo  illusões  de  visionário. 

De  tantas  pessoas  que  iam  a  Setúbal  aos  exercícios, 
algumas  de  certo  participavam  dos  presentimentos  de  Mala- 
grida,  e  diziam-no.  Não  faltava  quem  attribuisse  ás  reuniões 
piedosas  sinistros  intuitos,  Elle  sabia  d'isso.  «Mil  bocas  ini- 
migas—  escrevia  —  vociferam  contra  mim  e  contra  estes  santos 
exercícios;  desautorizam-os,  chamam-lhes  momices,  machi- 
nações  infernaes,  empregadas  para  enganar  o  povo  e  derrubar 
o  Estado!  Cada  dia  novas  calumnias  provocam  suspeitas  e 
averiguações  novas.  Que  farão?  não  sei;  mas  não  deixo  de 
estar  em  alvoroço.)  i.  E  entretanto  a  affluencia  de  peregrinos 
continuava. 

O  duque  de  Aveiro  não  era  do  concurso  devoto,  mas 
não  é  de  extranhar  lhe  chegasse  aos  ouvidos  a  predicção,  e 
no  seu  insoffrido  despeito  a  ligasse  ao  thema  desconsolador, 
tantas  vezes  ouvido,  que,  vivo  o  Rei,  nem  o  casamento  do 
infante  se  realizaria,  nem  o  poder  do  valido  teria  fim. 

A  posição  do  duque  na  corte,  o  seu  orgulho,  os  aggravos 
que  pensava  ter,  junto  isso  ao  curto  discernimento  que  o 
cegava  para  a  insignificância  da  sua  personalidade,  tudo 
suscitava  uma  alma  quasi  de  paladino,  nesse  fidalgo  avarento 
e  estólido.  D'esta  arte  se  poude  considerar  mandatário  da 
nobreza  afrontada,  e  até  instrumento  da  vontade  celeste 
contra  o  Rei. 

Por  complemento  teria  ainda  o  applauso  popular.  Nas 
mais  baixas  camadas,  como  nas  classes  nobres,  reinava  o 
desgosto  d'esse  governo  irritante  que,  no  prurido  de  trans- 
formar a  nação,  a  todos  attingia  com  perturbações  e  vexames. 
Até  onde,  pois,  seria  capaz  de  o  levantar  um  golpe  arrojado? 
Sua  vaidade  era  immensa.  Nas  veias  tinha  parcella  de  sangue 
real.  Subira  muito  já,  e  a  mais  poderia  aspirar.  Os  creados 
affirmavam-lhe  que  o  Rei  não  tinha  quem  melhor  o  servisse. 


Hist.    de    Gabriel   Malagrida,    154. 


174  A    NOITE    DE    3    DE    SETEMBRO 


Que  nic  importa  a  mim  El-Rci?  respondia  com  soberba.  O 
cunhado,  D.  João  de  Távora,  dlssera-lhe  uma  vez  por  chiste, 
lisonjcando-lhe  a  vangloria:  FJa,  mano;  cVaqiii  só  para  Rei! 
Acaso,  no  recôndito  do  seu  pensar,  não  julgava  tal  impossivel. 
Á  plebe  não  repugnava  a  idéa.  Em  dezembro,  preso  o  duque, 
correu  o  boato  de  se  terem  levantado  as  ilhas  a  proclamal-o, 
signal  de  que  o  sentimento  popular  nem  lhe  negava  as 
ambições,  nem  as   repellia   por  vãs. 

Admiítir-se-á  que  o  jactancioso  fidalgo,  tentando  a  morte 
de  D.  José,  tinha  em  vista  sentar'-se  no  throno?  Fallecendo 
o  monarcha,  deixava  filhas,  um  irmão;  mas  tudo  é  licito 
suppôr  da  leviana  cabeça  que  preparou  o  attentado.  Entre- 
tanto o  motivo  declarado  não  foi,  não  podia  ser  esse;  a 
razão  apparente,  aquella  que  o  duque  a  si  próprio  confessava, 
era  o   casamento   do   infante. 

A  27  de  agosto  falleceu  a  rainha  de  Hespanha,  irmã  de 
D.  José,  com  o  que  perdiam  os  jesuítas  a  sua  melhor  pro- 
tecção na  Peninsula,  e  os  fidalgos  a  ultima  esperança  d'aqueUe 
consorcio.  Deixou  a  soberana  D.  Pedro  por  universal  her- 
deiro, legando  á  Companhia  de  Jesus,  para  as  missões  da 
índia,  duzentos  mil  cruzados,  a  cargo  dos  religiosos  portu- 
gueses. Decretado  o  lucto,  encerrou-se  D.  José  por  oito 
dias,  durante  os  quaes  não  dava  audiência  nem  assignatura, 
não  devia,  sob  pretexto  algum,  sahir  do  paço. 

Chegamos  á  data  famosa  de  3  de  setembro.  O  Rei, 
todo  o  dia  vigiado  pelos  zelos  da  Rainha,  tinha  as  noites 
por  suas.  Deitava-se  por  costume  muito  tarde,  ás  vezes  de 
madrugada,  das  três  para  as  quatro  horas.  À  meia  noite 
chegava  Carvalho  para  o  despacho,  e  emquanto  a  Rainha 
suppunha  os  dois  em  conferencia  sobre  os  negócios  do 
Estado,  o  marido,  na  sege,  tirada  por  muares,  corria  ás 
amorosas  aventuras,  na  quinta  de  Belcm,  acompanhado  pelo 
fâmulo    e    confidente    Pedro    Teixeira. 

Na  manhã  de  4  correu  cedo  na  capital  a  novidade  que 
o  Rei  adoecera  de  noite,  estava  mal  e  fora  mais  de  uma  vez 
sangrado.  Algumas  pessoas  diziam  ter  elle  cahido  por  uma 
escada,  fracturando  um  braço;  outras,  em  maior  numero^ 
que  lhe  haviam  dado  uns  tiros  os  Tavoras. 


OPINIÕES   VARIAS   SOBRE   A   TENTATIVA    DE    REGICÍDIO     175 

As  relações  amorosas  do  Rei  com  a  marqueza  moça, 
D,  Alaria  Theresa,  eram  sabidas  e  já  antigas.  Datavam  do 
tempo  em  que  o  marquês,  seu  sogro,  estivera  na  índia, 
por  Vice-Rei.  Dizia-se  que  o  duque  de  Aveiro  protegera 
esses  amores,  estando  com  a  corte  em  Salvaterra.  Entre  as 
homenagens  salientes  de  D.  José  contava-se  o  presente  de 
de  um  lindo  cavallo,  a  primor  ajaezado,  de  que  a  marqueza 
fazia  alarde.  Talvez  os  Tavoras  a  principio  não  levassem  a 
bem  o  desdouro;  d'ahi  se  desavieram  com  o  duque;  mas 
correndo  o  tempo  foram-se  conformando,  acceitaram  o  facto, 
e   as    relações    de   familia   volveram-se   á   antiga   cordialidade. 

Os  boatos  do  attentado  dos  Tavoras  foram  logo  cridos. 
Rapidamente  se  propagou  a  versão  na  cidade  e  no  reino, 
e,  dentro  em  pouco,  entrou-se  a  dizer  que  os  jesuitas  tinham 
sido  instigadores  do  crime.  Pronunciava-se  abertamente  por 
tal  o  desembargador  Ignacio  Ferreira  Souto,  creaíura  de 
Carvalho,  ao  depois  juiz  no  processo  de  regicídio ;  e  aos 
que  sabiam  de  suas  relações  com  o  ministro  foi  evidente  que 
o  desembargador  falava   por   elle   e   por  si. 

Entretanto  do  paço  nada  transpirava.  A  Rainha  assumira 
a  regência;  e  o  governo,  passada  a  commoção  dos  primeiros 
dias,  parecia  occupado  somente  da  administração.  Carvalho 
conservou-se  impenetrável.  Nenhum  facto  indicava  que  a 
voz  publica  contra  os  Tavoras  tivesse  eco  na  corte.  Com  o 
socego  da  innocencia,  ou  a  resolução  de  quem  sabe  cjue  só 
pela  ousadia  logrará  salvar-se,  estes  não  deram  um  só  passo 
para  a  sua  segurança.  As  suspeitas  do  governo  pareciam 
pairar  mais  longe.  Diogo  de  Mendonça,  que  cumpria  o  seu 
exilio  na  sua  quinta  de  Salreu,  foi  conduzido  entre  soldados 
ao  Porto,  e  de  lá  embarcado  para  Mazagão.  Mas  foi  esse 
em  três  meses  o  só  acto  de  rigor.  Em  outubro  vieram  tropas 
da  provincia  para  Lisboa.  Houve  transferencias  de  commandos, 
e  promoções,  que  produziram  certo  descontentamento  entre 
os  officiaes.  Alguns  d'estes,  da  nobreza,  enti-e  elles  um 
Távora,  pediram  as  demissões.  Tudo  isto  deu  motivo  a 
rumor,  mas  ninguém  ligava  os  factos  ao  caso  de  setembro. 

Contra  os  jesuitas  nenhuma  providencia,  a  não  ser  que, 
em   fins   de   novembro,   o  visitador  ordenou  que   nenhum   se 


176    OPINIÕES    VARIAS   SOBRE    A    TENTATIVA  DE  REGICÍDIO 

ausentasse  do  logar  onde  na  occasião  se  encontrava,  alle- 
gando  todavia  unicamente  conveniências  da  reforma  que  ia 
emprehender. 

Nas  cortes  extrangeiras  era  viva  a  curiosidade  acerca 
de  um  successo,  em  parte  mysterioso,  e  sobre  o  qual  lhes 
chiegavam  pelos  seus  representantes  em  Lisboa  desencon- 
tradas versões.  Prevenidos  da  doença  do  Rei,  os  diplomatas 
registavam  os  boatos  correntes,  m.as,  na  interpretação  do 
facto,  repelliam  aquillo  que  mais  na  boca  do  vulgo  se  0'uvia. 
Que  o  Rei  voltava  de  uma  entrevista  amorosa,  provavelmente 
com  a  marquesa  de  Távora,  todos  nisso  concordavam.  Mas 
um  regicídio  pensado  parecia-lhes  de  tal  modo  insensato  que 
nenhum  cria  em  tal  attribuindo  todos  a  equivoco  o  siiccedido. 
O  Núncio,  os  ministros  da  Imperatriz  e  de  Inglaterra,  o 
encarregado  de  negócios  da  França,  consideravam  o  ataque 
dirigido  a  Pedro  Teixeira,  criado  particular  e  alcaiote  de 
D.  José  1;  talvez  pelos  Tavoras,  pelo  duque  de  Aveiro  que 
d'elle  tinha  offensas,  ou  mesmo  pela  Rainha,  e  em  tal  caso 
não  seria  a  primeira  vez,  tanto  era  o  ódio  que  ao  ignóbil 
confidente   ella  votava. 

Os  diplomatas,  que  conheciam  o  viver  da  corte,  recu- 
savam acreditar  que  fosse  o  caso  de  honra  dos  Tavoras  a 
razão  da  emboscada.  E  muitas  pessoas  de  categoria  pensavam 
assim.  Três  annos  depois,  um  emissário  de  Luiz  XV,  que 
veiu  a  Lisboa,  contando  o  que  ouviu,  exprimia-se  d'este  modo : 
«A  marquesa  mãe  e  seu  marido  desde  muito  sabiam  das 
relações  amorosas  do  Rei,  e  em  boa  paz  as  soffriam.  Nenhum 
dos  dois  era  escrupuloso  na  espécie,  e  ha  mesmo  apparencia; 
de   que  se   compraziam   do   facto   emquanto   d'elle   esperaram 


1  Cf.  de?p.  do  ministro  de  Inglaterra  Hay,  13  setembro  1738, 
Smith  \Memoirs  of  the  Alarquis  of  Pombal,  I,  210;  de  Saint  JiiHen,  en- 
carregado de  negocies  de  França,  12  setembro,  Malouet,  Mémoires,  11, 
313;  de  Khevenhiiller,  ministro  de  Áustria,  12  setembro,  artigo  de 
R.  Duhr  na  revista  Stimmen  aus  Maria  Laach,  1890,  fase.  2,  398; 
do  núncio  Acciajuoli,  3  outubro,  na  revista  Zeitsckrijt  fiir  Kath.  Thso- 
logie,    1898,  art.    do   mesmo   escriptor. 


o  DUQUE  DE  AVEIRO  E  PEDRO  TEIXEIRA  177 

vantagens»  i.  Mas  o  vulgo,  menos  sceptico,  pensava  de 
outro  modo,  e  havia  quem  dissesse  que  também  a  duquesa 
de  Aveiro  não  fora  esquiva  ao  Rei,  Outro  diplom.aia,  o  conse- 
lheiro Junck,  da  legação  da  Prússia,  conta  que  certas  pessoas 
lhe  haviam  explicado  o  caso  como  sendo  tentativa  da  própria 
familia,  contra  a  marquesa,  que  julgavam  ir  na  carruagem 
para  se  encontrar  com  D.  José;  supposição  frívola,  que  bem 
mostra  os  desvarios  da  opinião,  e  quanto  as  razões  expostas 
nos  documentos  publicados  pelo  governo  eram  frágeis  e 
incapazes  de  produzir  convicção.  Rematando,  havia  até  quem 
attribuisse  a  tentativa  a  Carvalho,  para  pela  imputação  do 
crime  perder  os  seus  inimigos. 

Foi  quando  surgiram  as  primeiras  vozes  sobre  os  jesuítas 
que  também  se  falou  no  duque  de  Aveiro.  E  apontavam-se 
dois  motivos:  a  vingança  particular  contra  Pedro  Teixeira, 
alvo,  por  sua  insolência,  de  muitos  rancores^  e  es3€  excluía 
o  propósito  de  ataque  ao  Rei;  outro,  o  de  uma  temerária 
aventura  em  que  o  ambicioso  fidalgo  pretendia  apossar-se 
do   throno. 

Um  mês  depois  do  crime  não  se  falava  já  nos  Tavoras, 
e  a  corrente  mais  seguida  indigitava  o  duque,  sendo  o  creado 
particular  a  destinada  victima.  Questa  ora  è  la  você  che  è  la 
piá  conimune,  escrevia  o  Núncio  em  3  de  outubro  '-.  Mas, 
quando  em  dezembro  foram  presos  os  fidalgos,  já  se  dizia 
que  o  duque  tivera  o  intento  de  se  proclamar  Rei,  que  havia 
dois  milhões  de  moeda  cunhada  com  a  sua  effigie,  e  decretos 
impressos  em  seu  nome,  finalmente  que  uma  das  ilhas  dos 
Açores  se  tinha  levantado   e   o  acclamara. 

Neste  conflicto  de  versões  oppostas.  Carvalho  não  vacilloii. 
A  voz  popular,  que  indicou  os  Tavoras  e  depois  o  duque 
de  Aveiro,  concordava  com  as  suas  próprias  suspeitas,  e 
por  detraz  d'esses  a  sua  idéa  fixa  em  acção  apontava-ihe 
os  jesuítas.  Uma  vez,  Khevenhiiller,  intimo  seu,  perguntou-lhe 
se  era   exacto   que   um   missionário  do  Maranhão,   com   fama 


1  Malouet,    'Aíémoires,    II.    302. 

2  Zeit&chrijt   fur   Kath.    Theologle,    art.    cit. 

o    MARQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  12 


178  CARVALHO    E    A    TENTATIVA    DE    REGICÍDIO 


de  santo,  havia  escripto  ao  Papa  sobre  um  grande  perigo^ 
pendente  sobre  o  Rei,  se  os  jesuítas  antes  da  festa  da  Nati- 
vidade não  fossem  reintegrados  nas  funcções  do  confissio- 
nario  e  do  púlpito,  de  que  os  privara  o  visitador.  O  ministra 
deu  ares  de  surpreso  e  impressionado  com  a  interrogação. 
Evidentemente  não  conhecia  a  historieta  i.  Seria  isso  Cjue 
o  lançou  na  pista  de  Malagrida? 

Não  ignorava  elle  que,  á  voz  do  missionário,  se  apinhava 
o  templo  em  Setúbal  para  as  penitencias,  e  concorriam  fidalgos  e 
altas  damas  de  Lisboa  para  os  exercicios  de  Santo  Ignacio.  O 
geral  descontentamento  contra  o  governo  provocara  effervescen- 
cia,  que  não  escapava  á  observação  dos  diplomatas.  Quando  foi 
do  attentado,  escrevia  o  ministro  britannico:  «Se  o  Rei  tem 
morrido,  não  sei  o  que  seria  d'este  desditoso  paiz»  -.  Kheve^ 
nhijller  dava  parte  á  sua  corte  da  fermentação  'existente  no  Bra- 
sil, e  mencionava  como  muito  perigoso  «o  estado  de  agitação 
geral  no  reino  e  nos  dominios»  ^.  Nas  ruas  cada  qual  com-^ 
mentava  o  attentado  segundo  as  próprias  sympathias.  Um 
frade,  antes  do  julgamento  de  janeiro,  bradava  que  se  os 
fidalgos  fossem  degolados  muito  sangue  li  a  vi  a  de  correr  ■*.  Por 
isso  foi  julgado,  e  as  prisões  de  individuos  de  baixa  categoria^ 
que  então  em  quantidade  se  effectuavam,  puniam  intuitos 
sediciosos.  A  estes  se  deve  também  attribuir  o  rumor  popular 
das  pretençòes  do  duque  de  Aveiro  ao  supremo  poder.  Ttida 
isto  confirmou  o  ministro  na  presumpção  de  um  vasto  trama, 
que  armara  as  mãos  dos  fidalgos,  e  tinha  por  instigadores 
os  jesuítas. 

De  factos  positivos,  em  que  assentasse  a  crença  de  serem 
os  Tavoras  e  o  duque  de  Aveiro  os  braços  da  conjuração, 
não  se  encontram  vestígios,  A  primeira  denuncia,  que  foi  a 
base  do  processo,   veio  do   rústico  galan  de  uma   creada  da 


•     Zciísclirift.   fiir  Koíh.    TheoL,   art.   clt. 

-     Mai.íhei,    Mímoirea,    II,    315. 

3  Despacho  de  19  Setembro  1758,  Zeitschrift  fiir  Kath.  TheoL. 
art.    cit, 

"*  Processo  do  frei  .Wanoel  de  SanfAnna.  Arch.  do  Ministério 
da   justiça.  .       ,    :       , 


PRIMEIRAS    DENUNCIAS    CONTRA    OS  REGICIDAS  179 

duque,  a  15  de  dezembro,  quando  já  se  achavam  em  detenção 
CS  fidalgos.  Até  ahi  a  justiça  procedera,  segundo  a  apparencia, 
por  meras  inducções.  Se  prévias  denuncias  houve,  d'el!as  não 
ficou  indicio  no  processo.  Cai*valho  acceitou  a  voz  publica, 
que  incriminava  o  duque  de  Aveiro,  e  porventura  teve  um 
secreto  aviso,  que  nos  autos  não  podia  figurar;  a  razão 
adeante  se  verá,  O  rumor  sobre  os  Tavoras  podia  ser  exacto 
e  radicar-se  no  tardio  pundonor,  que  o  povo  nelles  imaginou. 
Para  o  impellir  nesta  senda  contribuía  a  circumstancia  ponde- 
rosa de  lisonjear  o  sentimento  da  Rainha,  ferida  no  seu 
orgulho  de  mulher  e  de  Princesa,  e  a  quem  o  crime,  levado 
a  fim,  privaria  do  esposo  e  das  honras  da  suprema  posição. 
Com  effeito,  que  melhor  offerenda  aos  seus  zelos,  do  que  a 
ruina  da  familia  que,  por  interesse  acceitara  a  deshonra  e^ 
cúmplice  do  adultério,  também  o  era  do  crime  contiía  o  marido,, 
volúvel  mas  sempre  amado? 

Tem-se  pensado  que  fosse  delatora  a  marquesa  amante 
do  Rei.  Não  será  assim  quanto  aos  Tavoras,  mas  é  bem 
possível  ter  ella  denunciado  o  duque  de  Aveiro.  No  dia 
seguinte  ao  trime,  pedira-lhe  elle  uma  entrevista,  que  se 
realizou  na  casa  de  um  tal  Caetano  Escarlate  i.  Em  presença 
da  cunhada  manifestou  susto  pelo  que,  acerca  dos  Tavoras, 
se  falava  na  rua;  e  fora  por  noticias,  dizia,  temendo  que  elles 
por  despique  se  houvessem  lançado  em  algum  excesso.  Do 
encontro  e  do  que  nelle  se  passou  soubera  Carvalho.  Sobre 
isso  foi  o  duque  perguntado  no  processo.  Quem  senão  a 
marquesa  podia  ter  feito  a  revelação? 

Na  manhã  de  4  toda  a  gente  falava  no  caso  d'aquell;a 
noite,  indiciando  os  Tavoras.  É  de  acreditar  que  o  duque,^ 
nos  abysmos  da  sua  alma,  cuidasse  de  aproveitar  a  supposição 
geral  para  defesa  sua.  A  attitude  que  teve  ante  os  juizes 
permitte  que  todas  as  vilezas  lhe  sejam  attribuidas.  Insinuar 
a   Theresa   de    Távora    que   o   marido,   o   sogro,   o   cunhado 


1  Escudeiro  da  Marquesa  de  Távora,  moça.  Talvez  filho  ou  pa- 
rente de  Domenico  Scarlatti,  conhecido  compositor,  que  foi  professor 
cravo  das  infantas,   filhas  de   D.   João   V. 


ISO    o   DUQUE  DE  AVEIRO  PROCURA  ENVOLVER  OS  TAVORAS 


haviam  por  causa  d'ella  praticado  o  acto  terrível  era  conquistar 
o  esquecimento  do  crime,  a  impunidade,  que  as  lagrimas  da 
mulher  amada  saberiam  alcançar  do  Rei  para  os  seus. 

Mas  não  ficou  aqui.  Ao  cónego  Paulo  da  Annunciaçao, 
seu  intimo,  disse,  quando  ainda  havia  duvidas  sobre  a  doença 
do  Rei:  uFoi  um  tiro  que  levou  por  causa  de  mulheres^).  Não 
era  preciso  mais  para  o  interlocutor  entender  que  seria  dos 
Tavoras.  E,  como  esta,  outras  confidencias  teria  feito,  dando 
assim  consistência  ao  dizer  popular. 

Da  primeira  vez,  todavia,  falando  á  marquesa,  foi  tiahido 
pela  perturbação.  EUa,  certa  que  o  ponto  de  honra  não  era 
razão  para  a  familia,  lendo  na  alma  do  duque,  adivinhou  ser 
elle  o  culpado;  e  então,  por  defender  os  seus,  que  o  clamor 
publico  perdia,  por  se  vingar  do  infame,  que  os  accusava 
sendo  elle  próprio  o  criminoso,  fez  saber  ao  Rei  o  que  entre 
ambos  passara.  Foi  effectivamente  assim  ?  A  inducção  não 
briga  com  a  lógica.  O  acto  seria  racionavel  e  humano;  e 
não  o  contradizem  os  factos  verificados.  Os  acontecimentos 
ficam  assim  coordenados  até  á  catastrophe. 


III 


A  calma,  que  succedera  ao  attentado,  turbou-se  em 
dezembro  subitamente.  Renasciam  as  angustias  que  a  popu- 
lação conhecera  no  terremoto.  A  13  despertou  Lisboa  em 
sobresalto,  sabendo  que  na  madrugada  se  haviam  efíectuado 
muitas  prisões.  O  marquês  de  Távora,  seus  dois  filhos,  dois 
irmãos,  os  genros  conde  de  Athouguia  e  marquês  de  Alorna, 
levados  para  os  novos  cárceres  edificados  no  pateo  dos  Bichos, 
dependência  da  quinta  real,  em  Belém.  Indivíduos  de  baixa 
graduação  e  criados  dos  fidalgos,  na  cadeia  local.  A  duquesa 
de  Aveiro,  a  marquesa  de  Távora  e  suas  filhas,  reclusas  lem 
mosteiros.  O  duque  apprehendido  nesse  dia  na  senhoreai 
residência  de  Azeitão.  As  casas  dos  jesuiías  em  Lisboa 
cercadas  pela  tropa  e  varejadas.  A  quantidade  de  gç.rú.ç:  detida 
crescendo  a  cada  hora,  e  mais  ainda  na  imaginação  d'aquelles 


PROVIDENCIAS    CONTRA   OS    PRESUMIDOS   CRIMINOSOS      181 

que  inquietos  andavam  ás  novidades.  Eis  o  que,  de  boca  em 
boca,  a  medo  se  transmittia. 

No  mesmo  dia  13  appareceu  afíixado  o  edital,  com  da  ia 
de  9,  publicando  como  fora  a  carruagem  assaltada  por  três 
homens  a  cavallo,  e  o  soberano  ferido,  na  noite  de  3  de. 
setembro;  alludindo  aos  presagios  de  correr  perigo  a  sua 
vida,  precedentes  ao  attentado;  declarando  a  conjuração  e 
offerecendo  prémios  e  honras  a  quem  fizesse  conhecer  os 
conspiradores. 

As  prisões  continuaram  nos  dias  segumtes.  Em  janeiro 
passavam  de  mil  i,  e,  cheios  os  cárceres  existentes,  a  toda 
a  pressa  se  preparavam  outros,  para  os  hospedes  esperados. 
Dos  Tavoras  só  um  irmão  do  marquês  ficava  solto,  e  o 
bispo  de  Leiria,  D.  João,  futuro  cardeal  da  Cunha,  tão  solicita 
em  condemnar  o  attentado,  que  logo  d'ahi  se  recommendou 
ás  boas  graças  do  poder.  Nas  enxovias  todos  os  demais ;  os 
afastados  parentes,  os  amigos,  os  fâmulos  d'elle  e  do  duque. 
As  damas  e  crianças  em  conventos.  Sequestrada  também  num 
claustro,  com  uma  filhinha,  a  fatal  amasia  do  soberano. 

Para  julgar  os  regicidas  instiíuiu-se  um  tribunal  de  incon- 
fidência, que  os  três  secretários  de  Estado  haviam  de  presidir. 
Instructor  e  relator  do  processo  era  Pedro  Cordeiro,  chanceler 
da  Casa  de  Supplicação,  o  mais  graduado  juiz  do  reino. 

Primeiro  dos  presos  interrogados  foi  o  duque  de  Aveiro, 
a  24  de  dezembro.  Às  primeiras  perguntas  assacou  logo  o 
crime  aos  Tavoras.  O  marquês,  pae,  era  muito  delicado  em 
matérias  de  honra  e  pundonor ;  percebera  o  procedimento  da 
nora  em  uma  festa,  na  casa  d'ella,  poucos  dias  antes  do 
attentado;  d'ahi  provinha  recear  o  duque  haverem-se  os 
parentes  arrojado  áquelle  excesso.  A  isto  o  juiz  Pedro  Cor- 
deiro, talvez  Carvalho  que  presidia,  retorquiu  sceptico  não 
ser  a  resposta  verosimil;  porque  «não  cabia  no  juizo  humano 
que  o  marquês  de  Távora  e  mais  pessoas  de  familia  igno- 
rassem o  que  era  notório  aos  extranhos».  O  marques  e 
todos  de  casa  estavam  informados;  nas  conversações  donies- 


^     Dcsp.    de    Khcvenliuller,    9    janeiro    17S9.    Rev.    cit.,    408. 


182  CONFISSÃO    DO    DUQUE    DE    AVEIRO 


ficas,  alliidia-se  ao  facto,  como  o  duque  sabia.  Q-uanto  a 
razão  de  pundonor — com  cynismo  continuava  —  era  fútil, 
porque  nunca  se  viram  zelos  de  vassallo  para  soberano,  A  historia 
peregrina  e  domestica  abundava  em  casos  parecidos.  E  que 
faziam  os  aggravados  ?  resignavam^se  em  silencio  ou,  quando 
muito,  protestavam  com  um  prudente  e  decoroso  retiro.  Depois 
proseguia  setencioso:  «Nem  o  marquês  é  tão  rústico  e  de 
tal  sorte  bárbaro  que  ignorasse  o  referido,  nem  o  duque 
tão  falto  de  conhecimento  do  mundo  e  da  corte  que  attribuisse 
a  essa  causa  o  attentado.» 

Dizia  bem  o  homem :  exemplos  não  faltavam  na  historia. 
As  pontas  de  ouro,  que  o  marido  de  Leonor  Telles  usara 
por  despique,  deviam  no  reinado  de  D.  José  trazer-se  por 
honra,  A  isto  baixara  no  século  XVIII,  em  Portugal  e  na 
Europa,  a  dignidade  humana,  pela  adoração  néscia  do  ente 
superior  que  o  Rei  devia  ser. 

Tão  cabaes  pareceram  ao  duque  as  razões  que,  descon- 
certado, sem  inventiva  para  mais,  e  apprehensivo  talvez  da 
tortura,  confessou.  O  criminoso  era  elle.  Mandara  chamar 
António  Alvares,  irmão  do  seu  guarda  roupa,  para  atirar  a 
uma  sege  que  de  noite  havia  de  sahir  da  quinta  de  Belcm. 
Veio  iclle  e  mais  outro.  Dera-lhes  vinte  moedas.  Os  assassinos 
não  sabiam  a  quem  atiravam,  presumindo  ser  algum  inimigo 
do  duque.  Nos  Tavoras  não  falava  já  e,  facto  muito  em  pró 
d'elles,  passou  a  invocar  para  o  seu  acto  motivos  mui  diversos 
dos  primeiros:  razões  de  ódio  e  de  interesse.  O  Rei  fizera 
decidir  contra  elle  um  pleito  valioso;  impedira  o  consorcio 
de  seu  filho  com  a  irmã  do  duque  de  Cadaval.  «Mas  —  torna- 
ram-lhe  —  consumado  o  crime,  a  sua  perdição  era  certa.^>  — 
«Não!  O  infante  D.  Pedro  o  defenderia!». 

A  fátua  declaração  exultou  de  certo  Carvalho,  qtie  mais 
uma  razão  tinha  para  excitar  a  desconfiança  do  Rei  contra 
o  irmão.  Isso,  porém,  não  bastava.  Os  tiros,  que  haviam  de 
matar  a  D.  José,  tinha-os  por  apontados  a  si,  alvo  de  todas 
as  cóleras,  e  não  ao  soberano.  No  ataque,  estava  d'isso 
convicto,  todos  os  seus  inimigos  tinham  cooperado:  o  duque, 
os  Tavoras,  o  infante,  muitos  fidalgos,  e  por  fim,  na  ultima 
linha,  o   troço  ousado   dos   jesuítas.   A   cumplicidade   d'estes. 


DENUNCIA    DOS    JESUÍTAS   COMO    REGICIDAS  183 


mal  definida  até  ahi  pelas  testemunhas  antes  ouvidas,  preci- 
sava que  n'este  interrogatório  se  demonstrasse.  O  inquérito 
foi  por  isso  encaminhado  nessa  rota. 

«A  confiança  na  protecção  do  infante  —  volveu  o  juiz  — 
além  de  criminosa  era  vã.  Nem  o  duque  jamais  a  tivera.  A 
impunidade,  sim,  contava  com  ella,  mas  para  isso  era  preciso 
haver  na  conspiração  um  certo  numero  de  pessoas  seculares 
e  ecclesiasticas. . .»  ^  Estava  a  Companhia  de  Jesus  nomeada. 
Entenderia  o  duque  o  que  d'eile  queriam? 

Desentendimento,  resto  de  lealdade,  ou  tardio  escrúpulo 
de  novos  aleives,  este  homem  tão  prompto  em  accusar  não 
falou.  Com  seus  temores  e  a  turbada  consciência  o  deixaram 
naquella  angustiosa  noite  de  Natal.  Que  lembranças  amargas 
do  passado,  que  visões  sinistras  de  perdição,  lhe  atormentaram 
Jias  trevas  do  cárcere  a  dolorosa  vigilia,  e  algum  inquieto 
dormitar?  Que  idéas  revolveu  no  frouxo  cérebro,  oppresso 
pelo  medo  do  patibulo,  pelo  anhelo  de  saivar-se  a  todo  o 
transe?  Aonde  pretendia  o  tenebroso  Sebastião  José  leval-o 
com  as  insinuações  da  véspera?  Que  victimas  devia  sacrificar 
a  um  vislumbre  de  esperança? 

No  dia  immediato  confessou  a  gosto  dos  juizes.  Esponta- 
neamente? O  auto  de  perguntas  consta  de  uma  só  declaração. 
Por  maravilha  é  conciso  e,  circumstancia  suggestiva,  termina 
do  modo  seguinte :  «Zf  por  se  achar  incommodado  se  lhe  não 
fizeram  mais  perguntas^-).  Remorso,  pavor,  ou  effeito  da 
tortura?  A  derradeira  supposição  é  mais  provável,  e  foi 
posteriormente  allegada  na  justificação  dôs  Tavoras.  Ao 
tribunal    não    conviria    achacar   de    violência     o    depoimento 


■*  <.Outro  maior  e  mais  certo  interesse  fora  o  que  elle  responcicnte 
esperava  achar,  depois  de  nos  privar  da  augustissima  pessoa  e  do 
gloriosissimo  governo  de  El-rei  Nosso  Senhor.  E  este  interesse,  para 
ter  p]f;uma  proporção  com  tão  grande  delicto,  não  podia  racion.il- 
niente  ser  outro  interesse  que  não  fosse  o  ter  seguro,  a  d  seu  parecer, 
xuna  confederação  de  pessoas  ecclesiasticas  e  seculares,  para  se  sus- 
tentar a  si  e  ás  suas  pretenções,  em  tão  tristes,  tão  inhabeis,  e  tão 
escandalosas  ciicirmstancias).  lntenx)gatorio  de  24  de  Dezembro.  Per- 
gunta   18. a 


184  O    GRANDE    JUBILO    DE    CARVALHO 


fundamental.  Depois  d'isso,  por  três  dias,  não  houve  interro- 
gatório; davam-lhe  o  tempo  de  se  recuperar  das  dores. 

No  quarto  dia  o  réo  declarou  que  a  idéa  do  crime  lhe 
viiera  dos  jesuitas.  Perguntando  como  se  poderia  conseguir 
o  casamento  do  infante,  quatro  padres,  João  de  Mattos,  José 
Perdigão,  Jacintho  da  Costa,  Thimoteo  de  Oliveira  concor- 
daram que  só  matando  o  Rei.  O  duque  hesitava;  mas  aos 
escrúpulos  oppuzeram-lhe  não  ser  peccado  o  regicídio,  aos 
receios   que,   realizado   o  feito,  tudo  se  havia  de  compor. 

Deste  modo  o  attentado  não  era  já  despique  de  familia, 
nem  vingança  pessoal,  mas  um  crime  politico,  determinado 
pelos  jesuitas.  As  três  versões,  taes  quaes  o  duque  as  apre- 
sentou, excluiam-se  reciprocamente.  Carvalho  reteve-as  todas, 
integrando  em  uma  acção  commum  a  ambição,  confessado 
movei  do  criminoso,  a  vingança  dos  Tavoras  e  a  instigação 
dos  jesuitas.  Com  estes  elementos  se  fez  o  processo,  sobre 
elles  foi  a  sentença  proferida. 

Extremo  devia  ser  nessa  hora  o  jubilo  do  ministro.  Amor 
próprio  satisfeito,  pela  antecipada  percepção  do  trama,  que 
a  confissão  do  principal  réo,  para  elle  sincera,  revelava; 
rancor  saciado  pela  certa  destruição  de  tantos  inimigos.  Um 
d'elles,  o  mais  soberbo  porventura,  tinha-o  agora  nas  mãos, 
submisso,  sem  alento,  sem  razão  e  sem  vontade,  argila  plástica 
a  seu  capricho  moldavel.  A  esse  pediria  quantas  victimas 
quizesse  para  a  desforra. 

Pusilânime  e  fallido  de  senso  moral,  o  duque,  entendendo 
que,  quantas  m.ais  pessoas  implicasse  no  crime,  tantas  mais 
possibilidades  teria  de  salvação,  foi  denunciando  quem  os 
juizes  desejavam,  e  outros  ainda,  que  a  sanha  d'elles  não 
quiz  para  o  patibulo. 

Os  Tavoras,  pae  e  dois  filhos ;  o  conde  de  Athouguia ; 
Manoel  e  João  de  Távora  seus  cunhados,  que,  sabendo  da 
conjuração,  não  tomaram  parte  no  attentado;  conde  e  condessa 
da  Ribeira;  Manoel  de  Sousa  Coutinho,  «que  offerecera  iins 
mulatos  para  executores  do  insulto»;  o  marquez  de  Alorna, 
scientes  do  trama,  porém   alheios  á  execução. 

Instado  para  nomear  outros  ecclesiasticcs,  além  dos 
jesuitas,     mencionou     Paulo    da    Annunciação     que     depuzera 


o  DUQUE  DENUNCIA  PARENTES  E  OUTRAS   PESSOAS      185 


contra  elle,  e  outro  «alto,  magro,  de  óculos,  cujo  nome  Jhe 
não  lembra,»  —  diz  o  processo.  Esses  também  tinham  sido 
informados.  Depois,  á  aventura,  António  da  Costa  Freire^ 
«com  quem  communicava  sobre  o  ponto  de  fazer  odioso  o 
governo» ;  o  conde  de  S.  Lourenço,  que  talvez  alguma  cciisa 
soubesse  por  Manoel  de  Sousa  Coutinho.  Era  o  que  em 
giria  da  inquisição  se  chamava  dar  neste  e  naquelle,  cega  tenta- 
tiva de  acertar  com  o  intento  dos  juizes.  Todos  os  que  não 
foram  justiçados,  como  presentes  na  emboscada,  pagaram 
com  longos  annos  de  cárcere,  onde  alguns  terminaram  a 
vida,  a  louca  esperança  de  salvação,  que  o  miserável  um 
instante  afagou. 

Falta,  porém,  dizer  o  mais  extranho.  Para  remunerar 
os  assassinos  pagos,  houvera  entre  as  opulentas  famílias 
interessadas  uma  collecta.  Somma  total  quarenta  moedas, 
cento  e  noventa  e  dois  mil  réis!  Távora  pae,  dera  doze; 
dezeseis  a  marquesa,  das  quaes  oito  pela  filha,  condessa  de 
Athouguia;  oito  Manoel  de  Távora,  não  incluído  no  processo; 
finalmente  a  condessa  da  Ribeira,  a  filha,  e  o  conde  Quido 
da  Camará  completaram  a  conta  com  seis  moedas.  O  duque, 
riquíssimo,  principal  réo  e  promotor  do  crime,  nem  um  ceitil. 
Incrível  depoimento,  capaz,  ante  verdadeiros  juizes,  de  annullar 
todas  as  mais  imputações   de  alheia   cumplicidade. 

A  incoherencia  era  tal  que  o  próprio  Carvalho,  sôfrego 
de  accusações,  duvidou.  A  falsidade  resaltava  nos  porme- 
nores, mas  convinha  aproveitar  o  fundo  da  declaração.  Con- 
certou, pois,  a  conta  a  seu  modo,  repartindo  na  sentença 
final  dezeseis  moedas  á  marquesa,  doze  ao  marido,  oito  ao 
conde  de  Athouguia.  Excluídos  Manoel  de  Távora  e  o  conde 
da  Ribeira,  restavam  quatro  moedas.  Nesta  somma  não  se 
fala.  Podia  racionavelmente  ser  a  quota  do  duque,  avarento 
como  todos  sabiam,  mas  o  mais  curial  será  pensar  que  seme- 
lhante collecta  não  houve,  nem  os  juizes  alguma  vez  ne!!a 
acreditaram. 

A  29  de  dezembro,  ulílmo  interrogatório,  o  duque  faz 
a  narrativa  do  crime,  com  a  descripção  confusa  da  emboscada 
em  que  três  grupos  successivos,  promiscuamente  compostos 
dos  fidalgos,  três  criados  e  os  dois  assassinos  pagos,  deviam 


186  ULTIMO    INTERROGATÓRIO    DO    DUQUE 


atirar  sobre  a  carruagem  que,  atacada  pela  primeira  turma, 
escapara,  mudando  o  caminho,  ás  outras  duas.  Ahi  novamente 
elle  accusa,  titubeia,  contradiz-se  e  calumnía.  Ainda  nesse  dia 
foram  perguntados  José  Maria  de  Távora  e  seu  irmão,  o 
marido  ultrajado.  No  immediato,  Távora  pae  e  o  conde  de 
Athouguia,  Este  e  o  marquês  Luiz  de  Távora  no  tormento 
dcpuzeram  ao  sabor  dos  juizes:  condemnaram-se  a  si,  aos 
seus  e  aos  jesuitas,  O  marquês  velho  e  José  Maria,  mancebo 
de  vinte  e  dois  annos,  negaram  tudo,  mesmo  nas  angustias 
do  potro.  Â  marquesa  nenhum  interrogatório  se  fez.  A  fereza 
dos  juizes  não  ousou  mettel-a  nos  tratas;  limitoa-se  a  con- 
demnal-a  á  morte  sem  a  ouvir. 


IV 


Até  9  de  janeiro  foram  interrogadas  as  testemunhas, 
criados  dos  Tavoras  e  duque  de  Aveiro,  creaturas  de  Ínfima 
responsabilidade,  a  quem  por  instigações  ou  nos  tratos  ^ 
neste  espantoso  processo  deu-se  o  tormento  ás  testemunhas! 
—  os  juizes  extorquiram  declarações,  com  que  pudessem  dar 
alguma  apparencia  de  equidade  á  resolvida  condemnação  *. 
Naquelle  dia  foi  o  processo  enviado  á  Mesa  de  Consciências 
e  Ordens,  foro  privilegiado  dos  réos  pertencentes  ás  Ordens 
militares,  duque  de  Aveiro,  marquês  de  Távora  e  conde  de 
Athouguia.  A  11  o  tribunal  pronuncioa-se,  entregando-os  ao 
poder  civil,  O  defensor  único  nomeado  para  os  doze  accu- 
sados  —  a  marquesa  de  Távora,  os  cinco  fidalgos,  cinco 
criados  do  duque,  dos  quaes  um,  José  Polycarpo  de  Azevedo, 
em  fuga,  e  o  cabo  Romeiro,  ordenança  do  marquês  —  poucas 


1  A  casa  dos  vinte  e  quatro,  manipulada  por  Carvalho,  dirigiu 
ao  rei  uma  supplica  para  serem  applicados  tratos  aos  réos  e  ás  tes- 
temunhas, vi?to  não  existir  a  disposição  nas  leis  vigentes.  Os  instru- 
mentos foram  levados  da  Inquisição  para  o  pateo  dos  Bichos,  em  Belein, 
onde  o  tribunal    funccionou. 


A    DEFESA    E    EXECUÇÃO    DOS    REGICIDAS  187 

horas  teve  para  ler  os  autos,  conferir  com  os  réos  e  escrever 
um  curto  arrazoado.  Não  se  lhe  permittiu  mais,  nem  lhe  con- 
viria a  elle,  magistrado  de  carreira,  comprometter-se  por  zelo 
excessivo. 

Na  defesa  sobresaem  os  pontos  seguintes:  Luiz  de  Távora 
retratava-se,  allegando  que  por  mera  presumpção  confessou, 
vencido  das  dores,  o  que  a  respeito  seu  e  dos  outros  lhe 
suggeriram;  o  cabo  Romeiro,  que  accusara  seus  amos,  retra- 
tava-se também;  a  marquesa  de  Távora  não  fora  perguntada; 
íião  houvera  confrontação  dos  réos  entre  si,  nem  com  as 
testemunhas.  O  resto  é  um  frouxo  appello  á  compaixão  dos 
juizes,   de   qualquer  maneira   dispostos   a   condemnar. 

Tudo  foi  desprezado.  A  sentença  lavrara-se  antes  de 
«scripta  a  defesa  e,  porque  as  penas  da  Ordenação  parecessem 
benignas,  o  tribunal,  inflammado  pelo  desejo  de  manifestar 
ao  Rei  o  seu  ardor  em  o  vingar,  requereu  lhe  fosse  permittido 
cstabelecel-as  a  seu  arbítrio.  Supplicios  novos  na  lei  portu- 
guesa foram,  em  consequência  d'isso,  determinados  para  os 
infelizes. 

A  12  por  noite  conheceram  elles  a  sua  horrenda  sorte. 
A  execução,  principiando  ao  amanhecer  do  dia  seguinte,  levou 
muitas  horas.  Decapitada  a  marquesa  de  Távora;  seu  marido 
€  o  duque  de  Aveiro  rodados  em  vida  —  o  supplicio  consistia 
em  romper  a  golpes  de  marreta  os  membros  e  o  thorax,  e  ex- 
por depois  o  corpo  sobre  uma  roda  — ;  o  garrote  e  a  roda  simul- 
taneamente, pena  menos  barbara,  para  os  demais,  com'  excepção 
do  sicário  que  ferira  o  Rei.  Esse  queimado  en  vida,  emquanto  ao 
lado  d'elle  ardia  o  manequim,  figura  do  companheiro  que,  mais 
ditoso,  lograra  evadir-se,  e  as  chammas  consumiam  em  volta 
os  corpos  dilacerados  dos  que  tinham  sido  seus  consócios, 
um  com  certeza  no  crime,  e  todos  no  infortúnio.  À  hora  do 
crepúsculo,  o  vento  do  norte,  soprando  no  largo  de  Belém 
para  o  Tejo,  dissipava  as  cinzas  do  cadafalso  e  dos  padecentes. 
Finalizara  a  tragedia.  Aos  fidalgos  foram  os  bens  confiscados, 
as  casas  arrasadas,  apagados  os  brazões;  e  o  appellido  de 
Távora  declarou-se  extincto  em  Portugal.  Os  sobreviventes 
tomaram  o  de  Lorena,  que  por  linha  feminina  veio  á  família. 

Por  esta  forma  tigrina  o  amante  de  D.  Theresa  de  Távora 


188  A    REVÍSAO    DA   SENTENÇA 

«e  vingou.  Attribuiu  elle  deveras  o  crime  a  um  desforço  de 
honra?  Se  alguma  vez  tal  pensou,  o  ministro  facilmente  o 
dissuadiria.  A  outro  fim  não  visa,  no  interrogatório  do  duque, 
a  affirmação  de  direitos  da  luxuria  real.  E  só  isso  poderá  em 
parte  absolver  a  D.  José  do  seu  cru  procedimento.  O  valido, 
esse  bem  sabia  ser  a  conjuração  mais  contra  elle  que  contra 
o  Rei. 

Cabe  perguntar  se,  de  facto,  cooperaram  os  membros 
da  familia  ultrajada  na  aggressão?  De  animo,  certamente; 
do  acto  material  fallecem  as  provas.  Entre  a  nobreza  existia 
uma  geral  conspiração  contra  o  regimen.  Todos  desejariam 
a  morte  do  Rei,  mas  d'ahi  a  rea!izal-a  havia  um  arrojado 
passo,  que  o  duque  por  fatuidade  não  temeu,  que  os  outros 
não  ousariam  transpor.  Do  numero,  tudo  leva  a  crer,  seriam 
os  Tavoras. 

Veja-se  como  foram  condemnados.  Além  das  confissões 
arrancadas  ao  conde  de  Athouguia  e  ao  marquês  filho,  nos 
tormentos,  disseram  contra  elles  varias  testemunhas.  De  que 
modo,  porém?  As  declarações  são  imprecisas  e  divergentes; 
cinco  somente  nos  tratos  accusam;  outras  ficam  mudas,  a 
despeito  do  retalhar  das  carnes  nas  quinas  do  ecúleo.  O  sicário 
António  Alvares,  que  confessa  de  si  e  do  amo,  dois  fâmulos 
do  duque  executados,  acerca  d'elles  nada  dizem.  O  cabo 
Romeiro,  ordenança  de  Távora  pae,  accusador  na  tortura, 
retrata-se  depois.  O  próprio  marquês  Luiz  renega  a  confissão  i. 
Desmanchado  assim  o  feixe  das  provas,  o  que  resta  é  bem 
pouco,  para  que  a  historia  os  proclame  culpados.  Absolveu-os 


1  A  priovíi  das  testemunhas  versa  quasi  exclusivamente  sobre  a 
transícrencia,  da  cocheira  dos  Tavoras  para  a  do  duque,  de  uns  ca- 
vallos  destinndos  aos  conjurados.  Nesta  parte,  como  em  tudo  o  rnais, 
são  os  depoimentos  vagos  e  contradicíorios.  Depois  do  julgamento  a 
devassa  coriíinuou.  A  24  e  26  de  janeiro  três  moços  da  cavallariça 
<Io  duque,  perguntados  se  tinham  visto  sahir  sei 5  cavallos,  para  a  em- 
boscada, na  noite  dos  tiros,  responderam  que  não.  Em  março,  o  I)0- 
lieiro  de  Lui/  de  Távora  nega  que  tivesse  levado  dois  cavallos  appa- 
lelhados  de  casa  de  seu  amo  para  a  do  duque.  Será  impossível  atitin- 
gir  jamais  a  ccríeza  luminosa  neste  drama  sombrio,  mas  os  indícios, 
até  hoje,  antes  absolvem  do  que  condemnam  os  Tavoras. 


RECONSTITUIÇÃO    DO    CRIME  189 


mais  tarde  a  sentença  do  tribunal  revisor,  em  uma  época  de 
reacção,  que  lhe  inquinou  de  suspeito  o  julgamento.  Este 
versou  apenas  sobre  o  processo  escripto.  Testemunhos  pes- 
soaes  não  se  buscaram.  Diligencias,  manifestadas  por  inves- 
tigações positivas,  em  que  a  limpida  verdade  sobresahisse, 
foram  dispensadas  por  muito  árduas  ou  inúteis.  O  objecto 
era  não  tanto  rehabilitar  os  innocentes  como  condemnar  os 
juizes,  sobretudo  o  juiz  principal,  do  processo  anterior.  O 
mysterio  do  sombrio  drama  tinha  de  ficar  para  sem.pre  com 
os  que  nelle  participaram. 


Sem  recorrer  ao  arriscado  plano,  confessado  pelo  duque, 
de  reunir  dez  homens  a  cavallo,  em  caminho  transitado  e 
não  longe  das  habitações,  para  empresa  de  tão  grande  vulto 
como  o  assassinio  de  um  Rei,  pode-se  pelos  depoimentos 
reconstituir  a  scena  da  aggressão.  O  autor  d'ella  mandam 
primitivamente  os  dois  sicários  fazerem  sósinhos  a  espera. 
Não  sabiam  elles  a  quem  tinham  de  matar.  Alguém  que 
offendera  o  amo;  por  ventura  Sebastião  José.  Dez,  quinze 
noites  se  puzeram  de  emboscada;  umas  vezes  esperando 
debalde;  outras  passava  a  carmagem,  e  não  s€  atreviam  a 
desfechar.  Impaciente,  deliberou  o  duque  ir  em  pessoa. 
Convidou  os  parentes  para  um  serão  em  sua  casa.  As  salas 
illuminadas  e  as  seges  á  porta  facultavam-lhe  o  alibi.  Pela 
volta  das  dez  horas  afastou-se,  mudou  de  fato  e  cabeíleira, 
e  sahiu  pelo  jardim.  Da  rua  ouvia-se  a  musica  no  salão. 
Chegando  ao  logar  aprazado,  postou-se  com  os  sicários. 
Quando,  ao  trote  das  mulas,  appareceu  a  carruagem  que, 
sahindo  por  uma  porta  lateral  da  quinta  de  Belém,  se  dirigia; 
á  Ajuda,  era  d'elle  o  primeiro  tiro.  Mas  a  escorva  falhou, 
e  o  fusilar  da  pederneira,  na  escuridão  da  noite  sem  lua, 
deu  alarme  ao  bolieiro  que,  á  espora  fita,  disparou  em  verti- 
ginosa carreira,  calçada  acima,  direito  á  residência  real.  Atraz 
galopavam  os  assalariados  António  Alvares  e  José  Polycarpo, 


190  RECONSTITUIÇÃO  DO  CRIAAE 


despejando  sobre  o  espaldar  da  sege  as  clavinas.  Deviam^ 
a  seguir,  ir  aos  lados,  e  terminar  a  obra  com  as  pistolas; 
mas  a  fuga  desabalada  não  lh'o  permiítiu.  De  falhar  o  primeira 
tiro,   ao   boliciro,   resultou   mallograr-se   a   tentativa. 

Separaram-se  então.  O  Rei,  Pedro  Teixeira,  que  o 
acompanhava,  e  o  conductor  estavam  feridos.  Invertendo 
caminho,  pela  calçada  da  Ajuda,  que  puderam  alcançar^ 
desceram  á  Junqueira,  onde  D.  José,  depois  dos  sacramentos, 
recebeu  o  primeiro  curativo  em  casa  do  cirurgião-mór  Soares 
Brandão,  O  duque,  tinha  deixado  os  assassinos,  e  recolheu 
passada  a  meia  noite.  Largou  os  disfarces  e  voltou  ao  salão. 
Continuava  a  tertúlia.  Nada  impede  de  acreditar  que  todo 
aquelle  tempo  estivessem  alli  os  Tavoras.  O  duque  podia 
ler  ido  ao  paço,  ou  a  qualquer  outra  parte  que  allegasse. 

Na  manhã  seguinte,  advertidos  pela  criadagem  do  rumor 
publico  que  lhes  attribuia  o  crime,  correram  ao  duque  de 
Aveiro.  Explicar-se-ia  assim  o  conciliábulo  que  reuniu  os 
accusados  em  casa  d'elle,  na  manhã  de  4,  e  de  que  o  processa 
lhes  faz  carga.  Eram  cúmplices,  ao  menos  sabiam  do  facto, 
e  juntavam-se  para  concertar  a  defesa?  Sendo  assim,  pare- 
ceria mais  sensato  terem  feito  isso  na  véspera,  mallograda 
o  crime,  como  sabiam.  Declarou-se  o  duque  então?  Em  tal 
caso,  como  se  ha  de  conciliar  o  facto  com  a  entrevista  pedida 
nesse  dia  á  amante  do  Rei,  e  o  mais  que  fez,  com  o  fim 
de  criminar  os  Tavoras?  A  deliberação  tomada  em  commum 
foi  certam.entc  a  de  affrontarem  o  perigo,  na  esperança  de 
que  entretanto  o  Rei  succumbiria.  No  primeiro  momento 
temeram-se,  e  José  Maria,  moço  valente,  passou  a  trazer 
sempre  as  pistolas  no  arção.  Mas  o  silencio  guardado  no 
paço,  o  mysterio  de  que  se  buscava  rodear  o  accideiite> 
inspiraram-lhes   enganosa  segurança. 

No  mesmo  dia  4,  o  duque  de  Aveiro  apresentou-se 
audazmente  na  Ajuda,  a  pedir  noticias  do  Rei.  O  marquês 
de  Angeja,  camarista,  disse-lhe  que  levara  uma  queda.  O 
duque,  socegado,  passado  algum  tempo,  sahiu  de  Lisboa. 
Na  feira  de  Palmella  andou  a*Jardeando  a  costumada  arro- 
gância, com  Manoel  de  Sousa  Calhariz,  e  uma  escolta  de 
mulatos,    valentões    ao    serviço   d'este    fidalgo.    Era   já    então 


SALVADOR    DURÃO    PRIMEIRA    TESTEMUNHA  19Í 


crença  geral  que  elle  dera  os  tiros,  e  os  íntimos  provavelmente 
o  felicitavam  pela  sua  coragem.  De  outra  vez  seria  mais  feliz. 
Tranquillizado,  machinava  agora  contra  Carvalho.  —  «Tomara 
que  déssemos  uma  fumaça  a  Sebastião  José,»  dizia  a  um  dos. 
sicários  i.  Nisto  romperam  as  prisões.  Tão  completo  era  o 
socego  dos  Tavoras  que  o  marquês  velho,  alta  noite,  ao 
sahir  de  um  baile,  sabendo  que  tinha  a  casa  cercada,  dirigiu-se 
ao  paço,  a  pedir  explicações.  Ahi  foi  preso.  O  dia  seguinte 
era   14  de   dezembro. 

A  15  apparece  o  denunciante  Salvador  Durão,  rapaz  de 
dezenove  annos,  que  foi  quem  primeiro  depoz  no  proccLSO. 
Elle  e  a  sua  conversada,  criadita  da  duquesa  de  Aveiro, 
fornecem  a  base  de  toda  a  acção  judicial.  È  singular  que  um 
e  outro  por  espaço  de  três  meses  guardassem  o  terrível 
segredo,  quando  aliás,  em  successo  Ião  estrondoso,  tudo 
impellía  á  loquacidade.  Depois  do  processo  desappareceram. 
Nem  lhes  foi  conferido  o  foro  de  nobreza,  promet^tido  por 
decreto  aos  delatores  plebeus,  nem  a  recompensa  pecuniária, 
se  a  tiveram,  foi  de  vulto,  porque  não  deu  na  vista  aos. 
contemporâneos,  que  de  todo  esqueceram  estes  comparsas 
do  pavoroso  drama. 

Entre  os  depoimentos  dos  dois  ha  divergências.  A 
rapariga  só  completou  as  declarações  ante  ameaças,  e  depois 
que  a  encerraram  na  mesma  enxovia  com  o  namorado.  È 
evidente  que  o  pouco  que  teriam  ouvido  e  presenciado  o 
cx)mpletaram  de  imaginação.  Os  nomes  dos  presos  da  véspera 
eram-lhes  já  um  indicio.  As  inverosimilhanças  puilulam. 
Depois  de  tão  grave  commettimento,  os  conjurados,  em  um 
quintal,  ao  alcance  da  rua,  trocam  impressões  em  voz  alta, 
como  se  a  todo  o  mundo  quizessem  publicar  o  seu  feito.  O 
duque  de  Aveiro  quebra  o  bacamarte  de  encontro  a  luna 
pedra.  «Valham-te  os  diabos,  diz,  que  quando  eu  te  quero  não 
me  serves !» —  O  marquês  de  Távora  receia  que  o  Rei  não 
tenha  morrido.  «Não  importa,  torna  o  duque,  se  não  morreu^ 
morrerá.»  E  outro  conjurado  conclue:  «O  ponto  é  elle  sahir.» 


1     Iiílcrrcgaíorio    de   António   Alvares    Ferreira. 


192      DIVERGÊNCIAS    NOS    DEPOIMENTOS  DOS    NAMORADOS 


O  Távora  mais  moço  pergunta:  «O  que  é  feito  do  João?» 
Por  estas  palavras  Jocão  Miguel  criado  do  duque,  que  nada 
confessou  no  tormento,  perdeu  a  vida.  Na  obscuridade  de 
uma  primeira  noite  de  novilunio  o  denunciante,  que  não 
tinha  trato  com  os  fidalgos,  reconheceu-os  a  todos  pela  vozi 

Entretanto  no  paço  e  Inas  ruas,  em  toda  a  parte  na  cidade, 
imperava  o  terror.  As  delações  pejavam  as  enxovias.  Excellente 
occasião  para  as  vindictas  particulares,  para  os  rancores 
d'aquelle  a  quem  a  nobreza  desdenhosa  continuava  a  designar 
por  Scbasiião  José.  Em  volta  do  Rei  criara-se  uma  atmosphera 
de  susto.  Muitos  dias  seguidos  estiveram  de  guarda  a  elle 
os  secretários  de  Estado,  que  se  revezavam  a  pernoitar  em 
aposento  contiguo  á  alcova  real  i.  A  primeira  vez  que  appa- 
receu  ao  corpo  diplomático,  na  recepção  pelo  anniversario 
da  Princesa  sua  filha,  «abatido  e  quasi  sem  força,  mal  escondia 
no  ar  constrangido,  simulando  contentamento,  o  susto  e  a 
tristeza  que  o  dominavam»  -.  Opprimido  de  pavor,  por  muito 
tempo  ninguém  logrou  convencel-o  a  sahir  do  paço.  Debalde 
os  familiares  mais  Íntimos,  a  própria  Rainha,  o  incitavam 
a  ir  a  Salvaterra.  Esse  paraiso  perdera  todo  o  encanto  para 
elle.  Tudo  obra  de  Carvalho,  que  o  aterrava  com  o  prospecto 
de  uma  grave  revolução  imminente.  Por  isso  D.  José,  que 
a  principio  quizera  sepultar  em  silencio  a  aventura  da  noite 
fatal,  consentiu  no  sangrento  castigo  ^.  Inquieto  pela  vida 
do  ministro,  tanto  como  pela  sua,  inopinadamente  lhe  mandou 
dar  uma  guarda  de  corpo  a  cavallo,  sem  a  qual  elle,  d'ahi 
por  diante,   nunca   mais   sahiu. 

Não  se  presuma  que  de  sangue  frio,  e  só  por  satisfazer 
um  instincto  feroz,  Carvalho  inventasse  a  conspiração.  Toda 
a  sua  vida  a  obsessão  constante  dos  tramas  o  perseguiu. 
Contra  a  sua  pessoa  e  contra  o  Estado  um  exercito  ide 
phantasmas  se  agitava  na  sombra.  Agora  tinha  aili  nas  mãos, 


^     Despacho    de    Khevenhuller,    17   dezembro    1759.    Rev.    cit.    1S90. 
paT^.    407. 

^     kitm,    id. 

3     Desp.    de    Khevenhuller,    rev.    cit,    pag-.    408. 


TERROR    DO    REI,    DO    PAÇO    E    DA  CIDADE  193 


evidente  e  palpável,  o  conluio,  nas  confissões  do  sombrio 
processo.  E  as  denuncias  choviam  de  toda  a  parte.  Os  parentes 
próximos,  os  amigos  dos  regicidas  foram  logo  eliminados 
pela  detenção  perpetua,  condemnados  por  elle  no  seu  foro 
intimo,  sem  processo  nem  apparencia  de  lórma  judicial, 
apanhados  á  noite  sem  estrépito,  sepultados  para  sempre  nas 
masmorras.  Depois  as  ligações  extenderam-se:  dos  amigos 
Íntimos  ás  visitas,  aos  dependentes,  aos  simples  conhecidos, 
a  todos  aquelles  que,  em  conversa  —  quantas  vezes  falseada 
pelos  delatores?  —  no  sigilio  de  uma  carta,  colhida  no  gabi- 
nete negro  de  abertura,  ousavam  manifesíar-se  em  favor  das 
victimas  ou  censurar  os  perseguidores. 

Os  perversos  satisfaziam  á  larga  o  instincto  da  cobarde 
denuncia,  que  dois  séculos  de  inquisição  haviam  inoculado 
no  povo.  Pávida  e  affeita  á  oppressão,  Lisboa  mergulhava  era 
um  mar  de  espanto  e  silencio.  As  cinzas  dos  suppliciados  de 
Belém,  esparsas  ao  vento,  pairavam  sobre  e!la,  como  se  de 
um  vulcão  sahissem  a  soterral-a.  Do  mais  alio  ao  iníimo 
degrau  da  escala  social  ninguém  estava  seguro  da  liberdade. 
Respirava-se  a  medo,  no  perpetuo  terror  dos  esbirros,  como 
em  Veneza  ou,  séculos  atraz,  em  Roma,  na  era  sombria  das 
proscripções.  E  por  dezoito  annos  foi  assim  sempre. 


VI 


Das  confissões  arrancadas  na  tortura,  de  testemunhos 
singulares,  inducções  forçadas,  e  o  espectro  da  universal 
conspiração,  se  urdiu  a  sentença  dos  regicidas,  talvez  menos 
contra  elles  que  contra  os  seus  suppostos  inspiradores,  os 
jesuítas.  Das  mulheres  compromettidas  nas  declarações  do 
duque  de  Aveiro  uma  só  foi  justiçada,  a  marquesa  de  liavora. 
A  truculência  dos  juizes  poupou  a  duquesa  de  Aveiro  e  a 
condessa  de  Athouguia,  e  a  razão  seria  que  ao  propósito  de 
Carvalho  bastava  sacrificar  a  primeira,  grande  amiga  dos 
jesuítas,  principalmente  do  mais  que  todos  detestado  Gabriel 
Malagrida. 

o    MARQUÊS     DE     POMBAL    E     A    SUA     ÉPOCA  —  13 


194     A  MARQUESA   DE  TÁVORA  SEDUZIDA  PELOS    JESUÍTAS 

Quatro  padres,  dissera  o  duque,  o  tinham  incitado  ao 
crime.  D'esses  somente  um  nomeia  a  sentença,  João  de 
Mattos,  agregando-lhe,  em  vez  d'esse,  outros  dois,  João 
Alexandre  e  Malagrida,  como  habiíuaes  conselheiros  da 
marquesa  de  Távora.  A  sentença  tende  a  demonstrar  que  a 
alma  da  conspiração  foi  ella,  induzida  pejos  jesuítas,  princi- 
palmente por  Malagrida.  Suggestionados  e  no  tormento,  Luiz 
de  Távora  e  o  conde  de  Atliouguia  disseram  isso.  Devia  ser 
falso  o  testemunho.  O  missionário  tinha  ido  para  Setúbal  em 
novembro  de  1756.  De  então  até  setembro  de  1758  nunca  a 
marquesa  lá  foi,  nunca  elle  veio  a  Lisboa.  O  escudeiro  d'ella, 
c  certo,  depoz  que  um.a  vez  fora  sua  ama  encontrar-se  coin 
o  jesuita  na  serra  de  Arrábida,  e  que  os  dois  se  carteavam^ 
José  Maria  de  Távora  tinha  ido  a  Setúbal  aos  exercícios  de 
Santo  Ignacio,  disse  um  criado  seu.  isso  que  monta?  Teriam 
falado,  e  não  se  duvida  que  sobre  o  governo,  o  casamento 
da  Princesa  e  os  jesuítas.  Malagrida  não  occultava  o  seu 
ódio  ao  ministro,  perseguidor  da  Companhia  de  Jesus,  nem 
os  seus  presentimentos  de  visionário  sobre  o  Rei.  O  que  disse 
á  marquesa  e  ao  filho  a  muitos  havia  repetido.  Papeis  que 
o  compromettessem  não  appareceram,  e  o  processo  do  Santo 
Oíficio,  por  melhor  que  fosse  a  vontade  dos  inquisidores,  inada 
contra  elle  revelou.  Afora  as  suspeitosas  declarações,  extor- 
quidas aos  Tavoras  no  excesso  da  dôr  pliysica,  só  existem, 
a  condemnar  o  jesuita,  as  vagas  imputações  da  sentença  de 
janeiro,  e  a  illusão  do  rancor  pombalino,  que  a  tradição 
perfilhou. 

Como  quer  que  fosse.  Carvalho  aítingira  um  fim  mtiito 
ambicionado.  Contra  a  communidade  aborrecida  dos  jesuítas, 
podia  invocar  agora,  com  provas,  contestáveis  muito  embora, 
um  facto  odioso  e  terrível.  A  contenda  com  elles  prometíia-Ihe 
assim  decisiva  victoria.  Neste  sentido  ordenou  o  seu  proceder. 

A  13  de  dezembro,  presos  os  Tavoras,  e  publicado  o 
decreto  com  a  revelação  do  attentado,  foram  pela  tarde 
cercadas  as  casas  dos  jesuítas,  dando  o  visitador  ordem  para 
que  nenhum  sahisse.  Desde  ahi  toda  a  communicação  com 
extranhos  lhes  foi  vedada.  A  hora  dos  officios  divinos,  as 
egrejas  d'elles  abriam-se,  como  as  outras,  mas  entravam  ioga.* 


CUMPLICIDADE     DOS    JESUÍTAS    NO  REGICÍDIO  195 

soldados  e,  em  fila  atravez  da  nave,  separavam  da  commu- 
nidade  os  assistentes.  Era  um  apertado  bloqueio.  Os  criados 
de  dentro  também  não  sabiam.  Os  viveres  entravam  revistos 
pelas  sentinellas,  e  com  tal  exacção  que  se  cortavam  os 
repolhos,  as  abóboras  e  fructas  maiores  para  vêr  se  algo  de 
suspeito  continham.  De  noite,  dobrada  vigilância;  as  senti- 
nellas passavam  palavra.  Duas  vezes  por  dia  o  commandaníe 
contava  os  religiosos  i. 

Inquerido  pelo  Núncio  sobre  a  razão  d'esta  severidade. 
Carvalho  respondeu  que  assim  mandara  para  defesa  dos 
jesuítas,  ameaçados  da  cólera  popular,  por  haverem  participado 
na  conspiração  centra  o  Rei.  E  este  regimen  continuou  até 
serem  transferidos,  algum  tempo  depois,  para  diversos 
encerros. 

É  de  conceber  a  perturbação  que  reinava  naquelles  claus- 
tros, o  receio  que,  ainda  innocentes,  os  padres  haviam  de  expe- 
rimentar. Um  d'elles  escrevia  para  Madrid:  «O  mundo  (de 
que  estamos  totalmente  separados,  porque  até  os  estudantes 
se  prohibem  de  entrar  nas  casas  e  aulas)  diz  que  nos  implicam 
no  insulto  de  3  de  setembro.  O  porquê  e  como  não  o  posso 
alcançar.»  Outra  caria  dizia:  «Lá  terá  Y.  R.  individuacs  noticias 
da  consternação  em  que  nos  achamos,  os  que  assistimos  nesta 
corte,  porque,  sendo  cá  públicos,  não  faltará  natural  d'esse 
reino  que  as  escreva.  E  nesta  só  digo  chegamos  á  ultima 
calamidade,  cheia  ainda  de  sustos  e  receies».  Confidencia  do 
padre  João  de  Mattos,  um  dos  indiciados  na  sentença.  Ambas 
as  cartas,  interceptadas,  deram  a  Carvalho  ensejo  de  afíirmar 
a  culpa  d'este  jesuita  e  a  connivencia  de  todos,  interpretando, 
em  rebate  da  consciência  accusadora,  inquietações  que  a 
suspeita  de  modo  bastante  justificava  -. 

A  22,  em  toda  a  parte  á  mesma  hora,  magistrados  e 
soldados  invadiram,  para  buscas,  os  conventos  e  casas  da 
Ordem  na  capital.  Era  na  apparencia  disposição  do  visitador. 


^     Ordem   do   Secretario  de   Estado  Thomé  Côríe   Real.    Biol.   Nac. 
Cod.    852. 

2     Deducção    chronologlca.    Parte    I,    §    895. 


196  RESOLUÇÕES    DA   JUNTA   CONTRA  OS  JESUÍTAS 

a  fim  de  verificar  se  lá  teriam  géneros  vindos  das  missões, 
tabacos,  assucar  e  outros,  para  clandestinos  negócios;  na 
realidade  intento  de  topar  em  algum  esconderijo  com  arma- 
mento e  pólvora  para  a  temida  rebellião,  A  diligencia  sahiu 
baldada,  por  mais  que  os  emissários  esquadrinhassem  egrejas, 
cellas,  cozinhas,  gavetas  e  telhados.  O  propósito  bellicoso 
existia  somente  na  imaginação  de  Carvalho  e  d'aquelles  a 
quem  tinha  confiado  o  seu  plano. 

No  Ínterim,  Malagrida  escrevera  de  Setúbal  ao  juiz  da 
Inconfidência,  dizendo  ter  graves  communicações  a  fazer-lhe. 
Carvalho,  ancioso  por  mais  delações,  mandou  ir  á  isua  presença 
o  missionário,  que  de  cabeça  erguida,  affrontando  o  inimigo, 
lhe  falou  qual  propheta  dos  templos  bíblicos.  Interrogado 
sobre  o  que  tinha  a  declarar  respondeu  que  por  voz  intima 
soubera  achar-se  o  soberano  ameaçado  de  um  grande  perigo; 
que  a  Varias  pessoas  se  tinha  dirigido  para  que  o  acautelassem, 
porém  debalde,  porque  nada  se  fizera  até  ahi  por  desarmar 
a  divina  cólera.  Assim  as  publicas  infelicidades  tinham  de 
continuar  até  serem  revogadas  as  leis  sobre  os  Índios  do 
Brasil,  e  as  demais,  contrarias  aos  jesuítas.  Disse,  e  sahiu 
intemerato,  deixando  talvez  confuso,  ante  a  sua  tranquilla 
segurança,  o  arbitro  temido  de  tantos  destinos.  Desenganado 
Carvalho  por  este  modo,  é  evidente  que  a  entrevista  lhe  não 
suscitaria  mais  benignidade  com  os  filhos  de  Santo  Ignacio, 
ou   com    Malagrida    pessoalmente. 

Dias  após  as  execuções,  a  Junta  de  inconfidência,  que 
condemnara  os  regicidas,  reunia-se  para  tratar  do  que  se 
devia  fazer  com  os  jesuítas,  e  resolveu  as  seguintes  provi- 
dencias :  sequestro  dos  bens ;  recommendação  aos  bispos  para 
em  pastoraes^  explicarem  a  nefanda  parte  dos  padres  no 
attentado  de  3  de  setembro;  dissolução  das  communidades, 
indo  os  religiosos  do  quarto  voto,  os  mais  graduados, 
missionar  para  a  Africa;  encarceramento  d'aquelles  que  o 
governo  entendesse  merecedores;  substituição  das  escolas  da 
Companhia  por  outras,  nas  mesmas  localidades,  custeadas 
com  o  producto  dos  sequestros.  Esta  ultima  resolução, 
adoptada,  foi  a  origem  da  organização  do  ensino  publico, 
realizado    depois.    Sobre    a    extincção    do    corpo    monástico, 


SEQUESTRO  DOS  BENS  DOS  JESUÍTAS    EM    LISBOA         197 

Carvalho  tomou  em  seguida  alvitre  mais  radical.  Ao  sequestro 
dos  bens,  em  proveito  da  coroa,  procedeu-se  desde  logo, 

Possuia  a  Ordem  sete  casas  religiosas  na  capital,  treze 
collegios  nas  provindas,  e  quatro  nas  Ilhas,  além  das  chamadas 
residências,  noviciados  e  casas  professas ;  em  Angola  um 
collegio;  os  estabelecimentos  da  índia,  que  com  os  da  Africa 
oriental  constituíam  a  província  de  Goa;  os  do  Brasil  sul, 
e  vice-provincia  do  Maranhão,  que  abrangia  os  actuaes  Estados 
do  Amazonas,  Pará,  Maranhão,  Piauhy  e  Ceará.  Pertenciam 
também  á  assistência  de  Portugal  os  provinciados  do  Malabar, 
do  Japão  e  da  China,  dos  quaes,  todavia,  somente  o  seminário 
de  Macau  offerecia  presa  accessivel.  A  verificar-se  a  fama 
das  riquezas,  aítribuidas  á  Sociedade,  riquissimos  seriam  os 
despojos  para  o  sempre  esfaimado  thesouro  real. 

Começou  a  operação  em  Lisboa.  Ia  um  desembargador 
com  esbirros  e  tropa;  exigia  o  dinheiro,  arrolava  as  alfaias, 
mandava  transportar  os  objectos  susceptíveis  de  descaminho, 
Âs  vezes  não  se  contentava  com  o  encontrado ;  pedia  mais. 
Foi  o  que  succedeu  em  Arroios,  onde  o  magistrado,  achando 
exigua  a  quantia,  suspeitou  que  o  procurador  lhe  sonegasse 
muito.  Instancias,  ameaças  nada  valeram.  Os  quadrilheiros 
buscam  por  toda  a  parte,  sondam  paredes  e  soalhos;  afinal 
teem  de  se  render  á  evidencia,  o  presumido  thesouro  não 
existe.  No  hospício  de  S.  Francisco  de  Borja  é  que  deveriam 
estar  as  maiores  sommas,  porque  lá  residiam  os  procuradores 
das  missões  ultramarinas.  Havia  as  caixas  das  províncias  de 
Gôa,  Japão,  China,  Malabar,  Brasil  e  Maranhão;  talvez  os 
duzentos  mil  cruzados  que  a  Rainha  de  Hespanha  deixara. 
Em  uma  cella,  o  toque  das  paredes  descobre  uma  cavidade. 
Cá  está  afinal  o  thesouro!  pensavam,  Chamam-se  pedreiros, 
testemunhas,  o  escrivão  para  lavrar  o  auto.  Aberta  a  parede 
encontram-se  cacos  de  barro;  o  pecúlio  dos  jesuítas,  se  acaso 
alli  esteve,  desapparecera.  Mas  logo  correu  na  cidade  haver-se 
encontrado  grande  somma  de  dinheiro,  O  caso  acabou  em 
galhofa,  menos  para  os  seis  procuradores  que  foram,  terminado 
o  inventario,  para  os  cárceres  de  S.  Julião  i. 


MuRR,    Geschichte    der   Jesuiten    in    Portugal.    II,    41    e    seg.    A 


198  SEQUESTRO    NAS   PROVÍNCIAS   E   NO  BRASIL 


Fora  de  Lisboa  o  sequestro  realizou-se  de  modo  egual. 
Os  padres  viam  chegar  um  destacamento.  Entrava  o  encarre- 
gado, juiz  ou  desembargador,  com  o  seu  escrivão,  reunia  a 
communidade  e  intimava  a  ordem  de  ninguém  mais  sahir. 
Arrecadava  dinheiro  e  papeis.  As  provisões,  se  as  havia, 
cereaes,  vinhos,  azeites,  vendiam-se  á  porta  em  leilão.  Nas 
propriedades  agrícolas  iicitavam-se  os  productos,  o  gado,  as 
alfaias;  as  terras  davamrse  de  renda.  Exigiam-se  as  dividas 
activas,  mas  as  passivas  não  eram  pagas.  O  apurado  entrava 
para  os  cofres  reaes  i. 

Foi  grande  a  desillusão.  De  alto  valor  só  os  utensílios 
de  culto  le  as  livrarias.  O  resto,  a  não  serem  os  edifícios  e 
algumas  terras,  a  todos  visíveis,  presa  insignificante.  Já  o 
exame  effectuado  pelo  cardeal  reformador  havia  demonstrado 
que  a  riqueza  era  diminuta.  Em  algumas  casas  havia  deficit; 
outras,  onde  os  religiosos  se  achavam  em  maior  numero, 
como  os  collegíos  de  Coimbra  e  Pará,  mantinham-se  com 
subsídios  das  mais  prosperas. 

No  Brasil  foi  a  colheita  melhor.  O  sequestro  naquelle  paiz 
antecipara-se  ao  do  reino,  assim  como  a  reclusão  dos  reii- 
giosos.   O   que   em   Portugal  se   fazia   pelo   attentado    contra 


preoccupação  das  riquezas  occulías  dos  jesuítas  é  de  todos  os  tempos 
e  paizes.  Ao  geral  Ricci,  preso,  apoz  a  exíincção  da  Ordem  por  Cle- 
mente XIV,  perguntavam  pelas  grandes  sommas  que  dcv:a  ter  escon- 
didas, ao  que  c  padre  em  chasco  tornava  que  aquillo  era  iin  sogno, 
iiii  delírio,  una  vera  mania.  Até  aos  nossos  dias  permaneceu  a  crença 
intacta.  Em  1891  publicou  a  Gazeta  de  Noticias  do  Rio  de  Janeiro, 
Cí3mo  burla  do  primeiro  de  abiil,  a  noticia  de  um  grande  cíiescuío. 
achado  nas  demolições  a  que  andavam  procedendo  no  morro  do  Cas- 
tello,  onde  fora  casa  dos  jesuitas.  Cento  e  tantas  caixas  e  sacos, 
com  muitos  milhões  de  cruzados,  assim  de  moeda  como  de  ouro  cni 
pó,  c  grande  numero  de  importantes  documentos,  jornaes  sisudos  c'a 
Europa  transcreveram  a  noticia:  O  Petit  Journal  de  Paris,  que  avalia 
a  somma  em  60  milhões  de  francos;  o  grave  Correio  da  Bolsa  de 
Borlin,  que  chega  a  cem  milhões  e  satisfaz  a  curiosidade  dos  capita- 
listas, seus  leitores  habituaes,  com  o  inventario  completo  do  mira- 
culoso   achado. 

^     MoRR,  obra  cit.,   II..   58  e  seg. 


o    SANTO    OFFICIO    CONTRA    OS    JESUÍTAS  199 

O  Rei,  na  America  era  consequência  dos  actos  de  rebellião 
attribuidos  aos  padres.  No  Rio  de  Janeiro  perdiam  elles  a 
fazenda  Santa  Cruz,  com  muito  gado,  e  escravos  em  grande 
numero;  os  géneros  de  commercio  em  deposito,  entre  os 
quaes  avultava  o  mate,  extrahido  pelos  indios  no  Paraguay; 
•a  fragata,  que  com  a  insignia  da  Companhia,  flammula  e 
canhões,  todos  os  annos  sahia  em  visita  aos  diversos  portos. 
«Com  tudo  isto  —  observa  uma  testemunha  que  não  era 
affeiçoada  aos  padres  —  não  tse  lhes  achou  dinheiro  de 
consideração  no  sequestro»  i. 


VH 


Ao  mesmo  tempo,  emquanto  impetrava  do  Pontífice 
autorização  para  submetter  ao  juizo  secalar  os  jesuítas  qtie 
complicara  no  attentado  de  setembro.  Carvalho  ia  pondo  em 
acção  a  machina  temível  do  Santo  Officio.  Em  maio,  o 
inquisidor  geral  D.  José  de  Bragança  publicava  um  édito 
em  que,  sem  nomear  a  Sociedade,  enunciava  as  doutrinas 
condemnadas  pela  Sanía  Sé,  que  os  manifestos  do  ministro 
lhe  imputavam,  e  ordenava  que,  sob  pena  de  excommunhão, 
viessem  ao  tribunal  dar  parte  as  pessoas  que  taes  doutrinas 
ouvissem  defender  ou  divulgar  ^. 

As  negociações  em  Roma  não  progrediam  ao  gosto  do 
governo.  No  mês  de  abril  uma  carta  régia  dera  conta  ao 
Pontífice  das  providencias  adoptadas  contra  os  jesuíta^;, 
apontava-os  como  princípaes  autores  da  tentativa  de  regicídio, 
communícava  a  resolução  de  os  expulsar  do  reino  dentro  em 
pouco.  O  procurador  da  coroa  requereu  á  Santa  Sé  que,  na 
forma  de  concessões  anteriores,  a  Mesa  de  Consciência  € 
Ordens  fosse  autorizada  a  devolver  á  justiça  secular  os  eccle- 


1  José    Basílio   da   Gania   no   poema   Uruguay,    canto    II,   nota. 

2  iMuRR,    II,    32. 


20a  INSTANCIAS    EM    ROMA   CONTRA   OS  JESUÍTAS 


siasticos  participantes  no  attentado.  Nos  justiçados  de  janeiro 
não  se  falava.  Os  Tavoras,  o  duque  de  Aveiro  passavam  á 
categoria  de  subalternos  assassinos,  como  os  assalariados 
malfeitores  que  deram  os  tiros.  O  acto  era  dos  jesuítas, 
machinado  e  promovido  por  elles ;  não  só  os  que  a  sentença 
declarara  cúmplices,  ou  os  religiosos  do  reino,  mas  todos  os 
membros  da  corporação.  Este  foi  o  thema  das  accusações  á 
Companhia,  que  d'ahi  por  deante  Carvalho,  no  governo  ou 
no   desterro,   não   deixou  jamais   de   proclamar  e   defender. 

Em  Roma,  como  se  comprehende,  a  convicção  era  ouíra. 
A  par  de  ferrenhos  inimigos  tinham  os  jesuítas  na  Cúria 
valiosos  addictos;  e  o  próprio  Clemente  XIÍÍ,  ao  contrario 
do  'seu  antecessor,  era  todo  por  elles.  Carvalho  sabia  isso  e, 
certo  de  não  vencer  pelos  argumentos  a  reluctancia  dos 
prelados  mfluentes,  alvitrava,  ao  seu  delegado  ante  a  Cúria, 
ganhal-os  pelo  suborno.  «É  m.uito  melhor  e  mais  barato  — 
dizia  —  fazer  a  guerra  com  dinheiro  que  com  exércitos 
armados.»  E  offerecia  para  o  effeito  baixelas  de  praia, 
porcelanas  da  Saxonia,  diamantes  em  bruto,  que  de  Lisboa 
podia  mandar-Ihe.  «Por  agora  remelto  quatro  anneis  capazes 
de  se  offerecer,  para  ganhar  ou  principiar  a  fazer  a  boca 
doce  a  alguns  bons  amigos»  ^  Pensava  por  este  modo  captar 
os  recalcitrantes;  e  como  auxiliares  desejáveis  indicava  os  car- 
deaes  Torregiani  e  Rezzonico,  o  primeiro  secretario  de  Estado, 
o  segundo  parente  do  Papa.  Mas  o  empenho  foi  baldado,  porque 
ambos  os  pretendidos  collaboradores  se  conservaram  incorrupti- 
veis. 

De  mão  dada  com  os  adversários  dos  jesuítas,  o  embai- 
xador, sem  escrúpulos  e  audaz,  não  perdia  ensejo  de  açular 
a  opinião  contra  a  Sociedade,  inundando  Roma  de  pasquins, 
parte  sabidos,  se  é  exacta  a  fama,  do  prelo  clandestino  que 
no  seu  palácio  existia. 

As  autoridades  romanas  defendiam  com  desvelo  os 
jesuítas.  Quando  sahíu  á  luz,  na  traducção  italiana,  a  Relação 
Ábbreviada,  os  exemplares  foram  apprehendidos  e  o  impressor 


i     Gomes,    Alargais    de    Pombal,    165. 


A    CÚRIA     DEFENDE    OS     JESUÍTAS  201 

encarcerado.  Agora  prohibia-se  ás  typographias  de  Roma 
publicarem  a  ,'sentença  dos  regicidas.  A  policia  perseguia  quem 
estampasse  libellos  contra  os  jesuítas,  e  deixava  correr  sem 
opposição  os  que  elles,  em  desaggravo  próprio,  espalhavam, 
sem  pouparem,  apodos  ao  governo  de  Portugal  e  seus  agentes. 

  supplica  do  procurador  da  coroa  deferiu  Clemente  XÍIÍ 
destituindo  da  immunidade  os  ecclesiasíicos  convictos  de 
haverem  participado  no  crime  de  setembro;  porém  só  esses, 
e  apenas  neste  caso,  contra  o  intento  de  Carvalho  que 
pretendia  a  definitiva  revogação.  O  Papa  explanava  a  recusa, 
observando  que  tão  horroroso  f^cto  não  havia  probabilidade 
de  se  repetir,  por  isío  a  concessão  nos  termos  pedidos  não 
tinha  razão  de  ser.  Ao  mesmo  tempo  escrevia  ao  Rei,  impe- 
trando indulgência,  e  remissão  da  ultima  pena  para  aqueíles 
que  o  tribunal,  com  os  novos  poderes,  reconhecesse  culpados. 

A  razão  não  satisfez  ao  ministro,  ou  porventura  buscava 
elle  occasião  de  romper  com  a  Cúria,  por  não  encontrar  nella 
apoio  para  estrangular  a  Companhia  de  Jesus,  o  que,  naqiiellá 
época,  era  já  a  preoccupação  soberana  do  seu  espirito.  Dera-se 
também  uma  derogação  ás  praxes  diplom.atlcas,  que  consistiu 
em  se  expedir  a  correspondência  pontifical  e  o  breve  com 
a  autorização  concedida,  sem  prévio  conhecimento  e  accordo 
do  ministro  em  Roma.  Por  este  só  motivo  ou  por  todos,  o 
governo   português   excusou-se   a   receber  os   diplomas. 

Sobreveio  discussão  acre,  em  Lisboa  com  o  Núncio,  em 
Roma,  pelo  ministro  Francisco  de  Almada,  com  a  chancelaria 
papal.  Clemente  XÍII  cedia  já,  outorgando  a  licença  perpetua 
para  os  procedimentos,  comtanto  que  na  Mesa  de  Consciência 
houvesse  entre  os  juizes  um  delegado  pontifical.  Mas,  no 
remate,  surgiu  novo  empeno.  Almada  pretendia  que  a  nova 
concessão  não  alludisse  á  primeira,  rejeitada;  Torregiani, 
encarregado  das  relações  diplom.aticas,  persistia  :em  mencional-a 
no  breve,  e  d'esta  reciproca  obstinação  se  caminhou  para  a 
ruptura  formal.  A  expulsão  do  Núncio  foi  o  desfecho  da 
contenda,  evidentemente  buscado.  E  isso,  de  ambas  as  partes, 
por  causa  dos  jesuítas :  Carvalho  estomagado  pela  resistência 
da  Cúria  aos  seus  intentos;  o  Papa  doído  da  brutalidade 
com   que  elle   os   pretendia   realizar. 


202  A    EXPULSÃO     DOS    JESUÍTAS 

No  pé  em  que  assim  ficava  a  questão,  via-se  Cangalho 
impedido  de  levar  á  Junta  de  Inconfidência,  e  portanto  ao 
patíbulo,  os  jesuitas  indiciados.  Não  que  o  detivessem  escru- 
pulos  do  desacato  juridico:  mas  tinha  de  respeitar  a  vontade 
do  Rei,  submisso  catholico,  que  só  contrafeito  investia  com 
os  direitos  do  Papa.  Manietado  por  esta  banda,  arremeçou-se 
com  dobrado  ardor  á  revindicla,  dentro  das  formas  permittidas. 

Os  jesuitas  reclusos,  nas  enxovias  uns,  outros  nas  prisões 
de  Estado,  aguardavam,  em  comprehensivel  anciedade,  o 
arbítrio  do  governo.  Com  a  data  de  3  de  setembro,  primeiro 
anniversario  do  crime,  de  que  os  diziam  autores,  foi  publicado 
um  decreto,  que  desnaturalizava  os  nacionaes,  e  ordenava 
a  expulsão  de  todos,  com  excepção  d'aquelles  que,  não  sendo 
ainda  professos,  abjurassem  os  votos.  Para  as  pessoas  que, 
sem  autorização,  viessem  a  ter  com  os  proscriptos  communi- 
cação  verbal  ou  epistolar,   estatuía  a  pena  de  morte. 

Das  províncias  foram-se  os  padres  encaminhando  para 
Lisboa.  Faziam  a  jornada  em  seges,  cada  uma  escoltada  por 
dois  soldados,  e  no  couce,  a  cavallo,  os  irm.ãos  que  não 
tinham  proferido  votos.  Julgava-se  que  seriam  transportados 
para  as  colónias  de  Africa,  mas  a  decisão  tomada  foi  a  de 
remetter  es  expulsos  ao  Pontífice  seu  patrono,  a  quem 
incumbiria  dar-lhes  es  meios  de  subsistência,  que  já  não 
tinham.  A  primeira  turma  de  cento  e  vinte  e  três  padres 
aportou  a  Civita-Vecchia,  no  Estado  romano.  Outras  segui- 
riam depois.  Tal  foi  a  replica  do  conde  de  Oeiras  —  titulo 
de  Carvalho  desde  junho  antecedente,  premio  da  acção  san- 
grenta contra  os  Tavoras  —  ao  desafio  que  o  procedimento 
da    Cúria    representava. 

Para  os  portugueses  o  exílio  era  realmente  castigo;  esses 
constituíam  as  levas  de  deportados.  Os  extrangeiros,  porém, 
teriam  por  branda  pena  o  verem-se  restituídos  ás  suas  terras ; 
por  isso  ficavam  em  Portugal,  nas  masmorras  de  Almeida, 
na  torre  de  S.  Julião,  ou  no  solar  do  duque  de  Aveiro,  lem 
Azeitão,   convertido   em   prisão   de    Estado. 

No  mês  seguinte,  de  outubro,  partiram  mais  dois  navios, 
d'esta  vez  para  Génova,  onde  não  foi  permittido  aos  padres 
o    desembarque,   pelo    que    tiveram    de    continuar   a   viagem. 


VISÕES    DE    MALAGRIDA    NO    FORTE  DA    JUNQUEIRA       203 

como  OS  primeiros,  até  Civita-Vecchia.  Seguiram-se  outros 
transportes.  À  proporção  que  das  províncias  -ultramarinas  iam 
chegando  os  desterrados,  applicava-se  a  regra  estabelecida: 
os  padres  nacionaes  para  os  dominios  do  Papa,  os  forasteiros 
para  as  prisões. 

Em  caminho  morriam  muitos,  alguns  pela  edade  avançada, 
outros  de  privações  e  moléstias :  onze  succumbiram  na  viagem 
da  America,  vinte  e  oito  desde  a  índia  e  Macau. 

Pouco  a  pouco  abrigavam  os  Estados  do  Papa  mais  de 
m.il  d'estes  peregrinos.  Era  fito  de  Carvalho  collocar  tni 
embaraços  o  Pontífice  e  o  Geral  da  Companhia,  pela  presença 
de  tantos  religiosos,  a  quem  tinham  de  proporcionar  não 
somente  agasalho,  mas  —  o  que  era  m.ais  grave  —  occupação 
profissional.  Todavia  nem  todos  os  jesuítas  portugueses 
sahiram  do  reino.  Muitos,  a  quem  se  lançavam  culpas, 
permaneceram  nos  cárceres.  D'este  numero  todos  os  do 
Pará-Maranhão. 


VIII 


Malagrida  achava-se  no  foríe  da  Junqueira,  logar  dos 
presos   políticos. 

Septuagenário  já,  tinha  a  saúde  arruinada  pelas  fadigas 
<ias  missões,  pelos  jejuns,  e  vigílias;  o  intellecto  combaiido 
da  fraqueza  ph3'sica,  afogado  nas  chimeras  do  mysticismo, 
sacudido  a  espaços  pelo  ímpeto  da  prophecia.  As  visões 
repetiam-se.  ígnacio  de  Loyola,  S.  Francisco  de  Borja,  outros 
santos  da  sua  Ordem.,  habitantes  vários  do  empíreo,  desciam 
a  visítal-o  no  cárcere.  Tinha  allucinações  do  ouvido.  A  ditado 
de  uma  voz  mysteriosa,  puzara-se  a  escrever  a  Vida  de  Santa 
Anna  e  a  do  Antechristo.  De  vez  em  quando  viam-no  ps 
companheiros  ou  os  guardas  voltar-se  para  a  janella  em 
brados:  Quem  me  chama?  Quem  me  fala?  Era  o  sossôbro 
completo  da  razão. 

Apprehenderam-lhe  um  dia  os  papeis.  Carvalho,  ao  lêl-os, 
exultou.  Para  os  sócios  de  captiveiro,  para  os  serxaçaes  dá 
prisão,    o   jesuíta    não    passava    de    um    demente,    com    raras 


204  CARVALHO    VINGAVA-SE    FINALMENTE! 


folgas  de  lucidez;  ao  ministro  e  seus  asseclas  approuve 
taxarem  o  louco  de  heresiarcha,  e  dar  por  blasphemia  os 
dislates  da  sua  imaginação  desvairada.  Excellente  presa  para 
a   Inquisição. 

Carvaliio  vingava-se  finalmente.  Para  elle  era  o  velho 
missionário  um  inimigo  pessoal,  que  desde  o  terremoto  o 
affrontava.  Um  anno  tinha  iuctado  a  exigir  da  Santa  Sé  a 
concessão,  que  lhe  permittiria  entregar  ao  verdugo  a  enca- 
necida cabeça,  de  onde  o  siso  desertara.  Até  que,  ao  cabo 
de  tanto  esforço,  o  tinha  á  mercê.  Dentro  do  tribunal  'iá 
estava  seu  irmão  Paulo  de  Carvalho,  inquisidor,  a  substituir 
o  infante  D.  Jo^é  de  Bragança,  desterrado  em  julho  ide 
1760  para  o  Bussaco;  fora,  os  sycophantas,  numerosos  como 
os  teem  sempre  as  tyrannias,  publicavam  em  grita  os  crimes 
do  mentecapto;  e,  para  afeiçoar  no  extrangeiro  a  opinião, 
havia  o  concurso  do  afamado  padre  Norberto,  ou  Platel, 
frade  sem  habito,  foliculario  adverso  aos  jesuítas,  que  viera 
a   Lisboa   pôr   ás   ordens   de   Carvalho   a  sua   penna   venaí  ^. 


1  Pedro  Curei  Platel,  cujo  verdadeiro  nome  é  Parisot,  conhecido 
lambem  por  padre  Norberto,  tinha  sido  frade  capucho.  Secularizado 
em  1759  tornou  a  vestir  o  habito  e  a  deixal-o  depois.  Foi  um  dos 
mais  acerbos  inimigos  da  sociedade  de  Loyola,  e  protegido  por  isso 
do  cardeal  Passionei,  grande  adversário  d'eila.  Da  índia,  onde  foi 
missionário,  trouxe  os  elementos  de  um  escripto  sobre  as  missões  do 
Malabar,  no  qual  denunciava  as  praticas  gentílicas,  enxertadas  no  culto 
pelos  jesuítas,  publicação  que  deu  grande  escândalo,  e  foi  acolhida  com 
alvoroço  pelos  dcsaffeiçoados  á  sociedade.  Condemnado  o  livro  em 
Roma,  o  autor  teve  de  fugir,  para  evitar  a  prisão,  e  após  varias 
peregrinações  chegou  a  Lisboa  cm  1760,  com  o  fim  de  offerecer  os 
serviços  da  sua  pcniia  a  Carvalho,  que  os  acceitou.  Dentro  em  pouco 
usava  da  maior  familiaridade  na  casa  do  ministro;  trabalhava  com 
ellc,  compilava  notas  para  os  escriptos  acerca  da  Companhia  de  Je- 
sus, alguns  dos  quaes  lhe  são  aítribuidos.  D'este3  é  u.ma  sátira  em 
francez,    publicada   em    Lisboa,    que    termina    assim: 

Monarques    qui    voulez    moiirir    dans    votie    lit  ' 

Faltes    dans    vos    Ltots    ce    qu'à    Lisbonne    ou    fit! 

D'elle   lambem   é   um   relato  do  supplicio   de    Malagrida,   em    lórma 


CARVALHO,    CONDE    DE    OEIRAS,    DENUNCIA    MALAGRIDA      205 

Então  succedeu  esta  cousa  incrível:  Sebastião  José  de  Cangalho 
quiz  ser  em  pessoa  o  delator  de  Malagrida  no  Santo  Officio, 
por  crimes  contra  a  fé,  E,  tomada  a  denuncia,  com  o  seu 
punho,  como  num  decreto  régio,  assignou:  Conde  de  Oeiras, 
O  que  o  ministro  depoz  revela  os  abysmos  de  rancor, 
que  na  alma  lhe  cabiam,  Accusa  o  jesuita  de  ganância,  de 
hypocrisia,  de  actos  e  pensamentos  sacrilegos,  de  impostura. 
No  Brasil,  a  pregar,  incitava  ás  mulheres  a  despojarem-se 
de  suas  jóias  com  evidentes  fins  de  avareza  e  cobiça.  Inter- 
rogado pelo  governador  do  Pará  sobre  a  applicação  dos 
donativos  recusara  sempre  dar  explicações.  Participara  no 
crime  dos  Tavoras,  sendo  a  conspiração  tramada  em  Setúbal 
nos  exercicios  espirituaes,  A  narrativa  da  entrevista  de  Mala- 
grida  com  o  ministro  faz  parte  do  depoimento  com  as  ameaçasj 
proferidas  sobre  o  Rei,  Por  ultimo  vem  a  denuncia  dos 
escriptos  apprehendidos,  que  eram,  no  dizer  de  Car\'alho, 
um  sacrilégio  horroroso,  e  constituiam  a  parte  substancial  da 
accusação,  Pedro  Cordeiro,  juiz  da  Inconfidência,  Oliveira 
Machado,   secretario    do    mesmo    tribunal,    ao    mesmo    tempo 


de  carta,  contendo,  entre  outras  falsidades,  ter  o  rei  assistido  ao 
auto  de  fé,  e  haver  convidado  os  ministros  extrangeiros.  O  governo 
julgou  conveniente  refutar  essas  invenções,  mandando  publicar  em  fran- 
C0Z  a  descripção  do  acto  e  a  sentença  ( Arrest  des  inquisiteurs  ordinalre 
et  deputes  de  la  Saitite  Inqiiisition  contre  le  père  Gabriel  Malagrida 
jésuite.  Lisbonnc,  chez  António  Rodrigues  Galhardo,  1761).  O  Tacto 
d'€sta  publicação  e  as  basofias  indiscretas  de  Platel  fizeram-lhe  per- 
der o  favor  de  Pomba),  O  ex-capucho  retirou-se  de  Lisboa  em  1763, 
deixando  no  prelo  uma  obra  bastante  extensa,  que  três  annos  depois 
sahiu  á  lu/.  E  a  reedição  do  primjeiro  escripto  sobre  a  índia,  recapitu- 
lando o  seguimento  os  maleficios,  imputados  aos  jesuítas,  que  faziam 
objecto  da  intensa  pugna  de  libellos,  travada  entre  elles  e  seus  adver- 
sários. Tem  a  approvação  do  Santo  Officio  e  da  régia  censura.  Inti- 
tula-se:  Mémoires  historiques  sur  les  affaires  des  jésuites  aver.  ie 
Saini-Sicge,  ou  Voa  verra  que  le  roi  du  Portugal  en  proscrivant  de 
áouícs  les  ierres  de  sa  domination  ces  réligieux  revoltes,  et  le  roi  de 
France  voulani  qu'à  Vavenir  leur  société  n'ait  plus  liea  dans  ses  Etais, 
n'oní  fait  qu'éxecuter  le  projet  déjà  forme  par  plusiears  grands  papes 
de  la  supprimer  dans  toute  VEglise.  —  Á  Lisbone  (sic)  chez  François 
Louis  Ameno,  MDCCLXVI   —   7  vols. 


206  DELÍRIOS    DE    MALAGRIDA 


carcereiro  no  forte  da  Junqueira,  depuzeram  a  seguir.  Nunca 
um  réo  tivera  contra  si  denuncia  tão  bem  amparada. 

As  masmorras  do  Santo  Officio  eram  já  então  depen- 
dência das  prisões  de  Estado.  Dizia-se  que  alli  desappareciam 
as  victimas  com  tal  mysterio  que  até  com  supposto  nome 
as  inscreviam  na  entrada.  Pauio  de  Carvalho  presidia  lao 
tribunal.  Abstrahindo  isso,  b.astaria  a  qualidade  terrível  das 
testemunhas  para  impor  aos  juizes  um  cruel  veredicto.  Um 
d'elles,  suspeito  de  lenidade,  foi  afastado  com  a  falsa  honra 
da  promoção  a  bispo  de  Angola,  que,  segundo  a  voz  publica^ 
violentado    acceitou  i. 

Transferido  do  ergástulo  da  Junqueira  para  o  Rocio, 
Malagrida  cada  vez  mais  se  atufava  na  insânia.  O  delirio 
tornara-se  constante.  Desciam  a  praticar  com  elle  os  anjos, 
Maria  virgem.,  e  o  próprio  Jesus  Christo.  Tinha  por  imagi- 
nário director  espiritual  um  sacerdote,  fallecido  havia  muito. 
O  padre  António  Vieira  falava-lhe  sobre  os  Índios  do  Brasil 
e  as  missões.  A  marquesa  de  Távora,  degolada,  assegurava-lhe 
achar-se  no  purgatório,  isenta  de  maior  castigo  por  intercessão 
d'elle,  Malagrida.  A  Virgem  tinha  vindo  pessoalmente  absol- 
vel-o  de  seus  peccados;  e,  como  os  theoiogos  da  ínqu?siç.ão 
lhe  quizessem  demonstrar  que  era  tudo  isso  illusão  ou 
impostura,  appareceu-lhe  o  Salvador  a  confirmar-lhe  a  absol- 
vição. Em  espirito  assistia  ás  reprehensões  que  na  outra  vida 
davam  a  D.  José  a  rainha  sua  mãe,  e  sua  irmã,  rainha  de 
Hespanha,  pela  perseguição  á  Companhia,  tratando-o  de 
tyranno,  peor  que  Nero.  Nesse  tempo  suppunha  o  jesuíta, 
por  uns  dobres  de  sinos  apercebidos  desde  o  cafcere,  ter 
o  soberano  morrido. 

Todavia  nem  sempre  as  visões  eram  celestes.  Como  a 
todos  os  escolhidos,  o  demónio  tentava-o.  Em  figura  de 
mulher  introduzia-se  na  cama  com  elle,  desaíiando-lhe  os 
impulsos    de    septuagenário    continente,    tardio    desforço    da 


1  O  facto  foi  consigmcio  nas  memorias  da  época.  O  ministro  da 
Áustria  faz  d'fclle  menção  em  despacho  de  28  Abril  1761.  Duhr  PoiU' 
bal,    79. 


AUTO    DE    FÈ    DE    20   SETEMBRO    DE    1761  207 

natureza  subjugada.  Em  grandes  angustias,  no  torpor  de  um 
meio  sonho  luxurioso,  revolvia-se  na  enxerga.  Despertava 
surpreso,  offegante;  cabia  çiepois  em  enorme  prostração  de 
corpo,  e  fundo  abatimento  moral.  Christo  então  socegava-lhe 
os  temores  da  consciência.  Uma  voz  intima  dizia-lhe  que 
nem  venialmente  havia  peccado.  Mas  o  espia  do  Santo  Ofíicio, 
encerrado  com  elle,  presenciava-lhe  os  movimentos,  a  aflliccão, 
e  com  alvoroço  foi  denuncial-o.  Os  inimigos  do  infeliz  tinham 
contra  elle  mais  um  pregão  de  deshonra:  a  miséria  de  Onan. 

Deu  o  caso  motivo  a  longos  e  repetidos  interrogatórios. 
A  curiosidade  soez  e  malsã  dos  inquisidores  deieitava-se  em 
o  questionar  sobre  as  circumstancias,  a  intensidade  e  a 
frequência  das  titilações  e  dcstillarões,  presentidas  nos  transes 
em  que  mais  se  depauperava  aquelle  organismo  decrépito. 
Malagrida  revoltava-sc ;  exclamava  ser  aquillo  matéria  do 
tribunal  da  penitencia  e  não  do  Santo  Ofiicio.  Outras  vezes 
desvairava.  Uma  occasião,  entrando  o  medico  no  cárcere 
para  o  tratar  de  uma  hérnia,  o  ancião  perguntou  se  lhe  via 
no  corpo  signal  de  haver  peccado  com  mulher;  e,  como 
fosse  a  resposta  affirmativa,  saltou  da  cama  em  brados, 
ofíerecendo  o  membro  a  exame  para  demonstrar  que 
assim   nãc    era. 

O  processo  seguiu  os  ordinários  tramites  da  Inquisição; 
somente,  contra  o  costume,  foi  rápido,  por  satisfazer  a  Car- 
valho, impaciente  da  vingança.  Sobre  o  crime  à^z  3  de  setembro 
nenhuma  luz.  Malagrida  confessou  o  mesmo  que  ao  seu  amigo 
hav"a  dito.  Ab  alto  fora  avisado  de  se  achar  imminente  sobre 
o  Re'  um  grande  castigo,  por  causa  dos  missionários  do  Pará. 
Tentou  precavel-o  mas  sem  effeito.  A  revelação  não  foi  mais 
que  um  vago  presagio;  da  conspiração  nunca  soube;  tra- 
gasse-o  alli  o  inferno  se  mentia! 

O  jesuita  esteve  na  Inquisição  nove  meses.  A  ninguém 
surprehendeu  vêl-o  sahir  no  auto  da  fé,  a  20  de  setembro 
de  1761,  de  mordaça  na  boca,  e  com  a  fatal  e  ridicula  carocha, 
signal  da  ultima  pena. 

Havia  dois  annos  se  dizia  que  não  escapava  á  fogueira. 
A  solemnidade  da  festa  foi  grande.  Carvalho  que  tinha  a 
Inquisição  por  um  dos  úteis  estabelecimentos  da  religião  de 


208  VINTE   E   UMA  HORAS   DE  TRAGEDIA 

Portugal,  e  como  tal  pilar  do  Estado,  quiz  dar  ao  acto  a 
máxima  imponência.  Celebrava  a  sua  desforra  da  Companhia 
de  Jesus,  o  supplicio  d'aquelle  sobre  quem  toda  a  sua  raiva 
convergira,  exacerbada  pelos  óbices  que  na  lucta  tinha  en- 
contrado. O  jesuita,  se  ainda  raciocinava,  sabia  que  era 
para  o  seu  cruel  inimigo  a  victima  de  eleição.  «Sobre  mini 
despeja  este  homem  toda  a  ira  que  tem  accumulada,»  escrevera 
elle  uma  vez  a  Clemente  XIII  i.  Os  factos  provaram  que 
dizia  certo. 

Das  sete  horas  da  manhã  ás  quatro  da  .'madrugada  seguinte 
durou  a  tragedia,  com  grande  concurso  de  espectadores,  a 
que  não  faltaram,  attrahidos  pela  curiosidade,  os  membros 
do  corpo  diplomático.  Eram  muitos  os  condemnados  e  as 
sentenças  longas.  A  de  Malagrida  levou  duas  horas  a  ler-sc. 
Cerca  da  meia  noite  cessou  o  espectáculo  da  justiça  ecxzle- 
siastica.  A  Relação,  perante  a  qual  foi  conduzido  o  here- 
siarcha,  pronunciou-se,  e.  havendo-se  misericordiamente  e  sem 
effiisão  de  sangue,  segundo  o  hypocrita  formalismo  do  Tri- 
bunal da  Fé,  mandou  applicar  ao  réo  a  pena  de  garrote, 
queimal-o  em  seguida  e  espalhar  ao  vento  as  cinzas. 

Era  impressão  geral  que  á  execução  do  missionário  se 
seguiriam  as  dos  outros  jesuítas  acousados  da  conspiração. 
Carvalho  não  ousou,  não  poude.  Entre  elle  e  as  victimas 
erguia-se,  "barreira  insuperável,  o  religioso  pavor  que  habi- 
tava o  animo  do   Rei. 


*     Hist,  pffrsecutlonis  S.  J.  in  Lusitânia,  Murr,  Journal  cit.  VIII.  102. 


CAPITULO  VII 


O   PACTO    DE   família 


Os  ingleses  em  Portugal.  Carvalho  cultor  da  alliança  britannica. 
Exportação  do  ouro  cohibida.  O  Terreiro  do  trigo.  —  II.  Guerra 
dos  sete  annos.  Apprehensão  de  navios  franceses  no  Algarve. 
Reclamações  da  França.  Attitude  conciliante  da  Inglaterra.  — ■ 
III.  Embaixada  especial  de  lord  Kinnoul.  Casamento  da  prin- 
cesa do  Brasil.  Expulsão  do  Núncio.  Desterro  dos  infantes  de 
Palhavã.  Desintelligencias  com  o  enviado  francês.  —  IV.  Pre- 
parativos da  paz  geral.  Nova  politica  da  Hespanha.  Oeiras 
recorre  ao  apoio  diplomático  da  Inglaterra.  Assigna-se  o  Pacto  de 
familia.  —  V.  Portugal  e  a  liga  dos  Bourbons.  O  projecto 
de  invasão.  Declaração  da  guerra.  —  VI.  Estado  da  administra- 
ção militar  em  Portugal.  Soccorro  da  Inglaterra.  Providencias 
tardias  de  Oeiras.    A  guerra  e  seus  resultados. 


I 

Desde  1703,  por  ef feito  do  tratado,  conhecido  pelo  nome 
do  seu  negociador  Methuen,  Portugal  era  a  mais  excellente 
colónia  da  Grã-Bretanha,  cujas  manufacturas  viviam  princi- 
palmente d'esse  concurso  valioso.  A  immigração  era  constante, 
e  —  dizia  um  contemporâneo  — ,  «o  inglês  fallido  em  Londres 
vinha  recuperar  as  suas  perdas  a  Portugal;  o  irlandês,  mise- 
rável na  sua  pátria,  escapava  á  forca  em  Londres  para  ir 
fazer    fortuna   em    Lisboa»  i.    O   commercio    achava-se    todo 


^     Rélation    Historiqne    dii    tremblement    de    terre    survenu    à    LIs- 
bonne.     Ió4. 

o    MARQUÊS     Dt     POMBAL    E     A     SUA     ÉPOCA  —  14 


210  OS   INGLESES   EM   PORTUGAL 

nas  mãos  de  súbditos  britannicos.  De  uma  relação  officiaí 
sem  data,  mas  do  tempo  de  D,  José,  verifica-se  existirem 
na  capitai  mais  de  cem  casas  de  negocio  d'eiles.  Havia  muitos 
nas  profissões  mecânicas:  tanoeiros,  sapateiros,  alfaiates, 
cabelleireiros  e  até  engommadeiras  '.  De  Inglaterra  tudo  se 
importava:  ferramentas,  bagagens,  o  vestuário  e  o  pão.  Com 
as  minas  do  Brasil  em  producção  intensa,  escasseava  o  nume- 
rário. Nas  provincias  havia  logares  onde  jamais  os  habitantes 
tinham  visto  uma  peça  de  ouro;  em  compensação  as  moedas 
com  a  effigie  de  D.  João  V  eram  na  Inglaterra  mais  vulgares 
que  as  do  rei  Jorge  ^ 

Em  1773,  já  quasi  a  terminar  o  reinado  de  D.  José,  um 
confidente  de  Luiz  XV,  em  relatório  acerca  de  Portugal,, 
escrevia:  «As  pretenções  dos  mercadores  ingleses  tendem  a 
fazer  da  feitoria  uma  espécie  de  republica  independente  no 
seio  de  Portugal. . .  O  exercito,  a  marinha,  os  estaleiros,  os 
arsenaes,  as  escolas  militares,  tudo  é  mandado  e  dirigido 
por  ingleses...  Os  cortesãos,  os  ministros  vivem  com  os 
cônsules  na  mais  intima  familiaridade. . .  Toda  a  gente  deve 
dinheiro  aos  ingleses,  que  a  troco  d'isso  alcançam  quanto 
querem»  ^  A  arrogância  e  o  viver  faustoso  d'estes  extran- 
geiros,  os  privilégios  que  invocavam,  a  macula  de  hereges 
que  tinham  para  o  povo  crente,  tudo  magoava  o  sentimento 
nacional.  Todavia,  tantas  relações  de  interesse  monetário  e 
politico  o  tempo  dominador  havia  criado  entre  os  dois  povos 
que,  para  rompel-as,  seria  mister  esforço  em  demasia  intenso 
para  a  energia   portuguesa. 

Pombal,  que  passa  por  incarnar  a  opposição  firme  ao 
absorvente  predomínio  d'estes  intrusos,  mostrou-se,  sem  em- 
bargo de  algumas  velleidades  de  libertação  e  occasionaes 
resistências,  propugnador  da  amizade  britannica,  e  decidido 
cultor  d'ella,  por  onerosa   que  ás   vezes  a  considerasse.   Foi 


1  Co!L   poiTib.,   Cod.   692. 

2  Rél.   Hist.   cit.    57,    106. 

3  <-.Vléinoire  sur  la  politique  étrangère  remise  par  Mr.  de  Broglie.» 
BouTARic,  Coirc^pondance  sécrite  de  Louis  XV,  Paris  1866.  II,  201  c  seg. 


CARVALHO    E    A    ALLIANÇÂ    BRITANNICA  211 


politica  sua  constante  manter  a  todo  o  custo  a  protecção  da' 
Inglaterra;  ao  mesmo  tempo  emancipar-se  da  tutela  com- 
mercial,  e  coarctar  o  que  havia  de  exagerado  nas  regalias 
de  que  gozavam  os  súbditos  da  nação  amiga.  Mas  conciliar 
os  dois  intentos  era  impossível.  Nunca  o  resultado  corres- 
pondeu ás  esperanças,  e  o  ministro  encontrou  o  alliado  sempre 
tíbio  no  soccorro,  exigente  nas  compensações  e  sôfrego  na 
ganância  com   que  á  sombra  dos  tratados  enriquecia. 

Já  quando  embaixador  em  Londres  tivera  não  poucas 
occasiões  de  perceber  isso.  E,  todavia,  impunha-lhe  a  neces- 
sidade escurecer  tantos  contras,  para  não  perder  o  apoio 
moral  e  effectivo  da  alliança.  Do  mesmo  modo  não  perdia 
o  ponto  de  mostrar  á  Inglaterra  o  alto  valor  da  nossa  amizade. 
Por  estes   principios,   orientou  sempre   a  sua   politica. 

Elles  resaltam  nas  instrucções  para  D.  Luiz  da  Cunha, 
nomeado  em  1752  ministro  em  Londres.  Carvalho  fez-lhe 
vêr  que  a  cobiçosa  Inglaterra  jamais  hesitou  em  sacrificar 
os  seus  alliados;  que  na  índia  trabalhava  a  Companhia  por 
expulsar  os  portugueses;  que  os  tratados  de  1642  e  1654 
eram  onerosos  para  nós  somente.  Mas,  ameaçados  sempre 
pela  Hespanha,  da  alliança  não  podiamos  prescindir.  Ao 
ministro  cumpriria  exaltar-lhe  o  valor,  suggerindo  que  para 
a  Inglaterra  o  commercio;  e  os  portos  ds  Portugal  não  tinham 
na  Europa  equivalentes;  que  a  Hespanha,  inimiga  nossa,  o 
era  também  d'ella,  por  causa  de  Gibraltar  perdida.  Dando-se 
o  caso  provável  de  uma  guerra  com  a  França,  o  que  seria 
dos  ingleses,  se  esses  portos  lhes  faltassem  ?  Para  mais  esti- 
mulo, tentasse  elle  aguçar  o  ciúme  do  chatim  ambicioso.  A 
França  trabalhava  para  conseguir  um  tratado,  egual  ao  de 
Methuen,  que  traria  a  ruina  do  commercio  britannico,  por 
serem  de  melhor  gosto  e  mais  baratos  os  lanifícios  franceses  i. 

Desde  o  começo  da  gestão  pombalina,  entre  os  dois 
governos  havia  attritos,  por  não  respeitarem  os  commerciantes 
ingleses   as  leis   offensivas   de  seus  interesses.   Uma   d'essas, 


1     Memoria  secretissima  para  D.  Luiz  da  Cunha.  Ms.   CoU.   Pomb., 
Cod.    610. 


212  EXPORTAÇÃO    DE   OURO   COKIBIDA 

mui  importante,  vedava  a  exportação  do  ouro,  A  disposição 
não  se  devia  a  Carvalho,  nem  era  nova.  Fora  ordenação  de 
D.  Manoel  que,  sob  penas  de  morte  e  confisco,  defendera 
que  por  mar  se  levasse  ouro  ou  prata,  para  fora  do  reino  e 
senliorios  de  Portugal  '.  O  ministro  resuscitava-a,  com  o  fim 
de  impedir  a  drenagem  do  precioso  metal  para  Inglaterra, 
onde  as  peças  portuguesas  corriam  de  par  com  os  guinéos. 
Tentativa  inútil.  Os  ingleses  obstinados  illudiam  constante- 
mente a  prohibição.  De  vez  em  quando  davam-se  tomadias, 
prisões.  O  embaixador  reclamava,  e  os  rigores  da  lei  cediam 
ás  conveniências  da  alliança.  O  governo  ou  cerrava  os  olhos  ás 
violações,  ou  capitulava  deixando  impunes  os  infractores  ^. 
Em  1760  informava  o  conde  de  Merle  ao  governo  francês 
que  todas  as  quinzenas  sabiam  de  500  a  800  mil  francos  de 
valor  em  ouro,  e  era  assim  sempre  no  correr  do  anno.  Toda 
a  riqueza  que  as  frotas  traziam  do  Brasil  passava  para  a 
Inglaterra,  e  não  chegava  para  pagar  a  importação  ^.  Seígundo 
um  panegyrista  suspeito  de  Pombal,  o  enviado  Tirawley, 
quando  chegou,  mostrara  ao  Rei  ser  impraticável  a  prohi- 
bição: «V.  M.  pôde  reprimir  os  seus  súbditos,  mas  não 
restringir-lhes  as  necessidades»  *.  É  de  crer  que  o  embaixador 


1     Synopse    Chronologica,    2.°,    7.  ■  •   ■ 

^  Em  1752  os  guardas  da  alfandega  tentaram  uma  vez  deter,  no 
acto  do  contrabando,  três  officiaes  de  um  barco  de  guerra.  Um  d'elies 
poude  fugir  para  bordo:  o  segimdo  livrou-se  dos  perseguidores;  só  o 
terceiro  foi  apprehendido,  e  com  elle  a  maquia  de  45  mil  cruzados 
em  ouro,  que  os  transgressores  escoltavam.  O  preso  foi  solto,  è  ao 
cabo  de  algum  tempo  restituída  aquella  somma.  Viera  a  Lisboa  tratar 
do  caso  um  enviado  especial  do  governo  inglês,  lord  Tirawley,  em 
reforço  ás  reclamações  do  ministro  residente.  (Quadro  elementar,  XVIII, 
351).  Em  1767,  conta  o  ministro  de  França  que  a  um  official  do 
paquete  inglês  se  tinham  apprehendido  40  mil  francos  de  ouro.  No 
dia  seguinte  o  dinheiro  foi  entregue  ao  ministro  Hay.  (Quad,  elem., 
VII,  230).  Tomadias  de  menos  importância  deviam  ser  communs,  como 
era  o  contrabando   um   facto  constante. 

3     Quad.    elem.,    VI,    207. 

*  Administração  de  Sebastião  José  de  Carvalho  e  Mello,  trad. 
Lisboa   1842,   II,    10. 


REGULAMENTO    DO    TERREIRO    DO    TRIGO  213 


tal   não   dissesse,   mas   os   factos  justificariam   de   sobra   taes 
palavras. 

Outro  motivo  de  conflictos  foi  sempre  o  regulamento 
do  Terreiro  do  trigo,  ao  qual  os  ingleses,  principaes  impor- 
tadores de  cereaes,  pretendiam  ix)r  vezes  eximir-se.  Em  1753 
pedira  o  ministro  Castries  autorização  para  os  seus  compa- 
triotas venderem  trigo  a  bordo  dos  navios  e  nos  armazéns 
próprios,  o  que  os  portugueses  só  no  Terreiro  podiam  fazer; 
e  para  conseguir  isso  allegava  que,  pelos  tratados,  gozavam 
os  súbditos  britannicos  de  privilégios  que  não  tinham  os 
oacionaes.  Irritou-se  Carvalho  com  a  pretenção,  e  azedou-se 
a  controvérsia  a  tal  ponto  que  D.  Luiz  da  Cunha  foi  incum- 
bido de  solicitar  ao  governo  inglês  a  revocação  do  embaixador. 
Houve-se,  porém,  tão  desastradamente  que  da  sua  intervenção 
esteve  para  resultar  um  conflicto  grave.  O  Rei  negou-lhe 
uma  vez  audiência,  e  por  momentos  se  temeu  que  o  mandasse 
sahir  da  Inglaterra.  O  governo  de  Jorge  II  não  permittia  em 
Londres  a  liberdade  de  discursos  que  os  seus  agentes  usavam 
em  Portugal.  Carvalho,  ao  contrario  da  arrogância  que  a 
tradição  lhe  attribue,  reprehendia  pelo  seu  pouco  tacto  a 
D.  Luiz  da  Cunha.  «Quanto  mais  fortes  e  mais  convincentes 
são  os  factos  —  escrevia-lhe  —  tanto  mais  é  a  obrigação  que 
os  ministros  teem  de  os  adoçarem  no  modo  das  palavras»  i. 
O  embaixador  devia  retirar-se  para  a  Hollanda,  no  caso  de 
ter  effeito  o  propósito,   que  receava,  de  o  despedirem. 

Ajustou-se  a  contenda  sem  aggravo  para  os  diplomatas, 
que  ficaram  cada  um  no  seu  posto;  mas  o  fundamento  perma- 
necia. A  questão  reviveu  depois,  e  com  ella  outras  novas : 
Companhia  do  Grão-Pará,  Companhia  dos  vinhos,  navegação 
para  o  Brasil,  direitos  particulares  dos  ingleses,  a  cada  momento 
um  conflicto.  Ante  as  inhibições  rigidas  da  lei  portuguesa, 
a  Inglaterra  em  expansão  reclamava  privilégios  e  liberdades. 
Preço  da  occasional  protecção  que  Portugal  em  1661  começou 
a  pagar  com  a  cessão  de  Tanger  e  Bombaim. 


1     Officio   de    14   janeiro    1754.   Coll.   pomb.,    Cod.    639. 


214  GUERRA  DOS  SETE  ANNOS 


II 


Em  1755  a  guerra,  vaticinada  por  Carvalho,  rebentou 
entre  a  França  e  a  Grã-Brctanha.  Mal  se  persuadia  o  ministro 
então  que  á  guerra  seria  Portugal  também  arrastado,  annos 
depois,  por  effeito  da  mesma  alliança,  que  como  defensão 
em   tanto  estimava, 

A  neutralidade  portuguesa  era  de  certo  parcial  com  a 
Inglaterra.  O  gabinete  de  Versailles  bem  o  sabia,  mas,  na 
expectativa  de  um  tratado  de  commercio,  em  que  também 
a  França  pudesse  participar  das  riquezas  do  Brasil  ^,  conten- 
tava-se  de  obter  que  os  favores  ao  adversário  não  excedessem 
de  uma  justa  medida.  Sem  duvida  essa  neutralidade  era  para 
o  governo  português  agradável  e  commoda,  mas  breve  um 
incidente  infeliz  lhe  veio  demonstrar  que,  para  a  manter 
intangível,  lhe  fallecia  o  poder,  e  que,  violada  ella,  nenhum 
meio  tinha  de  alcançar  reparação,  que  a  outra  parte  julgasse 
satisfactoria. 

Pouco  afortunados  no  mar  e  na  terra  por  quasi  quatro 
annos,  os  franceses  dispuzeram  afinal  vibrar  um  golpe 
profundo  ao  inimigo,  invadindo  a  sua  ilha.  Todas  as  forças 
navaes  deviam  fazer  juncção,  para  renovar  a  tentativa  hespa- 
nhola  da  Invencivel  armada.  Prevenida,  a  Inglaterra  anteci- 
pou-se.  Em  julho  de  1759,  o  almirante  Rodney  destruía  no 
Havre  a  frota  de  transporte,  em  via  de  apercebimento.  Duas 
outras  esquadras  continham  os  franceses  em  Brest  e  Dun- 
kerque,  e  lao  encontro  de  uma  divisão,  vinda  do  Mediterrâneo, 
sahiu  o  almirante  Boscawen,  que  a  17  de  agosto  a  destroçou 
nas  costas  do  Algarve.  No  ardor  do  combate,  os  ingleses 
perseguiram  o  inimigo  até  perto  dos  nossos  fortes.  Três 
barcos  franceses  foram  incendiados,  outros  dois  capturados; 
restavam   dois,   que   a   custo   escaparam. 


^     Instr.   de   Choiseui   ao   conde  de  Merle.   Recueil   cies   instructions 
aux  ambassadeurs,  328. 


o    CASO    DE    LAGOS  215 

Segundo  a  versão  francesa,  alguns  tiros  da  esquadra  de 
Boscawen  attingiram  as  muralhas;  dois  homens  do  campo 
foram  mortos  por  balas  perdidas.  Este  caso  de  Lagos,  como 
foi  designado,  ia  pôr  em  sérios  embaraços  o  governo 
português. 

O  commandante  francês  refugiara-se  em  Lagos  com  as 
tripulações,  que  dos  navios  perdidos  conseguiram  salvar-se. 
Aili  03  náufragos  receberam  carinhoso  tratamento,  que 
Luiz  XV  mandou  agradecer,  mas,  ao  mesmo  passo,  protestava 
o  embaixador  conde  de  Merle  contra  a  offensa  da  neutra- 
lidade, praticada  pelos  ingleses.  Do  facto  resultara  damno 
á  sua  nação;  urgiam  providencias;  quaes  seriam  ellas,  e  qu^ 
disposições  tomava  a  corte  de  Lisboa  ante  a  violação  das 
aguas  territoriaes  e  o  insulto  ás  baterias  pela  esquadra 
britannica? 

Absorvido  na  lucta  com  os  jesuítas,  e  em  dissensão  com 
a  Santa  Sé,  Carvalho  julgou  nonada  a  reclamação.  A  depen- 
dência com  a  Inglaterra  não  compadecia  exagerados  melin- 
dres. O  ministro  de  França  era-lhe  pessoalmente  antipathico, 
amigo  dos  seus  inimigos,  censor  acerbo  da  sua  politica. 
Accumulados  motivos  para  se  não  mostrar  queixoso  do 
alliado. 

Merle  tinha  grandes  prevenções  com  Carvalho;  todas 
as  communicações  que  fazia  á  sua  corte,  neste  ou  em  outros 
negócios,  e  em  geral  na  apreciação  dos  actos  do  governo 
português,  o  revelam.  Suas  instrucções  diziam-lhe  que  o 
ministro,  gosando  de  toda  a  confiança  do  Rei,  d'ella  abusava^ 
segundo  a  voz  commum;  que  não  tendo  a  fortuna  de  pertencer 
á  alta  nobreza,  supposto  fosse  de  boa  familia,  desvelava-se  em 
tornar  suspeitos  aquelles  fidalgos  que  não  queriam  supportar 
o  seu  jugo.  Diogo  de  Mendonça  ^«sujeito  de  entendimento 
claro,  instruído,  e  bem  intencionado  —  fora  victima  da  inveja 
d'este  collega,  que  lograra  medíocre  consideração  nas  cortes 
de  Londres  e  Vienna,  onde  estivera  ministro.  Tudo  isto,  não 
obstante  a  recommendação  de  que  «um  embaixador  se  não 
deve  guiar  por  sentimentos  pessoaes  ou  affeições  intimas, 
mas   tem   de   subordinar  as   suas   inclinações   particulares   ao 


216  RECLAMAÇÕES    DO    CONDE    DE    MERLE 

interesse  dos  negócios  que  lhe  são  incumbidos»  i,  tudo  isto 
levou  o  conde  de  Merle,  improvisado  diplomata,  a  encarar 
com  desdém,  o  ministro  parvenu,  que  lhe  cumpria  afagar,  e 
a  acolher  pressuroso  os  adeptos  da  nobreza  e  dos  jesuitas,  e 
todos  aquelles  que  se  achavam  em  conflicto  com  o  governo 
de  Carvalho,  Como  se  vê,  nenhuma  pessoa  era  mais  compe- 
tente para,  em  vez  de  apaziguar  o  incidente  diplomático, 
exacerbal-o. 

Mais  de  ura  mês  passara  sobre  o  acontecimento,  quando 
Merle  apresentou  a  primeira  reclamação.  D.  Luiz  da  Cunha, 
que  da  embaixada  de  Londres  viera  para  o  gabinete,  como 
secretario  dos  negócios  extrangeiros,  respondeu  por  uma 
evasiva:  ia  dar  parte  ao  rei  e  pedir  instrucções.  Em  outubro, 
Merle,  instigado  por  Choiseul,  primeiro  ministro,  representou 
de  novo,  obtendo  somente  uma  ambigua  resposta:  El-Rei 
fora  informado  de  que  effectivamente  alguns  commandantes 
ingleses  se  haviam  excedido  na  lucta;  dera  ordem  para  se 
reclamar  á  corte  de  Londres,  e  contava  com  a  conveniente 
reparação.  Os  termos  não  satisfaziam  ao  embaixador  que, 
insistindo  sobre  a  captura  dos  navios,  inquiria  que  providencias 
pensava  o  governo  de  Lisboa  tomar  para  coagir  o  de  Londres 
a  restituil-os.  Embaraçosa  pergunta  para  'D.  Luiz  da  Cunha 
que,  tão  bem  quanto  o  diplomata  francês,  sabia  que  não 
seria  fácil  dobrar-se  por  escrúpulos  de  correcção  o  gabinete 
britannico,  e  muito  menos  por  impotentes  ameaças  2, 


1     Instr.    cit.    Recueil    des    Instructions,    323    e    seg. 

-  L  inútil  dizer  que  são  apocryphas  as  cartas  insolentes  e  ine- 
ptas, que  se  suppõem  dirigidas  nesta  occasião  por  Carvalho  a  lord 
Chatham,  e  das  quaes  nos  próprios  archivos  da  família  Pombal  existia 
uma  (X)pia,  de  data  posterior  (Coll.  Pomb.,  Cod.  678).  D'este  falso 
«scripto  diz  F.  L.  Gomes:  «A  linguagem  é  ameaçadora  e  tão  gros- 
seira que  a  não  supportaria  o  ministro  da  nação  mais  servil.)  ( Le 
Aiarquis  de  Pombal,  199).  E  Pinheiro  Chagas:  «Se  estes  despachos 
não  fossem  evidentemente  apocryphos  bastariam  para  destruir  a  repu- 
tação do  marquez  de  Pombal.»  (Hist  de  Portugal  nos  séculos  X^f//  e 
XIX,  I,  243).  A  invenção  é  do  autor  da  Administração  de  Sebastião 
José  de  Carvalho  e  Mello,  etc,  panegyrico  de  Pombal  publicado  pela 
primeira  vez  em  francês,  em  Amsterdam,  em  1786,  e  attribuido  a 
Dezoteux-C  ormatiu. 


ATTITUDE  CONCILIADORA  DA  INGLATERRA  217 


Entretanto  é  certo  que  na  Inglaterra  foi  maior  o  sobresalto 
do  que  a  emoção  em  Lisboa.  Pitt,  o  soberbo  ministro,  veio 
ao  encontro  das  queixas,  offerecendo  satisfação.  Collig-e-se 
do  seu  despacho  secreto  ao  ministro  em  Lisboa  Mr.  Hay. 
Pitt  só  conhecia  os  factos  pela  rama.  Desconfiava  terem-se 
dado  na  refrega  circumstancias  infelizes,  e  mencionava  que, 
pela  falta  de  informações,  ficara  o  rei  Jorge  em  grande  ancie- 
dade.  Queria  por  isso  saber  se  «os  navios  de  S.  M.  teriam 
respeitado  sufficientemente  as  costas  de  Portugal;  se  os 
navios  franceses  não  teriam  sido  apresados  com  offensa  da 
jurisdicção  territorial  de  S.  M.   Fidelissima»  i. 

D'aqui  se  deprehende  que  o  ministro  em  Lisboa  não 
fizera  immediata  participação  dos  acontecimentos,  com  seus 
pormenores.  Ou  ignorava  estes,  ou  lhe  pareceram,  como  ao 
governo  português,  de  somenos  importância.  Não  recebera 
portanto  queixa  alguma.  Teria  nesse  tempo  o  representante 
de  Portugal,  Martinho  de  Mello,  feito  qualquer  reclamação? 
O  despacho  de  Pitt  exclue  a  hypothese.  Tudo  leva  a  crer 
que  somente  a  instancias  de  Merle  o  gabinete  de  Lisboa  se 
moveu,  e  assim  mesmo  frouxamente. 

Pitt  receava  ingenuamente  aggravar  quem  se  não  sentia 
aggravado.  Não  que  o  respeito  da  neutralidade  operasse  em 
seu  animo.  Porém,  irritado  pela  affronta,  seduzido  com  pro- 
messas, Portugal  poderia  lançar-se  nos  braços  da  França. 
E  não  affectaria  isso  a  sorte  dja  guerra?  Occorriam-lhe  acaso 
as  insinuações  de  Carvalho,  sobre  as  conveniências  da  alliança 
e  os  riscos  de  a  perder.  Pensando  em  tal,  apphcou-se  a 
terminar,  sem  attritos,  o  incidente  desagradável. 

Ordenou,  pois,  ao  ministro  Hay  que  apresentasse  toda 
a  sorte  de  desculpas  á  corte  de  Lisboa;  que  affiançasse  a 
amizade  e  a  consideração  do  monarcha  britannico,  e  offere- 
cesse  toda  a  reparação  compativel  com  o  decoro  d'este.  Na 
inquietação  dos  primeiros  instantes  accrescentava :  «Se  forem 
de    sufficiente    magnitude    as    circumstancias     do     aggravo, 


1     Pitt  a  Mr.  Hay,  12  Setembro  1759.  M.\hon',  Hisiory  of  England, 
ed.   Tauchnitz,   IV,   397. 


218  MAiS    RECLAMAÇÕES    DA    FRANÇA 

tamanho  desejo  o  Rei  sente  de  dar  a  tnais  publica  e  ostensiva 
satisfação  ao  soberano  de  Portugal  que  penso  não  terá  duvida, 
em  lhe  mandar  para  esse  effeito  uma  embaixada  extraordi- 
nária.^) Declarava,  todavia,  que  em  nenhum  caso  as  presas 
seriam  devolvidas,  e  os  actos  do  almirante  reprovados.  A 
taes  exigências  Hay  respondesse  «dizendo  o  bastante  para 
de  vez  fechar  a  porta  a  qualquer  expectação»  ^  Fora,  com 
effeito,  desmedido  culto  á  justiça  receber  com  desprimor  os 
que   vinham   carregados   dos   louros   da   victoria. 

Em  Lisboa  continuava-se  a  dar  ao  caso  mesquinha  impor- 
tância. No  mês  de  janeiro,  passados  cinco  do  acontecido, 
ainda  D.  Luiz  da  Cunha  escrevia  a  Martinho  de  Mello  como 
em  assumpto  da  véspera.  «A  noticia  —  diz  elle  —  pôz  S.  M. 
em  grande  perplexidade,  entre  os  dois  extremos  do  zelo 
pela  sua  alta  e  indispensável  representação  e  a  fina  amizade 
que  tão  cuidadosamente  cultivou  sempre  com  El-Rei  britan- 
nico»  2.  Nada  transparece  aqui  da  indignação  que  uma  sentida 
offensa  despertaria.  Alguns  dias  depois,  ao  saber  que  para 
Lisboa  partia  o  emissário,  portador  das  desculpas,  o  ministro^ 
porta-voz  de  Carvalho,  dá  soltas  a  seu  jubilo,  escrevendo: 
«Esta  noticia  confirma  a  El-Rei  na  mesma  illimitada  confiança 
que  antes  tinha  na  amizade  de  El-Rei  britannico,  e  na  razão 
que  teve  em  mandar  suspender  as  reclamações»  ^  Assim, 
já  anteriormente  as  instancias  pela  satisfação  haviam  cessado; 
provavelmente  desde  que  o  Enviado  Hay  transmittira  ao 
conde  de  Oeiras  as  propostas  de  Pitt. 

No  intervallo,  Merle  continuava  a  reclamar,  e  o  desem- 
baraço com  que  os  ingleses  se  julgavam,  entre  nós,  em  terra 
própria,  dava  nascença  a  queixas  novas.  Em  Faro  o  cônsul 
entendia-se  com  os  navios  de  guerra,  para  entrarem  no  porto, 
em  ameaça  a  um  barco  francês  que  estav^a  descarregando. 
Em  Vianna  do  Castello  quatro  chalupas  armadas  por  súbditos 


1     Pitt    a   Mr.    Hay.    Hist.    of    England,    cit,    VI.    39é. 
-     D.  Luiz  da  Cunha  a  Martinho  de  Mello,    12  janeiro    17G0.  ColL 
Pomb.,  Cod.  634. 

3     Idem,    22   janeiro,    id. 


EMBAIXADA    ESPECIAL    DE    LORD    KINNOUL  219 

britannicos  sahiram  a  barra,  e  foram  tomar  a  um  corsário 
d'aquella  nação  a  presa  que  levav-a.  E  de  suppôr  que  com  o 
auxilio  de  gente  portuguesa.  Tudo  isto  irritava  mais  o 
governo  de  Versailles,  e  dava  azo  a  protestos  vehementes 
na  forma,  e  ás  vezes,  no  fundo,  ameaçadores. 

Em  janeiro  soube-se  que  vinha  o  embaixador  especial 
lord  Kinnoul.  A  colónia  britannica,  descontente  com  as  auto- 
ridades, rejubilou,  cuidando  que  o  diplomata  viria  tratar  de 
seus  aggravos.  Merle,  tomando  pela  realidade  os  seus  desejos, 
vaticinava  um  rompimento  com  a  Inglaterra.  Desenganou-o 
Choiseul  com  justos  raciocinios,  como  depois  o  desenganaram 
os  factos. 

Chegando  o  embaixador  a  Lisboa,  em  8  de  março,  com 
uma  escolta  de  três  navios,  Merle  suspendeu  por  alguns  dias 
as  reclamações.  Mas  o  proceder  dilatório  do  governo  portu- 
guês não  podia  durar  sempre.  Em  Paris,  Choiseul  dirigiu 
ao  nosso  representante  uma  nota  desabrida.  Às  queixas  peio 
caso  dos  navios  accresciam  outras,  motivadas  por  desattenções 
pessoaes,  de  que  o  Enviado  em  Lisboa,  explorando  em  proveito 
da  sua  intima  hostilidade  a  situação,  com  razão  ou  sem  ella, 
se  queixara.  A  nota  declarava  que,  a  não  se  fazer  a  devida 
justiça,  tomaria  a  França  efficazes  providencias  para  salva- 
guardar a  sua   dignidade. 

Apertado  pelas  circumstancias.  Carvalho  expediu  a  lord 
Kinnoul  uma  nota,  em  que  pela  primeira  vez  durante  as 
negociações  requeria  a  entrega  dos  navios.  Embaraço  do 
embaixador;  estupefacção  do  governo  britannico.  Pitt  real- 
mente não  sabia  como  responder  a  este  —  palavras  suas 
tcxíxiaes  — inesperado  pedido,  muito  embora  o  conde  do 
Oeiras  amigável  e  confidencialmente  houvesse  declarado  não 
esperar  que  o  attendessem  i. 

Assentado  como  fora  pelo  governo  britannico  não  retra- 
ceder  as  presas  de  Lagos,  e  não  podendo,  sem  offensa  a 
Portugal,  fazer  d'isso  ostensiva  declaração,  torna-se  claro  que 
a  resposta  não  seria  fácil.   Kinnoul  recebeu  instrucções  para 


i     Pitt  a  lord  Kinnoul,  30  maio  1760,  fiisí.  of  England,  cit.,  VI.  401. 


220  AUDIÊNCIA    A    LORD    KINNOUL 


ladear  o  assumpto,  evitando  prònunciar-se.  O  melhor  seria 
não  discutir  esse  ponto  escabroso.  Renovasse  as  desculpas, 
fazendo  ver  que  o  monarcha  inglês  dera  já  o  máximo  teste- 
munho de  sinceridade  e  affecto  ao  seu  alliado.  Entendia  Pitt 
que  o  governo  português  devia  sentir-se  com  isso  satisfeito, 
e  assim  foi.  Longe  da  apregoada  energia  que  a  tradição  neste 
lance  attribue  a  Pombal,  o  ministro,  indifferente  ao  aggravo^ 
impava  de  orgulho,  tendo  por  excusada  generosidade  a  incom^ 
pleta  satisfação  com  que  nos  embahia  o  alliado.  As  conse- 
quências havia  de  sentil-as  dentro   em  breve. 


III 


A  21  de  março  foi  a  régia  audiência  a  lord  Kinnoul. 
O  embaixador  exprimiu  o  pesar  do  seu  governo  pelo  invo- 
luntário desacato,  praticado  por  Boscawen;  alongou-se  em 
protestos  da  amizade  da  parte  do  seu  soberano,  e  vagamente 
deixou  entrever  que  outros  assumptos  da  sua  missão  seriam 
tratados  com  os  ministros.  Restituição  dos  navios?  Privile- 
gies da  feitoria  britannica?  Companhias  de  commercio?  Os 
não  iniciados  divagavam  em  conjecturas.  Cada  um  traduzia 
a  reserva  ao  melhor  de  suas  aspirações.  Os  nossos  historia- 
dores referem  que,  em  troca  d'esta  amabilidade,  obtivera 
lord  Kinnoul  concessões  vantajosas  a  seus  compatriotas.  Não 
é  exacto.  A  verdade  é  que  o  embaixador  se  retirou  de  Lisboa 
no  desagrado  d*elles,  por  se  não  ter  realizado  nenhum  dos 
benefícios  que  esperavam  da  sua  vinda. 

Imaginando  triumpho  seu  a  lisonja  em  que  o  embalava 
a  Inglaterra,  Oeiras  manifestava  impressivamente  o  seu  ju- 
bilo. Lord  Kinnoul  era  o  seu  bom,  amado  e  prezado  amigo  — 
termos  com  que  numa  carta  o  designa  —  ;o  discurso  um  mani- 
festo e  perdurável  penhor  dos  affectos  entre  as  duas  cortes;  Fitt 
o   maior   dos   estadistas  i.    Escrevendo   a   Martinho   de   Mello, 


1     Conde  de  Oeiras   a  lord   Kinnoul,   26  março    1760.  Coll.   Ponib., 


MERLL    E    D.    LUIZ    DA    CUNHA  221 


conta  desvanecido  as  gentilezas  da  família  real  ao  embaixador. 
No  anniversario  do  infante  D.  Pedro  fora  elle  convidado, 
único  do  corpo  diplomático,  para  um  sarau  intimo  no  paço, 
e  ouvira  cantar  S.  M.  a  Rainha  e  as  infantas,  caso  virgem  na 
corte  portuguesa.  De  anglophobia,  consoante  á  lenda,  nem 
sombra  no  espirito  de  Carvalho,  a  propósito  do  incidente 
de  Lagos. 

D'ahi  a  pouco  Merle,  reclamando  novamente,  fazia  notar 
que  a  reparação  dada  pela  Inglaterra  não  seria  cabal  sem 
a  restituição  dos  navios.  D.  Luiz  da  Cunha  respondeu  tergi- 
versando, como  sempre,  e  appellou  para  a  parte  nebulosa 
do  discurso  de  Kinnoul.  O  conde  de  Merle  sabia  que  o 
embaixador  britannico  alludira  a  certos  assumptos,  que  havia 
de  tratar  com  os  ministros.  Do  numero  fazia  parte  o  caso 
das  presas.  Desse  o  governo  francês  tempo  ao  nosso,  para 
chegar  á  desejada  conclusão.  E,  em  tom  de  amigo,  particu- 
larmente lhe  confiava  que  todas  as  sympathias  de  Portugal 
eram  pelo  seu  paiz,  não  pela  Inglaterra.  Sem  falar  na  iden- 
tidade de  crenças  religiosas,  havia  a  considerar  que  de  França 
descendia  a  familia  reinante,  e  mais  se  apertara  o  liame  pelo 
casamento   do   actual   soberano    na    casa   de    Bourbon  -. 

Com  tal  discurso  Merle,  pouco  affeito  a  blandícias,  cahiu 
das  nuvens.  Maior  surpresa  teve  quando,  dias  passados,  em 
um  jantar  diplomático,  D.  Luiz  da  Cunha  se  desfez  em  corte- 
sanias  com  elle.  Dava-se  isso  na  própria  occasião  em  que 
o  Enviado  francês  acabav^a  de  manifestar  com  estrépito  as 
suas  prevenções. 

Questões  de  pragmática  haviam  desde  muito  creado  surda 
malquerença  entre  as  cortes  de  Lisboa  e  Versailles.  Reinando 
D.  João  V,  discutira-se  com  acrimonia  o  grave  ponto  seguinte: 
quem  faria  a  primeira  visita,  o  embaixador  recem-chegado 
ao  secretario  dos  extrangeiros,  ou  este  ultimo  ao  embaixador? 
O  tratamento  de  Fidelíssimo  ao  Rei,  de  Excellencia  aos  seci'e- 
tarios  de  Estado,  havia  sido  objecto  de  longas  controvérsias 
também.   Ao   presente,   novo   conflicto   surgia,   levantado   por 


»     Off.   do  Conde  de   Merle,    1   abril    1760.   Quad.   FAenj.,   VI,   219. 


222  PRECEDÊNCIA    ENTRE    MERLE    E    KINNOUL 


lord  Kinnoul,  e  exacerbado  pela  aversão  existente  entre 
Oeiras   e   o   representante   francês. 

Convém  saber  que,  nas  divergências  com  a  Santa  Sé, 
dois  membros  do  corpo  diplomático  tomavam  parte,  asso- 
ciando-se  aos  grupos  antagonistas:  Merle,  favorável  ao 
Núncio;  Khevenhiiller,  ministro  de  Áustria,  declarado  adepto 
da   politica   pombalina  ^. 

Pelo  Núncio  Acciajuoli  foi  o  ministro  de  França  avisado 
de  que  se  projectava  dar  a  precedência  a  lord  Kinnoul  em 
uma  recepção  de  gala,  pelo  anniversario  da  Rainha,  prece- 
dência que  Alerle  para  si  reclamava,  e  o  embaixador  britannico 
exigia,  invocando  o  caracter  extraordinário  da  sua  missão. 

Era  costume,  nas  audiências  festivas,  receber  o  monarcha 
os  representantes  extrangeiros  cada  um  por  sua  vez,  na  ordem 
estabelecida  pela  pragmática,  e  depois  collectivamente  as 
outras  pessoas  admittidas  ao  beijamão.  A  pretenção  de  lord 
Kinnoul  produzira  desagrado  no  corpo  diplomático,  e  Merle 
tomou  a  si  vindicar,  se  preciso  fosse  com  escândalo,  os 
direitos  de  todos.  Fez  constar  que  tencionava  comparecer  á 
audiência  um  dos  primeiros,  e  disputar  o  passo,  no  extremo 
caso  á  força,  ao  representante  da  Grã-Bretanha.  Ao  mesmo 
tempo  propalou-se  que  este  ultimo  chegaria  ao  palácio  real 
levando  por  guarda  de  honra  todos  os  ingleses  de  Lisboa. 
Foi  isto,  para  os  compatriotas  de  Merle,  um  toque  de  alarme. 
No  dia  da  recepção,  reuniram-se  em  grande  numero  na  casa 
do  embaixador,  e  atraz  do  coche  seguiram  em  cavalgada. 

O  inflammado  fidalgo  em  vez  de,  como  lhe  cumpria, 
trajar  de  gala,  puzera  o  garrido  uniforme  dos  mosqueteiros, 
corpo  em  que  era  porta  estandarte:  todo  escarlate,  chapco 
de  plumas  brancas,  na  sobreveste  a  cruz  e  quatro  flores  de 
prata.  O  vestuário  com  a  sua  rubra  côr,  as  tradições  belll- 
cosas  d'aquella  milicia,  eram  de  per  si  só  um  desafio;  e  a 
conhecida  petulância  de  Merle  não  consentia  duvidas  acerca 
das   suas    intenções.    Lord    Kinnoul,    prudente,    deteve-se    em 


1     Cf.    Maloiei,   Aiéinoíf-eb,    II,    308,    Relatório   diplomático    no    ap- 
peiidice. 


CHOISEUL  E  MERLE  223 


caminho,  só  comparecendo  no  paço  mais  tarde,  quando  já 
o  seu  antagonista  se  havia  retirado.  E  assim  á  noite  poude 
este,  triumphante,  escrevendo  a  Cho^seul,  dar  conta  do  feito 
como  um  relato  de  batalha.  —  «A  porta  do  régio  gabinete 
abriu-se  e  logo  entrei,  como  era  o  costume.  Lord  Kinnoul 
demorou-se  em  visita  ao  conde  de  Oeiras,  e  só  appareceu 
terminados  os  meus  cumprimentos.  D.  Luiz  da  Cunha  deu 
nesse  dia  um  jantar  ao  corpo  diplomático,  onde  tive  todas 
as  distincções   e   preferencias   que   poderia   desejar»  i. 

Taes  incidentes  e  o  proceder  sempre  hostil  do  conde  de 
Merle  convenceram  a  Oeiras  de  que  a  França  andaria  em 
cata  de  pretexto  para  nos  declarar  a  guerra.  Não  era  esse 
então  o  propósito  de  Luiz  XV.  Comminações  e  palavras 
arrogantes  não  passavam  de  artifícios  da  diplomacia.  Tantos 
revezes  em  campanha,  e  as  exigências  apertadas  do  erário 
não  lhe  permittiam  buscar  novos  inimigos.  Paz  com  a  Gra- 
Bretanha,  em  condições  acceitaveis,  era  a  sua  presente  aspi- 
ração, a  menos  de  attrahir  a  monarchia  hespanhola  a  uma 
ailiança,  pela  qual  trabalhava,  e  com  que  o  equilíbrio  das 
forças  em  lide  se  restabelecia. 

Ao  embaixador  em  Lisboa,  propenso  a  arrebatamentos, 
Choiseul  frequentes  vezes  recommendava  moderação.  Insi- 
nuava-lhe  que  a  sua  posição  o  constituía  mero  espectador 
dos  factos  da  administração  interna,  e  não  exagerado  censor, 
como  em  criticas  indiscretas  se  manifestava.  Todavia,  os 
ásperos  attritos  continuavam,  e  em  maio  de  1760  o  governo 
português  queixotu-se  d'elle  em  Versailles.  A  resposta  de 
Choiseul  foi  conciliatória:  desculpava  os  actos  de  Mede,  mas 
offerecia   retiral-o  de   Lisboa,  sendo  preciso. 

Ao  mesmo  tempo  Oeiras,  receoso,  referia  tudo  á  corte 
de  Londres,  e  pedia  soccorros.  Pitt  respondeu  assegurando 
o  auxilio  da  Inglaterra.  «Pôde  S.  M.  F.  ficar  certo  que  El-Rei 
terá  sempre  a  defesa  do  reino  e  domínios  de  Portugal,  seu 
antigo  e  natural  alliado,  como  objecto  caro  á  honra  e  ao 
interesse  da  sua  coroa  e  do  seu  povo,  e  seu  primeiro  cuidado 


M.\ioi;f.t,    Mémoires,    11,    328. 


221  EXPULSÃO    DO    NÚNCIO 


logo  após  o  da  conservação  dos  domínios  britannicos».  Entre- 
tanto recommendava  que  fosse  o  paiz  apercebendo  as  suas 
forças  de  terra  e  mar  para  a  eventualidade  de  um  ataque  ^. 

Em  junho  effectuou-se  o  casamento  da  Princesa  do  Brasil 
com  o  infante  seu  tio.  Domada  a  fidalguia,  expulsos  os 
jesuítas,  Carvalho  nada  tinha  a  temer  de  D.  Pedro,  cuja  insi- 
gnificância intellectual  reconhecia.  Mas  o  motivo  da  união 
foi  imprevisto.  No  antecedente  mês  o  embaixador  de  Castella 
apresentara  em  nome  de  Carlos  III  um  pedido  formal  para 
o  infante  D.  Luiz.  Assim  como  de  surpresa  fora  o  pedido, 
de  súbito  se  resolveu  o  consorcio,  até  ahi  rejeitado.  Dal-o 
como  projecto  firme,  «m  véspera  de  se  realizar,  era  o  só 
meio  de  despedir  o  pretendente,  sem  offensa  do  vizinho 
hostil  e  poderoso.  / 

Ao  casamento  seguiu-se  o  facto  estrondoso  da  expulsla 
do   Núncio,   que  não  puzera   luminárias  na  data  festiva. 

O  cardeal  Acciajuoli  era  um  pobre  homem,  de  curta 
intelligencia,  mas  de  grande  bondade ;  de  nenhum  modo  o 
ardiloso  intrigante  que  os  despachas  de  Carvalho  deixam 
suppôr  2,  Não  tendo  convite  para  a  solemnidade,  penalizado 
e  com  a  tristeza  estampada  no  semblante,  passou  a  tarde  a 
contemplar  da  janella  os  coches  que  regressavam  da  festa 
na  Ajuda.  À  noite  não  accendeu  as  lanternas  protocollares, 
nem  no  interior  da  casa  apparecia  uma  luz,  —  innocente  € 
justificado  desforço,  que  o  conde  de  Oeiras,  sequioso  de 
pretexto,  como  tal  utilizou,  para  fazer  sentir  ao  cardeal  o 
peso  da  sua  cólera. 

Mas,  ao  que  parece,  não  foi  apenas  resentimento  pela 
anodina  demonstração,  tão  pouco  o  só  desejo  de  affrontar 
a  corte  pontifical,  o  que  deu  motivo  á  violência.  O  ministro 
desconfiara  de  um  trama  urdido  em  Roma  —  obra  dos  jesuítas 
se  entende  —  para  introduzir  a  cizânia  na  família  real.  Eram 
agentes  o  Núncio  e  o  conde  de  Merle.  Tratava-se  de  incitar 


1  Pitt  a   lord    Kinnoul,    30  maio    1760,   Mahon,   Hist.   oj   England, 
IV,    40C. 

2  Cf.    Memorias    do    bispo    do    Pará,    104. 


DESTERRO    DOS    INFANTES    DE    PALHAVÃ  225 


OS  infantes  bastardos  de  D.  João  V  —  es  meninos  de  Palhavã 
—  a  declararem-se  pretendentes  á  Princesa  i.  Por  extrava- 
gante que  o  plano  pareça,  mormente  tendo  os  infantes  ordens 
menores,  esta  mesma  circumstancia  explicava  que  a  Curía 
participasse,  offerecendo  a  dispensa  dos  votos.  O  interessante 
do  caso  é  ter  o  próprio  Mede  julgado,  decerto  por  atoardas 
correntes,  pretender  Carvalho  dar  a  Princesa  por  consorte 
ao   menino    D.    António  -. 

O  outro  infante,  D.  José,  quizera  renunciar  o  cargo  de 
inquisidor; — sem  duvida,  o  ministro  pensava,  para  abrir 
caminho  ao  seu  intento  — ;  e,  «no  dia  dos  desposorios  apresen- 
tou-se  no  paço  com  uma  figura  luctaosa  e  imprópria  do 
dia».  Ambos  achincalhavam  do  infante,  e  repetiam  com 
escarneo  a  voz  corrente  acerca  da  sua  virilidade.  Um  mis 
depois,  por  decisão  do  Conselho  de  Estado,  eram  presos 
os  dois  e  desterrados  para  o  Bussaco  -^ 

As  solemnidades  do  casamento  foram  occasião  de  novas 


1  Conde  de  Oeiras  a  Martinho  de  Mello,  23  agosto  1760,  Coll. 
Pcmb.,    Cod.    634. 

2  Quad.    Elem.,    6.o,    201. 

3  Pombal,  no  fcu  processo,  attribuiu  a  estas  pretenções  ambicio- 
sas o  castigo  dos  infantes.  Entretanto  a  opinião  comnuim  dava-llie  por 
criusa  urt;  conflicto  pessoal,  em  que  o  ministro  fora  affrontado.  O 
desembargador  Ignacio  Ferreira  Souto,  que  foi  juiz  dos  Tavoras,  in- 
tendente geral  da  policia,  escrevera  um  livro,  sob  o  titulo  Traciatus 
<le  incUcumscripta  potestate  regis,  em  defesa  das  regalias  da  coroa 
e.  contra  a  Egreja.  Solicitada  ao  Santo  Officio  a  licença  de  impri-' 
mir,  o  exame  descobriu  na  obra  proposições  condemnaveis.  O  autor, 
sabendo  d'isso,  procurou  o  censor,  e  após  alguma  discussão,  arrebn- 
tou-Ihe  o  manuscripto,  que  levou  comsigo.  Informado  o  inquisidor  ge- 
ral, mandou  logo  dois  familiares,  o  conde  de  S.  Lourenço  e  o  vis- 
conde de  Villa  Nova  de  Cerveira,  intimar  ao  desembargador  a  en- 
trega do  livro,  e  a  resposta  foi  que  estava  na  mão  do  conde  de 
Oeiras.  Convidado  este  então  a  ir  ao  palácio  de  Palhavã  explicar-se 
com  o  inquisidor,  ahi  a  conversa  degenerou  em  disputa,  resultando 
ser  o  ministro  esbofeteado  pelo  infante  D.  António,  que  estava  pre- 
sente, tendo  de  fugir,  perseguido  por  €lle  de  espadim  em  punho. 
Poz  o  acontecimento  em  grande  cólera  a  D.  José,  e  o  conselho  de 
Estado,    convocado    para    dar    parecer,    opinou    por    severo    castigo,    h:i- 

O    AURQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  15 


226  DESINTELLIGENCIAS    COM    O    ENVIADO  FRANCÊ5 

divergências,  em  assumptos  de  ceremonial.  Para  dar  satis- 
fação ao  representante  da  Inglaterra  pelo  arranco  de  Merle, 
sem  descontentar  a  este,  estabeleceu-se  que,  d'ali  por  deante, 
a  precedência  entre  diplomatas  da  mesma  graduação  seria 
determinada  pela  data  das  respectivas  credenciacs.  D'este 
modo  ficava  ao  embaixador  da  França  o  logar  que  pretendia 
seu,  antes  do  Enviado  britannico,  mas  só  pelo  facto  accidentai 
da  sua  nomeação  anterior,  não  em  virtude  de  preeminência 
attribuida  á  sua  nação,  como  allegava.  Esta  solução  do 
conflicto,  desagradável  a  Mede,  não  o  foi  menos  a  Choiseul. 
Ambos  manifestaram  altamente  o  seu  despeito.  A  posição 
do  diplomata  francês  em  Lisboa  era  cada  vez  menos  agradável. 
Havia  tnuito  que  elle  desejava  deixar  o  posto ;  fez-lhe  Choiseui 
a  vontade,  'e,  indisposto  como  estava  com  o  gioverno  português, 
não  lhe  nomeou  successor.  Mede  fizera  quanto  a  seu  alcance 
esteve    para    turbar   a    harmonia    entre   os    dois    paizes.     Oeiras, 


vendo    mesmo    quem,    por    lisonja    ao    ministro,    ciiegasse    a    pronôr    a 
ultima   pena   para  os   dois   infantes,   que   foram    por   fim   desterrados. 

Esta  é  a  versão  que  as  memorias  do  tempo  registaram.  O  mi- 
nistro da  Áustria  assim  o  transm.ittiu  á  sua  corte.  (Officio  de  3 
de  fevereiro  1761.  Duhr,  Pombal,  pag.  78).  O  embaixador  francês, 
sem  os  pormenores,  egualmente  attribue  o  facto  a  desintclligencias 
acerca  da  publicação  de  um  livro  contrario  á  Santa  Sé.  (Offic>o  de 
29  de  julho  1760.  Quad  Elem.,  2.o,  pag.  270).  Depois  dos  infantes 
ioram  presos  muitos  religiosos.  Os  dois  fidalgos,  exilados  poucos  dias 
depois  do  casamento  da  princesa,  mandou-os  Carvalho  transfe.nr,  um 
para  o  forte  da  Junqueira,  o  outro  para  o  Castello  da  Foz  do  Douro. 
Interrogado  em  Pombal  sobre  a  razão  d'este  procedimento,  o  ministro 
respondeu  que  a  prisão  do  visconde  de  Villa  Nova  de  Cerveira  fora 
—  <  económica,  correctoria  e  da  natureza  d'aquellas  que  sómeníe  os 
inonarchas,  \^v\z%  suas  immediatas  ordens,  podem  mandar  fazer.'>  — ,  e 
com  isto  varias  futilidades  á  mistura;  a  do  conde  de  S.  Lourenço 
pela  amizade  com  Malagrida,  e  para  o  subtrahir  á  sua  influencia. 
Ora  o  jesuita  achava-se  no  forte  da  Junqueira  desde  janeiro  de  1759; 
o  conde  foi  preso  em  junho  do  anno  seguinte.  As  explicações,  obscu- 
ras e  tortuosas,  deixam  entender  que  a  verdade  seria  para  o  interro- 
gado difficil  de  relatar,  e  concebe-se  a  reluctancia,  a  ser  exacto  o 
caso  affrontoso  de  Palhavã.  Este  seria  pois  o  motivo  que  determin(Mt 
a  punição  dos  infantes,  sem  todavia  excluir  a  verdade  das  preten- 
sões matnmoniaes,   que   não   poderiam   agradar. 


ASCENSÃO    DE   CARLOS    III   AO   THROxVO  DE  HESPANHA      227 


com  a  politica  de  subserviência  á  Inglaterra,  facilitara-^lhe  o 
intuito.  Acastellavam-se  nuvens  no  firmamento,  e  não  tardaria 
a  borrasca. 


IV 


Entrando  1761,  a  França,  infeliz  nos  combates  e  falha 
de  recursos  financeiros,  desejou  a  paz.  Intervieram  os  neutros, 
propondo  um  congresso  em  Augsburgo  para  os  ajustes, 
porém  Choiseul,  cavilloso,  insinuou  qae  as  negociações  entre 
França  e  Inglaterra  corressem  mano  a  mano,  sem:  intromissão 
das  potencias,  a  quem  ficavam  para  resolver  no  congresso 
os  restantes  litigios.  Não  perdera  a  esperança  da  liga  com 
a  Hespanha,  que  as  transformações  decorridas  na  corte  de 
Madrid  pareciam  agora  favorecer. 

Em  agosto  de  1758  enviuvara  Fernando  VI,  que  falleceu 
passado  um  anno,  alheio  durante  esse  tempo  aos  cuidados 
do  governo,  e  todo  entregue  á  dôr  em  que  a  sua  intelligencia 
íraquissima  completamente  sossobrou.  Subiu  ao  throno  o 
rei  de  Nápoles,  seu  irmão,  com  o  nome  de  Carlos  III,  e 
á  influencia  de  Portugal,  que  com  a  rainha  Maria  Barbara 
prevalecia,  substituiu-'se  a  da  França;  á  firme  neutralidade  o 
tradicional  antagonismo  com  a  Inglaterra.  Ao  mesmo  tempo 
as  relações  com  a  corte  de  Lisboa  mudaram  de  aspecto.  O 
UQVO  rei  começou  por  exigir  a  revogação  do  tratado^  de 
limites.  Feito  sobre  este  ponto  o  accordo  em  fevereiro  de 
1761,  seguiu-se   pedido   de   casamento   não   attendido. 

Supposto  nessa  época  não  manifestasse  o  governo 
português  apprehensões  acerca  de  Hespanha,  é  certo  que  os 
dois  acontecimentos  assas  lh'as  podiam  causar.  O  tratado 
não  chegara  a  cumprir-se  pela  resistência  dos  Índios,  que  a 
final  seria  vencida,  se  não  julgassem  os  hespanhoes  onerosa 
a  troca  de  territórios.  Entretanto  o  desejo  de  possuírem  a 
colónia  do  Sacramento  não  se  extinguira,  e  o  que  pelos  meios, 
diplomáticos  se  não  podia  haver,  talvez  a  força  das  armas 
o   resgatasse.   Por  outro   lado   a   recusa  da   Princesa  era,  se 


228  OEIRAS   ANTE   A   NOVA   POLITICA   DE  HESPANilA 


não  um  golpe  ás  ambições  dynasticas  tradicionaes,  que  não 
perdiam  ensejo  de  se  declarar,  com  certeza  um  ag-gravo  á 
soberba  da  régia  estirpe  e  da  nação.  Ambos  os  motivos, 
embora  não  dessem  razoável  pretexto  á  guerra,  preparavam 
fácil  ouvido  ás  acrimoniosas  instigações  da  França. 

De  Inglaterra  tinha  a  monarchia  hespanhola  offensas, 
sem  duvida  —  navios  capturados,  usurpações  e  violências  na 
America,  recusa  do  direito  de  pesca  na  Terra  Nova  —  mas 
acima 'de  tudo  afírontava^a  o  progresso  de  um  poderio  colonial, 
que  já  ameaçava  subverter-lhe  o  seu  próprio.  O  momento 
era  azado  para  se  realizar  o  projecto  de  Choiseul. 

Oeiras,  entretanto,  nada  temia  senão  da  França.  Acre- 
ditava que  a  derogação  do  tratado  de  limites,  correspon- 
dendo aos  desejos  dos  castelhanos,  conquistara  a  gratidão 
d'elles;  que  o  cunhadio  dos  soberanos  seria  neste,  como  no 
antecedente  reinado  tinha  sido,  fiança  de  relações  amigáveis. 
Via  porém  Luiz  XV,  desembaraçado  de  contendores,  prompto 
à  ãggredir  Portugal.  Juljgava  o  perigo  imminente,  e  toda  a 
sua  diplomacia,  neste  periodo,  se  subordina  a  essa  pre- 
occupação. 

Principiou  elle  por  insinuar  a  admissão  de  Portugal  ao 
congresso,  para  decidir  os  litigios  com  a  França,  e  tornar 
as  potencias  solidarias  da  resolução.  Em  ultimo  caso,  se  fosse 
a  pretenção  irrealizável,  declarasse  a  Inglaterra  garantir  os 
domínios  de  Portugal,  em  qualquer  parte  do  mundo.  Simulta- 
neamente congratulava-se  com  o  governo  britannico  pela 
revogação  do  infeliz  tratado  de  limites,  que  annos  antes 
promovera   com  tanto  ardor  i.   Qual  a   razão  da  m.udança? 

Reconhecia  agora  que  a  Hespanha  tivera  no  tratado  todas 
ás  vantagens,  recebendo  uma  praça  de  guerra  e  consideráveis 
territórios,  em  troco  de  «sete  miseráveis  aldeias  de  Índios», 
para  cuja  occupação  se  tinham  dispendido  «vinte  e  seiis  milhões 
de  cruzados»,  além  de  ser  ella  a  origem  d'essa  pertinaz  lucta 
com  os  jesuítas,  que  era  a  sua  mais  absorvente  preocciípação. 


^     «Reflexões    sobre    as    cartas    escriptas    a    Martinho    de     Mello. 
1761».    Coll.    Pomb,,    Cod.    634. 


OEIRAS  RECORRE  AO  APOIO  DíPLOMATiCO   INOLES        229 

Mas  o  que  sobretudo  agia  em  seu  animo  era  o  receio  de 
que  o  pacto  pudesse  invalidar  a  tão  necessária  alliança  com 
Inglaterra,  Effectivamente  nelle  existiam  clausulas,  pelas 
quaes  se  declarava  sem  effeito  o  tratado  de  Utrecht,  e  as 
partes  contratantes  se  obrigavam  á  reciproca  defensão  dos; 
dominios  de  cada  uma,  na  America  Meridional.  Não  tomaria 
a  Grã-Bretanha  d'isso  pretexto  para  nos  recusar  o  auxilio, 
na  hora  do  perigo?  Esta  falha,  não  vista  em  1750,  dilata va-se 
cm  brecha  enorme,  ameaçando  ruir  o  melhor  baluarte  da 
defesa  nacional.  Era  tarefa  do  ministro  em  Londres  acudir 
a  esse  risco.  Para  isso  Martinho  de  Mello  devia  argumentar. 
que,  ainda  subsistente  o  tratado  de  limites,  as  garantias  do 
de  Utrecht  se  achavam  em  vigor;  e,  annullado  aquelle,  qualquer 
fundamento  com  que  se  pretendesse  illudir  o  encargo  com 
maior  razão  seria  baldado. 

Martinho  de  Mello  obteve  a  confirmação  da  alliança  pelas 
duas  personalidades  que  accionavam  a  politica  da  Inglaterra: 
William  Pitt  no  parlamento  e  no  gabinete,  lord  Bute  nos 
conselhos  Íntimos  do  Rei.  Oeiras  respirou.  Mas  o  êxito  de 
suas  exigências  não  foi  além.  A  pretenção,  evidentemente 
exagerada,  de  fazer  Portugal  participe  do  congresso,  não 
lh'a  attenderam.  Teve  de  contentar-se  com  a  declaração, 
satisfactoria  para  a  vaidade  nacional,  de  não  serem  também 
admittidas  a  Hespanha,  a  Hollanda  e  a  Sardenha.  Solicitou 
então  que,  ao  menos,  as  divergências  com  a  França  se  ajus- 
tassem lá.  Também  não  conseguiu.  À  Grã-Bretanha  convinha 
negociar  de  mãos  livres,  para  não  sacrificar  alguma  das 
vantagens  colhidas  na  guerra.  E  o  ministro,  verificando  a 
tibieza  de  uma  tão  pregoada  amizade,  com  amargura  considera 
que  o  saxão  egoista  é  agora  o  arbitro  dos  mares,  e  por  isso 
abandona  sem  receio  Portugal,  «que  se  não  poderá  jamais 
unir  a  outra  potencia  em  detrimento  da  Inglaterra»  i. 

A  amizade,  a  gratidão  nada  valendo,  restava  o  interes- 
se, e  Oeiras  offerecia  revogar  em  favor  dos  ingleses  a  lei 
prohibitiva  da  sabida  do  ouro,   comtanto  que  no  tratado   de 


i     «Reflexões  sobre  as   cartas  escriptas  a   Martinho  de   Mello),   cit. 


230  A    ANTIGA    E    EFFICAZ   ALLIANÇA    INGLESA 


paz  se  incluísse  a  garantia  do  território  português,  e  a  In- 
glaterra declarasse  ter  por  aggravo  próprio  qualquer  offensa  ao 
alliado. 

Assentado  depois  entre  França  e  Inglaterra  ajustarem 
fora  do  congresso  as  condições  reciprocas,  as  instancias  do 
governo  português  descobrem  que  o  facto  é  para  elle  in- 
quietador. Oeiras  suggere  que  será  necessário  estipular  no 
pacto  que  sobre  os  navios  capturados  até  certa  data  não 
haverá  reivindicações,  tieni  mesmo  contra  terceiros;  e  que  a 
França  renuncia  a  qualquer  procedimento  pelas  occorrencias 
nas  costas  do  Algarve  i. 

A  forma  instante  das  solicitações,  o  gradual  decrescer 
das  exigências,  as  promessas  €  argumentos  com  que  busca 
mover  a  indifferença  da  Grã-Bretanha,  tudo  patenteia  a 
inquietação  de  Oeiras  neste  periodo.  Elle  via  já  sobre  o 
reino  inerme  o  poder  immenso  da  França;  reconhecia  a 
fallencia  de  meios  contra  o  ataque.  Tentava  por  isso  estimular 
o  zelo  do  alliado,  insinuar  razões  de  interesse  ou  gratidão. 
Apontava-lhe  a  inveja  das  nações,  pelas  grandes  vantagens 
que  o  commercio  inglês  auferia  em  Portugal.  Recordava  os 
esforços  da  França,  as  publicações  feitas  nesse  paiz  e  ra 
Hollanda,  com  o  fim  de  iUuminar  o  nosso  governo  e  leval-o 
a  repudiar  a  amizade  britannica.  «Nada  d'isso  —  observava 
—  fez  impressão  no  animo  do  Rei.  Mas  o  que  mantém  S.  M, 
neste  systema  é  o  interesse  de  conservar  a  antiga  e  efficaz 
alliança  da  Grã-Bretanha».  D'ahi  passava  a  descrever  a  depen- 
dência em  que  aqueíle  paiz  se  achava  de  Portugal.  Lembrava 
quanto  a  estagnação  de  negócios,  consequente  ao  terremoto, 
fora  alli  duramente  sentida;  que,  se  tardavam  as  frotas  do 
Brasil,  logo  na  Bolsa  de  Londres  o  preço  do  ouro  subia. 
Tudo  isto  eram  razões  que  ao  governo  britannico  cumpria 
ponderar,  comprehendendo  que  seria  resguardar  os  proprics 
interesses  defender  os  do  alliado  ^. 


^  Officio  a  Martinho  de  Mello,  19  maio  1761,  Coll.  Pomb., 
Cnd.    634. 

'-'  Officto  a  Martinho  de  Mello,  31  outubro  1760,  Coll.  Pomb., 
Cod.    cit. 


o    PACTO    DE    família  231 


Ao  passo  que  o  governo  português  nada  conseguia  da 
Inglaterra,  Choiseul  via  cumprido  o  seu  empenho  d€  soli- 
darizar Carlos  III  com  os  interesses  da  França,  Por  instigação 
sua,  o  gabinete  de  Madrid  iniciava  as  reclamações  em  Londres, 
quando  a  negociação  das  pazes  estava  em  começo.  Desde 
esse  instante  toda  a  idéa  de  congraçamento  se  dissipou  no 
espirito  de  Choiseul,  e  seus  esforços  tenderam  só  a  preparar 
o  rompimento  de  Hespanha  com  a  Inglaterra.  Realizado  este, 
Portugal   seria   um    vantajoso    campo   de    batalha. 

Em  junho  de  1761  dava  elle  a  entender,  ao  encarregado 
de  negócios  em  Lisboa,  que  qualquer  coasa  machinava,  em 
detrimento  nosso,  de  concerto  com  a  Hespanha.  E  epilogava: 
«O  tempo  e  os  successos  hão  de  fazer  que  os  portugueses 
se  arrependam  do  seu  procedimento»  '.  Em  julho  mandava-lhe 
que  não  falasse  mais  sobre  os  navios  capturados,  <':por  isso 
que  os  ministros  portugueses  se  achavam  impossibilitados 
de  justificar  o  modo  como  naquelle  assumpto  se  haviam 
portado»  ^  D'esta  arte  as  relações  diplomáticas  assumiam 
caracter  cada  dia  mais  acerbo. 

Entretanto  as  condições  onerosas  de  Pitt  triumphante 
€  a  intencional  pertinácia  de  Choiseul  que,  firme  em  suas 
reivindicações,  exigia  o  retorno  das  presas  feitas  no  mar, 
prenunciavam)  já  a  paz  impossível.  Subira  ao  cume  a  desintelli- 
gencia  quando  o  plenipotenciário  francês  sahiu  com  uma 
nota  a  desposar  as  queixas  da  Hespanha.  Pitt  repelliu  a 
ameaça,  implícita  na  inter\enção,  recusando  em  absoluto 
tratar  do  assumpto  com  a  França.  Passado  um  mês,  a  15 
de  agosto,  assignava-se  em   Paris  o  Pacto  de  familia. 

Excusado  é  recordar  as  estipulações  conhecidas  do 
tratado.  Basta  mencionar  a  convenção  addicional,  estatuindo 
que  a  Hespanha  atacaria  Inglaterra,  e  Portugal  seria  intimado 
a  juntar-se  aos  aggressores.  Esta  parte  suggeriu-a  Carlos  III, 
que  se  lisonjeava  de  impor  a  alliança  a  seu  cunhado  ^  Mais 


1  Quadr.  Elem.,  VII,    15. 

2  Idem,    VII,    17. 

3  Ferrf.k    DLL    Rio,    Historia    dei   reinado    de    Carlos    III,    Madrid 
1856.  I,    29S. 


232  MACHINAÇÕES    DA    FRANÇA    E    HESPANHA 


perspicaz,  Choiseul,  concordou,  certo  da  recusa  que  lhe  daria 
o  ambicionado   pretexto   para   a   guerra. 


V 


A  accessão  de  Portugal  á  liga  dos  Bourbons  de  nenhum 
modo  era  possivei.  Renegar  o  paiz  as  tradições  da  sua  poli- 
tica, voltando-se  contra  a  Inglaterra,  seria  perder  na  contenda 
a  melhor  parte  do  seu  império  colonial,  se  não  todo  elle. 
Alas  a  recusa  punha-o  a  braços  com  o  hereditário  inimigo, 
o  castelhano,  e  com  o  novo  adversário,  em  cujo  temor  p 
governo  português  desde  três  annos  vivia.  Contra  a  França 
e  a  Hespanha  unidas  era  imprescindível  o  soccorro  da  Ingla- 
terra. Isso  lhe  divertia  forças,  e  a  desfalcava  em  homens  e 
recursos  pecuniários;  pelo  que  Cho'seul,  atilado,  dizia  que 
a  guerra  com  Portugal,  quaesquer  que  fossem  os  resultados, 
seria  sempre  de  proveito  para  a  França  i.  Castella  ganharia 
pelo  menos  a  colónia  do  Sacramento,  e  acaso  algum  território 
no  sul  do  Brasil.  De  qualquer  modo  Choiseal  tirava  da  corte 
portuguesa  o  desejado  desforço. 

Informado  das  machinações  da  França  e  dos  bellicos 
preparativos  da  Hespanha,  era  intuito  de  Pitt  antecipar-se 
com  a  declaração  de  guerra ;  mas  não  logrou  convencer  a 
maioria  do  gabinete,  crente  nos  protestos  pacíficos  de  Madrid. 
Despeitado,  sahiu  do  ministério  no  próprio  momento  em  que 
as  suas   predicções   se   cumpriam. 

Hespanha  ganhava  tempo,  para  se  manifestar  somente 
quando  já  não  houvesse  de  temer  pela  frota  das  índias.  A 
22  de  setembro  surgia  em  Cadix  o  grosso  do  comboio.  Duas 
naus,  que  se  tinham  atrazado,  chegaram  ao  porto  em  2  de 
novembro.  O  embaixador,  lord  Brisíol,  communicava  «que  todts 
as    riquezas    esperadas    da    America    se    achavam    a    salvo»  •'; 


^     \Mémoire%    du    duc    de    Choiseul,    Paris    1904,    pag.     393. 
3     M.\HON,    Hist.    ol    Englund,    IV,    260. 


ANTECIPANDO    A     INVASÃO     DE     1S07  233 


e  observava  que  desde  logo  a  linguagem  da  côrce  de  Madrid 
era  arrogante  e  .mui  outiva  do  que  fera  até  então.  Reconhecendo 
tarde  a  sua  imprudência,  o  governo  britannico  rompeu  as 
hostilidades  no  principio  de  janeiro. 

Luiz  XV  fazia-se  representar  em  Lisboa  por  Jacob 
0'Dunne,  com  a  categoria  somente  de  ministro  plenipoten- 
ciário, e  não  de  embaixador,  pelas  razões  de  pragmática^ 
motivo  dos  conflictos  anteriores.  Este  diplomata  tinha  de 
orientar-se  por  instrucções  do  governo  hespanhol,  recebidas 
em  Madrid.  A  sua  missão  consistia  o  tensivamente  em  exp:r 
ao  governo  português  que  a  neutralidade  se  lhe  tornava 
impossível,  e  por  isso  conviria  bandear-se  com  os  Bourbons ; 
na  realidade  as  negociações  eram.  somente  um  disfarce,  para 
cohonestar  com  as  formulas  da  diplomacia  a  premeditada 
invasão. 

O  projecto  devia-se  a  Choiseul  e,  dizia  este,  «produziria 
effeito  immenso  se  os  hespanhoes  o  teem  sabido  pôr  em 
pratica»  -.  Antecipando  a  marcha  dos  franceses  em  1807,  as 
tropas  deviam  caminhar  directamente  sobre  a  capital  inde- 
fesa. A  realizar-se  isso,  é  difficil  conjecturar  qual  a  resolução 
de  D.  José.  Acaso  anteciparia  egualmente  a  fuga  de  D.  João  VI, 
transferindo  como  elle,  para  o  Brasil,  a  sede  da  monarchia. 
O  intento  foi  na  occasião  attribuldo  a  Carvalho,  Mas  não  era 
propósito  de  Carlos  III  levar  as  cousas  a  tal  extremo  e,  para 
não  inquietar  demasiadamente  a  sua  irmã,  entendeu  afastar 
da  capital  o  theatro  das  operações.  Por  isso,  rejeitando  o 
plano  assentado,  de  avançar  sobre  Lisboa  por  Almeida, 
deliberou  assenhorear-se  do  Porto,  entrando  as  forças  por 
Trás-os-Montes.  D'ahi  em  grande  parte  resultou  o  mallogro 
da  invasão  2,  Poi  preciso  transferir  a  base  de  operações  de 
Ciudad-Rodrigo  para  Zamora  mais  ao  Norte.  Deu-se  tempo 
a  chegar  o  soccorro  inglês  e  o  conde  de  Lippe ;  e  a  campanha, 


1     .Viémoires    du    duc    de    Choiseul.    388. 

-  <'Dc  qien  diablos  fué  el  pensamiento  de  ir  à  Miranda  y  lira- 
ganza  cn  vez  de  Almeida?)  admirado  perguntava  Tanucci,  confidente 
c  antigo  ministro  napolitano  de  Carlos  III,  ao  ministro  csquilache. 
FtRRER    DhL    Rio,    Carlo:<   III,    l.o,    323. 


234  PORTUGAL    E    O    PACTO    DOS    BOURBONS 

cujo  plano  foi  depois  novamente  mudado,  terminou  sem 
vantagem  dos   invasores,   pelos   erros  da  primeira  hora. 

De  qualquer  modo  era  propósito  dos  alliados  "tomarem 
alguma  parte  de  Portugal  em  reféns  para,  no  remate  da 
guerra,  obterem  da  Grcã-Bretanha  valiosas  compensações. 
Existia  também,  parece,  um  projecto  de  campanha  ultrama- 
rina. Oeiras  persuadia-se  que  os  franceses  tentariam  repetir 
a  façanha  de  Duguay-Trouin,  tomando  o  Rio  de  Janeiro. 
Por  qualquer  motivo,  a  esquadra  destinada  ao  Brasil  não 
partiu;  as  dilações  da  Hespanha,  os  incompletos  preparativos, 
annullaram   o  desígnio   dos   alliados. 

Em  Madrid,  0'Dunne,  impaciente,  urgia  pelo  immediato 
ataque,  considerando  a  sua  vinda  a  Lisboa  dispensável;  mas 
oppunham-lhe  que,  antes  de  romper  em  guerra,  cumpria  fazer 
as   intimações,   ainda   na   certeza   de   que   seriam   desprezadas. 

Afinal  o  Enviado  francês  somente  em  fevereiro  sahiu 
de  Madrid,  com  instrucções  communs  para  si  e  para  o  repre- 
sentante de   Hespanha. 

A  27  ainda  nada  tinha  communicado  ao  governo  portu- 
guês. Chegara  de  Madrid  ordem  suspensiva  para  dar  tempo 
ao  avanço  difficil  da  artilharia,  no  terreno  montanhoso,  por 
onde  se  fazia  a  invasão'.  Só  a  16  do  mês  seguinte  os  plenipo- 
tenciários entregaram  a  D.  Luiz  da  Cunha  o  memorial  que 
convidava  o  soberano  português  a  desligar-se  da  alliança  de 
Inglaterra  e,  como  cunhado  de  Carlos  III,  a  adherir  ao  pacto 
dos  Bourbons.  As  tropas  franco-hespanholas  aguardavam  na 
fronteira  o  assentimento  de  S.  M.  para  irem  guarnecer  as 
suas  praças  marítimas,  que  os  ingleses  poderiam  ameaçar. 
Exigia-se   resposta   peremptória   dentro   de   quatro   dias. 

Oeiras  discutiu  a  nota  arrogante  dos  alliados  com  ha- 
bilidade e  firmeza.  Era  seu  empenho  ganhar  tempo,  para 
melhor  preparar  a  resistência.  Por  isso  respondeu  sem  asso- 
mos, em  tom  de  benevolência  e  cordura.  Fazia  protestos  da 
mais  recta  neutralidade;  affirmava  o  seu  desejo  da  paz; 
allegava  que  as  calamidades  do  terremoto,  ainda  em  parte 
por  sanar,  os  trabalhos  da  organização  económica,  as  pertur- 
bações da  politica  interna,  não  permittiam  á  nação  av'enturar-se 
em   uma   guerra    offensiva.    E,    depois,    que    razão    tinha    o 


RETÍRAM-SE    OS    DIPLOMATAS    FRANCÊS   E   HESPANHOL    235 


monarcha  português  de  guerrear  uma  potencia,  que  nenhum 
aggravo  lhe  havia  feito?  A  esta  parte  repHcavani  os  emis- 
sários: «Que  maior  offensa  do  que  ter  uma  esquadra  inglesa 
bombardeado  outra  francesa,  em  um  porto  de  Portugal?»  * 
E  formulavam  o  dilemma:  ou  o  paiz  não  recebera  satisfação 
da  Grã-Bretanha,  e  assistia-lhe  por  isso  o  direito  de  lhe 
fazer  guerra,  ou  a  satisfação  fora  dada,  e  nesse  caso,  faltando 
restituir  os  navios  á  França,  era  esta  potencia  que  tinha 
o  direito  de  fazer  guerra  a  Portugal. 

A  correspondência  dilatou-se  até  23  de  abril,  quando  os 
diplomatas  exigiram  passaportes,  retirando-se  para  Hespanha 
em  seguida.  Ás  ameaças  de  invasão  replicara  Oeiras  que 
seria  menos  custoso  ao  monarcha  deixar  cahir  a  ultima  telha 
do  seu  palácio,  aos  leaes  vassalos  derramarem  a  ultima  rrotta 
do  seu  sangue,  que  sacrificar  Portugal  o  decoro  da  coroa, 
trahindo  a  sua  alliança  -.  O  parallelo  das  telhas  do  palácio 
com  o  $angue  dos  vassalos  é  typico  do  século  XVIII,  e 
caracteriza  o  progresso  que  fizera  a  idéa  da  supremacia  régia, 
desde  o  tempo  em  que  o  Príncipe  perfeito  tomara  por  divisa 
o  pelicano. 

Tão  amigo  dos  mesquinhos  despiques  como  das  estron- 
dosas vinganças,  Oeiras,  sob  o  pretexto  das  pragmáticas, 
mandou  reter  na  raia  os  ministros  que  se  retiravam,  até  que 
o  representante  português,  recolhendo  de  Madrid,  passasse 
também.  Ao  mesmo  tempo  o  exercito  dos  alliados  penetrava 
em  Trás-os-Montes. 


VI 


O  rompimento  do  governo  inglês  com  Carlos  III  produziu 
cm  Lisboa  alvoroço  enorme.  Ã  confiança  de  viver  em  paz  com 


1  Segunda  promemona  em  1  de  abril  de  1762.  Qiiad.  Elem.y 
II,    256. 

-  Resposta  de  D.  Luiz  da  Cunha  á  segunda  memoria  do  embai- 
xador  de   Hespanha.    Qiiad.   Elem.,    11,    265. 


236  O    DESCALABRO    DA    ADMINISTRAÇÃO   MILITAR 


O  visinho  dissipou-se.  Agora  ao  perigo  remoto,  que  se  temii 
da  França,  outro  immincnte  e  próximo  accrescia.  Mesmo  em 
neutralidade,  o  littoral  português  era  para  as  esquadras  britan- 
nicas  um  ponto  estratégico,  de  que  os  adversários  tinham 
o  máximo  interesse  em  as  desalojar.  Em  taes  circumstancias, 
difficil  seria  deixar  o  paiz  de  se  ver  envolvido  na  contenda. 

Tarde  seguia  Oeiras  o  conselho  de  Pitt,  cuidando  de 
pôr  o  reino  em  estado  de  defesa.  O  descalabro  da  adminis- 
tração militar  era  mal  chronico  e,  na  apertura  do  momento, 
irremediável.  Muitos  annos  havia  —  antes  mesmo  do  perdu- 
lário D.  João  V  —  que  a  voragem  do  paço  e  da  corte  absor\':a 
quanto  a  nação  podia  dar.  Achavam-se  as  fronteiras  abertas, 
as  praças  desmanteladas,  os  regimentos  incompletos,  os 
depósitos  de  artigos  b^llicos  vazios.  Os  officiaes  eram  incom- 
petentes, muitos  d'elles  fâmulos  de  casas  fidalgas,  mais 
occupados  nos  lavores  do  amo,  que  os  promovera,  que  no 
serviço  de  campo  ou  quartel.  E  era  escândalo  dos  extrangeiros 
verem-nos  servir  á  mesa,  de  habito  de  Christo  ao  pescoço, 
orgulhosos  da  sua  humilhação  de  lacaios.  Aos  sojdados  faltava 
instrucção  e  disciplina.  «Com  o  rosário  em  uma  das  mãos,— 
refere  um  viajante  — ,  um  chapéo  esfarrapado  na  outra,  pediam 
esmola;:  i.  Roubavam,  e  assim  devia  ser,  porque  os  soldos 
andavam  sempre  em  atrazo.  As  forças  navaes  ao  mesmo 
abandono.  Em  tudo  attinente  á  guerra,  penúria,  incapaci- 
dade,   descuido. 

Oeiras  tinha  sido  por  seis  annos  ministro  da  guerra, 
posto  em  que  o  substituta  D.  Luiz  da  Cunha,  seu  homem  de 
palha,  que,  como  elle,  conjunctamente  geria  os  negócios 
extrangeiros;  e  nisto,  egualmente  aos  restantes  ramos  da 
administração,  a  só  vontade  deliberante  era  a  sua.  Por  tal 
motivo  não  podia  repudiar  a  responsabilidade  d'esta  situação 
deplorável.  Em  1754  elaborara  a  reforma  do  exercito,  elevado 
nos  cálculos  a  dezoito  mil  homens.  Effectuara  a  promoção  de 
officiaes,    que    desde    muitos    annos,    por    economia,    se    não 


1     Carias    de   Aríhur    William    Costigan,    Ms.    da    Bibl.    Nac,    Coll. 
Pomb.,    Cod.    082. 


A    MÀ    SJTLJâCAO    do    exercito  237 


tinha  realizado.  Havia  regimentos  com  quatro  somente,  e 
até  menos,  todos  nos  postos  subalternos,  em  que  se  conser- 
vavam decrépitos.  A  providencia  fora  judiciosa  e  benéfica, 
mas  depois  a  sua  attenção,  pretendendo  abraçar,  do  mais 
importante  ao  Ínfimo,  todos  os  objectos  da  acção  de  um 
governo  excessivam  ente  centralizado,  esquecera  esÍQ,  que 
aliás  lhe  não  foi  em   nenhum,   tempo  predilecto. 

A  penúria  do  erário,  que  em  todo  o  período  da  gerência 
pombalina  fez  lastimável  a  situação  de  credor  do  Estado, 
experimentavam-na  também  as  tropas.  Em  novembro  de  1761 
andava  o  atrazo  dos  soldos  em  dezoito  meses.  Nas  vésperas 
da  guerra  foram  pagos  seis  meses  por  conta.  Os  soldados, 
por  necessidade  e  inveterado  habito,  mendigavam.  Quando 
0'Dunne,  portador  do  ultimatum,  chegou  a  Lisboa,  um  grupo 
de  sargentos  appareceu-lhe  á  porta  a  pedir  esmola,  e  com 
elles  um  capitão  i.  Era  o  cumulo  do  degradamento,  porém 
forçado,  porque  aos  militares,  que  reclamavam  a  paga,  impu- 
nham as  leis  severos  castigos. 

Com  tal  miséria  em  perspectiva,  os  voluntários  pouco 
acudiam  ás  fileiras.  O  recrutamento  era  á  força.  Aproveita- 
vam-se  os  ajuntamentos  populares  para  ir  colhendo  os  vadios, 
e  no  lance  iam  filhos  famílias,  serviçaes  domésticos,  operários, 
tudo  o  que  no  tumulto  se  podia  a  garrar.  No  auto  de  fé  de 
JMalagrida,  os  soldados  puzeram  cerco  ao  Rocio  e  ruas  visi- 
nhas ;  avançaram  os  esbirros,  e  a  caçada  foi  prodigiosa.  Estas 
rusgas  foram  o  triumpho  e  a  origem  da  fortuna  de  Pina 
Manique,  naquelle  tempo  juiz  do  crime.  Das  províncias  vinham 
os  recrutas  em  gargalheiras,  e  por  toda  a  parte  as  ordenanças 
andavam  activas  á  cata  dos  desertores.  O  duque  de  Broglie, 
inform.ado  por  espiões,  fazia  a  synthese  de  tudo  isto,  dizendo 
a  Luiz  XV  que  «as  tropas  pouco  numerosas,  mal  pagas, 
mal  vestidas,  mal  armadas,  e  em  peor  estado  ainda  quanto 
á  disciplina,  eram  constituídas  pelo  que  da  ralé  da  nação  se 
podia  apanhar»  ^, 


i     Officio    de    23    fevereiro    1762.    Quad.    Eíem.,     7.o,    50. 

2     BonTAKic,    Correspondance    secrèíe    de    Louis    XV.     2.°,     194. 


238  O    AUXíLíO    DA    INGLATERRA 


Em  taes  circumstancias  mais  do  que  nunca  se  impunha 
o  appello  á  Inglaterra.  Lord  Kinnoul,  em  nome  de  Pitt, 
emphaticamente  promettera  auxilio,  quando  preciso,  e  a 
declaração  fora  sincera.  Mas  a  vontade  agora  predominante 
no  gabinete  era  opposta  á  de  Pitt,  Lord  Bute,  com  a  auto- 
ridade de  valido,  que  era,  do  soberano,  manifestou-se  contrario 
á  intervenção.  Os  tratados  não  obrigavam,  desde  que  Portugal 
os  rompia,  com  o  permanente  desprezo  das  regalias  do 
commercio  britannico.  O  monopólio  da  Companhia  dos  Vinhos 
constituia  um  attentado,  contra  o  qual  os  representantes  da 
Inglaterra,  um  após  outro,  haviam  protestado,  sem  que  nada 
demovesse  o  governo  português.  E  este  não  era  o  só  motivo 
de   reclamações. 

Impotente  com  o  ministério,  Martinho  de  Mello  recorreu 
á  opposição  parlamentar.  Venceu,  mas  não  sem  obstáculos. 
Já  o  inimigo  estava  dentro  de  Portugal,  e  ainda  na  Camará 
dos  Communs  surgiam  difficuldades.  O  gabinete,  violen- 
tado, propuzera  afinal  o  credito  de  um  milhão  esterlino, 
para  o  soccorro.  Mas  houve  quem  impugnasse  a  verba  por 
excessiva,  como  excessivo  era  o  encargo  de  tomar  a  nação 
inglesa  por  sua  conta  a  alheia  defensa. 

Foi  então  que  Pitt,  vindicando  a  politica  que  no  governo 
seguira,  sustentou  a  proposta  e  conseguiu  fazel-a  approvar. 
«Também  eu  não  quero  —  exclamou  —  que  o  encargo  de 
defender  o  alliado  pese  exclusivamente  sobre  nós.  Não  digo 
que  tomemos  ás  costas  o  rei  de  Portugal,  sim,  porém,  que 
o  pousemos  de  pé,  firme  nas  pernas  e  de  espada  na  mão:>!  ^ 
A  eloquência  sardónica  de  Pitt  foi  convincente,  mas  quão 
humilhante  para  a  causa  patrocinada!  O  famoso  estadista 
conhecia  a  situação  militar  de  Portugal.  Verdade  é  que  a 
de  Hespanha  não  se  mostrava  melhor.  Lord  Tiravvley,  velho 
militar  que  viera  com  outros  officiaes  pôr-se  ao  serviço  de 
Portugal,  escrevia  a  Pitt  que  «dez  mil  homens  de  boas  tropas, 
na  fronteira,  tanto  poderiam  marchar  sobre  Lisboa  como 
sobre  Madrid;  a  facilidade  era  a  mesma»  -.   E  as  operações 


1  .M\HON,    Hisi.   of    England,    4.o,  266. 

2  Idem,    27'1. 


o   CONDE   DE    LIPPE   E  O   EXERCITO  239 


da  subsequente  campanha  assas  lhe  justificaram  as  palavras. 
Entretanto,  a  superioridade  numérica  dos  hespanhoes 
levaria  os  nossos  de  vencida,  como  effectivamente  levou  no 
primeiro  Ímpeto,  a  não  ser  o  soccorro,  aliás  mesquinho,  da 
Orã-Bretanha.  Seis  regimentos  de  pé  e  um  de  cavallaria  for- 
mavam o  contingente.  Vieram  também  armamentos,  munições 
e  dinheiro;  mas  o  primacial  elemento,  para  o  êxito  relativo 
das  nossas  armas,  foi  o  conde  de  Lippe  que,  coadjuvado  por 
officiaes  extrangeiros,  organizou  e  fez  manobrar  a  incohe- 
rente  chusma  das  forças  nacionaes. 

Ate  chegar  o  grande  táctico,  Oeiras,  homem  de  acção, 
de  sangue  frio  nas  contingências  mais  graves,  foi  acudindo 
com  palliativos  de  occasião  ás  defficiencias  que  não  soubera 
evitar  nem  prever.  A  poder  de  decretos  levantou  um  exercito 
que,  na  estima,  se  devia  elevar  a  quarenta  mil  homens.  D'esíe 
numero  Lippe  aproveitou  oito  mil  que,  sob  o  commando 
dos  forasteiros,  cooperaram  com  as  tropas  inglesas.  Outra 
parte  disseminou-se  nas  guarnições.  O  resto  foi  posto  de 
banda,  como   estorvo  e  elemento  de  indisciplina  e  fraqueza. 

De  golpe,  consoante  ao  seu  génio,  intendeu  o  ministro 
crear  um  exercito.  De  golpe  determinou  corrigir  abusos  de 
que  em  dez  annos  de  poder  jamais  se  advertira.  O  primeiro 
decreto,  tendente  a  esse  fim,  ordena  a  reducção  das  bagagens 
dos  generaes;  limita  o  numero  de  iguarias  nas  mesas  dos 
chefes  —  uma  coberta  de  vinte  pratos  sorteados  de  cosinha, 
e  outra  coberta  respectiva  de  f ructas  e  doces»  —  e  na  dos 
ajudantes  de  campo  ~  «um  prato  de  sopa,  outro  de  cozido, 
outro  de  assado,  outro  de  guizado,  e  quatro  pratos  de  sobre- 
mesa» —  1.  O  documento  é  suggestivo  e,  na  gravidade  do 
momento,  dá  a  nota  dos  costumes  militares,  e  do  sestro 
minucioso  do  homem,  que  dentro  da  nação  deprimida,  era 
a  única  vontade. 

Os  decretos  produziam  soldados,  mas  não  lhes  insufflavam 


1  Decreto  de  2  abril  1762.  Outro,  de  5  de  abril,  muda  as  de- 
r.cmniações  dos  generaes,  supprimindo  as  antigas  de  Sarg^ato  mar  de 
òataiJia    e    Mes.de    de    campo    general. 


240  TIBIEZA     DOS     INVASORES 


O  amor  dos  combates;  recalcavam  abusos  apparentes,  mas 
nào  extirpavam  hábitos  de  iiidolencia  e  rotina,  incrustados 
no  cérebro  de  gerações  successivas.  Sem  embargo  dos  regu- 
lamentos, difficil  era  pôr  em  acção  perfeita  e  isochrona  as 
rodagens   do   motor  por  tantos   annos   desconjuntado. 

Tirawley,  que  assumiu  antes  de  Lippe  o  commando,  em 
vão  se  debatia  contra  a  mi  vontade  geral.  Oeiras,  omni- 
sciente e  seguro  da  eíficacia  dos  seus  decretos,  desattendia-iha 
os  avisos.  Incom.patibilidades,  e  ciúmes  de  nação  para  nação, 
revclavam-se  a  cada  instante.  Resultou  um  conflicto,  e  o 
general,  veterano  de  muitas  batalhas,  irascivel  e  maniaco, 
regressou  ao  feeu  paiz,  não  sem  ter  antes  feito  a  D.  José 
amargas   recriminações   sobre   o   valido  i. 

O  conde  de  Lippe,  com  o  auxilio  das  tropas  extranhas, 
e  pondo  em  vigor  a  férrea  disciplina  que  guardou  o  sea 
nome,  fez  valer,  como  depois  Wellington,  as  qualidades 
marciaes  dos  portugueses.  Mas  onde  estes  combateram 
sósinhos,  sob  o  mando  de  seus  próprios  officiaes,  a  guerra 
foi  uma  serie  de  humilhantes  desastres,  de  capitulações,  entre 
as    quaes   a   de    Almeida   aos   sitiantes    mesmo   surprehéndeu. 

Por  seu  turno,  os  invasores  operavam  com  tibieza,  sem 
precedente  nos  fastos  da  guerra.  Em  Hespanha  dizia-se  qu2 
por  concerto  de  Isabel  Farnese  com  o  primeiro  ministro  Wall, 
para  não  resultar  damno  á  Rainha  sua  filha;  em  França 
acreditaram  no  motivo,  ou  em  outro,  porque  a  conquista^ 
pretendiam,   só   de    propósito    poderia   gorar  ^    E    o    facto    é 


1  iJm  espião  de  Lisboa  informava  o  gabinete  francês  de  que 
<Jord  Tirawley  falara  com  demasiada  liberdade  a  el-rei  D.  JosvS,  e 
lhe  dissera  entre  outras  cousas  que  o  tinham  enganado  a  elle,  rei 
Fidelissimo,  e  a  S.  M.  Britannica;  que  Portugal  estava  vendido  aos 
castelhanos,  e  que  havia  um  concerto  para  sacrificar  o  reino  e  com 
elle  os  ingleses;  que  saindo  elle  da  sala  da  audiência,  depois  de 
ter  falado  a  el-rei,  o  conde  de  Oeiras,  que  se  achava  na  sala  iiii- 
mediata,  lhe  exlranhara  de  haver  falado  em  seu  desabono  peranie 
cl-rei,  a  que  o  lord  respondera  que  assim  era,  mas  que  não  tinha 
dito  a  'metade  do  que  podia  dizer.»  8  agosto  de  1762,  Quad.  Elen., 
T.o,    76   e    77. 

2  BouTAKic,    Correspondance    secrète    cit.     II,     195.    Conta-se    que 


A    GUERRA    PHANTASTICA  241 


que  gorou.  O  commando  do  exercito  foi  confiado  ao  marquês 
de  Sarria,  velho  gottôso,  pela  primeira  vez  general  em  chefe. 
Depois  da  queda  de  Almeida  deram-lhe  por  successor  Aranda, 
notável  depois  como  estadista,  porém,  como  elle,  guerreiro 
mediocre.  Mudando  outra  vez  o  plano  da  campanha,  tentava 
este  penetrar  no  Alemtejo ;  mas  revezes  uns  sobre  outros  — 
embora  não  fossem  os  combates  mais  que  escaramuças  —  os 
impraticáveis  caminhos,  a  escassez  de  viveres,  as  copiosas 
chuvas  de  outono,  as  deserções,  as  doenças,  desanimaram 
o  invasor,  que  em  novembro  se  recolheu  a  quartéis  de  inverno, 
dentro  da  sua  fronteira.  Já  então  se  tinha  assignado  a  paz 
em   Fontainebleau,   no   dia  3. 

Em  Portugal  chamaram-lhe  a  guerra  phantastica  ' .  O 
primeiro  ministro  foi  arguido  de  trahição,  porque  —  diziam  — 
a  entrega  de  Almeida  se  effeituou  por  ordem  sua.  Mas  em 
testemunho  da  realidade  cruel  ficavam  os  campos  assolados, 
por  determinação  do  governo,  para  embaraçar  pela  fome  a 
invasão  e,  á  beira  dos  caminhos,  as  ossadas  dos  castelhanos, 
chacinados  pela  gente  rural,  quando  retardatários  ou  perdidos 
se  afastavam  do  grosso  das  tropas.  Os  franceses,  que  tomaram 
parte  na  expedição,  asseguravam  que  os  montanheses  de 
Trás-os-Montes  e  da  Beira  tinham  sido  na  campanha  os 
mais  temiveis  contendores. 

Entretanto,  na  America,  onde  o  desejo  da  conquista  era 
nos  castelhanos  poderoso,  a  colónia  do  Sacramento  cahiu 
em  poder  d'elles.  Em  seguida  penetraram  no  Rio  Grande, 
occupando  a  villa  de  S.  Pedro,  sede  da  capitania.  Mas,  infe- 
lizes contra  os  ingleses,  rendiam-se  em  Havana  e  Manilha. 
Para    recuperar   estas    possessões,    Carlos    IH    abriu    mão    da 


o  duque  de  Crillon,  francês,  commandante  do  exercito  que  operava 
contra  os  ingleses  em  Minorca,  conversando  com  a  rainha  em  Madrid, 
extranhara  os  mesquinhos  resultados  da  campanha  em  Portugal.  Ao 
que  Isabel  Farnese  pouco  satisfeita  replicou  iv  Então  que  mais  queria 
o  duque?  que  se  tirasse  o  throno  a  minha  filha?  «Cf.  Bourooino,  Voya-^e 
du  ci-devant  Diic  du  Chatelet  en   Portugal,    Paris,   anno   \'\,    II,    19. 

1     Ct.  Vida  de  Sebastião  José  de  Carvalho  e  Mello.  Ms.    Bibl.   Nac. 

o    MARQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  16 


242  RESULTADOS    DA    GUERRA 


Florida.  A  França,  mais  castigada,  perdia  o  Canadá,  a  Luisiana, 
e  o  Senegal. 

Portugal  sahiu  indemne,  mercê  da  Inglaterra,  que  não 
consentiu  tratar  a  paz  sem  o  alliado.  O  duque  de  Bedford, 
plenipotenciário  em  Paris,  exigiu  que  como  preliminar  se 
estipulasse  que  as  hostilidades  cessavam  nos  dominios  portu- 
gueses, e  que  as  praças  conquistadas  seriam  restituidas. 
Merecida  lealdade  e  não  favor  do  governo  britannico.  A 
fidelidade  da  nossa  parte  á  alliança  tinha  sido  a  causa  apparente 
da  guerra,  e  a  irritante  questão  de  Lagos  lá  estava  entre  os- 
reaes  motivos  da  aggressao. 


CAPITULO  VIII 


A  ALLIANÇA  INGLESA 


I.  Situação  politica  em  seguida  á  paz.  Oeiras  receia  novas  ag- 
gressões.  Instancias  poi  auxilio  em  Londres.  Agitação  em  Lis- 
boa contra  os  hereges.  —  II.  Discussão  sobre  os  limites  no 
lírasil.  Novas  complicações  com  a  Hespanha.  -  III.  Politica 
doble  da  Inglaterra.  Preparativos  de  guerra  em  Portugal.  — 
IV.  Revolta  dos  sombreiros  em  Madrid.  Attitude  amigável  ao 
governo  português  para  com  Carlos  III.  Causas  prováveis  da 
revolta.  Os  jesuítas  expulsos  dos  domínios  castelhanos.  Oeiras 
suspeita  da  Inglaterra.  Proposta  portuguesa  sobre  os  negócios 
de  Roma.  Caso  do  principe  de  Parma.  —  V.  Oeiras  recon^ 
cilia-se  com  a  alliança.  O  commercio  inglês  e  as  suas  reclama- 
ções. Nova  divergência  entre  Hespanha  e  Inglaterra.  —  Vi.  Re- 
nova-se  a  questão  de  limites.  Successos  na  fronteira  do  Brasil. 
Politica  defensiva  de  Oeiras  contra  as  exigências  inglesas. 
Guerra  cm  perspectiva  com  a  Hespanha.  O  desfecho  da  contenda. 


Assignou-se  a  paz,  mas  os  sentimentos  de  hostilidade  e 
desconfiança  entre  Hespanlia  e  Inglaterra  perm.aneciam. 
Póde-se  dizer  que  a  guerra  terminou  por  arbitrio  do  governo 
britannico  contra  o  voto  da  nação.  Assegurava-se  que  muitos 
membros  do  parlamento  tinham  sido  subornados,  que  lord 
Bute  enriquecera,  peitado  pela  França  para  acceitar  um  con- 
certo inconveniente.  A  Hespanha,  até  onde  era  possível, 
illudia  as  obrigações  do  tratado.  Não  satisfizera  ao  que  tinha 


244  TEMORES     DE    AGQRESSAO    EM     PORTUGAL 


feito  com  a  Inglaterra,  e  a  nós,  da  colónia  do  Sacramento 
restituiu-nos  somente  o  que,  no  seu  critério,  ella  era,  isto  é, 
a  praça  de  guerra,  que  ficava  insulada  em  território  exclusi- 
vamente occupado  por  castelhanos.  Além  d'isso,  cerca  de 
cincoenta  léguas  de  costa,  do  cabo  de  Santa  Maria  á  boca 
do  Rio-Qrande,  quatro  fortes  e  as  povoações  que  nos  haviam 
conquistado,   tudo   continuava   em   poder   d'elles. 

Reapparecia  ao  mesmo  tempo  entre  nós  o  temor  de 
nova  aggressão,  e  o  governo,  d'esta  vez  mais  cauteloso^ 
aparelhava  a  resistência.  Em  dezembro  de  1764  encommendava 
a  Martinho  de  Mello  doze  mil  espingardas,  tendas  de  cam- 
panha, canhões  e  obuzes ;  mas,  caso  typico  do  desazo  que 
na  administração  militar  se  mantinha,  não  mencionava  a 
nota  os  calibres  da  artilharia,  de  sorte  que  teve  o  encarregado 
da  acquisição  de  confiar  a  matéria  ao  arbítrio  dos  fornece- 
dores. Contrataram-se  muitos  officiaes  extrangeiros,  e  foi  o 
conde  de  Lippe  solicitado  a  vir  de  novo  assumir  o  commando 
das  tropas.  Por  ordem  do  governo,  exigiu  o  nosso  ministro 
em  Londres  o  pagamento  de  70:000  libras,  resto  em  divida 
do  subsidio  de  200:000,  concedido  em  1762  para  as  despesas 
da  guerra;  e  conjunctamente  pediu  a  intervenção  do  gabinete 
britannico  e  auxilio  de  tropas,  para  coagir  a  Hespanha  a 
retroceder  as   conquistas   da   America. 

Com  a  França,  as  nossas  relações,  em  seguida  á  guerra, 
readquiriram  a  cordialidade  antiga.  Voltava,  é  certo,  á  teia 
a  cansada  questão  de  Lagos,  que  o  embaixador  Saint-Priest, 
nas  suas  instrucções,  teve  ordem  de  revocar.  Se  a  corte  de 
Lisboa,  por  complacência  ou  fraqueza,  não  tinha  exigido  da 
Grã-Bretanha  a  justa  reparação,  cumpria-lhe,  ao  menos  por 
equidade,  empenhar-se  para  que  os  navios  fossem  restituídos 
e  a  França  recebesse  a  conveniente  indemnização.  Em  breve, 
porém,  a  diligencia  cahiu  no  esquecimento,  supplantada  por 
assumptos  de  mór  valia,  entre  esses  a  realização  de  um 
tratado  de  commercio,  anhelo  já  antigo  da  corte  de  Versailles. 

Mas  também  d'esta  banda  Oeiras  nutria  receios.  Conje- 
cturava que  a  França  não  tinha  abandonado  as  pretenções 
ao  Amazonas,  e  nos  atacaria  do  Norte  pela  Guyana,  quando 
Qs   hespanhoes   ao   Sul   penetrassem   no   Brasil.    E   factos    em 


RECEIOS   DA  FRANÇA  NO  AMAZONAS  245 


si  de  nenhuma  circumstancia  lhe  confirmavam  as  apprehensôes. 
Por  esse  tempo  o  governo  francês  solicitara  autorização  para: 
um  de  seus  súbditos,  irmão  do  astrónomo  Godin,  voltar 
pelo  Amazonas  a  Quito,  onde,  para  acompanhar  o  sábio 
La  Condamine  em  viagem  de  exploração  scientifica,  deixara 
a  familia.  O  motivo  pareceu  fuíil,  e  se  julgou  traça  de  um 
espia.  Não  foi  recusada  a  licença  na  corte,  mas  no  governo 
do  Grão-Pará  tudo  se  fez  por  impedir  a  viagem.  Madame 
Godin,  êxul  e  desprotegida,  num  assomo  de  arro|o  e  desespero, 
aventurou-se  á  jornada,  rio  abaixo,  com  seus  filhos  e  fâmulos; 
mas,  inexperiente  e  vencida  de  trabalhos  e  privações,  de 
doenças  e  mortes  de  companheiros,  com  pouco  caminho  feito 
voltou  atrás.  Os  incidentes  d'esta  triste  peregrinação  contam-se 
entre  os  mais  trágicos  dos  annaes  das  viagens,  e  o  caso  de 
Madame  Godin,  como  mais  tarde  o  de  Humboldt,  também 
no  Amazonas  i,  permanecem  na  historia  a  dar  testemunho 
da  obcecada  desconfiança  com  que  Portugal  defendia  aos 
extrangeiros  a  entrada  de  seus  domínios.  Pouco  depois,  em 
1767,  o  modo  como  foi  recebido  no  Rio  de  Janeiro  Bougain- 
ville,  que  fazia  a  sua  viagem  de  exploração  austral,  defu 
motivo  a  insistentes  reclamações  por  parte  da  França. 

No  extrangeiro  acoimavam  de  phantastico  o  temor  de 
Oeiras.  O  gabinete  de  Madrid  repulsava  as  suspeitas  de 
intuito  hostil  e,  se  bem  que  o  concurso  de  tropas  e  artilharia, 
na  vizinhança  da  raia,  parecia  em  tal  caso  contradictorio, 
explicava  que  o  facto  correspondia  á  conveniência  de  aquar- 
telamentos,  difficuldade  de  transportes  desde  a  guerra,  e 
outras  circumstancias  de  ordem  intima,  sem  reflexo  algum 
na   poHtica   internacioiíal.    Em    Londres,    o   seu    representante 


^  Em  1800,  governando  D.  João  VI,  então  príncipe  regente,  foi 
expedida  ordem  aos  differentes  governos  do  Brasil  para  ser  capturado 
um  tal  barão  de  Humboldt,  natural  de  Berlim,  que  constava  andar 
em  investigações  scientificas,  tencionando  penetrar  nas  regiões  deser- 
tas, e  desoonhfcidas  até  ahi  aos  naturalistas,  na  provincia  do  Ma- 
ranhão, o  que  para  o  governo  era  caso  muito  suspeito.  D.  Rodrigo 
de  Sousa  Couxinho,  futuro  conde  de  Linhares,  foi  quem  subscreveu 
a   ordem. 


246  RECEIOS    DA    HESPANMA    NO    SUL 


affiançava  os  intentos  pacíficos  do  governo  castelhano;  e  o 
embaixador  francês  fazia,  em  nome  de  Luiz  XV  egual  decla- 
ração, ao  mesmo  tempo  que  particularmente  segurava  ao 
nosso  Enviado  que,  se  a  Hespanha  nos  aggredisse  não  poderia 
contar,  apesar  da  alliança,  com  o  apoio  francês  i.  Mais  tarde, 
lord  Grenville  dizia  no  parlamento,  em  tom  de  mofa,  ser  «o 
medo  que  os  portugueses  teem  da  Hespanha  motivo  de 
multiplicarem  as  cousas  ao  infinito»  ~,  e  pronunciava-se  contra 
o  pedido  de  soccorros,  que  o  nosso  governo  fazia  com 
instancia.  O  próprio  conde  de  Lippe,  chamado  com  urgência, 
parecia  não  dar  credito  aos  boatos  de  guerra,  e  fazia  saber 
que  só  viria  no  momento  preciso  de  pôr  as  tropas  em 
movimento. 

As  seguranças  que  de  toda  a  parte  lhe  vinham  não 
applacavam  comtudo  o  receio  de  Oeiras,  obstinado  além. 
d'isso  em  rehaver  os  terrenos  da  America.  As  controvérsias, 
por  este  motivo  travadas  em  diversos  tempos,  entre  as  chan- 
celarias de  Londres  e  Lisboa,  testemunham  a  preoccupação 
constante  do  ministro  e  a  politica  egoista  do  alliado,  indif- 
ferente  logo  que  não  estava  em  risco  o  seu  commercio,  nem  a 
base  de  operações  navaes,  que  possuia  no  território  portu- 
guês. As  solicitações  repetidas  de  Martinho  de  Mello  julga- 
ram-se  em  Londres  importunas.  Aos  pedidos  instantes  de 
intervenção  e  soccorro  —  Lippe  considerava  indispensável  a 
cooperação  de  tropas  inglesas  —  Grenville,  chefe  do  gabinete, 
e  Halifax,  secretario  de  Estado,  um  após  outro  replicayam 
exigindo  satisfação  ás  queixas  da  colónia  britannica.  Era  um 
meio  de  desviar  a  questão,  frustrando  os  argumentos  que 
não  havia  meio  de  rebater.  Levando  para  esse  terreno  a 
discussão,  reclamavam  sobre  a  quebra  de  privilégios,  mono- 
pólios das  Companhias,  embaraços  ao  commercio  e  certos 
factos  miúdos,  de  interesse  meramente  individual.  «Tantos 
eram    os    vexames  —  arguia    lord    Halifax  —  que    se    tornava 


^     Martinho  de  Mello  ao  conde  de  Oeiras,    14  outubro    1764,   Co!l. 
Pomb.,   Cod    612. 

2     O  mesmo  ao  mesmo,   7  abril   1766,  Cod.   cit. 


INSTANCIAS    POR    AUXÍLIOS    EM    LONDRES  247 

evidente  não  se  querer  em  Portugal  a  amizade  da  Ingla- 
terra» 1.  A  isto  retorquia  Martinho  de  Mello  que  a  guerra 
passada  e  a  que  se  preparava  tinham  por  objecto  defender 
os  interesses  e  as  vantagens  d'esse  mesmo  commercio,  que 
se  dizia  tão  molestado.  Não  havia  melhor  prova  de  affeição, 
iiem  alliança  mais  lealmente  cumprida. 

No  mês  de  março,  um  despacho  de  Oeiras  expunha 
miudamente  as  razões  com  que  o  Enviado  português  devia 
fortalecer  essas  instancias.  Se  a  alliança  da  Inglaterra  não 
podia  garantir  os  tratados,  qual  a  conveniência  que  d'ella 
colhíamos?  Já  a  Hespanha  se  preparava  para  nos  acommetter 
de  mãos  dadas  com  a  França;  e,  como  tudo  mostrava,  devia 
ser  o  principal  theatro  da  lucta  na  America.  Entendia  a 
Grã-Bretanha  ser-lhe  o  nosso  paiz  útil,  e  considerava  os 
portos  do  reino  indispensáveis  ao  seu  commercio?  admittia 
que  o  Brasil  sustentava  a  Bolsa  de  Londres,  e  o  ouro  das 
Minas  engrossava  o  já  enorme  cabedal  do  seu  banco?  Nesse 
caso  porque  não  acudia  prestes  a  defender  as  vantagens 
de  que  aquellas  potencias  ardiam  por  esbulhal-a? 

Á  invocação  d'estes  interesses,  que  o  ministro  reputava 
decisiva,  Halifax,  com  frio  desapego,  redarguia  ter  effecti- 
vamente  a  nação  inglesa  com  Portugal  uma  alliança  para  em 
qualquer  eventualidade  lhe  acudir  e  o  defender.  Mas  nem 
por  isso  lhe  cabia  tomar  por  si  só  o  encargo  de  guardar 
as  colónias,  que  deixávamos  inermes,  nem  haviamos  de 
pretender  que  estivessem  as  tropas  britannicas  de  sentinella 
ás  nossas  minas,  ou  fossem  as  suas  esquadras  em  tempo  de 
paz  impedir  o  transito  aos  navios  castelhanos.  Aconselha- 
va-nos  a  pôr  em  defensão  o  Rio  de  Janeiro,  que  se  achava 
em  deplorável  estado,  de  muralhas  arruinadas,  artilharia 
imprestável,  e  guarnecido  por  quinhentos  homens  somente. 
A  esse  respeito  communicava  o  parecer  de  um  official  britan- 
nico,    que   apostava   a   sua    honra    em    como   seria    capaz   de 


1    Martinho  de  Mello  ao  conde  de  Oeiras,  1  janeiro  1765,  Cod.  cit. 


248  egoísmo     do    GOVERNO    INGLÊS 


tomar  a  cidade  com  um  só  batalhão  em  vinte  e  quatro  horas  ^. 
Estando  assim  a  principal  praça,  não  seria  de  admirar  que 
qualquer  inimigo  entrasse  no  Brasil  á  vontade,  como  em 
sua  casa. 

Acerca  da  restituição  de  territórios  e  da  própria  posse 
da  colónia  do  Sacramento,  Halifax  entendia  não  ter  isso 
para  o  nosso  dominio  na  America  a  importância,  que  lhe 
attribuiamos ;  opinião  defensável,  pelo  tratado  de  1750  annu- 
lado,  e  pelo  que  depois  se  fez  definitivo.  O  duque  de  Cum- 
berland,  tio  do  Rei,  a  quem  Martinho  de  Mello,  por  derradeiro 
recurso  fora  implorar,  para  influir  no  animo  de  Jorge  III, 
furtou-se  á  instancia,  allegando  que  o  mandar  nessa  occasião 
uma  esquadra  ao  Brasil  correspondia  a  declarar  guerra  á 
Hespanha,  cousa  que  a  todo  o  custo  cumpria  evitar,  na 
quadra  em  que  tantas  dissensões  agitavam  interiormente  o 
paiz.  D'este  modo  a  Inglaterra,  encerrada  no  seu  egoismo, 
encontrava  nelle  toda  a  sorte  de  pretextos  para  rebater  as 
concepções  pessimistas,  e  porventura  chimericas,  do  ministro 
de  D.  José. 

Não  desanimava  elle  todavia  de  insufflar  no  gelo  d'esta 
amizade  alguma  scentelha  de  devotamento.  Um  caso  fortuito, 
symptoma  não  extranhavel  do  fanatismo  nacional,  pareceu-lhe 
de  molde  para  isso.  Corria  em  Lisboa,  exaltando  as  paixões 
más  da  gente  baixa,  um  escripto  mystico,  attribuido  a  certa 
freira,  no  género  de  muitos  sabidos  a  lume  em  seguida  ao 
terremoto.  Era  uma  exhortação  ao  povo,  para  desaggravar, 
no  dia  da  sua  festa,  o  Santíssimo  Sacramento,  que  a  impie- 
dade de  tantos  hereges,  existentes  no  reino,  offendia.  Das 
Ínfimas  camadas  o  impulso  ganhou  o  clero  superior.  Algtms 
prelados  ordenaram  preces  publicas.  Dispoz-se  que  ás  oito 
horas  da  noite,  naquella  data,  repicassem  os  sinos,  abrissem 
os  templos  e  se  expuzesse  o  sacrário.  Era  certo,  em  taes 
circumstancias,  concurso  numeroso  ás  egrejas;  e  então  o  que 
não  seria   para   temer?   Uma   palavra   imprudente,   um   aceno 


^     Martinho    de    Mello    ao    conde    de    Oeiras,     14    outubro    1764» 
Cod.    cit. 


AGITAÇÃO    EM    LISBOA    CONTRA    OS  HEREGES  249 

malévolo,  podia  arrojar  a  turba  aos  peores  excessos.  Derra- 
mou-se  o  pânico  em  Lisboa.  As  pessoas  timoratas  fugiram 
da  cidade.  A  Casa  dos  vinte  e  quatro  deu  rebate,  avisando 
o  ministro;  e  este,  com  seu  pulso  vigoroso,  afastou  a  tormenta. 
Na  hora  aprazada  para  a  demonstração  estavam  por  oraem 
das  autoridades  fechadas  as  egrejas;  as  tropas  em  armas; 
dois  religiosos,  cabeças  do  movimento,  em  custodia.  A 
tentativa   abortava   completamente  i. 

Oeiras  não  vacillou  em  se  convencer  de  que,  por  sua 
attitude,  havia  desfeito  um  trama  odioso  dos  inimigos  do 
paiz  no  extrangeiro;  um  conluio  do  Geral  dos  jesuitas  com 
o  dos  dominicos,  hespanhol  de  nação,  para  indispor  comnosco 
a  Inglaterra.  Numa  visão  de  terror  representou-se-lhe  Lisboa 
subversa;  a  gentalha  desenfreada;  á  testa,  de  crucifixo  em 
punho,  a  vomitarem  maldições,  os  frades  que,  como  em 
1506,  conduziam  a  gentalha  ao  massacre  dos  Ímpios.  E  esses 
eram  agora  os  ingleses,  hereges,  apontados  como  taes,  á 
publica  execração.  Como  que  um  novo  terremoto,  com  as 
mesmas  desordens  e  o  mesmo  pavor.  A  alliança  inglesa 
perdida,  a  Europa  horrorizada,  e  na  sombra,  tripudiando,  o 
jesuita  vingativo,  de  braço  com  a  Hespanha,  o  inimigo  cruel 
de  todos  os  tempos,  ambos  a  exultarem  da  nossa  ruina. 

Estariam  de  facto  os  ingleses  ameaçados?  Se  uma  com- 
moção  de  caracter  religioso  rebentasse,  não  ha  duvida  que 
seriam  elles  as  victimas  da  eleição.  O  que  absolutamente  se 
pôde  rejeitar  é  o  trama  como  Pombal  o  imaginou.  Não  existia 
accordo  no  exterior,  nem  preparação  no  paiz,  para  um  movi- 
mento dessa  ordem.  Os  ânimos  batidos  pela  violenta  tyranniá 
não  davam  para  revoltas.  O  numero  restricto  dos  compromet- 
tidos,  quando  a  mais  leve  suspeita  seria  prova  exuberante 
do  delicto,  dissipa  toda  a  idéa  de  conspiração.  E,  todavia, 
desde  que  o  ministro  enxergava  ao  fundo  os  jesuitas,  não 
é  licito  contestar-lhe  sinceridade.  Sinceramente,  pois,  cuidava 
ter  salvo  a  capital  de  uma  conflagração,  sinceramente  invocava 
mais   um  direito  ao   reconhecimento   da   Inglaterra.   Martinho 


^     Oabinefc    Histórico.    XVI,    142,    e    Coll.    Pomb.,    Cod.    Ó34. 


250       DEVOLUÇÃO    DOS  TERRENOS   LITIGIOSOS    NA   AMERICA 


de  Mello,  informado  dos  factos,  possuía  mais  um  elemento 
para  encarecer  a  dedicação  da  alliança.  Ao  deixar  o  governo, 
por  morte  de  D.  José,  Oeiras  jactava-se  ainda  de  ter 
impedido  «um  horroroso  motim,  que  não  deixaria  pessoa 
alguma  viva,  nem  pedra  sobre  pedra  no  palácio  de  S.  M., 
nas  casas  dos  seus  ministros  e  em  outras  da  cidade  de  Lisboa, 
semelhante  ao  de  S.  Domingos  contra  os  judeus  em  1506»  ^. 
Mas  entre  os  coevos,  de  imaginação  menos  viva  ou  mais 
isenta,   o   incidente    não   deixou   impressão    que   perdurasse  -. 


II 


Entrementes  o  embaixador  português  Ayres  de  Sá  insistia 
em  Madrid  pela  devolução  dos  territórios  em  litigio  na 
America.  Grimaldi,  negociando  em  nome  da  Hespanha,  tergi- 
versava, interpretando  á  sua  conveniência  os  artigos  da  paz. 
Determinavam  estes  que  nas  colónias  se  repuzesse  tudo  no 
estado  anterior,  consoante  aos  tratados  preexistentes.  Qual 
d'elles?  perguntava  Grimaldi.  Evidentemente  o  de  Utrecht; 
e  esse  dera  a  Portugal  a  colónia  do  Sacramento,  não  porém 
as  ilhas  que  reclamávamos  no  estuário  do  Prata;  tão  pouco 
as  terras  firmes,  até  ao  oceano  e  á  capitania  de  S.  Pedro, 
em  posse  dos  castelhanos.  Certo  não  podiamos  sustentar  que 
o  território  adjacente  á  praça  —  a  alcance  de  um  tiro  de 
canhão,  segundo  o  tratado  —  abrangesse  assim  um  raio  de 
duzentas  léguas.  A  convenção  de  Paris,  invocada  por  nós, 
pela  qual  cessaram  em  1737  as  hostilidades,  fora  simplesmente 
uma  trégua.  Não  reconhecia  factos  consumadoiSi,  e  a  usurpação, 
que    haviamos    feito    no    Rio -Grande,     não     constituia     direito, 


^  «Memoria  e  relação  dos  papeis  (de  inconfidência,  secretíssimos) 
que  tenho  mandado  á  Real  presença  da  Rainha  minha  Senhora,  para 
os    pôr   em    segura    custodia.»    4    março    1777.    Coll.    Pomb.,    Cod.    6Q'J. 

2  Fr.  Cláudio  da  Conceição  no  Gabinete  Histórico,  tomo  xvi, 
cap.  13,  faz  menção  do  facto,  como  não  sendo  de  consequência,  se  bem 
que    nos    dias    24    e    25    de    março    estivessem    de    prevenção   as    tropas. 


ARGUMENTAÇÃO  DE  ORIMALDI  251 


que  ao  governo  de  Carlos  III  cumprisse  respeitar.  Subindo 
ao  throno  Fernando  VI,  tinham-se  estabelecido  negociações 
para  a  permuta  de  territórios;  mas  de  1750  até  á  morte 
d'aquelle  príncipe  nunca  fora  possivel  realizal-a.  Os  povoados, 
que  a  Hespanha  tinha  de  entregar,  passaram  com  muito 
sacrifício  de  vidas  e  dinheiro  á  posse  dos  portugueses;  mas 
estes  não  mostraram  jamais  tenção  de  abandonar  a  Colónia, 
como  se  tinham  obrigado.  Carlos  III  terminara  a  contenda, 
promovendo  a  derogação  do  tratado.  Per  effeito  d'ella  retro- 
gradavam á  Hespanha  os  povoados;  mas  por  espaço  de  seis 
meses  o  governador  de  Buenos  Ayres  reclamara  debalde  a 
execução  d'essa  clausula.  A  todas  as  instancias  oppimham 
os  occupantes  não  terem  ordens  da  metrópole;  até  que  aquelle 
official,  em  1762,  entrara  em  campanha,  antes  de  saber  que 
na  Europa  as  duas  nações  se  achavam  em  guerra.  El-Rei 
Catholico  cumprira  pois  á  risca  as  disposições  do  tratado, 
e   o  território,   que   não   entregava,   era   legitimamente  seu  i. 

Tal  era  em  resumo  a  argumentação  de  Grimaldi.  A 
memoria,  em  que  a  desenvolveu,  soava  em  certos  trechos 
um  tom  de  ameaça,  que  aggravou  os  receios,  e  levou  ao 
auge  a  impaciência  de  Oeiras.  Eil-o  pois  novamente  a  in- 
sistir pela  interferência  do  gabinete  britannico,  interferência 
não  já  officiosa,  mas  no  sentido  de  comminação,  quasi 
ultimatum.  A  Hespanha  ameaçava  o  Brasil,  cujo  ouro  alimen- 
tava as  manufacturas  e  o  credito  publico  da  Inglaterra.  Perdida 
esta  colónia,  nenhum  laço  mais,  nenhum  interesse  unia 
Portugal  ao  seu  alliado.  Sabiam  isso  os  governos  de  Paris 
e  de  JVIadrid,  e  por  esse  motivo  pretendiam  esbulhar-nos  da 
possessão,  para  desfazer  a  alliança.  Comtudo,  assegurava, 
«uma  ameaça  firme  e  decisiva  de  S.  M.  Britannica  bastará, 
segundo  todas  as  apparencias,  para  conjurar  todo  o  perigo»  -. 

Não  foi  attendida  a  insinuação  e,  a  pouco  espaço,  novo 
incidente  poz  a  corte  de  Lisboa  em  sobresalto.  O  ministro  de 


1  Memorial  de  Grimaldi,   6  fevereiro  1765,  Coll.   Pomb.,  Cod.  635, 

2  Conde    de    Oeiras    a    Martinho    de    Meilo,    16    fevereiro    1705. 
Idem. 


252  NOVAS    COMPLICAÇÕES    COM    A    HESPANHA 


Hespanha  pedia  em  abril  seguinte  (1765)  restituição  das 
propriedades  confiscadas  por  effeito  da  guerra  aos  súbditos 
de  sua  nação ;  e  invocava  o  tratado  de  Utrecht,  pelo  qual 
tinham  os  vassallos  de  ambas  as  coroas  o  prazo  de  seis  meses 
para  sahir  do  paiz  inimigo  e  dispor  de  seus  bens.  Portugal, 
respondendo  á  violência  da  invasão  com  outra  violência, 
reduzira  o  termo  a  quinze  dias,  rompendo  o  tratado ;  e  agora, 
na  discussão  diplomática,  assentava  o  seguinte  principio  sin- 
gular: que  o  estado  de  guerra  annuUava  qualquer  convenção 
precedente   a   ella  i. 

Mais  exacto  seria  allegar  que  o  governo  de  Luiz  XV 
tomara  contra  os  portugueses  egual  providencia,  —  «por 
justa  represália»,  o  decreto  rezava;  e  o  de  Madrid  não  proce- 
dera divereamente.  Mas  o  ministro  attonito  de  vêr  contestada 
a  sua  jurisprudência,  achava  nisso  um  recrescer  das  ameaças, 
e  nova  razão  para  acicatar  a  inércia  britannica. 

Martinho  de  Mello  importunava  em  Londres  a  toda  a 
gente,  ministério,  politicos  influentes,  pessoas  da  corte  e  do 
parlamento.  Pela  centésima  vez  enumerava  os  prejuízos  immi- 
nentes  para  a  Inglaterra.  Pois  o  que  seria  do  paiz,  perdido 
o  Brasil?  A  opinião  unanime  dos  ingleses  era  que  nenhum 
sacrifício  parecia  excessivo  para  obviar  a  tal  damno.  Porque 
se  não  rendia  o  governo  á  razão?  Mas  todo  o  esforço  da 
dialéctica  resultava  improfícuo.  O  estado  combalido  das 
finanças  — 140  milhões  sterlinos  de  divida  —  impedia  as  aven- 
turas. Estava  lavrando  nas  colónias  da  America  um  fermentar 
de  mau  presagio,  e  no  interior  as  desavenças  de  partidos 
davam  azo  a  preoccupações.  Primeiramente  se  devia  acudir 
ao  domestico;  depois  se  cuidaria  dos  alliados.  E  Martinho 
de  MellOj  melancólico,  recordava  os  factos  da  véspera :  em 
1762  a  Inglaterra  pudera  mandar  uma  expedição  á  Havana, 
e  não  destinara  mais  que  uma  exigua  força  á  defesa  de 
Portugal.  Tinhamos  afinal  de  contar  somente  com  os  meios 
de   casa.   «Só    quando   a   Grã-Bretanha   nos   vir   poderosos    e 


1     Officio   de   ministro   de   França   Saint   Priest,    Quad.    Elem.,   VII, 
201. 


AQUÉM    E    ALEM    DO    GUADIANA  253 

resolutos  —  dizia  —  ha  de  tratar-nos  como  alliados  e  não  como 
dependentes»  i.  Descobrira  assim  o  diplomata  o  âmago  d'es3a 
indifferença,  tão  conhecida  do  primeiro  ministro,  seu  superior, 
que  por  uma  contradição,  filha  do  desejo,  sobre  ella  agora 
se  queria  cegar. 


III 


Para  acabar  a  paz  ajustada,  restava  ainda  á  Hespanha 
um  ponto  em  litigio  com  o  governo  britannico.  Exigia  este 
o  preço  do  resgate  de  Manilha  —  dois  milhões  de  pesos 
offerecidos  pelo  arcebispo  governador,  para  conjurar  o  saque 
da  cidade,  assediada  pelos  ingleses.  Carlos  III,  pertinaz,  recu- 
sava; o  gabinete  de  Londres  insistia,  e  o  debate  tornou-se 
assas  violento  para  em  Madrid  suppôrem  que  a  Inglaterra  se 
dispunha  a  reabrir  as  hostilidades,  acompanhada  por  nós. 
D'esta  sorte,  de  cá  e  de  lá  do  Guadiana  existiam  receios, 
astutamente  aproveitados  pela  corte  britannica,  para  de  uma 
parte  jungir  Portugal,  com  a  mira  no  seu  amparo,  á  alliança, 
e  conserval-o  na  sujeição  commercial;  de  outra,  para  forçar 
Carlos  III,  pela  ameaça,  á  fiel  execução  dos  tratados,  e  no 
terreno  mercantil  extorquir-lhe  as  vantagens  que  ambicionava. 
Em  Madrid  o  seu  representante  mandava  espreitar  os  passos 
do  Enviado  português,  na  inquietação  de  que  algum  accordo 
particular  desvanecesse  a  cizânia;  e,  num  arroubo  de  confiança, 
que  passaria  por  leviano  se  não  fosse  arrogante,  chegou  a 
manifestar-lhe  um  dia  que  o  interesse  do  seu  governo  em 
Portugal,  era  idêntico  ao  de  França  com  Hespanha:  manter 
a  desconfiança  para  firmar  a  existente  dependência  2. 

Suggerida  ou  natural  que  fosse  a  discórdia,  certo  é  que 
esta  lavrava,  e  para  os  menos  perspicazes  o  horizonte  obscu- 
recia. Do  Brasil  chegara  aviso  de  andar  uma  divisão  castelhana 


1  Carta  ao  conde  de  Oeiras,  7  abril   1766,   Coll.  Pomb.,   Cod.  611. 

2  Ayres    de    Sá    ao    conde    Oeiras,    25    abril    1766,    Coll.     Pomb., 
Cod.    612. 


254  AS   FORÇAS  ARMADAS   DE  PORTUGAL 

de  quatro  naus  e  cinco  fragatas  singrando  na  costa.  Um 
considerável  corpo  de  tropas  ameaçava  alli  a  fronteira  meri- 
dional; e  na  Europa,  a  agglomeração  de  forças  na  raia  dava 
indicios  de  não  serem  também  pacificos,  d'este  lado  do 
Atlântico,   os   intuitos   da   Hespanha. 

Não  é  portanto  de  extranhar  continuassem  entre  nós 
os  aprestos  militares.  O  effectivo  do  exercito  que,  realizada 
a  paz,  se  considerava  inútil  conservar  no  mesmo  pé,  restabe-. 
leceu-«e  de  novo.  Muitos  officiaes  tinham  sido  então  licen- 
ciados; para  os  substituir,  Martinho  de  Mello  contractou  em 
Londres  extrangeiros,  principalmente  allemães  e  ingleses  que, 
mais  disciplinadores  e  hábeis  na  arte  da  guerra,  suppriam' 
a  insufficiencia  notória  dos  nacionaes.  Seguindo  o  aviso  da 
Inglaterra,  promovia-se  a  defesa  do  Brasil,  para  onde  alguns 
d'esses  militares  foram  destacados,  afim  de  organizarem  a 
defesa  colonial. 

Martinho  de  Mello  computava  nesse  tempo  o  exercito 
em  trinta  mil  homens,  e  dava  a  esquadra  com  doze  naus. 
Uma  carta  sua  ao  conde  de  Oeiras  encarece  o  luzimento 
das  tropas,  que  vira  manobrar  em  Villa-Viçosa,  sob  as  ordens 
do  conde  de  Lippe,  com  garbo  não  inferior  ao  dos  granadeiros 
bretões.  Lisonja  ao  ministro,  jactancioso  de  primar  em  tudo 
a  que  se  applicava;  cegueira  do  patriotismo,  ou,  porque 
havemos  de  lh'o  recusar?  expressão  da  verdade,  tudo  isso 
podia  ser.  Mas,  após  a  retirada  do  general  em  chefe,  iQ 
desleixo  era  quasi  o  mesmo  de  outr'ora.  Os  soldos  andavam 
em  dia  ainda,  mas  o  cuidado  pelos  fardamentos  decahira, 
e  os  recrutas  escasseavam  i.  Lippe  que,  instado  no  anno 
antecedente  para  voltar,  promettera  o  seu  concurso,  exigia 
que  primeiro  se  preparasse  tudo  convenientemente :  parque 
de  artilharia,  armas,  viaturas,  cavallos,  e  municiamento  das 
fortalezas ;  «mas,  accrescentava,  nada  é  mais  importante  do 
que   um   contingente   de   tropas   inglesas»  ^.   Vê-se   d'ahi   que 


^     Ofíicio    do    Saint-Priest,    Qiiad.    Elem.,    7.o,    205. 
-     Conde   de   Lippe   a   Martinho   de   Mello,    10   janeiro    1765,    Coll. 
Pomb.,   Cod.   612. 


POLÍTICA    DOBLE    DA    INGLATERRA  255 


era  ainda  mediana  a  sua  confiança  no  soldado  português, 
O  ministro  francês  Saint-Priest  achava  que,  nas  cousas 
militares,  «o  conde  de  Oeiras  tinha  pouco  expediente»  '.  Ura 
viajante  inglês,  por  informação  de  officiaes  seus  patricios 
ao  serviço  de  Portugal,  refere  que  «apenas  o  conde  de  Lippe 
se  foi  embora  a  execução  dos  regulamentos  começou  a 
relaxar-se;  o  ministro,  que  nunca  gostou  de  tropa,  pouco 
depois  publicou  leis  que  abrogavam  muitos  d'elles»  ^.  Ao 
mesmo  Saint-Priest  parecia  impossível  que  Oeiras  pensasse 
em  arremetter  contra  a  Hespanha,  no  estado  deplorável  erii 
que  se  achavam  as  finanças  que  «com  uma  nova  guerra 
ficariam  de  todo  em  todo  arruinadas»  ^.  Outro  diplomata, 
o  conde  Welsperg,  representante  de  Áustria,  communicava 
ao  seu  governo:  «As  queixas  pela  falta  de  dinheiro  isão 
geraes,  e  cada  vez  maiores.  Os  pagamentos  da  corte  e  do 
thesouro  dia  a  dia  são  mais  difficeis.»  \  Sem  embargo,  o 
ministro,  para  recobrar  os  terrenos  na  America,  e  antecipar-se 
aos  golpes  do  visinho,  não  tinha  outra  idéa  senão  a  guerra. 
Em  setembro  mandou  um  despacho  a  Conway,  secretario 
de  Estado  britannico,  requerendo  novamente  o  soccorro 
militar,    que   os   tratados   affiançavam. 

O  governo  inglês  continuava  a  excusar-se;  e  quando  se 
lhe  arguia  que  o  golpe  dos  Bourbons,  apontado  contra  nós, 
ia  por  derradeiro  feril-o  a  elle,  replicava  que  a  debilidade 
dos  (castelhanos  permittia  a  Portugal  defender-se  com  vantagem 
em  ambas  as  partes  do  mundo.  Quando  interviesse  a  França, 
então  sim,  competia  ás  armadas  da  Inglaterra  fazel-a  recuar. 
Nestas  solicitações  e  recusas,  intermeadas  com  a  discussão 
sobre  as  regalias  e  queixas  da  colónia  inglesa  em  Portugal, 
passaram  as  relações  diplomáticas  até  ao  anno  seguinte.  Nessa 
época  pareceu  o  ministério  accessivel  ás  razões  de  Oeiras, 
ou   lhe    approuve    valer-se    d^ellas    para   as    conveniências    da 


1  Qiian.   Elein.,    7.c>,    205. 

'  Cartas    de    Arthur    William    Costigan,    Coll.    Pomb.,    Cod.     682. 

5  Qaad    Elem.,    7.o,    166. 

*  Di'HR,    Pombal,    46, 


25'í  AGITAÇÃO     NA    AMERICA     INGLESA 

sua  politica.  Tinham-se  as  colónias  da  America  levantado 
contra  a  lei  do  sello,  primeiro  dos  aggravos  que  conduziram 
á  separação.  Na  Inglaterra  grande  fervor  agitava  os  ânimos. 
Dividiu-se  a  opinião  em  dois  partidos;  mas  as  pessoas  de 
juizo  ponderado,  os  mais  eminentes  politicos  eram  pela  imme- 
diata  revogação  do  edito  infeliz,  e  foi  esse  alvitre  o  que  o 
governo   abraçou. 

Não  logrou  todavia  realizal-o  sem  grande  contradita  no 
parlamento,  O  debate  foi  longo  e  renhido;  durou  muitos 
dias.  Pitt  interveio  com  o  peso  da  sua  eloquência,  que  logo 
fez  pender  a  balança ;  e  Conway  triumphou  accusando  a 
opposição  de  impellir  o  paiz  a  uma  guerra  intestina,  no 
próprio  instante  em  que  seria  preciso  acudir  a  Portugal, 
ameaçado  de  invasão  na  peninsula  hispânica  e  no  Brasil.  Foi 
nessa  occasião  que  lord  Grenville,  defendendo  a  lei  que  tinha 
sido  obra  sua,  proferiu  a  escarninha  phrase,  atraz  citada, 
sobre  o  temor,  em  que  sempre  nós,  portugueses,  vivíamos 
da  Hespanha. 

Bem  sabia  Conway  que  as  suas  palavras  haviam  de  ter 
eco  fora  do  parlamento;  que  a  opinião,  sobresaltada  pelo 
que  occorria  nas  colónias,  mais  impressionada  seria  pelo 
risco  de  perder  o  commercio  do  Brasil.  Declarou-se  ella 
intensamente  em  favor  do  g^overno,  e  a  lei  inconveniente  foi 
derogada.  Depois  d'isso  nenhuma  allusão  mais  ao  facto  invo- 
cado nas  camarás ;  nenhuma  disposição  que  permittisse  a 
Portugal  uma  esperança.  O  estratagema  produzira  o  effeito; 
não  havia  razão  de  se  pensar  nelle  outra  vez. 

Senão  quando,  um  successo  imprevisto  de  todo  em  todo 
transmudou  a  situação,  e  orientou  por  algum  tempo  em  rumo 
diverso  a  politica  de  Oeiras.  Desenganado  da  Inglaterra, 
entrava  afinal  a  reconhecer  que  só  com  o  esforço  próprio  da 
nação  devia  contar  perante  as  ameaças  de  Castella,  quando 
em  fins  de  março  de  1766,  a  revolta  dos  sombreiros  em  Madrid 
lhe  deparou  ensejo  de  converter  em  gratidão  a  inimizade, 
que  julgava   romperia   contra   nós   em  actos  de  violência. 


POMBAL     NÃO    FOI     UMA    EXCEPÇÃO  257 


IV 


A  commoção  popular,  que  obrigou  Carlos  IH  a  fugir 
da  capital,  e  teve  por  consequência  a  expulsão  dos  jesuítas 
de  Hespanha,  e  por  ultimo  a  anniquillaçao  da  ordem,  proveio 
de  causas  que,  á  primeira  vista  mesquinhas,  todavia  se  radi- 
cavam nesse  descontentamento  geral,  em  toda  a  parte 
suscitado  pelo  absolutismo  no  decimo  oitavo  século.  Reis 
philosophos  e  ministros  esclarecidos,  á  porfia  reformavam 
os  costumes,  destruíam  os  abusos,  introduziam  leis  novas, 
e  se  esforçavam  por  tirar  das  ruínas  do  passado  a  Europa 
nova.  Pombal  não  foi  uma  excepção  na  sua  época.  Frederico 
o  grande,  Maria  Theresa,  a  própria  Catharina  da  Rússia^ 
vogavam  na  rota,  marcada  pela  philosophia.  Tanucci,  Aranda, 
Struensee  abatiam  instituições  e  estylos  anachronicos,  que 
se  não  compadeciam  já  com  a  civilização  reinante.  Mas  a 
obra  dos  soberanos  e  estadistas  era  incompleta,  e  attendia 
menos  ás  necessidades  dos  povos  do  que  ás  conveniências 
do  throno.  Tendia  tudo  a  consolidar  o  poder  régio,  e  o 
que  se  fazia  a  bem  dos  vassallos  visava  a  reverter  proveito 
ao  monarcha.  Não  obstante  o  propósito,  isso  foi  o  inicio  da 
mudança,   que  a   revolução  francesa  apressem. 

Em  Hespanha,  o  ministro  Esquilache,  trazido  de  Nápoles 
por  Carlos  III,  era  da  nova  escola.  Duas  reformas  suas  deram 
causa  a  vivo  desgosto:  a  prohibição  do  trajo  nacional  de 
capa  e  chapéo  de  abas  largas,  e  a  illuminação  nocturna  das 
ruas,  ambas  no  interesse  da  ordem  publica.  Offendeu-se  o 
orgulho  pátrio  dos  castelhanos  de  que  um  extrangeíro  preten- 
desse excluir  o  vestuário,  que  por  gosto,  conveniência  e 
habito  de  muitos  annos  lhes  era  caro.  A  determinação  sobre 
as  luzes  implicava  com  a  economia  das  famílias :  açambarcou 
por  algum  tempo  o  sebo,  com  que  as  menos  abastadas  se 
illumínavam,  e  forçou  ao  consumo  do  azeite,  o  que  trans- 
tornava os  usos  de  muitas  pessoas,  e  para  os  pobres  seria 
talvez  gravoso  encargo.  De  mesquinhas  causas  resultam  ás 
vezes   effeitos   grandiosos;    e    tão    frívola    pareceu    a    d'esta 

o    MARQUÊS     DE     PO.VifíAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  17 


258  VINGANÇA    PELA    BIZARRIA 


sublevação  que  o  govefrno  se  lançou  a  buscar  a  origem  d'ella 
em  outras  de  mais  envergadura,  attribuindo-a  primeiro  a 
machinações  da  França,  depois  a  meneios  da  Companhia  de 
Jesus,  que  por  isso  pagou. 

Esta  suspeita,  que  lisonjeava  a  idéa  fixa  de  Oeiras, 
suggeriu-a  elle  desde  logo,  e  de  gosto  contribuiu  para  manter 
nessa  pista,  evidentemente  falsa,  a  Carlos  III,  que  outras 
razões  tinha  já  para  suspeitar  dos  jesuitas.  A  primeira  voz 
do  succedido  correu  Oeiras  á  casa  do  embaixador  de  Castella, 
a  offerecer  os  serviços  do  seu  soberano:  soccorro  de  tropas, 
se  fosse  necessário  e  apertada  vigilância  na  raia,  para  não 
deixar  escapula  aos  inculpados.  O  Enviado  Ayres  de  Sá 
repetiu  a  offerta  em  Madrid,  já  quando  a  reservada  attitude 
do  gabinete  francês  incitava  á  presumpção  de  ser  elle  o  que 
fomentara  a  revolta.  Tão  generoso  proceder  do  governo  de 
Lisboa,  que  só  tinha  aggravos  da  Hespanha,  produziu  viva 
impressão,  e  foi  em  Madrid  encarecido  ao  extremo.  Dizia-se 
na  corte  que  «El-Rei  de  Portugal  se  tinha  bem  vingado 
d'El-Rei  Catholico  pela  bizarria»  i.  O  embaixador  português 
passou  a  ser  o  diplomata  de  mais  credito  no  paço,  onde 
levava  as  insinuações  de  Oeiras,  em  nome  da  rainha  D.  Ma- 
ria Anna,  como  advertências  de  irmã  a  irmão.  Ao  publicar-se 
o  indulto  pelo  crime  de  sublevação,  mandou  lella  inculcar  que 
o  facto  prejudicava  as  averiguações  em  andamento,  para  a 
descoberta  dos  motores.  Aqui  transluz  não  o  interesse  "fraterno 
da  Rainha,  mas  a  dureza  implacável  do  ministro;  e  de  seu  amo*, 
o  taciturno  D.  José.  Perdoar  era  um  acto;  ide  debilidade  contra 
o  qual,  em  um  e  outro,  todas  as  fibras  do  prganismo  se  re- 
voltavam. Não  podia  verter-se  no  esquecimento  a  offensa  *á 
majestade  real,  diminuída  em  seu  prestigio  por  essa  impunida-= 
de.  Por  muito  menor  delicto,  em  1757,  vinte  e  seis  sentenças 
capitães  se  tinham  pronunciado,  além  das  outras  penas  com  que 
foram  castigados  os  tumultos  do  Porto.  Mas  ás  razões  de  ordem 
politica   accrescia  o  sentimento   do  ministro   contra   os  jesuitas. 


1     Avres   de   Sá   ao   conde  de  Oeiras,    25   abril    1766,    Coli.    Pomb.j 
Cod.    636. 


SQUÍLLACE  E  ARANDA  259 


Choiseul  usava  dizer  que  elle  tinha  sempre  um  a  cavallo  no 
nariz   i. 

Todas  as  ciasses  em  Hespanha  se  achavam  nesse  tempo 
indispostas  com  o  governo ;  o  povo  pelo  peso  dos  tributos 
e  carestia  dos  géneros;  os  frades,  os  clérigos  e  a  nobreza  por 
lhes  não  respeitarem  as  immunidades;  todos  por  aversão  aos 
extrangeiros,  trazidos  pelo  Rei,  e  ás  novidades  do  governo. 
A  influencia  da  corte  francesa  parecia  baixar,  supplantada  nos 
conselhos  por  uma  politica  menos  cegamente  atrelada  á  do 
ramo  principal  dos  Bourbons.  E  assim,  «franceses,  jesuitas, 
militares,  grandes,  magistrados,  ecclesiasticos,  depois  do  motim 
principiado,  fizeram  tudo  que  podiam  para  conduzir  S.  M. 
a  despedir  o  ministro  Squillace»  -;  informava  o  representante 
de  Portugal.  O  Rei  viu-se  forçado  a  ceder  á  vontade  dá 
nação  e  destituiu  o  ministro.  Começou  então  a  autoridade  de 
Aranda,  castelhano  esse,  homem  de  pulso,  capaz  de  subjugar 
as  velleidades  de  nova  rebeilião;  a  par  d'isso  propenso  4 
França,  impregnado  do  espirito  da  Enc3Tlopedia  e,  como  tal, 
declarado  adversário  dos  jesuítas. 

Estes  últimos  já  tinham  também  queixas  de  Esquiiache. 
Lastimavam-se  de  se  lhes  mostrar  o  governo  sempre  hostil, 
não  sendo  a  menor  de  suas  penas  o  favorecer  a  corte  a- 
canonização  pretendida  do  famoso  Palafox,  qu€  fora  bispo  no 
México,  clássico  espantalho  da  Companhia.  Era  muito  d'elles 
o  antigo  ministro  marquês  de  Enseiíada,  grande  terciário^ 
referia  Ayres  de  Sá,  isto  é,  secular  filiado  á  ordem,  jésuite  de 
robe  coiirte ;  e  não  deixa  de  ser  plausível  que,  por  ciúme 
politico,  tivesse  elle  acirrado  descontentamentos,  dos  que 
levaram  á  revolta.  De  toda  a  forma  é  certo  que  o  marquês 
foi  desterrado,  e  o  seu  affecto  aos  jesuítas  serviu  de  indicio 
contra  elles. 


^  Cf.  Saint  pRiPST,  Histoire  de  la  chute  des  jésuites.  Paris  18J4, 
pag.    33. 

2  Ayres  de  Sá  a  D.  Luiz  da  Cunha,  24  abril  1766,  Coll.  Pomb., 
Cod.  636.  Squillace,  nome  verdadeiro  do  ministro,  transcripto  em  cas- 
telhano Esquiiache. 


260  A    GUERRA    AOS    JESUÍTAS 

Segundo  historiadores  graves  i,  alguém  inculcara  íao 
monarcha  que  a  Sociedade  de  Jesus  machinava  depôi-o,  e 
para  o  fim  se  valeria  de  documentos,  adrede  preparados,  que 
o  davam  por  filho  adulterino,  e  como  tal  illicitamente  reinante. 
Por  esse  facto  revertia  a  coroa  a  D.  Luiz,  seu  irmão.  Uma 
carta  apocrypha  do  Geral,  padre  Ricci,  provava  a  conspiração. 
Pela  terceira  vez,  em  pouco  tempo,  á  ordem  jesuítica  se 
attribuia  o  propósito  de  eliminar  um  soberano  desaffecto 
e  levar  ao  poder  outro  príncipe.  A  isso  tendera  o  attentado 
do  duque  de  Aveiro,  de  que  a  davam  por  cúmplice.  Em  França 
lançou-se-lhe  á  conta  a  tentativa  de  Damiens,  contra  Luiz  XV, 
que  vivia  em  perenne  terror  dos  jesuítas,  e  desconfiado  do 
Delphim  Seu  filho,  cuja  protecção  elles  possuíam.  A  identidade 
dos  processos  não  faz  honra  á  inventiva  d'essa  gente  ardilosa, 
e  duas  experiências  mallogradas,  em  Paris  e  Lisboa,  não 
Seriam  incentivo  á  terceira.  Sem  embargo,  poderia  acudir 
a  idéa  ao  espirito  de  seus  emulos,  fortalecer-se  pela  analogia 
das  situações,  e  abalançar-se  algum  mais  ousado  a  exploral-a, 
consciente  da  falsidade.  Tudo  quanto  se  passou,  na  guerra 
intentada  á  Companhia  de  Jesus,  testifica  a  credulidade  e  a 
falta  de  escrúpulos  dos  seus  adversários. 

De  qualquer  modo,  Carlos  III  achava^se  capacitado  de 
que  a  revolta  dos  sombreiros  resultava  de  um  trama  contra  & 
sua  pessoa,  que  não  vingara  por  circumstancias  fortuitas. 
Os  aprestos  da  conspiração  estavam  feitos  para  a  quinta-íeira 
santa.  No  acto  da  visitação  das  egrejas  os  conjurados  cercavam 
o  monarcha;  talvez  lhe  poupassem  a  vida,  mas  lançariam  mão 
de  violências  para  lhe  imporem  condições.  Os  jesuítas  eram 
da  conspiração,  com  certeza.  Suas  investigações  haviam 
semeado  o  descontentamento  no  povo.  Houve  quem  dissesse 
vêl-os  distribuir  dinheiro  aos  amotinados,  e  o  fervor  da  plebe 
acalmou-se  quando  elles,  como  pacificadores,  intervieram.  Tal 
era  a  convicção  do  Rei,  baseada  nos  suspeitos  inquéritos.  A 
expulsão  foi  por  isso  resolvida.   Executou-se  quasi  um  anno 


'     Ranke    c    d'esse    numero.    Vej.    Die    rômischen    Pãpste,    Leipzig. 
1885,    3.0,    137. 


ALLIANÇA    CONTRA    A    INGLATERRA  261 

depois,  a  2  de  abril,  por  ordens  secretamente  expedidas,  e 
que  se  cumpriram  no  mesmo  dia  e  á  mesma  hora,  por  toda 
a  parte,  no  território  castelhano, 

Oeiras  exultava,  vendo  um  dos  seus  anhelos  mais  caros 
realizados.  «Para  conseguir  isto  era  capaz  de  dar  |uma  provinciV 
de  Portugal»,  dizia  Saint-Priest  i.  Não  iria  tão  longe,  mas 
a  prevenção  contra  o  vizinho  importuno,  tradicional  inimigo, 
esvaeceu-se,  como  por  maravilha.  Deixando  de  parte  as 
questões  em  litigio,  logo  em  maio  alvitrava  o  pôr-se  ponto 
em  todos  os  negócios  políticos,  para  fazerem  as  duas 
monarchias  causa  commum  perante  a  Cúria  romana,  e 
exigirem  a  suppressão  dos  jesuítas.  Em  setembro  dá  ordens 
para  que  os  governadores  do  Brasil  façam  transportar,  por 
conta  do  Estado,  os  regulares  que  as  autoridades  castelhanas 
entregarem  nas  fronteiras.  Ao  mesmo  tempo  manda  suspender 
as  hostilidades  no  Rio  Grande,  e  retornar  quaesquer  terrenos- 
adquiridos  pelos  nossos  desde  maio.  O  gabinete  de  Madri<í 
correspondia  de  modo  affectuoso  e  confiante.  Dava  a  entender 
que  a  questão  de  limites  se  poderia  concluir  «a  favor  de 
Portugal».  Propunha  uma  alliança  defensiva  para  garantia 
reciproca  das  possessões  sul-americanas.  Suggeria  que  o 
inimigo  commum  podia  afinal  ser  a  Inglaterra  ^.  '<Se  aquelía 
potencia  —  dizia  Grimaldi  —  tomasse  por  conquista  algumas 
terras  aos  hespanhoes,  adquiriria  com  isso  mais  facilidade 
para  extender  o  seu  império  sobre  o  Brasil,  e,  apossando-se 
de  uma  parte  d'este,  ficariam  as  índias  hespanholas  mais 
ameaçadas  e  'expostas  a  seus  insultos»  ^.  D'esta  forma  demon- 
strava a  vantagem  commum  do  pacto. 

Hypnotizado  pela  visão  da  roupeta,  que  o  enfurecia. 
Carvalho  acceitou  a  insinuação,  e  tanto  mais  que  do  lado  da 
Grã-Bretanha  é  que  lhe  parecia  soprar  agora  o  vento  hostil, 
O  'monopólio  das  Companhias  do  Grão-Pará  e  dos  Vinhos 
continuava  a  ser  em    Londres   objecto  de  escândalo.   Alli  se 


1  Quad.    Elem.,    7.o,    203. 

2  Quad.  LUm..   8.o,    130,   131. 

3  Idem,    7.0,    276. 


262  OS   jesuítas   ENTENDIDOS   COM   OS   INGLESES 

tinha  dado  á  estampa  um  pamphleto  sob  o  titulo  de  .Memorias 
do  cônsul  e  feitoria  britannica  em  Lisboa,  no  qual  se  achavam 
expostas  com  vivacidade  as  reivindicações  contra  a  adminis- 
tração pombalina.  As  gazetas  chamavam  incessantemente  para 
os  factos  a  attenção  do  governo,  e  este  por  seu  turno  insistia 
nos  protestos,  a  que  o  primeiro  ministro  português,  inflexível, 
cerrava  os  ouvidos.  Um  novo  representante,  Littleton,  fora 
escolhido  pela  sua  reputação  de  energia,  para  dar  impulso 
ás  reclamações  infructuosas  de  Kinnoul  e  Hay.  Em  Lisboa, 
a  Golonia  gritava  seus  descontentamentos.  Oeiras  persua- 
dia^e  já  que  a  celeuma  de  Londres  era  também  obra  dos 
jesuítas.  Em  todo  o  caso,  enervado  pela  opposição  aos  seus 
planos  económicos,  e  entregue  ao  deslumbramento  da  victoria 
sobre  aquelles  odiados  inimigos,  não  podia  ser  inaccessivel 
á  suggestão;  mormente  quando  Choiseul  llie  inculcou  que 
os  ingleses  pensavam  em  fomentar  uma  sublevação  no  rio 
da  Prata,  com  o  concurso  dos  regulares.  À  novidade,  o 
ministro,  attingido  na  corda  sensível,  tornou  inflammado  que 
tal  proceder  seria  «como  uma  declaração  de  guerra,  que 
faria  mudar  todo  o  systema  da  corte  de  Portugal»  i.  Inoculada 
esta  persuasão  no  espirito  de  Carvalho,  triumphava  a  politica 
dos   Bourbons. 

Convicto,  o  ministro  escrevia  ao  conde  da  Cunha,  vice-rei 
do  Brasil,  dizendo-lhe  que  «a  expulsão  dos  jesuítas  de 
Hespanha  convertera  em  amigos  os  nossos  inimigos,  e 
segundo  toda  a  apparencia  em  inimigos  os  que  eram  nossos 
amigos  e  alliados»  2;  e  referia  acharem-se  os  jesuítas  de 
intelligencia  com  os  ingleses,  a  quem  tinham  prom.ettido 
introduzil-os  em  todos  os  domínios  portugueses  e  castelhanos 
ao  sul  da  linha  equinocial,  provocando  para  isso  uma  suble- 
vação dos  indígenas  com  pretextos  de  religião.  Continuava 
mostrando  que  esta  acção  combinada  do  governo  britannico 
e  Companhia  de  Jesus,  de  três  modos  poderia  manifestar-se: 
«Primeiramente    fornecerem   os    ingleses    aos   jesuítas    tropas, 


1     Quad.    Elem.,     7.o,    277. 

-     Officio    do    Conde    de    Oeiras    ao    conde    da    Cunha,    20    junho 
1767,    Saint    Pkiest,    Chute   cies    jésuites,    293   e    seg. 


I 


INIMIGOS    PÉRFIDOS   E    DECLARADOS  263 


armas  e  munições,  e  esconderem  os  braços  que  davam  os 
golpes,  cobrindo  os  militares  com  as  roupetas  da  Com- 
panhia, como  já  por  vezes  se  havia  feito;  e  dizer  a  corte 
de  Londres  que  íudo  isso  era  o  effeito  do  immenso  poder 
dos  jesuitas,  se  bem  que  semelhante  poder  militar  seja  tão 
fraco  quanto  chimerico,  como  a  experiência  da  ultima  guerra 
nos  mostrou. , .  Na  segunda  hypothese  os  ingleses,  levados 
pela  sua  cobiça  insaciável,  pela  alta  opinião  que  teem  do 
poder  e  dos  tramas  dos  jesuitas,  e  pelo  pouco  caso  que  nós 
sabemos  que  elles  fazem  das  forças  que  temos  naqueUas 
partes,  poderão  tentar  estabelecer-se  alli,  e  mandar  expedições, 
àllegando,  como  pretexto  do  rompimento  com  a  cnrte  de 
Madrid,  que  eila  lhes  não  quiz  pagar  o  resgate  de  Manilha, 
e  desculpando-se  para  comnosco  com  pretextos  simulados, 
taes  como  estes:  que  as  conquistas  no  território  castelhano 
nos  não  offendem;  ou  que  elles  não  vão  atacar  a  margem 
septentrional  do  rio  da  Prata,  que  confessam  pertencer  a 
Portugal,  segundo  os  ti  atados,  senão  as  possessões  de  Hes- 
panha,  na  margem  meridional  d'aquelle  rio,  e  paizes  contíguos. 
Em  ultima  hypothese,  poderão  os  ingleses  também  atacar 
os  domínios  de  S.  M.  á  força  aberta,  declarando-nos  a  guerra, 
e  tomando  por  pretexto  um  grande  numero  de  imposturas 
e  de  calumnias,  que  os  supraditos  jesuitas  teem  divulgado 
contra  nós  ultimamente  nos  papeis  públicos,  que  diariamente 
circulam  na  cidade  de  Londres.»  De  toda  a  maneira,  concluía 
elle,  seria  inconveniente  a  Portugal  a  presença  dos  ingleses 
naquellas  paragens,  e  bastava  o  irem  acommetíer  lá  a 
Hespanha  para  nós  termos  de  os  considerar  e  tratar  como 
inimigos  pérfidos  e  declarados»,  que  só  fitavam  a  esbulhar 
Portugal  de  suas  possessões  i. 

A  insinuação  era  infundada,  e  traça  de  Choiseul,  sôfrego 
de  nos  afastar  da  Inglaterra,  considerando  agora  desejável 
a  tríplice  alhança,  cuja  proposta  em  1762  tinha  sido  um  fingi- 
mento. Além  d'isso  pretendia  realizar  um  tratado  de  commercio 
vantajoso,  e,  lisonjeando  a  paixão  favorita  de  Oeiras,  que 
era  o  ódio  aos  jesuitas,  estava  certo  de  triumphar. 


1     Officlo  cit.,  Saint   Priest,   293. 


264  OS     jesuítas     EM     FRANÇA 

Desde  a  'guerra,  a  situação  da  Sociedade  em  França  tinha 
mudado  completamente.  Cedendo  á  vontade  dos  parlamentos, 
Luiz  XV  mandara  expulsar  os  jesuítas,  confiscara-lhes  as 
propriedades,  e  supprimira  finalmente  o  instituto  nos  seus 
dominios.  Depois  d'isso  os  religiosos  tinham  sido  autorizados 
a  voltar  a  França,  mas  secularizados.  A  extincção  definitiva 
pelo  Pontífice  era  o  que  se  não  pedira  ainda.  Animado  por 
estes  factos,  e  cuidando  já  levar  os  Bourbons  na  orbita  da 
sua  politica,  Oeiras  correspondeu  ás  propostas  de  Choiseul 
com  um  projecto  de  acção  conjunta  de  Portugal,  França  e 
Hespanha,  para  forçar  o  Pontífice  a  supprimir  o  instituto  de 
Loyola,  e  dar-se  na  arrogância  da  Cúria  romana  o  golpe 
decisivo.  No  seu  orgulho,  chegava  a  pensar  que  por  este 
passo  !se  alcançaria  a  reforma  dos  abusos  introduzidos  na 
Egreja,  e  que,  extirpados  elles,  acaso  voltariam  ao  grémio 
catholico  as  nações  que  do  mesmo  viviam  apartadas  i.  Por 
sua  influencia,   pois,   o   protestantismo  desappareceria. 

Desde  ahi  a  idéa  d'esta  intervenção  absorv^e-lhe  todos 
os  cuidados.  Em  novembro,  o  embaixador  Ayres  de  Sá 
apresenta  em  Madrid  um  memorial  que  recapitula  o  estado 
da  questão  com  a  Santa  Sé,  e  mostra  a  insufficiencia  tios 
meios  suaves  para  se  conseguir  do  Papa,  coacto  pelos  jesuí- 
tas, a  extincção  da  Sociedade.  Oeiras  fizera  approvar  no 
Conselho  de  Estado  um  voto  seu,  longamente  deduzido,  para 
que  as  potencias  interessadas  na  questão  dos  jesuítas,  decla- 
rassem guerra  ao  Papa,  com  o  motivo  da  protecção  que 
ainda  dispensava  áquelles  inimigos  das  coroas  -;  e  o  parecer 
foi  submettido  á  consideração  do  gabinete  hespanhol.  Mas 
o  ardor  do  ministro  português  não  encontrou  correspondência. 
O  conselho,  convocado  para  apreciar  o  projecto,  opinou  que, 
á  vista  da  resistência,  mais  acertado  seria  appellar  para  p 
novo  conclave,  que  não  tardaria,  como  os  annos  e  as  enfer- 
midades de  Clemente  XIII  bastante  indicavam.  Grimaldi  fez 
ver    a    Oeiras    que,    longe    de    despertar    emi    Roma    a    descon- 


1     Quad.  Elem.,   7.o,    257. 

2    Collecção  dos  Negócios  de  Roma  no  reinado  de  El-rci  D.  José  I. 
Lisboa    1874,    2.o,    283. 


CLEMENTE    XIII     E    O     DUQUE     DE    PARMA  265 

fiança,  e  de  lançar  um  desafio  á  Cúria,  convinha  manifestar 
a  vantagem  que  teria  o  Pontificado  em  se  desfazer  de  uma 
corporação  arrogante  e  dominadora,  qual  era  a  dos  jesuitas. 
Falava  nisto  a  convicção  do  genovês,  ou  era  a  voz  do  seu 
antagonismo    com    Oeiras? 

Choiseul  mostrava-se  egualmente  partidário  do  adiamento 
e  da  brandura,  Parecia-lhe  improvável  o  acceder  Clemente  XIII 
ás  exigências  das  cortes,  tanto  mais  que  difficilmente  poderiam 
ellas  responder  quando  o  Papa  lhes  oppuzesse  que,  expulsos 
como  tinham  sido  os  jesuitas,  nenhum  receio  já  deviam 
inspirar  '.  Aos  arroubos  de  Oeiras  sobre  a  possibilidade 
de  voltarem  os  Estados  da  Reforma  ao  aprisco  romano 
observava:  «É  difficil  de  conceber  que  um  scisma  actual  das 
potencias  catholicas  venha  a  determinar  as  nações  protestantes 
a  voltarem  ao  seio  da   Egreja»  2. 

Foi  então  que  o  conflicto  da  Santa  Sé  com  o  duque  de 
Parma,  sobrinho  de  Luiz  XV,  e  Carlos  III,  levou  estes  sobe- 
ranos a  adoptarem  o  proceder  enérgico,  que  o  gabinete  de 
Lisboa  tinha  preconizado.  Aquelle  principe  promulgara  nos 
seus  Estados  certas  leis  que  diminuíam  as  immanidades  da 
Egreja  e  a  jurisdicção  papal.  Clemente  XIII  respondeu  com  o 
breve  famoso  de  30  de  janeiro  de  1768,  declarando  nullos  os 
éditos  de  Parma,  e,  em  caso  de  resistência,  excommungado 
o  duque,  de  cuja  obediência  os  vassallos  ficavam  por  esse 
facto  desligados.  Ao  mesmo  tempo  resuscitou  a  questão  da 
autonomia  dos  Estados  de  Parma  e  Placencia,  reivindicando 
direitos  antigos  de  suzerano  para  a  coroa  papal. 

Este  acto  violento  foi  tomado  pelas  cortes,  em  contenda 
com  o  Papa,  como  affronta  commum.  A  casa  de  Bourbon, 
offendida  em  um  de  seus  membros,  tinha  de  se  desaggravar. 
As  contemplações  cessaram,  e  os  Estados  romanos  foram  por 
duas  partes  invadidos  pelas  tropas  napolitanas  e  francesas. 
Avinhão  e  Benevente  iam  ser  o  penhor  das  potencias, 
emquanto  de  Madrid,  de  Paris  e  de  Nápoles,  ao  mesmo  tempo, 
se  reclamava  a  abolição  dos  jesuitas. 


'     Choiseu!    a    Simonin.    Gomes,    Marquis    do    Pomba!,    219. 
2     Idem.,    221. 


266  OUTRA    VEZ    NOS   BRAÇOS   DA   INGLATERRA 

Era  o  plano  de  Oeiras  integralmente  praticado,  exclu- 
indo porém  da  execução  o  autor,  que  pressuroso  se  offerecia 
a  participar  na  acção  diplomática  commum.  De  Madrid  manda- 
vam-lhe  dizer  que  «escrevesse  elle  aos  três  ministros  de 
Hespanha,  França  e  Nápoles,  para  autorizal-os  a  pedir  satis- 
fação também  por  parte  de  El-Rei  Fidelissimo,  visto  que 
não  havia  em  Roma  ministro  de  Portugal»  i ;  e  Choiseul, 
informado  de  que  o  commendador  Almada  recebera  ordem  de 
partir  para  Roma,  fazia  ver  que,  substituída  pelas  represálias 
a  acção  diplomática,  cessara  o  motivo  da  intervenção  da 
corte  de  Lisboa,  que  só  no  futuro  poderia  ser  útil;  entretanto 
fizesse  Almada  individualmente  as  reclamações  que  julgasse 
favo>raveis  ao  êxito  da  causa,  para  as  quaes  promettia  o 
apoio  do  embaixador  fiancês  -.  Era  declinar  positivamente 
a  intromissão  do   extranho   em   negocio   privativo   da  familia. 

Oeiras  absteve-se  e  cahiu  em  si  Reconheceu  que  «nem 
Inglaterra  nos  queria  atacar,  nem  França  se  achava  no  caso 
de  nos  fiarmos  d'ella»;  e  considerou-se  afinal  vencido  pelos 
jesuítas  que  «sem  pólvora,  sem  bala,  sem  navios,  sem  vassallos 
de  que  pudessem  formar  grandes  exércitos,  teem  prevalecido 
por  tantos  annos  na  face  de  todo  o  universo,  attonito  e  incré- 
dulo do  mesmo  que  está  presenciando»  ^'. 

D'este  modo  a  questão  dos  jesuítas  effeituara  quasi  sepa- 
rar-nos  da  Inglaterra.  A  mesma  questão  nos  reconduzia  aos 
braças  d'ella. 


V 


Desde  os  acontecimentos  do  anno  antecedente,  Carlos  III 
acariciava  a  antiga  idéa  da  alliança  com  Portugal.  Em  junho 
ou  julho  de  1767  escrevera  á  irmã,  pedindo-lhe  fosse  media- 
neira   do    projecto,    que    para    Oeiras    tinha    a    melhor    recom- 


1  Coll.   Neg.   Roma,    II,    304. 

2  Quad.    Elem.,    7.o,    290,    292. 

3  Coll.    Necr.    de    Roma,    2.o,    introd.,    §§    30   e    146. 


OEIRAS    REPELLE    A    ALLIANÇA    HESPANHOLA  267 

mendação  no  interesse  commum  contra  os  jesuítas.  Mas  o 
despeito  fazia  gorar  a  combinação.  Bastava  a  tibieza  da 
corte  de  Madrid  para  descoroçoar  o  ministro,  que  em  14  de 
abril  repellia  o  projecto  de  tratado,  dizendo  a  Qrimaldi  que 
Portugal  não  tinha  «motivo  justificado  e  decente  para  romper 
com  a  Grã-Bretanha,  sua  antiga  alliada»  i.  Já  então  comparava 
o  pouco,  que  lhe  offereciam,  ao  que^  por  meras  visões, 
arriscara  de  perder.  Na  Hespanha  não  descobriu  sinceridade. 
Sem  embargo  dos  protestos,  Grimaldi  obstinava-se  em  guardar 
toda  a  margem  septentrional  do  Prata.  E  era  esse  o  engodo 
com  que  pretendia  deixássemos  a  alliança  da  Grã-Bretanha, 
garante  dos  tratados,  pelos  quaes  o  direito  áquelle  território 
nos  era  reconhecido!  A  idéa  do  perigo  britannico  desva- 
neceu-se.  O  antigo  alliado  apparecia  ainda  o  mais  útil.  E 
esse  era  o  fiador  dos  pactos  de  Utrecht  e  Paris  que,  ou 
breve  ou  tardiamente,   haviam  de  ser  respeitados. 

Também,  ao  mesmo  tempo,  voltava  Choiseul  ao  seu  modo 
de  ver  antigo,  segundo  o  qual,  no  anno  seguinte,  dizia  ao 
embaixador  Clermont  d'Amboise:  «É  uma  illusão  pensarmos 
que  a  união  entre  as  cortes  de  Londres  e  de  Portugal  possa 
deixar  de  existir»;  e  qualificava  duramente  o  proceder  de 
Oeiras,  a  quem  inculpava  de  enganar  a  Hespanha  «com 
demonstrações  pérfidas  de  confiança  e  amizade»  '^.  Mais  tarde, 
em  1775,  Vergennes,  seu  successor,  considerando  a  Pombal 
«falso  e  despido  de  escrúpulos»,  recordava  que  elle  enganara 
Saint-Priest  «com  sua  perfídia  e  duplicidade»,  fingindo-se 
inclinado  á  alliança  com  a  França  e  a  Hespanha,  para  afinal 
tomar  compromissos   mais   fortes   perante   a   Inglaterra  ■"'. 

Esses  novos  compromissos  existiam  realmente?  De  modo 
nenhum.  A  ovelha  um  instante  desgarrada  voltara  ao  redil, 
e  era  tudo.  Grimaldi  tinha  elaborado,  é  certo,  um  projecto 
de  tratado,  que,  submettído  a  Oeiras,  este  capitulou  de 
«contradictorio    e    insulíante»,    taxando    a    manha    politica    de 


^     Quad.    Elcm.,    18.o,    398. 

'■^     Insir.    aux    ambassadeurs,    cit.,     361. 

3     Idem,    375. 


268  OEIRAS    E    ORIAIALDI 

«encoberta  provocação»  i.  Ao  menos  assim  o  dizia  em  1775, 
para  se  desculpar  do  breve  galanteio  em  que  andara,  num 
momento  critico  para  a  Inglaterra,  com  os  inimigos  d'ella. 
Em  todo  o  caso,  jamais  pudera  vencer  a  desconfiança  que 
Grimaldi  lhe  inspirava.  A  este,  mancommunado  com  os 
jesuitas,  attribuia  um  folheto,  espalhado  em  Lisboa  e  no 
Porto,  no  qual  se  dizia  «que  os  ingleses  opprimiam  os  portu- 
gueses e  os  tratavam  como  escravos»  -.  Agentes  do  mesmo 
conluio  excitavam  na  Inglaterra  a  opinião  publica,  insistindo 
nos  aggravos  que  se  dizia  receberem  os  ingleses  em  Portu,'íJ:al. 
Oeiras  de  tal  sorte  se  impregnara  da  aversão  á  Companhia 
xáe  Jesus,  que  vivia  em  constante  terror  d'ella.  Qualquer 
tropeço  á  sua  vontade,  qualquer  incidente  desfavorável  á  sua 
politica,  provinha  d'esse  implacável  inimigo.  No  mesmo  ódio 
envolveu  a  Grimaldi,  que  lhe  recusava  o  concurso,  e  de  sua 
ogeriza  com  elle  resultou  não  se  chegar,  durante  o  seti 
governo,   a   um    entendimento   permanente   com   a   Hespanha. 

Por  outra  parte  continuavam  os  ingleses  a  reclamar. 
Renovavam-se  as  divergências  sobre  o  Terreiro  do  trigo. 
As  Companhias  de  commercio,  com  seus  privilégios,  eram 
outro  motivo  de  constante  desaccordo.  Já  em  1760  lord  Kinnoui 
reclamara  debalde.  Até  á  creação  das  Companhias  todo  o 
trafico  do  Brasil  dependia  do  credito  que  os  ingleses 
concediam  aos  commerciantes  nacionaes.  Privados  es'tes,  peio 
monopólio,  d'aquelle  productivo  negocio,  não  podiam  pagar 
as  suas  dividas.  Cessara  o  contrabando  para  a  America  hespa- 
nhóla,  que  produzia  muita  prata,  exportada  para  a  Inglaterra, 
As  remessas  de  ouro,  pelos  paquetes  e  navios  de  guerra, 
ianf  diminuindo.  A  Companhia  dos  Vinhos  trouxera  grandes 
prejuízos  ao  commercio  britannico.  Tudo  isto  acirrava  o 
descontentamento. 

A  firmeza  apregoada  do  ministro  Littleton  dissolvia-se 
ante  a  obstinação  de  Oeiras,  até  que  em  1772  Robertoi 
Walpole  o  veio  substituir,  cheio  de  esperanças  mas  sem 
melhor   fortuna.    Debalde    a    Ciíy   pelas    gazetas    inílammava 


'     Quad.    Elem.,     8.o,     397. 
2     Idem,    398. 


DESACATOS   DOS   INGLESES  269 


em  Londres  a  opinião.  Oeiras,  inimigo  da  imprensa,  não 
desdenhava  d'ella  quando  lhe  convinha  appeliidal-a  em 
soccorro  do  poder.  Na  lucta  com  os  jesuítas  inundara  !a 
Europa  de  pamphietos,  desde  a  folha  avulsa  até  aos  volumes 
massiços  da  Deducção  chronologica.  Em  1770  mandara  publicar 
em  inglês  o  Discurso  anglo-lusitano,  resposta  a  Memoria  do 
cônsul  e  da  feitoria  de  Lisboa,  de  1766,  e  ás  arguições  dos 
periódicos,  tanto  como  aos  protestos  da  diplomacia.  Rebatia 
as  allegações  da  quebra  de  privilégios,  defendia  a  Companhia 
dos  Vinhos  e  as  do  Brasil,  e  aos  lamentos  sobre  a  pavorosa 
situação  do  commercio  com  Portugal  oppunha  as  estatísticas 
do  Banco  de  Inglaterra,  nas  quaes  se  verificava  que  a  impor- 
tação de  ouro  português  tinha  sido  em  q^uatro  annos,  de 
1766  a  69,  de  3,552:572  libras  esterlinas,  além  de  muito  mais 
que  passava  clandestinamente,  sobretudo  em  navios  do 
Porto. 

A  controvérsia  produziu  nos  residentes  ingleses  uma 
irritação,  que  mais  de  uma  vez  esteve  perto  de  rebentar 
em  conflicto  formal.  Os  capitães  de  navios,  sujeitos  a  impo- 
sições que  reputavam  vexatórias,  deixavam-se  facilmente 
inspirar  da  mesma  animosidade,  e  não  hesitavam,  se  possuíam 
a  força,  de  fazer  alarde  d'€lla  e  desprezo  do  paiz.  Em  dezembro 
de  1770,  querendo  a  torre  de  Belém  impedir  a  entrada  de 
uma  fragata,  que  vinha  do  Levante,  onde  a  peste  grassava, 
a  guarnição  a  bordo  tomou  postos  de  combate,  ameaçando 
a  terra  com  sua  artilharia.  Estava  a  praia  coalhada  de  povo; 
D.  José,  no  terraço  de  Belém,  assistia  indignado  e  confuso 
ao  desacato  i;  o  navio  passou,  e  a  providencia  sanitária 
exceptuou-se  em  favor  d'elle.  Em  outra  occasião  fundeou 
urna  nau  em  frente  á  torre,  declarando  o  commandante  não 
sahir  d'alli  até  que  os  aggravos  da  colónia  tivessem  repa- 
ração 2_  Póde-se  pensar  que  estivesse  ébrio  o  official,  mas 
o  caso  é  typico  do  estado  dos  ânimos,  e  da  situação  do  paiz. 
Entretanto,    de    uma    parte    a    fraqueza    e    a    necessidade,    da 


1  Quad.    Eletn.,    7.o,    363. 

2  Idem,    18.0,   385. 


270  O   CONFLiCTO   DAS   ILHAS  FALKLAND 

outra  os  interesses  commerciaes  e  políticos  kvavam  os 
governos  á  indulgência  reciproca. 

Não  eram  estes  somente  os  motivos  de  discordância. 
Um  direito  pelo  qual  os  ingleses  sempre  pugnaram,  tendo 
opportunidade,  era  o  de  seus  navios  visitarem  os  nossos 
portos  de  ultramar.  A  convenção  com  a  Hollanda  em  1041, 
e  o  tratado  de  1654  com  Cromwell  excluíam  toda  a  contes- 
tação. Mas  o  governo  português  defendera-se  sempre,  e 
Oeiras  sustentava  que  essa  faculdade  em  nenhum  tempo 
se  julgara  exequível,  pronunciando-se  contra  ella  o  clamor 
dos  naturae(s  e  a  (evidente  demonstração  da  ruína  das  colónias. 
Com  o  tempo  a  obrigação  cahira  em  abandono,  e  podia 
considerar-se  de  facto  annullada,  sem  embargo  das  recla- 
mações. Eis  que  um  navio  da  Companhia  das  índias,  o 
Argyle,  aporta  ao  Rio  de  Janeiro,  com  o  fim  de  baldear 
carga  para  o  Duque  de  Portland,  da  mesma  Companhia,  que 
se  destinava  aos  mares  do  Sul,  e  chegou  dentro  em  pouco. 
O  Vice-Rei  embarga  os  navios,  prende  as  equipagens,  e 
manda  os  capitães  em  custodia  para  o  reino.  Protesto  do 
ministro  britannico,  accêsa  discussão,  e  afinal  entrega  dos 
navios  e  indulto,  a  que  o  governo  português  se  não  excusaria 
sem  alhear  a  amizade,  em  que  punha  tanto  preço,  e  que  g€ 
antolhava  o  só  amparo  seguro  contra  ambições  mais  ameaça- 
doras. De  seu  lado  a  Inglaterra  ganhava  assas  com  o 
commercio  do  Brasil,  para  sem  pena  renunciar  á  affirmação 
quasi  platónica  de  um  direito,  que  não  adeantava  sensivelmente 
os  interesses  positivos  d'esse  mesmo  commercio.  Além  d'isso 
jconsiderações  de  politica  internacional  concitavam  á  mode- 
ração. 

Entre  Hespanha  e  o  nosso  alliado  surgira  novo  conflicto, 
disputando  entre  ,si  as  duas  nações  a  posse  das  ilhas  Falkland, 
e  a  esse  conflicto  as  obrigações  do  Pacto  de  família,  tanto 
como  a  linha  da  sua  politica,  chamavam  também  a  França. 
O  governo  britannico  dispuzera  por  isso  mandar  a  Lisboa 
uma  esquadra,  que  fazendo  d'alli  base  estratégica,  impedisse, 
como  em  1758,  a  juncção  das  forças  navaes  de  Brest  e 
Toulon.  Contra  esse  intento  protestava  o  Enviado  português, 
invocando  as  regras  da  neutralidade,  que  a  sua  corte  entendia 


MADRID   CONCILÍA-SE   COM  A   INGLATERRA  271 


manter.  Mas  não  pareceu  de  peso  a  razão  ao  ladino  alliado^ 
que  recusava  intervir  com  a  força  para  nos  beneficiar,  e  não 
hesitava  em  nos  envolver  na  lucta  para  vantagem  sua.  As 
observações  do  nosso  ministro  redarguiu  lord  Rochford  que 
seria  difficil  manter-se  Portugal  indifferente  nesta  guerra; 
e,  acceitando  agora  a  these  de  Oeiras,  vezes  sem  conta 
refutada,  «tanto  mais  que  o  Pacto  de  familia  de  dia  e  de  noite 
nos   ameaçava»  i. 

O  horizonte  desannuviou-se  com  a  sabida  de  Choiseul 
do  poder.  Os  homens  chamados  ao  conselho  de  Luiz  XV 
tião  tinham  os  ímpetos  belhcosos  d'aquelle  ministro,  e  ia 
Hespanha  privada  de  apoio  cedeu.  O  soberano  francês 
escrevera  secretamente  a  Carlos  III,  para  o  dissuadir  de 
velleidades  guerreiras :  «V.  M,  não  ignora  quanto  o  espirito 
de  independência  e  fanatismo  se  tem  propagado  no  meu 
reino. . ,  Os  parlamentos  pretendem  disputar-me  a  autoridade 
soberana  que  tenho  da  mão  de  Deus. . .  A  guerra  nestas  con- 
dições seria  uma  horrível  desgraça  para  mim  e  para  os  meus 
súbditos. . .  Se  V.  M.  puder  fazer  algum  sacriiicio  para  manter 
a  paz  sem  prejuízo  da  honra,  prestará  grande  serviço  ao 
género  humano,  e  a  mim  em  particular»  2  Sósinho,  o  gabinete 
de  Madrid  conciliou-se  com  a  Inglaterra,  e  a  sua  attenção 
íornou-se  á  questão  do  Brasil. 

A  gratidão  de  1766  desvaneceu-se  no  intervallo;  os 
propósitos  de  aíliança  também;  ficava  de  pé  o  antagonismo 
antigo,  e  a  questão  de  limites,  agora  disputada  com  mais 
fervor  que  em  tempo  algum. 


VI 


A  má  fé  com   que  a  Hespanha  faltava  ás   condições  do 
tratado  de   paz   accendera   de   novo  as   hostilidades   no   local 


^  Francisco  de  Mello  e  Carvalho  ao  conde  de  Oeiras,  18  outu- 
bro   1770,   CoU.    Pomb.,   Cod.   635. 

-  H.  Masson,  le  Cardinal  de  Bernis  depub  son  ministère,  Paris 
1884,    pag.    174. 


272  GUERRA    NA    AMERICA,    PAZ    NA    EUROPA 

da  contestação.  Sem  falarmos  nos  pequenos  conflictos  da 
fronteira,  desde  1767  que  os  portugueses  entravam  em 
campanha,  tentando  em  vão  reconquistar  o  Rio  Grande, 
perdido  em  1763,  e  que  os  castelhanos  indebitamente  conser- 
vavam. Em  novembro  de  1773,  Vertiz,  governador  de  Buenos 
Ayres,  acommetteu  sem  resultado  as  fortificações  do  Rio 
Pardo.  Em  fevereiro  de  1776,  novo  ataque  frustrado  dos 
nossos   ao   Rio   Grande. 

Entretanto  o  governo  de  Lisboa  mandava  tropas  de 
reforço,  e  para  o  commando  superior  o  tenente  general 
Henrique  Bõhm,  um  dos  mais  hábeis  e  distinctos  officiaos 
vindos  com  o  conde  de  Lippe.  Guerreando  na  America,  os 
dois  governos  queriam  manter  na  Europa  as  apparencias  da 
paz.  Parte  das  nossas  tropas  embarcaram  clandestinamente 
no   Algarve;    em    Hespanha    procediam    de    modo    idêntico. 

De  Pernambuco  mandou  Pombal  transportar  um  batalhão 
de  negroís  e  outro  de  mulatos,  confiando  que  a  catadura  d'essa 
gente  infundiria  terror  nos  castelhanos.  Induzira-o  a  tal  o 
haverem-lhe  referido  que,  na  guerra  de  Bohemia,  as  tropas 
francesas,  á  vista  dos  pandiiros,  com  seus  trajos  extrava- 
gantes, experimentaram  grande  susto  i.  Com  este  infantil 
recurso,  próprio  das  civilizações  inferiores,  o  ministro  cuidava 
supprir  as  defficiencias  da  organização  militar.  E  certo  qu:e, 
em  abril,  já  o  total  das  forças  enviadas  da  metrópole,  com 
as  que  passaram  das  capitanias  vizinhas,  excedia  no  Prata 
o  effectivo  dos  castelhanos.  Mas  a  falta  de  cohesão  d'esses 
elementos  desparelhados,  a  ausência  de  espirito  militar,  a 
incapacidade  e  o  desanimo  prompto  dos  officiaes,  tiravam 
ao  conjunto  a  efficacíia,  que  de  outra  forma  se  poderia  esperar. 

A  organização  do  adversário  não  era  superior,  como 
já  em  1762  se  tinha  verificado.  Vertiz  pedia  soccorros  que 
de  Madrid  por  sysíema  lhe  regateavam.  Apezar  de  tudo 
Grimaldi  preferia  negociar.  Ao  embaixador  português  offerecia 
acceitar  qualquer  acco.do  ainda  mesmo  cedendo  a  Hespanha 


^     Off.  ao  marquez  de  Lavradio.  Varnhaoen,  Hist.  Geral  do  Brasi', 
2.a    ed.,     2.0,    936. 


PRINCÍPIOS  DA  GRÂ-BRETANHA  273 


direitos  seus  i.  Simultaneamente  requeria  a  intervenção  da 
França  para  um  pacifico  accommodamento. 

Ao  pedido  de  Madrid,  o  rei,  que  era  então  já  Luiz  XVI, 
correspondia  buscando  interessar  a  corte  de  Londres,  á  qual 
insinuava  que  o  rompimento  entre  Hespanha  e  Portugal  podia 
pôr  em  armas  a  Europa  inteira.  Não  era  esse  o  pensar  do 
gabinete  britannico,  e,  em  Lisboa,  o  ministro  Walpole  abria-se 
com  o  Enviado  francês,  expondo-lhe  que  era  a  disputa  frivola, 
e  03  portugueses  se  illudiam  julgando  que  a  Inglaterra  iria 
provocar  uma  conflagração  geral,  ajudando-os  contra  a 
Hespanha,  unicamente  para  elles  recuperarem  as  possessões 
que   haviam   perdido  2. 

Não  destoava  isto  dos  princípios  que  a  Grã-Bretanha 
sempre  seguira,  prompta  a  defender  o  nosso  território  na 
metrópole,  sua  base  es'tráteg-ica,  mas  indifferente  á  sorte  das 
colónias,  onde  não  estavam  em  risco  os  seus  interesses.  Além 
d'isso,  os  negócios  domésticos  na  America  davam  de  sobra 
que  pensar,  para  que  alguém  entre  os  políticos  cuidasse  de 
se   immiscuir  em   conflictos   extranhos. 

Pombal  via  isso,  e,  tentando  desviar  o  governo  britannico 
d'aquelle  objecto,  tão  ponderoso,  para  o  que  elle  próprio 
tinha  a  peito,  imaginou  fazer  a  sua  voz  ouvida  em  Londres, 
por  um  estratagema  pueril.  Escreveu  ao  embaixador  Luiz 
Pinto  de  Sousa,  pela  via  ordinária,  para  ser  a  carta  violada 
no  transito,  expondo  as  suas  idéas  acerca  da  questão  ameri- 
cana, e  o  interesse  que  tinha  a  Inglaterra  em  sustentar  »os 
direitos  de  Portugal  na  disputa  com  a  Hespanha.  Mais  lhe 
valera  isso,  dizia,  do  que  a  guerra  nas  colónias,  cujo  desfecho 
lhe  seria  contrario,  como  o  exemplo  das  nossas  luctas  no 
Brasil  com  os  hollandeses  fazia  vaticinar  ^.  Na  opinião  d'elle, 


'  (ijuizo  que  íenho  forx-nado  das  dezesete  cartas  estampadas  em 
Londres,  etc.^'-,  escripto  de  Pombal,  impresso  diversas  vezes.  Orig.  Coll. 
Pomb.,    Cod.    691. 

=     Qaad.    Elem.,  S  o,  115. 

3  Pombal  a  Luiz  Pinto  de  Sousa,  28  novembro  1775.  Tem  á 
margem  a  nota  seguinte:  «Carta  particular  remettida  pela  posta  ordi- 
nária no  Paquetboat  qu2  partiu  em  domingo  3  de  dezembro,  para  que 
abrindose    no    correio    de    Londres,    como    é    do    seu    costume,    ficasse 

o    MARQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  18 


274  GRIMALDl    NO    RIO    DA    PRATA 


O  ministro  dos  extrangeiros,  lord  Rochford,  em  vez  de  se 
deixar  vencer  de  um  medo  servil  e  terror  pânico,  perante  a 
Hespanha  e  a  França,  devia  antes  considerar  no  seguinte: 
«Se  um  amigo  fiei  e  um  alliado  constante,  publicamente  aban- 
donado e  sacrificado  aos  inimigos  communs,  apesar  dos 
tratados  mais  claros  e  expressos,  não  pôde  trazer  depois  de 
si  consequências  muito  mais  funestas,  do  qiue  aqtiellas  que 
a  perda  de  duas  grandes  batalhas  faria  recear?...  Se  é  compa- 
tivel  com  a  reputação,  com  a  dignidade  e  com  os  interesses 
de  Inglaterra,  aquella  ostentação  que  a  corte  de  Madrid  está 
fazendo,  para  persuadir  que  tem  reduzido  a  Giã-Bretanha  ao 
miserável  estado  de  abandonar  os  seus  alliados,  e  de  necessitar 
dos  auxilios  de  Hespanha  para  reduzir  á  sua  obediência  os 
vassailos  rebeldes  da  America  inglesa?»  E,  justificando  a 
desinteresse  dos  conselhos  com  o  affecto  que  sempre  tivera 
ao  alliado,  acabava  por  invocar  a  razão  politica,  pois  «em 
Inglaterra  se  não  podiam  dar  golpes  que  a  nós  nos  não 
ferissem».  Singular  escripto  em  que  a  sagacidade  dos  conceitois 
parece  contender  com  a  candura  do  ardil,  e  em  que  a  vaida,de 
da  tentativa  amesquinha  o  acerto  do  vidente  na  gravíssima 
questão   da   America. 

Proseguindo  na  sua  disposição  de  regular  d'ahi  por 
deante  sem  armas  os  negócios  do  rio  da  Prata,  em  novembro 
de  1775,  Grimaldi  mandou  ao  governador  de  Buenos  Ayres 
que  suspendesse  as  hostilidades.  Da  nossa  parte  se  deveriam 
dar  eguaes  ordens  para  o  Brasil;  mas  por  desleixo,  impedi- 
mento ou  propósito,  não  se  expediram  logo,  e  o  vicerei 
marquês  do  Lavradio  somente  no  l.o  de  abril  teve  conhe- 
cimento d'ellas.  Nessa  data  os  nossos  acommettiam  os  caste- 
lhanos desprevenidos,  no  Rio  Grande,  e  apoderavam-^e 
finalmente   da  povoação. 

Para  Vertiz,  fiado  na  trégua,  pelas  ordens  que  recebera, 
fora  o  ataque  uma  surpresa.  Indignado,  pedia  reforços,  para 
rehaver  o  perdido,  e  castigar  a  perfidia  dos  que,  a  despeito 


o  ministério  d'aquella  corte  na  intelligencia  da  miserável  situação  em. 
que  se  acha.\  Judicií  Biker,  O  Marquez  de  Pombal,  alguns  documentos 
meditos,    Lisboa    1882,    pag.    35. 


ORIMALDI    NO    RIO    DA    PRATA  275 


das  convenções,  o  aggrediam.  Foi  quando  o  marquês  de 
Lavradio,  recebendo  o  aviso  de  Lisboa,  mandou  suspender 
as  operações  de  guerra.  Grimaldi,  esse  increpava  de  má  fé 
os  portugueses,  e  Pombal  desforçava-se  irrogando-lhe  a  in- 
juria suprema  de  o  tratar  de  jesuíta  —  «instrumento  escolhido 
pelos  restos  da  Sociedade,  para  tirar  vingança  de  Portugal 
e   de   Hespanha»,    como   dizia   ao   embaixador   francês  '. 

Emquanto,  pelas  vias  diplomáticas,  o  gabinete  de  iVladrid 
exigia  satisfação,  ia  aprestando  tropas  que  em  agosto  ou 
setembro  deviam  partir  para  vingar  a  affronta  recebida.  E 
a  Inglaterra  o  que  fazia?  Surda  aos  pedidos  de  auxilio,  insistia 
nas  reclamações.  Quando  a  diplomacia  afrouxava,  a  feitoria 
de  Lisboa  acenava  para  a  capital  britannica  ás  gazetas  que, 
fustigando  o  governo,  impunham  actividade  ao  embaixador. 
Roberto  Walpole  pouco  justificava  essa  pratica.  Sempre  na 
brecha,  mais  de  uma  vez  desafiou  a  impaciência  de  Pombal. 
Pertinaz  nas  reivindicações,  abonava  os  direitos  da  Grã-Bre- 
tanha  com  «os  importantes  serviços  prestados  a  Portugal», 
e,  se  bem  que  estes  autorizassem  a  pedir  novos  privilégios, 
contentava-se  com  exigir  a  manutenção  dos  existentes  -.  Que 
juizo  fazia  Carvalho  de  taes  serviços  sabemol-o  ja.  Considerava 
os  ingleses  sempre  tardios  adiados;  queixava-se  da  frialdade 
e  inacção  que  mostravam  em  nos  defender.  E,  não  obstante, 
via-se  pela  fatalidade  das  circumstancias  forçado  a  segu- 
rar-lhes  constante  dedicação.  Em  1770  recommendava  ao 
enviado  Francisco  de  Mello  Carvalho  que,  se  a  Londres 
chegasse  um  boato  de  negociações  para  alliança  de  Portugal 
com  França  e  Hespanha,  se  desse  pressa  em  desmentil-os 
perante  o  secretario  de  Estado  ^.  Algum  tempo  depois  correu 
na  Inglaterra  que  estava  feito  um  tratado  de  comm.ercio  com 
a  França.  Commoção  grande  na  Bolsa.  Ia  pois  a  Grã-Bretanha 
perder  o  fecundo  manancial  de  ouro,  que  para  ella  era  o 
commercio  lusitano?  Walpole  corre  á  presença  do  ministro, 
que  o  tranquilliza,  certificando-lhe  não  existir  o  tratado,  nem 


^     Officio  de  Blosset  ao  conde  de  Vergennes.  Quad.  Elem.,  8  o,  124 
^     Memoria    de    Roberto    Walpole,    Coll.    Pomb.,    Cod.    637. 
3     Officio  de  20  novembro,   Id.,  Coll.   Pomb.,  Cod.   635. 


276  A    EXPEDIÇÃO    DE    COOK 


em  tal  se  cuidar;  e,  repetindo  o  estribilho:  «S.  M.  deseja 
que  entre  os  extrangeiros  sejam  os  ailiados  sempre  prefe- 
ridos», rematava  dizendo  que  «tudo  eram  intrigas  (de  Orimaldi 
e  dos  jesuítas)  para  com  discussões  desagradáveis  perturbar 
a  harmonia  das  duas  cortes»  i. 

No  meio  de  tudo  isto,  Pombal  permanecia  fiel  ao 
propósito  de  excluir,  tanto  quanto  possivel,  o  commercio 
britannico,  e  intransigente  em  afastar  de  nossos  dominios 
o  pouco  seguro  alliado.  Em  1776,  ao  mesmo  passo  que 
vedava  a  entrada  nos  portos  do  reino  aos  navios  dos  insur- 
gentes  da  America,  consentia  que  um  pequeno  barco  inglês 
de  seis  peças  fosse  aprisionado  em  Bissau,  e  conservava 
preso  o  capitão,  sem  embargo  das  reiteradas  e  severas 
reclamações  de  Walpole  ^.  Mais  intensa  era  ainda  a  preoccu- 
pação  tocante  ao  Brasil.  Atemorizava-o  a  idéa  de  fazerem 
os  ingleses  por  lá  escala  na  derrota  para  a  índia,  projecto 
que  se  desvendava  na  tentativa  mallograda  do  Arf^yle.  O 
facto  dera  motivo  a  controvérsia,  que  em  1775  ainda  não 
havia  terminado.  Às  «fortíssimas  queixas»  de  Walpole  redar- 
guiu Pombal  com  uma,  a  seu  ver  «insuperável  confutação». 
E  quanto  mais  aquelle  insistia  nos  protestos,  tanto  mais  o 
ministro  era  firme  na  defesa,  aproveitando  o  incidente  para 
estabelecer  definitivamente  a  prohibição.  Para  Pombal  «este 
era  o  grande  ponto»,  consoante  a  nota  de  seu  próprio  punho 
lançada  em  um  tomo  da  correspondência  relativa  a  estes 
casos. 

Fiel  a  esta  concepção,  só  com  o  silencio  respondeu  ao 
pedido  do  governo  britannico,  para  que  no  Brasil,  sendo 
preciso,  se  prestasse  soccorro,  de  viveres  ou  qualquer  outro, 
á  expedição  de  Cook  ás  regiões  antarticas,  que  s<:  aprestava 
então.  Debalde  a  chancelaria  de  Londres  repetia  as  instancias 
e  extranhava  a  mudez.  À  perspicácia  do  nosso  representante, 
eco  das  idéas  de  Pombal,  repugnava  que  tal  viagem  tivesse 
unicamente  por  objecto  «descobrir  novas  plantas,  aperfeiçoar 


1  Coll.     Pomb.,     Cod.     637. 

2  Quad.  Elem.,  y.VlU,    409. 


HOSTILIDADES    NAS    FRONTEIRAS    DO  BRASIL  277 


a  astronomia,  e  açgeographia».  O  suspicaz  diplomata  observava: 
«Uma  nação  maritima  e  ambiciosa  como  esta  não  se  contenta 
somente  com  plantas,  e  se  acharem  algum  estabelecimento 
bom  e  conveniente  no  mar  do  Sul,  fique  V.  Ex.a  certo  que 
o  hão  de  fazer»:  E  continuava  dogmático:  «Se  elles  descobrem 
um  grande  continente,  tão  grande  como  qualquer  das  partes 
do  mundo  conhecidas,  calcule  V.  Ex.a  as  consequências,  e 
a  revolução  na  Europa  e  no  mundo»!  i  Tinha  razão  o  exclu- 
sivismo nacional;  mas  o  entrave,  quão  frágil!  posto  á  margem 
da  civilização,  não  impediu  que  esta  desabrochasse  em  esplen- 
didas  conquistas,   nesse   mar  immenso,   explorado   por  Cook. 

Ao  lado  do  governo  português,  o  de  Hespanha,  egual- 
mente  cego  ao  rasto  luminoso  do  progresso,  dava-lhe  força 
moral  para  a  negativa,  incrédulo  como  elle  dos  fins  desin- 
teressados da  expedição.  Em  ambas  as  nações  da  Península 
o  mesmo  ignaro  ciúme,  o  mesmo  conceito  erróneo  dais 
grandiosas    aspirações    da    humanidade. 

Mas  este  era  o  só  ponto  em  que  entre  ellas  havia  accordo. 
Na  America  o  terreno  das  hostilidades  não  ficara  circumscripto 
ao  Rio  Grande:  em  outros  pontos  da  fronteira  occidentai, 
em  Matto  Grosso,  e  até  no  extremo  Norte,  na  região  distante 
do  Rio  Branco,  se  davam  recontros,  á  disputa  dos  postos. 
Grimaldi,  truculento,  exigia  o  retorno  das  tomadias,  e  satis- 
fação pelo  ataque  de  abril,  pela  apprehensão  de  dois  navios, 
aliás  já  relaxados  pelo  Vice-Rei  do  Brasil,  e  ainda  por  maus 
tratos  infligidos  alli  aos  prisioneiros,  depois  repatriados. 
Insinuava  que  era  vão  contarmos  com  soccorro  da  Inglaterra 
que,  absorvida  na  lucta  contra  as  colónias,  nada  faria  em 
favor  nosso.  Da  mesma  forma  pensava  o  embaixador  francês 
Blosset,  que  de  Lisboa  escrevia  ao  seu  governo  não  compre- 
hender  que  Pombal  fizesse  tanto  por  arrastar  o  paiz  á  guerra 
«quando  o  seu  único  alliado  se  não  encontrava  em  estado 
de   o   soccorrer»   ^. 

Desde  1775  da  nossa  parte  se  havia  proposto  que  a 
questão  se  ventilasse  em  urq.  congresso,  a  convocar  em  Paris, 


1  Officio   de    26   maio    1772,   Coll.    Pomb.,    Cod.    637. 

2  Quad.    Elem.,    18.o,    255. 


278  RESERVA    IMPENETRÁVEL    DE    POMBAL 


mas  com  a  noticia  do  ataque  do  Rio  Grande  haviam  parado 
as  negociações.  Os  governos  de  França  e  Inglaterra  que, 
como  intermediários,  buscavam  ajustar  as  difficuldades, 
punham  em  duvida  a  boa  fé  de  Pombal,  que  debalde  se 
excusava,  invocando  as  distancias  e  «as  nunca  vistas  demoras 
que  em  todo  aquelle  anno  havia  experimentado  a  navegação 
do  Brasil»  ^  Por  essas  causas  —  dizia  —  só  tarde  as  suas 
ordens  puderam  chegar  ás  forças  em  campo.  Em  Londres 
lord  Weymouth,  secretario  de  Estado,  manifestava  ao  nosso 
representante  estarmos  na  obrigação  de  provar  que  os 
portugueses  não  tinham  sido  os  aggressores,  e  que  as  ordens 
não  tinham  ainda  chegado  ao  Brasil  quando  a  acção  occorreu  ^, 
Em  Paris,  o  ministro  dos  extrangeiros  Vergennes  considerava 
«cheias  de  falsidades  e  contradições»  as  memorias  justifica- 
tivas do  nosso  governo.  «Tal  é  —  accrescentava  —  o  juizo  que 
El-Rei  e  o  seu  conselho  fizeram  d'esses  documentos»  ',  O 
próprio  nosso  representante  na  França,  Vicente  de  Sousa 
Coutinho,  deixava  entender  duvidas  sobre  a  sinceridade  do 
primeiro  ministro.  A  suspeição  geral  empecia  o  êxito  da 
intervenção. 

O  que  todos  viam  era  o  governo  português  caminhar  a 
largos  passos  para  a  guerra  formal.  Debalde  Walpole,  em 
Lisboa,  aconselhava  que  restituíssemos  os  postos  conquis- 
tados. Em  Londres  e  Paris,  os  nossos  diplomatas,  instados 
no  mesmo  sentido,  não  sabiam  como  responder  ás  instancias 
das  chancelarias.  Pombal  encerrava-se  em  reserva  impene- 
trável, deixava-os  privados  de  instrucções,  paralysando  assim 
os  esforços  dos  medianeiros.  A  verdade  é  que  a  experiência 
de  1762  lhe  dissipara  todo  o  medo  á  Hespanha,  e  que  o 
mesquinho  successo  de  abril  o  enfatuava.  Se  da  Grã-Bretanha 
lograsse  qualquer  soccorro,  tinha  por  seguro  sahir  da  contenda 
victorioso. 

Em  outubro  de  1775,  enviava  a  Luiz  Pinto  de  Sousa  a 
resenha  dos  seus  recursos  bellicos :  «Temos  os  nossos  arsenaes 


1  Idem,   253. 

2  Id.,   258. 

3  Quad.    Eletn.,    IS.o,    275. 


RECURSOS    BELLICOS    DE    PORTUGAL  279 


e  armazéns  do  exercito  cheios  de  toda  a  artilharia,  armamentos 
e  munições  de  guerra  para  sustentarmos  por  algtms  annos, 
sem  a  necessidade  de  fazermos  entrar  de  fora  do  reino  nem 
um  só  arrátel  de  pólvora;  temos  as  nossas  tropas  tão  bem 
displinadas  e  providas  como  as  deixou  o  marechal  general 
conde  de  Lippe;  temos  a  província  do  Alemtejo,  que  é  a 
mais  importante  e  a  mais  vizinha  da  corte,  fechada  com  a 
praça  de  Elvas,  e  com  a  outra,  inexpugnável,  do  Alonte  da 
Praça,  a  ella  superior,  que  foi  a  maior  e  mais  útil  obra  do 
referido  conde. . .»  i  Continuava  fazendo  o  elenco  das  forti- 
ficações e  meios  de  resistência  nas  outras  fronteiras,  e  rema- 
tava a  exposição  notando  ser  o  ensejo  opportuno  para  a 
Inglaterra  mandar  um  contingente  de  tropas  e  officiaes 
aguerridos,  egual  ao  de  1762,  que,  como  então,  bastaria  para 
restabelecer  o  equilíbrio   das   forças   em   campo. 

Mas  o  tempo  ia  passando,  e  o  desejado  soccorro  [não 
chegava.  Debalde,  por  instigar  o  zelo  do  alliado,  Pombal 
relembrava  o  cansado  argumento:  «Qual  seria  a  potencia  da 
Europa  com  que  a  Inglaterra  supprisse  a  falta  da  confederação 
de  Portugal?  Quaes  seriam  os  paizes  onde  a  'mesma  Inglaterra 
fizesse,  em  beneficio  do  seu  commercio,  o  consumo  das 
mercadorias  que  introduz  no  continente  doestes  reinos,  e  que 
d'elles  passam  ao  Estado  do  Brasil?»  ^  Para  dar  mais  uma 
vez  arrhas  da  sua  dedicação,  mandava  repellir  dos  portos 
os  navios  das  colónias  da  America,  levantadas  contra  a 
Inglaterra,  e  prohibia  que  em  circumstancia  alguma  se  lhes 
prestasse  o  minimo  soccorro.  Ao  mesmo  passo,  externava 
o  seu  intimo  sentimento,  invocando  a  solidariedade  dos 
príncipes,  e  affirmando  a  sua  indignação  dos  «vassallos  tão 
publica  e  formalmente  rebiellados  contra  o  seu  natural  sobe- 
rano» 3,  Era  a  mesma  sanha  contra  a  reacção  popular,  que 
castigara  o  motim  do  Porto,  e  propuzera  o  concurso  a 
Carlos  III  para  jugular  a  revolta  dos  sombreiros,  A  consequência 


i     Oft.    a   Luiz    Pinto   de   Sousa.    Idem,    Id.    583. 

2  Documento  publicado  poi  Soriano,  Hist.  da  guerra  civil,  2.»,    633. 

3  Edital,    5   julho    1776. 


280  PLANOS  BELLICOSOS  DE  POMBAL 


foi  cahirem  sobre   a   navegação   portuguesa  os   corsários  dos 
rebeldes,    em    desforço,    com    grandes    damnos    da    mesma. 

Sem  embargo  das  razões  e  blandícias,  o  governo 
britannico  não  propendia  a  favorecer  os  intuitos  pugnazes  do: 
nosso.  Calava-se  ou  contemporizava,  na  expectativa  da 
mudança  politica,  que  resultaria  da  morte  do  Rei,  prevista 
para  breve.  Em  setembro  de  1776,  Luiz  Pinto  avisa  a  Pombal 
que,  na  opinião  do  ministério,  D.  José  não  poderá  viver  muiio, 
e  que  «neste  supposto  tudo  se  transformará  na  corte»  ^.  Mas 
a  prevenção  não  obsta  a  que  em  Lisboa  persistam  na 
mesma  trilha. 

Estava  o  anno  a  findar,  D.  José  nos  paroxismos  da 
enfermidade,  e  agonizante  por  isso  o  poder  do  ministro. 
Maravilhava,  pois,  vel-o  buscar  com  tanto  afan  uma  guerra, 
a  que  porventura  seriam  adversos  os  futuros  soberanos. 
Talvez  elle,  porém,  nessa  cartada  intencionalmente  jogasse 
o  seu  destino.  Vencedor,  como  tudo  lhe  prenunciava,  quem 
ousaria  esbulhal-o  da  autoridade?  Vencido,  quem  o  poderia^ 
egualar  na  experiência,  para  regular  a  situação  politica?  íia 
energia,  para  restaurar  a  jnaçâo  á  consciência  de  si?  Em  ambas 
as  conjuncturas  seguraria  o  logar  ao  lado  do  throno;  mas  é 
licito  suppôr  que  no  triumpho  houvesse  posto  todas  as 
esperanças. 

Indifferente  aos  desenganos,  Pombal  não  descontinuava 
de  chamar  o  auxilio  da  Inglaterra,  Nada  coiíseguindo  do 
governo,  recorreu,  como  na  passada  guerra,  á  opposição, 
cujos  membros  instigava  a  inculcarem  a  obrigação  dos 
tratados,  e  a  indignidade  do  gabinete,  que  os  não  cumpria. 
A  proeminente  figura  do  partido  era  Pitt,  já  então  Jord 
Chatham,  o  mesmo  que  em  1762  fizera  votar  o  soccorro  a 
Portugal,  e  que  agora  propugnava  a  paz  com  as  còfonlas, 
e  uma  politica  vigorosa  contra  a  coalisão  dos  Bourbons. 
Parecia-lhe  o  êxito  por  este  lado  mais  provável,  O  Enviado 
português   não   poupava    por   isso   esforços   para   grangear  o 


1     Carta    confidencial   de    Luiz    Pinto   de   &)usa.    CoH.    Pomb ,   Cod. 
69b. 


INUTILIDADE   DA  ALLIANÇA  INGLESA  281 


apoio  dos  chefes  whigs.  Para  esse  fim  ministrava,  sobre  os 
acontecimentos  do  Brasil  e  negociações  diplomáticas,  notas 
que  deviam  servir  para  a  discussão  no  parlamento  ou  para 
a  publicação  nas  gazetas.  Lord  Manchester  foi  o  intermediário. 
Tudo,  porém,  sahiu  baldado. 

Em  1777,  a  24  de  fevereiro,  falleceu  D,  José.  No  mesmo 
dia,  a  expedição,  que  fora  de  Hespanha  vingar  o  desastre 
do  anno  antecedente,  no  Rio  Grande,  tomava-nos  a  ilha  de 
Santa  Catharina.  Apesar  de  previsto  o  ataque,  de  reunidas 
todas  as  forças  disponíveis,  o  proceder  das  nossas  tropas 
foi  deplorável.  De  nada  serviram  os  batalhões  de  gente  de 
côr,  que,  no  conceito  de  Pombal,  a  exemplo  dos  pandiiros, 
deviam  infundir  no  inimigo  terror  insuperável.  A  capitulação 
foi  vergonhosa,  e  de  tal  modo  incomprehensivel,  que  o 
ministro  teye  depois  que  se  defender  de  a  haver  elle  próprio 
ordenado.  A  verdade  é  que  a  organização  militar  do  paiz, 
de  que  Pombal,  como  vimos,  se  jactava,  enfermou  sempre 
dos  mesmos  males  de  abandono  e  incapacidade,  herança  dos 
reinados  anteriores  que  annullava  as  virtudes  militares  da 
nação.  Em  21  de  maio  cahia  a  colónia  jdo  Sacramento  em 
poder  das  forças  de  Buenos  Ayres.  A  disputa  de  tantos  annos 
ficava  assim  definitivamente  ultimada;  as  bravatas  do  ministro, 
sem  ef feito;   a   inutilidade   da  alliança   inglesa   evidenciada. 


CAPITULO   IX 


EXTiNCÇÀO    DOS   JESUÍTAS 


Os  jesuítas  c  a  politica  de  Hespanha.  As  reformas  da  instrucçSo. 
Autonomia  da  Egreja  portuguesa.  Tentativas  de  conciliação  abor- 
tadas. A  Dediução  Chronologica.  —  II.  Eleição  de  Clemente  XIV. 
O  novo  pontífice  e  as  potencias.  Suggestões  de  Pombal  sobre 
a  abolição  dos  jesuítas.  —  III.  Reatam-se  em  Portugal  as  rela- 
ções com  a  Santa  Sé.  Nova  aggressão  ao  rei  attribuida  aos  je- 
suítas. Concessões  do  Pontífice  ao  governo  português.  Vernev 
expulso  de  Roma.  Trégua  nas  exigências  das  cortes.  —  IV. 
A  Hespanha  dirige  as  negociações  em  Roma.  Hesitações  de  Cle- 
mente XÍV.  Publica-se  a  bulia  de  suppressão.  Morte  de  Oan- 
ganelli.  —  V.  Receios  em  Madrid  e  Lisboa  da  reacçio  jesuítica 
Eleição  do   Pio   VI.    Pombal   suspeitoso  do   novo    Pontífice. 


Os  dissentimentos  com  a  Hespanha  e  a  Inglaterra  não 
impediam  a  Pombal  de  pensar  nos  jesuítas;  pelo  contrario, 
elles  continuavam  a  ser  a  sua  preoccupação  máxima,  e,  cada 
vez  que  um  inesperado  estono  á  sua  politica,  uma  critica 
aos  seus  actos,  lhe  provocava  a  irritabilidade,  os  jesuítas 
eram,  como  vimos,  os  responsáveis,  o  perpetuo  inimigo  que 
muito  importava  combater. 

A  diversão  com  Grimaldi  não  fora  mais  que  um  incidente 
da  mesma  pugna.  Pombal  teve  sempre  o  genovês  por  instru- 
mento  d'aquelles    religiosos.    Guerra     do    Pacto    de    familia^ 


284  OBSESSÃO    DE    POA1BAL   CONTRA   OS  JESUÍTAS 


questões  da  America,  divergências  em  Paris  ou  Madrid, 
contrariedades  na  Inglaterra,  para  elle  tudo  isso  eram  machi- 
nações  da  Companhia  de  Jesus  e  de  Grimaldi.  Desde  que  este, 
em  1762,  negociara  o  famoso  tratado  com  a  França,  não 
cessara  nunca  de  nos  hostilizar;  e  ainda,  expulsos  de  Hespanha 
os  filhos  de  Loyola,  ficara  elle,  ministro  influente^  ao  lado 
de  Carlos  III,  para  empecer  as  deliberações  que  lhes  fossem 
nocivas,  e  o  bom  entendimento  com  a  corte  de  Portugal  i. 
Tal  era  a  sua  arreigada  convicção. 

Quanto  aos  padres,  em  todo  o  tempo,  desde  que  encetara 
com  elles  a  contenda,  mesmo  nas  situações  mais  criticas  e 
durante  os  mais  absorventes  labores,  nenhum  pensamento 
era  assas  poderoso  para  lhe  desterrar  do  espirito  a  lembrança 
de  tão  temido  adversário.  Dizendo  uma  vez  Choiseul,  ao 
ministro  de  Portugal  D,  Vicente  de  Sousa  Coutinho,  que 
o  negocio  dos  jesuítas,  supposto  fosse  grande,  era  dos  que 
menos  o  preoccupavam,  por  ter  muitos  outros  de  mais  valia 
em  França  e  na  Europa,  Pombal,  instruído  de  taes  palavras, 
commentava-as  assim :  «Não  ha  negocio  tão  grande  que  não 
seja   menor    que   este,   barateado    pelo   duque»    -. 

Era  uma  permanente  obsessão,  exteriorizada  a  cada  passo 
em  actos  e  palavras,  e  que  á  legislação  pombalina  impoz 
o  iseu  cunho,  em  algumas  das  suas  mais  notáveis  resoluções. 
D'este  numero  é  tudo  o  que  diz  respeito  á  instnicção  publica. 


i  Vej.  por  exemplo  o  documento  intitulado:  Compendio  ctnalytico 
das  negociações  entre  as  cortes  de  Lisboa  e  Madrid  desde  1759  até 
ao  fim  do  anno  de  1775,  onde  se  lê  que  «o  Marquez  (de  Qrimaldi) 
e  CS  jesuítas  seus  associados  fizeram  divulgar  em  Lisboa  e  no  Porto 
um  libello  diffamatorio,  intitulado  Prophecia  politica,  no  qual  se  tra- 
tava de  persuadir  que  os  ingleses  opprimiam  os  portugueses  e  ©s 
tratavam  como  escravos,  e  o  contrario  publicavam  na  praça  do  com- 
mercio,  e  em  outro  logares  públicos  da  capital  de  Inglaterra^  rema- 
tando a  dita  exposiç?o,  que  «de  tudo  isto  se  concluía  que  as  inten- 
ções do  marquer.  de  Grimaldi  nunca  foram  sustentar  os  interesses  de 
El-rei  Catholico  e  manter  a  paz  entre  as  duas  coroas,  mas  servir  os 
jesuítas,  conconendo  para  os  seus  projectos  hostís;>.  Quad.  Elem.,  18.o, 
393   e   seg. 

"     Coll.    Neg.    de    Roma,    3.o,     50. 


INSTRUCÇÂO     PUBLICA    E    SANTO    OFFICIO  285 

Desde  a  lei  que  fechou  as  aulas  gratuitas  dos  jesuitas,  em 
1759  1;  até  á  estrondosa  reforma  da  Universidade,  treze 
annos  depois,  tudo  o  que  em  tal  matéria  se  decretou  teve 
por  fim,  affirmava  o  ministro,  combater  a  ignorância,  e 
supprimir  os  erros,  que  durante  dois  séculos  a  pedagogia 
jesuitica  havia  instillado  na  mentalidade  portuguesa.  Vincu- 
lada ao  ensino  pela  vigilância  dos  livros,  a  Mesa  Censória 
fitava  a  desarreigar  doutrinas  perniciosas,  que  a  Companhia 
tinha  propagado,  a  divulgar  obras  e  autores  por  ella  condem- 
nados  -.  Em  relação  ainda  com  a  formação  do  intellecto 
nacional,  a  reforma  do  Santo  Officio  —  guarda  da  crença, 
crisol  seguro  das  idéas  — ,  abonava-se  com  o  propósito  de 
eliminar  pretendidos  effeitos  da  influencia  jesuitica,  que  no 
tribunal  introduzira  praxes  abomináveis,  cruéis  disposições 
que  transgrediam,  como  o  legislador  affirmava,  «todos  os 
direitos,  natural,  divino  e  positivo,  toda  a  caridade  christã, 
e  até  os  dictames  da  mesma  humanidade»  ^.  O  que  não 
impediu  que  ficasse  o  tormento  em  vigor  para  os  heresiarchas, 
nem  que  altos  espiritos  fossem  ainda  perseguidos  sob  o  novo 
regulamento.  A  verdade  é  que  o  ministro,  affeiçoado  á 
instituição,  tinha  somente  em  mira  confiscal-a  para  a  defesa 
do  Estado,  considerando-a  tribunal  régio,  e  não  dependência 
ecclesiastica  como  fora  até  então.  Mas  nem  os  jesuitas  tinham 
parte  nisso,  nem  elles  foram  os  instigadores  das  barbaridades, 
que  o  mundo  inteiro  verberava.  Em  compensação,  haviam 
já  fornecido  ao  tribunal  duas  victimas  famosas :  António 
Vieira,  condemnado  um  século  antes  por  offensas  á  fé,  e 
ultimamente    o    visionário    Malagrida. 

Como  as  providencias  acima,  muitas  outras  em  todos 
os  ramos  da  administração,  ordens,  despachos,  actos  quoti- 
dianos do  governo,  obedecem  á  predominante  idéa  de  esmagar 
o  jesuita,  pela  qual,  de  1759  em  diante,  se  norteia  o  reinado, 
Maleficios  em  (que   realmente   cria,   ou  invocados  por  conve- 


1  Alvará    de    28   julho    1759. 

2  Lei    de    5    abril    1768. 

3  Preambulo    á   lei    de    1    setembro    1774. 


286  AUTONOMIA    DA   EGREJA    PORTUGUESA 


niencias  da  causa,  por  elles,  taes  como  Pombal  os  apontou^ 
a  consciência  nacional  julga  ainda  hoje  a  Companhia  de  Jesus. 

Pela  despedida  do  Núncio,  em  1760,  as  relações  entre 
a  corte  de  Lisboa  e  o  Papa  haviam  cessado.  O  embaixador 
português  sahira  também  de  Roma,  c  desde  então  a  Egreja 
lusitana  tinha  por  chefe  verdadeiro  o  primeiro  ministro,  não 
o  Pontifice.  As  decisões,  que  até  ahi  se  iam  buscar  a  Roma, 
foram  devolvidas  aos  bispos,  subordinados  á  coroa.  Dispensas 
matrimoniaes,  provisão  de  beneficios,  sagração  dos  novos 
diocesanos,  tudo  era  competência  do  episcopado.  Canonistas 
ao  serviço  do  governo  —  entre  esses  António  Pereira,  na 
Tentativa  theologica  foi  o  mais  celebre  —  assim  o  demon- 
stravam. Faltando  a  Bulia  da  Cruzada,  o  patriarcha,  a  pedido 
da  Casa  dos  Vinte  e  quatro,  dera  indulto  da  abstinência  ide 
ovos  e  lacticinios  na  quaresma.  A  autonomia  religiosa  da 
nação  era,  póde-se  dizer,  completa,  e  o  ministro  omnipotente, 
em   tudo   a   ella    respectivo,   suggeria,   intervinha   e   dispunha. 

Isso  porém  não  caminhava  sem  attritos,  porque  o  espirito 
romanista  da  população  reagia.  Nem  todos  acceitavam  as 
dispensas  dos  bispos,  e  d'estes,  poucos  eram  a  concedel-as, 
por  escrúpulo  e  submissão  á  Santa  Sé.  Muitos  matrimónios, 
por  essa  causa,  não  se  realizavam.  Com  a  abstinência  foi 
o  mesmo;  ás  timidas  consciências  não  socegava  a  concessão 
do  Patriarcha.  Ao  mesmo  tempo,  o  rendimento,  que  o  Estado 
auferia  da  bulia,  relativamente  avulíado,  fazia  falta  ao  erário 
sempre  exhausto.  Com  isto  tudo  contava  o  Pontifice  para 
a  sua  victoria  final. 

Desde  1764,  o  Rei,  catholico  timorato,  desejava  o  conflicto 
apaziguado,  e  por  vias  indirectas  o  fizera  constar  a  Cle- 
mente XIÍI.  Como  a  hostilidade  da  corte  pontifícia  se  imputava 
principalmente  ao  secretario  de  Estado  Torregiani,  o  Patriarcha 
de  Lisboa,  servindo  de  intermediário,  escrevia  directamente 
ao  Papa.  Este,  á  vista  dos  desejos  de  congraçamento  mani- 
festados, entendeu  chegada  a  occasião  de  Oeiras  capitular 
e,  fazendo-se  esquivo,  quiz  impor  condições:  primeiro  que 
tudo  pedia  o  restabelecimento  dos  jesuítas  no  reino,  persua- 
dido que  a  França  e  a  Hespanha,  seguindo  o  exemplo,  os 
readmittiriam   também.     Por   sua    vez,     Oeiras   exigia    que    nos 


INÚTEIS    TENTATIVAS    DE    CONCILIAÇÃO  287 


jesuítas  se  não  falasse ;  que  o  destino  dado  aos  bens  confis- 
cados á  Companhia  fosse  approvado;  finalmente  que  o 
cardeal  Torregiani  nunca  mais  interviesse  em  assumptos 
referentes  a  Portugal.  E,  a  propósito,  exclamava  irritado  que 
o  Geral  dos  jesuitas  era  o  verdadeiro  Papa,  e  Clemente  Xill 
um  imbecil,  que  devia  ser  deposto,  por  tantos  abusos  que 
em  seu  nome  deixava  commetter  i.  O  Papa,  vendo  que  o 
adversário  se  não  dobrava,  escrevia  afinai  a  D.  José  e  ao 
ministro,  no  amavioso  tom  ritual  da  Santa  Sé,  exorando  .a 
reconciliação.  Mas  um  e  outro  responderam  de  modo  que 
toda  a  lesperança  fenecia.  Sob  as  formulas  da  apparente  vene- 
ração, a  epistola  do  Rei  era  aggressiva,  a  do  ministro  irónica, 
e  em  ambas  resumbrava  o  patente  desapreço  á  tentativa  do 
Pontifice, 

Inconsciente  dos  perigos  da  situação,  e  cego  pelo  amor 
sobreposse  ao  instituto  de  Loyola,  Clemente  XIII  respondera 
ao  acto  da  suppressão  dos  jesuitas  em  França  com  o  breve 
celebre  Apostolicum  pascendi,  em  que  confirmava  a  existência 
da  Sociedade  tal  qual  se  achava  instituída,  e  pretendia  defcn- 
del-a  das  múltiplas  accusações,  que  em  toda  a  parte,  nos 
paizes  catholicos,  contra  ella  se  levantavam.  O  effeito  d'essa 
leviandade  foi  deplorável.  Redigido  em  segredo,  nos  aposentos 
do  Papa,  com  a  collaboração  do  Geral  da  Companhia,  padre 
Ricci ;  ignorado  pelos  cardeaes,  e  pelo  próprio  secretario  de 
Estado;  este  documento  escandalizou  a  opinião  imparcial,  e 
até  dentro  do  Vaticano  produziu   surpresa  e  desgosto. 

No  anno  seguinte,  em  setembro,  a  publicação  de  outro 
breve,  o  Animar  um  saluti,  em  idêntico  sentido,  mereceu  egual 
reprovação,  e  attrahiu  sobre  o  Pontifice  e  seus  protegidos 
animosidade  ainda  maior.  Ao  tempo  em  que  Clemente  XIII 
tomava  a  deliberação  de  escrever  ao  rei  de  Portugal  e  a 
Oeiras,  sahira  este  contra  elie  oo:n  um  edito  que  certamente 
havia  de  lhe  desvanecer  toda  a  esperança  de  pazes.  Esse 
decreto  feroz  ^  declarava  sem  effeito  o  breve  Animarum 
saluti,  mandava  entregar  ás  autoridades  as  copias  existentes. 


1  Officio    de    Simonin,    24    julho    1767.    Quad.    E/em.,    Vil.    215. 

2  28   agosto    1767. 


288  NOVAS    MEDIDAS    CONTRA    OS    JESUÍTAS 

e  impunha  aos  detentores,  que  desobedecessem,  a  pena  de 
confisco  dos  bens,  e  as  mais  estabelecidas  por  lei  nos  casos 
de  conspiração  para  offensas  á  régia  majestade.  Investindo 
com  os  jesuitas,  prohibia  as  cartas  de  confraternidade,  mediante 
as  quaes  os  seculares  se  filiavam  á  Companhia;  considerava 
réos  de  lesa-majestade  aquelles  que  taes  cartas  impetrassem 
ou  recebessem,  e  os  que  tendo-as  não  as  fossem  accusar  ie 
dar  por  nullas,  em  acto  publico  ante  um  magistrado.  Réos 
de  lesa-majestade  seriam  também  os  jesuitas  expulsos  que 
voltassem  ao  reino,  incorrendo  as  pessoas  que  com  lelles 
tivessem  communicação  verbal  ou  por  escrípto  na  pena  de 
degredo,  comminada  egualmente  aquelles  que,  sabendo  dos 
factos  incriminados  os  não  fossem  denunciar.  Divulgado  isto 
foi  enorme  a  consternação  em  Roma.  Carlos  III,  expulsando 
de  Hespanha  os  jesuitas,  prohibira  também  a  communicação 
com  elles  e  as  cartas  de  confraternidade,  mâs  o  decreto  de 
Oeiras    excedia    na   violência   tudo    quanto   até    então:  se   fizera. 

Este  não  foi  todavia  o  golpe  mais  rijo.  Não  satisfeito, 
o  ministro  ia  atacar  o  inimigo  em  outro  terreno.  Nesse 
mesmo  anno  sahiu  á  luz  a  Dedacção  chronologica,  «obra 
porventura  a  mais  importante  de  quantas  se  teem  publicado 
contra  os  jesuitas»,  diz  um  historiador  ecclesiastico  ^,  Dois 
grossos  volumes,  e  o  terceiro  de  Provas,  cxcerptos  e  docu- 
mentos em  abono  do  texto,  composiçã,o  de  estylo  duro  je 
fastidiosa  leitura,  abundante  em  factos,  mal  interpretados  uns, 
aleivosos  outros,  sem  autoridade  para  o  imparcial-  estudo 
da  questão,  mas  que,  apparecendo  em  plena  refrega,  resoaram 
na  Europa  com  um  fragor  de  mina  que  estoira,  destroçando 
muralhas. 

A  primeira  parte  occupa^e  dos  jesuitas,  desde  que 
entraram  em  Portugal,  e,  revendo  a  historia  pátria,  fal-os 
intervir,  como  funestos  agentes,  em  todos  os  successos  fataes 
ou  condemnaveis  que  occorreram  depois,  a  principiar  no 
desastre    de    Alcacerquibir    e    terminar    no    attentado    contra 


1     Theiner,    Histoire    du    pontijicat    de    Clément    X/V,    trad.    Paris 
1852,     l.o,    94. 


A    OBRA     DOS    jesuítas  2S9 


D.  José;  para  isso  encadeia  os  factos  em  uma  serie  ,de 
suscitadas  intrigas,  conspirações  e  revoltas,  por  meio  das 
quaes  a  Companhia  tentara  sempre  subordinar  ás  suas 
ambições  o  supremo  poder  do  Estado.  A  segunda  parte 
argúe  os  direitos  dos  soberanos  contra  as  pretenções  de 
supremacia  da  Santa  Sé,  rejeita  os  índices  expurgatorios,  publi- 
cados sem  o  régio  beneplácito,  e,  sempre  com  invocação 
de  factos  históricos,  mais  ou  menos  exactos,  faz  intervir  os 
jesuitas  em  tudo  o  que,  desde  que  tiveram  existência,  em 
semelhante  matéria  foi  passado.  Ambas  as  divisões  constituem 
appenso  a  uma  petição  do  procurador  da  coroa  contra  os 
abusos  da  corte  de  Roma  e  os  manejos  perniciosos  dos  seus 
protegidos. 

Tudo  quanto  dois  séculos  de  justas  queixas,  de  rivali- 
dades e  má  fé,  haviam  juntado  contra  estes  religiosos  se 
acha  compendiado  nos  dois  pesados  tomos.  Parlamentos  de 
França,  tribunaes  vários,  governos  coloniaes,  historiadores, 
praxistas,  follicularios,  espiões,  todos  cumulativamente  são 
chamados  a  depor.  A  these  de  Carvalho  é  esta :  até  á  entrada 
dos  jesuitas,  Portugal  foi  culto,  prospero  e  poderoso;  em 
seguida,  as  letras  agonizam,  o  commercio  definha,  a  nave- 
gação decáe,  o  poder  militar  abate,  perdem-se  as  virtudes 
civicas,  e  desapparece  o  equilíbrio  nas  relações  assim  entre 
a  coroa  e  a  Egreja  como  entre  o  Rei  e  os  vassallos  ^.  Esta 
obra  nefasta  exercita-se  por  uma  acção  continua.  Desde  o 
reinado  de  D.  João  MI  os  jesuitas  conseguem  introduzir-se 
na  Universidade  e  arruinam  a  instrucção.  Educam  D.  Sebastião 
no  fanatismo  e  impellem-no  á  jornada  de  Africa.  Por  morte 
d'elle,  intrigam  a  favor  de  Felippe  II,  e,  quando  investido 
na  coroa,  fazem  morrer  cerca  de  dois  mil  ecclesiasticos  ie 
pessoas  doutas,   contrarias   ao   dominio   extranho  2,   Na  corte 


1  Veja-se  na  Parte  I  a  Divisão  I :  Em  que  se  contem  o  compendio 
do  estado  em  que  estavam  em  Portugal  as  virtudes  e  lettras,  no  anno 
de    1540,    em    que    entraram    neste    reino    os    denominados    jesuítas. 

2  É  o  caso  referido  pelo  conde  da  Ericeira  no  Portugal  restaurado. 
Parte   I,   Liv.    I:   c^Os  castigos  dos  que   falavam   qualquer   palavra   contra 

o    MARQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  19 


2)0  QUEM  COMíK)Z  A  DFDUCÇÃO    CHRONOLOGICAI 

de  D.  João  IV  preponderam,  e  urdem  a  desgraça  de  Francisco 
de  Lucena.  A  Affonso  VI,  rei  sensato  e  bom,  fazem  perder  o 
throno,  a  liberdade  e  a  consorte.  Pedro  II  é  levado  por 
elles  a  requerer  ao  Papa  o  perdão  geral  dos  hebreus,  contra 
o  voto  das  cortes  e  da  nação;  criam  assim  um  conflicto 
grave  da  Cúria  com  o  Santo  Officio.  Reinando  D.  João  V, 
instigam-no  á  creação  dispendiosa  da  Patriarchal,  e  tramam 
a  propósito  das  missões  do  Oriente  e  do  Brasil.  Finalmente 
continuam  os  malefícios  sob  o  governo  de  D.  José,  até  rema- 
tarem pela  tentativa  monstruosa  do  regicídio.  Tal  é,  em 
vagos  traços,  o  tremendo  libello  opposto  por  Carvalho  ao 
esforço  impotente  de  Clemente  XIII,  libello  inconsistente 
pelas  próprias  demasias,  mas  cujo  espirito  domina  ainda  hoje, 
nos  juízos  sobre  o  debate  e  na  interpretação  da  historia. 

Quem  reuniu  e  poz  em  forma  os  elementos  d'este  famoso 
escripto?  Quem  compoz  a  Deducção  chronologica?  Por  multo 
tempo  se  julgou  fosse  o  Procurador  da  coroa,  a  quem  por 
um    estratagema,   talvez   por  ser   d'elle   a   Petição   de   recurso, 


o  governo,  e  dos  que  não  haviam  servido  el-rei  na  conquista  do  rei.ao 
eram  tantos,  ainda  que  occultos,  que  se  não  perdoava  nem  aos  religio- 
sos; porque  aquelles,  a  que  a  tyrannia  suppunha  delinquentes,  oram 
arrebatados  de  improviso,  e  levados  á  torre  de  S.  Gião,  de  onde 
os  lançavam  ao  mar,  que  não  querendo  occultar  tanto  delicio,  trazia 
os  corpos  ás  redes  dos  pescadores,  e  retiravam-se  d'ellas  os  peixes, 
oífendidos  do  insulto,  recusando  ser  mantimento  dos  homens,  que  mu- 
dando as  disposições  de  Deus,  lhes  queriam  dar  homens  por  ali- 
mento; e  foi  necessário  que  a  instancia  dos  pescadores  o  arcebispo  de 
Lisboa  fosse  em  procissão  benzer  o  mar,  profanado  com  tantos  sacrilé- 
gios, para  que  elle,  como  succedeu,  continuasse  a  pagar  o  tributo  do 
peixe,  que  de  antes  costumava».  Outro  autor,  Manoel  Rodrigues  Lei- 
lão, no  Tratado  analyiico  e.  apologético  sobre  o  provi  me  nf  >  dos  bis- 
pados em  Portugal,  com  provável  exagero  diz  que  «foram  mais  de 
dois  mil  os  religiosos  e  ecclesiasticos  mortos  occultamente».  Hecatom- 
be  movida  pelos  jesuítas,  pretende  a  Deducção  chronologica,  (Parte  l, 
§  253)  «em  ordem  aos  seus  próprios  e  vastíssimos  interesses,  quaes 
eram  os  de  extinguir  neste  reino  os  homens  letrados  e  a  litteratura, 
para  não  terem  nelle  contraditores».  Esta  só  accusação  define  o  nie- 
thodo  e  os  intuitos  da  obra. 


os    EFFEITOS     DA    DEDUCÇAO   CHRONOLOGICA  291 


Oeiras  fez  que  fosse  a  obra  attribuida,  mandandoí  imprimir 
no  f rontispicio :  dada  á  luz  por  José  de  Seabra  da  Silva,  Não 
ha  todavia  duvida  que  o  autor  foi  Oeiras.  O  estylo  é 
bem  d'€lle,  e  paginas  inteiras,  additamentos,  notas  e  correcções 
de  seu  punho,  a  começar  pelo  titulo,  no  original  existente, 
tudo  dá  a  prova  de  que  a  Deducção  foi  não  só  concebida  pelo 
ministro,  como  inteiramente  redigida  também.  Certo  que  teria 
collaboradores.  Por  abalisado  que  fosse  no  direito  ecclesias- 
tico,  e  erudito  na  litteratura  referente  aos  jesuitas,  não  poderia 
sósinho,  nesta  quadra,  a  mais  afanosa  da  sua  vida,  coliigir 
o  material  immenso  de  factos,  citações  e  juizos,  quie  constituem 
o  fundo  da  obra.  O  próprio  José  de  Seabra,  o  m'onge  Cenáculo, 
o  theologo  António  Pereira,  Verney,  collaboradbr  em  Roma 
do  ministro  Almada,  o  famoso  Platel  quando  esteve  em 
Lisboa,  —  porque  o  trabalho  é  de  annos  —  a  todos  esses,  sem 
arrojo  de  conjectura,  se  pôde  attribuir  algum  contingente  no 
estrondoso  libello, 

A  impressão  produzida  pela  Deducção  chronologica  foi 
enorme.  Em  França  e  Hespanha  os  adversários  dos  jesuitas 
acolheram-na  com  jubilo  de  fácil  explicação.  De  Paris  e 
Madrid  os  Núncios  mandaram  exemplares  para  Roma,  fazendo 
ver  que  não  somente  os  jesuitas  sahiam  do  ataque  mal  feridos, 
senão  também  a  Santa  Sé,  incriminada  de  acatar  mais  os 
interesses  d'elles  que  os  da  Egreja  e  da  christandade.  Somente 
a  Torregiani,  incapaz  sempre  de  bem  comprehender  o  alcance 
dos  acontecimentos,  pareceu  este  de  pouca  importância.  A 
seu  ver,  a  publicação,  satisfazendo  a  curiosidade  malévola 
dos  adversários  da  Companhia,  era  menos  em  menoscabo 
d'esta  que  dos  soberanos  portugueses,  culpados  de  haverem 
deixado  a  instrucção  nacional  chegar  á  situação  miserável, 
em  tão  vivas   cores   descripta   no  libello  ^ 


i     Coll.    Pomb.,   Cod.    443  a   446. 
-     TntiNER,   CAéiv.enl   XIV,    l.o,    97. 


292  A    QUESTÃO    DE     PARiWA 


II 


O  conflicto  com  o  duque  de  Parma,  surgindo  em  seguida, 
deu  ensejo  a  Oeiras  de  in-aginar  chegada  o  momento 
em  que  poderia  forçar  o  contendor  á  submissão.  Por  isso 
o  ministro  Almada  partiu  de  Lisboa,  a  juntar-se  aos  repre- 
sentantes dos  Bourbons.  Afinal  ia-se  dar  nos  jesuítas  o  golpe 
decisivo,  pensav^am  em  Lisboa.  Mentida  esperança!  A  morte 
inesperada  de  Clemente  XIII  annullou  o  projecto,  e  o  assumpto 
foi  adiado  até  á  eleição  de  outro  Papa.  Os  Bourbons  abando- 
navam também  a  questão  de  Parma.  A  dos  jesuítas  era  a 
que  ia  ter  a  primazia,  e  todo  o  empenho  d'elles  foi  logo 
arrancarem  ao  conclav"e,  pelo  nome  vencedor,  o  mandato 
da   extincção  da   Ordem. 

Carvalho  proclamava  a  necessidade  de  um  proceder 
enérgico.  Confiança  no  Sacro  Coilegio  não  tinha.  «Os  votos 
—  dizia — são  ordinariamente  comprados,  como  agora  os  estão 
comprando  os  jesuitac,  com  mais  de  dois  milhões  de  despesa»  ^ 
Conversando  com  o  ministro  de  França,  affirmava  não  ficar 
adm.irado  se  visse  eleger  Pontífice  o  próprio  Geral  da  Com- 
panhia -.  Propunha,  pois,  occuparem  as  potencias  o  Estado 
romano,  e  intimarem  aos  cardeaes  que  não  elegessem  um  de 
entre  elles,  mas  sim  individuo  extranho  ao  Sacro  Coilegio, 
solução  efficaz,  e  que  os  cânones  não  vedavam.  Choiseul, 
porém,  mais  ponderado,  não  concordou.  Tinha  meios  de 
conseguir  sem  violência  o  seu  fim.  «O  conclave  está  advertido 
de  que  o  Papa,  que  não  secularizar  a  ordem  dos  jesuítas, 
se  arrisca  a  não  ser  reconhecido  pelas  potencias»  '^,  replicava 


1  Instr.  a  Almada,  8  abril  1769.  Coll.  Negócios  de  Ronui,  III,  55. 
-  Sitnonin  a  Choiseul,  7  março  1769.  Quad.  Elem.,  VIII,  324. 
3     Instr.    cit.    Coll.    Neg.    de    Roma,    III,    55. 


ELEIÇÃO  13E  CLEMENTE  XlV  293 

ao  embaixador  português,  que  lhe  submettia  o  alvitre  do 
impaciente   Cangalho, 

Choiseul,  avisado  pelo  cardeal  Beriiis,  que  se  achava 
lio  conclave,  estava  a  par  do  que  no  secreto  da  assembléa 
occorria.  Com  antecipação  assegurava  a  Car\'aiho  que  no 
mez  de  maio  haveria  Pontífice  novo,  e  não  se  enganou.  No 
espaço  que  decorreu  fervilharam  no  sagrado  recinto  as 
astúcias,  as  combinações,  as  intrigas.  Impellido  por  Bernis, 
Ganganelli  dia  a  dia  foi  vencendo  a  distancia  que  do  ambicio- 
nado soHo  o  separava.  A  19  de  maio  cingia  a  tiara,  mediante 
o  pacto,  declarado  ou  tácito,  de  anniquilar  a  sociedade,  que 
as  coroas  detestavam  ' ;  decidido,  porém,  logo  em  seguida, 
a  tergiversar,  ganhar  tempo,  illudir  a  obrigação,  desde  que, 
afinal  eleito,  socegada  a  anda  do  poder,  mediu  a  responsa- 
bilidade  c   os    riscos   do  seu   empenho  gravissimo. 

Apesar  d'isso,  o  novo  pontificado  inaugurou-se  com 
actos  de  ruim  presagio  para  os  jesuítas,  Successivamente 
Clemente  XIV  negava  a  audiência  ao  Geral,  excusava-se  de 
;i:>'sisiii,  como   era    habito   de   seus   predecessores,   á   festa   de 


1  A  questão  do  compromisso  de  Ganganelli,  anterior  á  eleição, 
tem  sido  muito  debatida  pelos  historiadores.  Os  que  favorecem  a  Com- 
panhia affirmam,  os  defensares  de  Clemente  XIV  negam  a  existência 
do  pacto.  Dizia-se  que  a  promessa  fora  dada  por  escripto  ,íos  cardeaes 
hespanhoes.  Um  escriptor  notável.  Crétineau-Joly,  ferrenho  sectário  dos 
jesuitas,  affirma  ter  visto  o  documento.  Mas  o  testemunho  é  suspeito, 
e  o  facto  é  que  elle  atC'  hoje  não  foi  encontrado  nos  archivos  de 
Hespanha.  Segundo  Bernis,  que  estava  no  caso  de  bem  saber,  Gan- 
ganelli escrevera  um  bilhete  dizendo  simplesmente  que,  na  sua  opi- 
nião, o  soberano  pontifice  podia  em  consciência  extinguir  a  sociedade 
dos  Jesuítas,  observando  fís  regra-^  canónicas  e  as  da  prudência  e  da 
justiça,  (despacho  de  20  de  novembro  de  1769).  Ao  padre  Deshaises, 
conclavista  de  Bernis,  com  quem  teve  uma  conferencia  antes  da  elei- 
ção, o  futuro  papa  disse  que  -quanto  aos  jesuitas  estava  convencido 
que  a  destruição  d'elles  era  necessária,  e  cuidaria  d'isso  dentro  das 
formas  indispensáveis.;;  (Masson,  le  cardinal  de  Bernis,  Paris  1884, 
108).  Talvez  sejam  invenções;  mas  tudo  o  que  se  passou  no  conclave, 
e  os  actos  de  Clemente  XIV,  seguintes  á  exaltação,  são  factos  que 
não  deixam  duvida  de  que,  acceitando  a  tiara,  elle  sabia  já  que  aquella 
tarefa    irrevogavelmente    lhe    incumbia. 


294  O  NOVO  pontífice  E  AS  POTENCIAS 


Santo  Ignacio,  no  principal  templo  da  Companhia,  €  prohibia 
se  publicasse  a  collecção  de  trechos  laudatorios,  que  a 
propósito  da  sua  exaltação  os  collegios  de  Roma  lhe  offere- 
ciam.  Desde  logo,  por  natural  pendor  ou  affectado  receio, 
adoptava  a  praxe  de  viver  segregado  com  seus  familiares, 
como  quem  pretendia  furtar-se  a  nocivas  influencias,  ou  temia 
a  revindicta  do  grande  acto,  que  tinha  tm  mente  praticar. 
No  recesso  dos  seus  aposentos  do  Vaticano  passava  os  dias, 
acompanhado  apenas  por  um  leigo  de  confiança,  que  era 
o  seu  mais  intimo  amigo  e  lhe  servia  de  mordomo  e  cosi- 
nheiro.  Por  confidentes  Íntimos  tinha  o  padre  Buoníempi, 
seu  confessor,  e  o  monsenhor  Macedónio,  a  quem  secreta- 
mente incumbia  de  fazer  por  escripto  ou  de  voz,  aos 
embaixadores,  as  communicações,  que  julgava  para  si  de 
compromettimento. 

Ao  receber  pela  primeira  vez  os  representantes  dos 
governos  interessados  em  destruir  os  jesuítas,  não  hesitou 
em  lhes  dizer  que  o  desejo  d'elles  seria  cumprido.  A  Car\'alho 
mandou  fiança  escripta  da  promessa.  Tomando  a  iniciativa 
das  relações  diplomáticas,  abriu  com  elle  correspondência, 
pedindo  que  o  Núncio  fosse  recebido  em  Lisboa,  e  em  troca 
d'isso  assegurava  despacho  ás  dependências  que  a  corte 
portuguesa  tinha  da  Santa  Sé.  «Quanto  aos  negócios  — 
continuava  —  de  interesse  commum  com  as  outras  cortes, 
pedimos-lhe  que  tenha  em  nós  confiança,  e  não  permitta 
virem  os  alliados  com  exigências  descabidas,  e  não  condu- 
centes ao  fim  que  temos  em  vista»  ^  É  de  notar  que  princi- 
piava a  missiva  pondo  á  disposição  da  corte  portuguesa  um 
capello  de  cardeal.  O  mesmo  era  que  nomear  Paulo  de 
Carvalho,  irmão  do  ministro.  A  offerta  facilitava  com  certeza 
o  intento  do  Papa. 

Acompanhava  a  carta  outra  de  Macedónio,  referindo  a 
situação  embaraçosa  de  Clemente  XIV,  sem  confiança  nos 
ministros  de  França  le  Hespanha,  e  pouco  seguro'  da  lealdade 


1     Breve  ao  conde  de  Oeiras,  28  agosto  1769.  Coll.  Neg.  de  Roma, 
3.0,   61. 


RESTABELECIMENTO    DE    RELAÇÕES    COM    A   SANTA    SÉ       295 


dos  seus.  E  claramente,  em  nome  d'elle,  exprimia  o  propósito 
de  extinguir  os  jesuitas,  e  a  promessa  de  o  fazer  logo  que 
as  circumstancias  tal  permittissem. 

O  acto  inesperado  do  Papa  surprehendeu  a  Oeiras. 
«A  novidade  que  causaram  a  referida  carta,  e  a  papeleta  que 
a  acompanhou,  fizeram  susp-eitar  n^elias  a  falta  de  sinceridade 
e  artificio  curial»^.  Esta  foi  a  impressão  do  momento.  Refle- 
ctindo, porém,  achou  de  boa  politica  corresponder  ás  dispo- 
sições do  Pontifice,  que  lhe  resolviam  difficuldades  da 
administração  interna,  e  satisfaziam  o  expectante  anceio  do 
soberano  pela  reconciliação.  N'este  sentido  meditava:  «Nada 
se  perde  em  receber  o  Núncio  e  se  abrir  correspondência 
entre  as  duas  cortes,  nem  quanto  ao  passado,  nem  quanto 
ao  futuro. . ,  Pelo  que  pertence  ao  passado,  porque  toda  a 
satisfação  que  S.  M.  pedia  era  contra  os  ministros  do  Papa 
Clemente  XIII,  e  estes  se  acham  já  declarados  indignos  pelo 
Santo  Padre  reinante. . .  Pelo  que  pertence  ao  futuro,  porque 
S.  M.  em  nada  cederá,  com  a  chegada  do  Núncio,  dos  seus 
interesses  sólidos  e  sustentáveis,  antes  fará  tudo  que  reces- 
sario  fôr  para  os   conservar»  -. 

Era  o  que  Ganganelli  buscava,  receioso  de  ver  Portugal 
separar-se  de  \  ez  do  grémio  catholico.  Com  perfeita  inde- 
pendência, sob  a  mão  férrea  do  ministro,  a  machina  eccle- 
siastica  ia  funccionando  sem  Núncio,  nem  subordinação  alguma 
á  Santa  Sé.  Habituada  a  nação  ao  regimen,  tomando  o 
governo  gosto  pela  emancipação,  era  de  temer  o  apartamento 
definitivo.  Que  melhor  obra  para  um  Pontifice  que  trazer 
á  obediência  este  filho  da  Egreja  extraviado?  Além  d'isso, 
acicatado  por  França  e  Hespanha,  para  destruir  os  jesuitas, 
parecia-lhe  ainda  Oeiras  o  solicitador  mais  ncfrcgo,  e  que 
primeiro  convinha  applacar.  A  purpura,  que  o  irmão  do 
ministro  não  vestiu,  por  fallecer  entretanto,  transferida  por 
isso  ao  favorito  D.  João  da  Cunha;  a  offerta  do  seu  letrat.o, 
privilégios  para  a  capella  de  Oeiras,  indulgências,  distincções 


i     ColL    Ne^.    de   Roma,    3.o,    61. 
2     Idem,    ici.,   63. 


29ÍI  SUQGESTÕES  SOBRE  A  ABOLIÇÃO  DOS  JESUÍTAS 


pessoáes,  em  que  o  orgulho  do  fidalgote  elevado  aos  fastígios 
se  comprazia;  em  assumptos  do  governo  ecclesiastico  absoluta 
condescendência;  tudo  isso  valeu  a  Canganelli  a  bemquc- 
rença   d'aquelle   que   como   contendor  mais  temia. 

Como  primeiro  favor,  Oeiras  ia  deixar  por  algum 
tempo  em  ma'turação  os  negócios  dos  jesuítas.-  As  confidencias 
do  Papa  tinham-lhe  avivado  a  suspeita  com  que  olhava  a 
Grimaldi,  a  Choiseul,  e  aos  ministros  que  em  Roma  os  repre- 
sentavam. Persuadido  que  possuía  a  confiança  de  Clemente 
XIV,  ia-lhe  dando  alvitres  para  facilitar  a  extincção,  Aconse- 
Ihava-o  a  entabolar  secretas  negociações  com  Tanucci, 
primeiro  ministro  de  Nápoles,  para  este  mandar  avançar 
tropas  até  perto  de  Roma,  e  d 'esse  modo,  certoi  de  subjugar 
as  resistências,  poder  elle  sem  receio  decretar  a  desejada 
abolição.  A  Almada  recommendava  que  com  os  outros  diplo- 
matas usasse  de  toda  a  reserva,  nada  deixando  transpirar  das 
correntes  negociações.  Para  que,  violada  a  correspondência, 
não  fosse  o  segredo  conhecido,  o  Papa  seria  designado  pof 
conselheiro  douto,  Macedónio  por  amigo  bem  informado.  Quando 
se  tratasse  de  novas  representações  sobre  os  jesuítas,  fizesse 
elle  notar  aos  collegas  que  era  inútil  affligir  o  Santo  Padre 
com  instancias  verbaes,  desde  que  as  cortes  lhe  não  davam 
o  auxilio  material,  único  meio  de  levar  o  negocio  á  termi- 
nação. Assim  Oeiras  voltava  ao  propósito  antigo  de  realizar 
com  o  apparato  da  força  aquillo  que  os  Bourbons  só  quería.m 
sem  a  presumpção  de  violência. 

Neste  sentido  escrevia  ao  Papa:  «Se  Portugal  fosse  tão 
vizinho  dos  Estados  de  Vossa  Santidade  como  o  é  da  fronteira 
de  Hespanha,  posso  assegurar  que  El-Réi  poria  logo  todas 
as  suas  tropas  ás  ordens  de  Vossa  Santidade^)  ^  Mas  como 
tal  se  não  dava,  aquelle  tinha  a  vantagem  de  ficar  ^r 
algum  tempo  desembaraçado  de  insltancías.  Carvalho  assim 
lh'o  affiançava:  «Quanto  ao  negocio  da  causa  commum  com 
as  outras  cortes,  que  teem  instado  pela  extincção  dos  jesuítas, 
ficando    El-Reí,    pela    carta    de    Vossa    Santidade,    na    certeza 


Carta   de   5   outubro    1769.   Coll.   Neg.   de   Roma,     3.o,    64. 


PROMESSAS   DE   GANGANELLI  29' 


em  que  Vossa  Santidade  o  pãe  de  que  quer  effectivatnentc 
extinguir  os  jesuítas,  logo  que  para  isso  tiver  prudente  segu- 
rança, e  vendo  claramente  que  Vossa  Santidade  a  não  teve, 
nem  tem,  nas  circumstancias  em  que  até  agora  se  achou, 
não  cabia  na  consummada  circumspecção  e  filial  ternura  do 
dito  monarcha  mandar  ao  seu  plenipotenciário  outra  instnicção, 
que  não  fosse  a  que  elle  secretissimamente  communicará  a 
Vossa  Santidade). ^  A  insírucção  era  a  que  atraz  fica  mencio- 
nada, sobre  a  necessidade  de  darem  as  potencias  ao  Papa 
o  soccorro  militar,  e  como  nem  ellas  o  propunham,  nem 
elle  o  solicitava,  a  dilação  era  forçosa  e  a  sua  justi- 
ficação  curial. 


III 


Em  dezembro  ficou  assente  o  restabelecimento  das 
relações  entre  a  Egreja  portuguesa  e  o  Pontífice,  sendo  o 
cardeal  Conti  indigitado  para  Núncio.  Em  termos  de  gratidão 
Ganganelli  escreveu  a  D.  José  e  a  Oeiras,  a  testemunhar 
o  seu  jubilo,  não  se  descuidando  de  alludir  em  phrases 
mysteriosas  e  de  vaga  promessa  ao  negocio  dos  jesuítas. 
(iValtro  importantíssimo  quas'í  commune  affare  si  stà  attiial- 
mente  lavorando,  diz  ao  ministro.  A  D.  José  promette,  sul 
punto  dei  commune  affare  ben  noto  delia  Sacra  Maestà  Vostra, 
dar  egual  satisfação  que  ao  Rei  de  Hespanha  2.  Com  estes 
artifícios  entretinha  o  arrogante  solicitador,  já  domado,  e 
pensava    adiar    indefinidamente    a    questão. 

Prometterido  sempre  tudo,  esquivando-se  em  seguida, 
Ganganelli  estava  de  boa  fé.  Era  o  seu  caracter  um  mixto 
singular  de  exuberância,  astúcia  e  timidez.  Sem  freio  na 
palavra,    deixava-se  levar  pela  facúndia  invencível,  excedia  o 


1     Idem,    Id.,   65. 

^     Breves    de    lU    át    dezesibro    de    1769.    Coll.    Neg.    de    Roma, 
3.0,  72,  73. 


208      AGGRESSÃO    CONTRA    O    REI    ATTRIBUIDA   AOS  JESUÍTAS 

seu  propósito,  e  depois,  afflicto,  recuava,  evadia-se,  procu- 
rando ganhar  tempo,  na  expectativa  do  successo  imprevisto 
que  o  libertasse  do  involuntário  compromisso.  Foi  assim  que 
longo  prazo  esperou  que  a  morte  do  Geral  Ricci,  gravemente 
enfermo,  lhe  permittiria  solver,  com  relativa  facilidade,  a 
questão  dos  jesuítas.  Fallccendo  elle,  prohibia  a  eleição  de 
outro  Geral;  meio  caminho  andado  para  secularizar  a  ordem. 
Mas  o  facto  com  que  contava  não  se  realizou.  Em  grande 
consternação  viu  o  doente  perdido  convalescer.  Mas,  quando 
assim  não  fosse,  porventura  no  momento  opportuno  hesitaria 
ainda.  E  d'esta  arte,  de  recuo  em  recuo,  foi  acossado  até 
mais  não  poder  recusar  o  acto  decisivo,  ante  o  qual,  por 
longo  tempo,  em   frémitos  de  pavor  estarrecia. 

Entretanto,  um  caso  succedido  em  Portugal  veiu  pertur- 
bar-lhe  o  relativo  descanso  das  preoccupaçòes  sobre  o  temido 
negocio.  Em  3  de  dezembro  de  1769,  sáhindo  D.  José  para 
a  caça,  em  Villa  Viçosa,  ao  cruzar  a  cavallo  o  portão  da 
tapada,  acommetteu-o  ás  pauladas  um  homem,  que,  cosido 
com  o  muro  alli  se  embuscara.  Facilmente  se  livrou  o 
soberano,  com  um  galão  da  montada,  sahindo  incólume.  O 
aggressor,  pobre  de  espirito,  rude  camponio  a  quem  tinham 
embargado  uma  besta  de  carga,  seu  ganha-pão,  imaginara 
vingar  o  aggravo  na  pessoa  do  Rei.  Prenderam-no  logo,  e, 
facto  extranho  neste  reinado  sangrento,  foi-lhe  poupada  a 
vida.  Tido  por  louco,  morreu  no  cárcere  passados  annos. 
O  tribunal,  que  sentenciou  os  Tavoras,  d'esta  vez  não  teve 
de  Se  pronunciar,  tão  patente  seria  a  bestial  estupidez,  ia 
demência  formal  do  criminoso.  Explicando  a  singularidade 
do  attentado,  correu  tempos  depois  por  verídica  a  seguinte 
historia.  Tendo  o  homem  uma  pretenção  a  despachar,  Fran- 
cisco Xavier  de  Mendonça,  secretario  de  Estado,  que  acom- 
panhara o  Rei  a  Villa  Viçosa,  por  se  livrar  das  importunações 
d'elle,  que  se  queixava,  dissera-lhe  por  chiste:  Isso  não  é 
commigo,  é  com  El-Rei.  Vae-lhe  dar  com  um  pau;  e  o  imbecil 
assim  fez,  do  que  resultara  morrer  de  desgosto  o  faceto 
ministro.  Anecdota  evidentemente  forjada,  por  isso  que  o 
caso  passou  a  3  de  dezembro,  e  Mendonça  fallecera  imuitos 
dias  antes,   a   15   de  novembro. 


NOVOS  ATAQUES  AOS  JESUÍTAS  2Ç9 

Na  corte  não  s€  admittia  perder  tão  azado  pretexto  de 
intrigas,  que  a  facção  dominante  explorou  contra  aquelles 
que,  subjugados  muito  embora,  temia  sempre.  O  cardeal  da 
Cunha,  creatura  de  Oeiras,  insinuou  que  bem  podia  ser 
mandante  do  assalto  o  infante  D.  Pedro,  e  não  será  conje- 
ctura temerária  imaginar  que  o  primeiro  ministro  não  seria 
extranho  á  suggestão.  Tratou-s2  o  caso  em  conselho,  mas 
tão  descompassada  iera  a  calumnia,  que  o  próprio  Rei,  desaf- 
feiçoado  ao  irmão,  ainda  após  o  casamento,  a  repelliu  defen- 
dendo-o  i.  O  intento  de  inutilizar  o  futuro  monarcha  foi  d'esta 
vez,    como   das   outras,    burlado. 

Ao  menos,  deu  o  acontecimento  matéria  para  novo 
ataque  aos  jesuítas.  Em  Roma  o  Enviado  português  apre- 
sentou ao  Papa  um  memorial  em  que,  descripto  o  facto, 
considerava  os  jesuítas  m.andantes  e  responsáveis,  e  recla- 
mava em  termos  acrimoniosos  a  immediata  suppressão  da 
Ordem.  Em  mais  commedida  forma,  o  cardeal  Bernis,  embai- 
xador de  França  desde  o  conclave,  em  nome  das  cortes 
bourbonicas,  reforçou  as  queixas  de  Almada,  ficando  porém 
muito  áquem  d'elle  na  satisfação  exigida.  «Não  se  pede  que 
a  sociedade  dos  jcsuitas  seja  punida  e  exterminada  —  dizia 
elle  —  pede-se  que  seja  desarmada  e  fique  impotente»  -. 
Era  o  bastante  para  infamar  os  jesuítas,  a  quem  se  assacava 
tnais  um  crime;  não,  todavia,  para  contentar  as  cortes  de 
Lisboa  e  Madrid,  que  só  com  a  extincção  ficariam  satisfeitas. 
Oeiras  manifestou  o  seu  desgosto,  e  Bernis,  que  pensara, 
com  esta  intervenção,  dar  arrhas  de  lealdade  ás  duas  cortes, 
continuou  a  ser-lhes  suspeito  ?'.  Sem  embargo,  julgava  elle 
de  tanto  valor  a  sua  representação,  e  o  caso  de  Villa  Viçosa 
tão  importante,  que  escrevia  a  Choiseul:  «A  sorte  dos  jesuítas 


1  Cf.  a  nota  de  José  cie  Seabra,  transcripta  no  seu  Elogio  pelo 
marquez  de  Rezende,   pag.  35. 

-     CoU.    Neg.    de   Roma,    3.",    144. 

•^  «Si  après  ce  ménioire  je  suis  encore  accusé  à  la  cour  de  .Ma^ 
drid  de  jésuitismc,  il  y  aura  dans  cette  accusation  autant  de  malheur 
que    d'injustice; .    Bernis    a   Choiseul,    16   janeiro    1770.    Theiner,  l.o,   543. 


300  OEIRAS   FEITO  MARQUES   DE   POMBAL 

está  hoje  decidida.  Só  a  morte  do  Papa,  ou  qualquer  aconte- 
cimento  semelhante,    a    poderá    demudar»  i. 

Em  junho  de  1770  chegou  a  Lisboa  o  Núncio,  que  foi 
recebido  com  excepcionaes  honras,  e,  a  25  de  agosto,  um 
decreto  annunciou  que  as  relações  com  a  corte  pontifícia 
se  achavam  restabelecidas,  nas  condições  anteriores  ao  rompi- 
mento de  1760.  Tanto  em  Roma  como  em  Lisboa  a  recon- 
ciliação foi  considerada  facto  de  grande  alcance.  Celebra- 
ram-no,  em  ambas  as  capitães,  solemnidades  religiosas. 
Clemente  XIV  mandou  cunhar  medalhas  commemorativas, 
para  distribuir  aos  príncipes  catholicos.  D.  José,  alliviado 
do  peso,  que  lhe  opprímia  o  timorato  espirito,  premiou  o 
seu  ministro  com  o  titulo  de  marquês  de  Pombal.  O  povo, 
romanista  por  habito  e  tendência,  julgou  mais  accessivel  a 
salvação.  E  até,  fora  de  Portugal,  o  partido  anti-jesuitico 
viu  no  acontecimento  um  indicio  de  victoria.  Almada  procla- 
mava que  o  seu  Rei,  fiado  na  palavra,  que  lhe  dera  .o 
Pontifice,  de  supprimir  os  jesuitas,  não  lhe  quizera  ficar 
somenos  em  generosidade;  por  isso  admittira  o  Núncio. 
Bernis  entendia  que,  liberto  o  Papa  de  cuidados  sobre  os 
negócios  de  Portugal,  não  tardaria  a  cumprir  as  suas  pro- 
messas  acerca   da    extincção  -. 

A  verdade  é  que  o  successo  fazia  ganhar  tempo  a  Gan- 
ganelli  e  dava  fôlego  aos  jesuitas,  que  se  não  julgavam 
em    risco    immediato.    Entretido    em    regular   a    situação    do 


i     Idem,    itl.    543. 

2  Neste  sentido  coinmunicava  a  ChoiseuL-  «O  ministro  de  Por- 
tugal diz  francamente  que  El-rei.  seu  amo,  se  fia  na  palavra  do  Papa, 
que  projnetteu  supprimir  os  jesuitas,  e  não  quer,  tendo  a  corte  pvortu- 
guesa  recebido  tantas  attenções  d'elle,  ficar-lhe  atraz  em  generosidade». 
D  referindo  como  o  Papa,  sósinho  e  no  maior  segredo,  cxjnseguira 
chegar  a  entendimento  com  o  governo  português,  accrescentava :  v<Eis 
aqui  a  origem  da  demora  e  dos  mysterios,  que  embaraçaram  por  tanto 
tempo  a  nossa  negociação.  O  assumpto  da  nunciatura  de  Portugal 
fazia  pôr  de  parte  e  esquecer  todos  os  outros.»  26  setembro  1770. 
Thkiner,    l.o,   620,   527. 


CONCESSÃO   DO    pontífice   AO  GOVERNO   PORTUGUÊS       301 


Núncio,  e  os  assuraptos  do  governo  eccksiastico,  Pombal 
deixava  de  parte  a  magna  questão.  Era  essa  a  esperança 
do  Pontífice  que,  bem  succedido  até  alii,  não^  perdia  ensejo 
de  conciliar,  com  graças  novas,  as  sympathias  da  corte 
portuguesa.  Recobrada  a  sua  autoridade  —  que  aliás  o  ciúme 
regalista  de  Oeiras  a  cada  instante  peava  —  sanccionara 
a  creação  de  novas  dioceses  e  a  escolha  dos  prelados;  refor- 
mara o  instituto  dos  Cónegos  regrantes,  contra  o  qual  o 
ministro  tinha  birra  ^;  a  Nicolau  Pagliarini,  impressor  das 
clandestinas  publicações'  de  Almada,  no  tempo  de  Clemente 
XIII  condemnado  á  prisão  em  Roma,  foragido,  e  em  Lisboa 
secretario  e  confidente  de  Pombal  na  correspondência  sobre 
os  jicsuitas,  concedia  remissão  da  culpa,  e  ainda,  para  o 
compensar,  a  dignidade  de  cavalleiro  da  Milícia  áurea;  emfim, 
toda  a  condescendência  em  matéria  ecclesiastica,  eortezias, 
gentilezas,  com  tanto  que  á  teia  não  viesse  o  temivel  negocio 
da  Companhia  de  Jesus. 


1  A  esta  Ordem,  qiK  o  Papa  remodelava  por  castigo  e  Gom  cen- 
suras, pertencia  o  bispo  de  Coimbra,  D.  Miguel  da  Annunciação,  pa- 
rente dos  Tavoras,  preso  no  forte  de  Pedrouços,  por  crime  de  febelUão, 
que  consistiu  em  tentar  substituir  a  sua  autoridade  á  da  Mesa  Censória, 
publicando  uma  pastoral  em  que  condemnava  certos  livros,  cuja  lei- 
tura prohibia.  Cumpre  notar  que  os  autores  eram  dos  que  a  M''sa 
egualmente  excluía,  menos  dois,  Febronio  e  Dupin,  que  defendiam  as 
máximas  regalistas  contra  o  Pontífice.  Nisso  estava  o  desafio  e  a  culpa 
pela    qual    foi   o   bispo   castigado. 

Na  mesma  congregação  dos  Cónegos  regrantes  predominara  frei 
Gaspar  da  Encarnação,  e  floresceu  a  seita  dos  jacobeiis  ou  sígillistas, 
por  elle  favorecida,  que  dividiu  em  dois  campos  adversos  o  episcopado 
português.  Era  preceito  dos  adeptos  declararem  os  penitentes  no  con- 
fissionario  os  cúmplices  do  peccado,  para  depois,  instruídos  os  prela- 
dos, estes  proverem  ao  caso,  pelos  meios  a  seu  alcance,  evitando  as 
reincidências.  Considerando  que  era  isso  violar  o  sigillo  sacramental, 
os  adversários  d'essa  doutrina,  deram-lhe  o  nome  de  sigítlismo.  .\ppa- 
recida  cerca  de  1740,  proscripta  pela  Inquisição  e  por  vários  bispos 
portugueses,  condem.nada  por  Benedicto  XIV,  a  seita  não  se  extinguiu, 
gerando  perturbações  e  acirrando  o  fanatismo.  Segundo  parece,  a  ordem 
dos  Cónegos  regrantes,  fiel  aos  princípios  de  frei  Gaspar,  era  quem 
ultimamente    a    fomentava,    e    porventura    animava    ainda    seus    membros 


302  EXPULSÃO     DE     LUIZ    ANTÓNIO     DE    VERNEY 


Em  Lisboa  Pombal  também  não  regateava  attenções  ao 
representante  da  Cúria.  Succedia,  por  exemplo,  que  os  supe- 
riores religiosos  e  os  bispos,  habituados  á  independência 
durante  o  período  da  discórdia,  reluctavam  em  novamente 
se  subníetterem  ao  Núncio;  certos  emolumentos  a  este 
devidos  não  eram  pagos;  o  cardeal  Conti  reclamou,  e  logo 
lhe  foram  restabelecidas  as  regalias  de  que  se  via  desti- 
tuído. Dois  frades  capuchos,  leccionando  theologia,  avan- 
çaram proposições  que  o  Núncio  julgou  suspeitas ;  queíxou-se 
elle,  interveiu  Pombal,  e  os  religiosos  foram  privados  da 
cathedra  i.  Tudo  isto  manifesta  o  empenho,  que  de  ambas 
as  partes  havia,  em  dissipar  completamente  as  nuvens 
anteriores. 

Em  í77i  foi  expulso  do  Estado  romano  Luiz  António 
de  Verney,  celebre  pela  polemica  a  que  deu  motivo  a  sua 
obra  Verdadeiro  methodo  de  estudar,  cujos  princípios  consti- 
tuíram a  base  da  reforma  dos  estudos,  iniciada  no  anno 
precedente  pela  creação  da  Junta  de  providencia  literária.  O 
facto,  muito  censurado  em  Roma,  foi  ainda  uma  fineza  a 
Pombal.  Verney,  secretario  da  legação,  mais  íntelligente  e 
infinitamente  mais  culto  que  o  ministro  Almada,  decahíra-lhe 
das  graças  e  vivia  em  perpetuo  conflicto  com  elle,  não  se 
esmerando,  por  sua  parte,  em  considerações  com  um  superior, 
de  cujo  entendimento  fazia  pouco  apreço.  O  ministro  queixa- 
va-se  para  Lisboa  das  excessivas  despesas  e  exigências  de 
Verney,    e    das    suas    desattenções    pessoaes,    rematando    por 


o  espirito  de  opposição  com  que  os  parciaes  d'aquelle  ministro  acolhe- 
ram a  elevação  de  PombaK  Tudo  isto  eram  razões  para  o  proceder 
d'este,  em  parle  pelo  interesse  do  Estado,  muito  também  como  repre- 
sália. Cí  bispo  de  Coimbra  e  alguns  religiosos  estavam  presos.  Contra 
a  congregação,  Clemente  XIV  prestou-lhe  de  bom  grado  o  seu  poder. 
Nove  conventos  foram  supprimidos,  os  religiosos  transferidos  para  Ma- 
fra, cujo  prior,  de  nomeação  régia,  passou  a  ser  o  Geral  da  ordem. 
A  hoí;t:li(lade  d'estes  religiosos  foi  assim  domada.  Aos  sigillistas  amea- 
çava a  lei  de  12  de  junho  de  1769,  com  a  ultima  pena.  Fosse  ou 
não  verdadeira  a  imputação  feita  aos  Cónegos  regrantes,  depois  d'i^so 
o    sigillismo   desappareceu. 

1     Cí.    Theiner,    2.0,    82,     190. 


TÁCTICA  DE  CLEMENTE  XIV  303 


accusal-o  de  inconfidência.  À  vista  d'isto  foi  despedido,  por 
ordem  de  Pombal,  e  o  Pontifice  o  desterrou  dos  Estados 
romanos.  Propalou-se  que  fora  condemnado  á  morte  em 
Lisboa,  e,  por  commutação  da  sentença,  banido  do  reino, 
Almada  publicava  que  elle  se  achava  vendido  aos  jesuitas 
e  se  tornara  suspeito  ao  Papa,  qiíe  por  isso  o  exilou ;  mas 
o  despeito,  a  vingança,  tiveram  de  certo  maior  parte  no 
successo  do  que  as  culpas  de  Verney  K 

Desafogado  da  parte  de  Portugal,  Ganganelli  só  tinha 
realmente  importunações  da  Hespanha.  A  França,  em  posse 
de  Avinhão,  de  boa  mente  abandonaria,  a  troco  d'aquelle 
território,  a  empresa  commum,  e  só  por  comprazer,  como 
que  arrastada,  acompanhava  as  solicitações.  A  occasião 
pareceu  propicia  ao  Papa,  para  ensaiar,  em  Madrid  e  Paris, 
a  táctica  da  acção  pessoal,  que  tanto  a  contento  lhe  surtira 
em  Lisboa.  Escreveu  a  Luiz  XV  e  a  Carlos  III,  ao  primeiro, 
que  suppunha  desinteressado  do  assumpto,  com  promessas 
vagas,  ao  segundo,  mais  exigente,  dando  como  resolvida  ,a 
abolição,  ie  promettendo  communicar-lhe  o  plano  d'ella,  em 
tempo  devido. 

Passou  sobre  isto  um  anno,  todo  o  de  1770,  sem  nada 
adeantar  a  questão.  Todos  os  pretextos  serviam  ao  Papa 
para  illudir  a  promessa:  informaçõ-es  que  esperava  dos  bispos 
de  França  e  Hespanha;  difficuldades  na  formula  da  extincção; 
urgentes  assumptos  do  governo  ecclesiastico;  e,  cansaço  ou 
paciente  confiança,  os  Estados  que,  tempos  antes,  com  tanto 
ardor  pediam  a  suppressão,  acceitavam  sem  protestos  as 
delongas,  a  custo  justificáveis. 

Em  dezembro  de  1770,  Choiseul,  no  régio  desagrado, 
deixou  o  ministério.  Por  esse  facto,  o  partido  favorável  em 
França  aos  jesuitas  julgou-se  fortalecido.  Em  Roma,  Bernis, 
cujas  instancias  de  longo  tempo  tinham  afrouxado,  maníi- 
nha-se  quedo.  O  embaixador  de  Hespanha  Azpuru  descon- 
fiava d'elle;  Almada  desconfiava  dos  dois. 


1     Cf.   Theiner,    2.0,  12;    Cartas    de   Almada    na    Coll.    Pomb.,    Cod. 
640;    Theophilo    Braoa,    Hist.    da   Universidade,     3.o,    283. 


304  TRÉGUAS   NAS    EXIGÊNCIAS   CONTRA   OS   JESUÍTAS 


Este  ultimo  pouco  também  inquietava  agora  os  jesuitas. 
Não  "parecia  o  mesmo  irrequieto  c  violento  antagonista  do 
tempo  de  Clemente  XIII.  Pombal,  captivo  das  promessas 
e  lisonjas  do  Papa,  ou  talvez  por  ceder  á  vontade  do  Rei, 
]á  não  alentava  os  Ímpetos  do  embaixador.  De  abril  de  1770 
a  novembro  de  1772  cessa  a  correspondência  do  governo 
português  com  o  Pontifice,  acerca  dos  jesuitas.  O  próprio 
Almada  que,  nas  cartas  particulares  ao  ministro  seu  primo, 
não  deixava  de  mencionar  as  diligencias  e  instancias  que 
fazia,  as  manobras  dos  adversários,  as  alternativas  de  espe- 
rança e  receio  que  experimentava,  de  certo  tempo  em  deante, 
porventura  sabendo  que  importunava,  cala  de  vez  o  favorito 
assumpto  de  outr'ora.  Dir-se-ia  que,  da  parte  de  Portugal, 
a  negociação  hibernava  também.  Ganganelli  triumphava,  com 
a  sua  táctica  dilatória.  Por  alvedrio  próprio,  Almada  a  inter- 
vallos  voltava  á  carga  e,  sendo  de  génio  arrebatado  e  rude 
falar,  não  raro  se  excedia  nos  discursos  i.  Mas  o  Papa  fica- 
va-se  inabalável.  Âs  mais  directas  intimações,  colleando, 
evadia-se,  e  em  arrazoados,  protestos,  desculpas,  consumia 
o  tempo,  fatigando  o  contendor,  emquanto  esperava  o  impre- 
visto successo,  que  lhe  havia  de  aplainar  o  desfecho  da 
empresa  que  aborrecia.  Entretanto,  buscava  distrahir  os 
Bourbons  com  os  mesmos  engodos,  que  haviam  domado  o 
conde  de  Oeiras.  A  Bernis  dizia  pôr  toda  a  sua  confiança  em 
Luiz  XV,  e  que  sob  a  protecção  d'elle  se  coilocava.  A 
Carlos  III  escrevia  que,  abaixo  de  Deus  e  da  Virgem  e  do 
patriarcha  S.  Francisco,  o  tinha  pelo  seu  mais  poderoso  pro- 
tector. Seu  coração  era  todo  francês  e  hespanhol,  confirmava 
ao  embaixador  de  França  2.  E,  com  taes  manhas  de  frade 
ingénuo,  pensava  adiar  indefinidamente  o  compromisso  fatal. 


1  «Eu  insisti  continuamente  até  me  render  (sic)  tedioso,  e,  quan- 
do o  Papa  se  impacientava  commigo,  rasserenando-me  (sic)  lhe  pe- 
dia perdão,  dizendo-lhe  que  o  meu  nascimento  e  o  meu  caracter  me 
obrigavam  a  tal  excesso».  Francisco  de  Almada  a  Pombal,  Roma  18 
agosto    1773.    Coll.    Neg.    de    Roma.    3.o,    182. 

-  F.  Rousseau,  Règne  de  Charles  III  d'Espagne.  Paris  1907.  l.o, 
302,    304. 


A  HESPANHA  DIRIGE  AS  NEGOCIAÇÕES  EM  ROMA  305 


IV 


Desde  1770,  por  desejo  de  Carlos  III,  quem  dirigia  as 
negociações  era  a  Hespanha'  representada  por  Azpuru,  arce- 
bispo de  Valência.  O  homem,  porém,  invalido,  já  no  terceiro 
ataque  de  apoplexia,  era  incapaz  do  esforço  preciso,  e,  de 
activo  e  fino  em  principio,  volvêra-se  bonachão  e  crédulo, 
desde  que  o  Papa  lhe  acenara  com  um  capello  de  cardeal. 
D'esta  banda,  pois,  descançava  também  Clemente  XIV.  Havia 
dois  annos  que  o  negocio  parecia  abandonado,  e  em  Roma 
chegaram  a  suppôr  que  até  o  gabinete  português  d'elle  se 
desinteressava. 

Até  que  finalmente  os  ares  se  toldaram.  Consciente  da 
sua  invalidez,  o  arcebispo  pediu  a  demissão  que  em  Madrid 
anelavam  por  lhe  dar.  Foi-lhe  successor  D.  José  Monino, 
fiscal  do  Conselho  de  Castella,  sujeito  de  conhecida  energia, 
e  declarado  inimigo  dos  jesuítas. 

Logo  á  primeira  audiência,  em  junho  de  1772,  reco- 
nheceu o  Papa  ter  ante  si  um  contendor  que  não  poderia 
burlar  como  os  outros.  O  momento  temido  da  resoluçãoi 
final  avizinhava-se.  Até  Bernis,  ultimamente  tão  brando,  e 
Almada,  cujo  zelo  se  manifestava  por  fortuitos  accessos,  insti- 
gados pelo  castelhano,  cobravam  energias  novas,  e  cada  um, 
pelas  influencias  de  que  dispunha,  buscava  agir  no  Papa  e 
dispôl-o   para   o   golpe,   havia   tanto  demorado. 

Tentando  ainda  enganar  as  exigências  de  Mofíino,  disse- 
Ihe  Ganganelli,  na  segunda  audiência,  que  ia  prohibir  aos 
jesuitas  o  receberem  noviços,  e  cortar-lhes  os  subsídios,  entre 
esses  os  que  o  seu  antecessor  estabelecera  aos  padres 
expulsos  de  Portugal  —  os  hespanhoes  era  o  governo  de 
Madrid  o  que  os  sustentava.  Mas  o  embaixador  retrucava 
que  os  remédios  palliativos  não  serviam,  e  somente  a  cura 
radical,  que  era  a  extincção  da  Ordem,  satisfaria  os  soberanos. 
Então  o  Papa,  embaçado  um  momento  com  a  réplica,  tentando 

o    MARQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  20 


306  MONINO   REPRESENTANTE   DA  HESPANHA 


porém  sempre  a  evasiva,  tornava-Ihe  que  o  deixassem  a 
elle  fazer  as  coisas,  que  o  seu  plano  era  o  melhor,  Audias 
et  videbiSy  assegurava,  despedindo  emfim  com  a  sua  habitual 
bonhomia   a  Monino,   um   intante  descoroçoado  i. 

Para  adeantar  o  despacho,  obstando  a  um  pretexto  de 
delongas,  já  por  vezes  invocado^  o  castelhano  offereceu  um 
projecto  de  extincção,  que  er^  obra  sua.  Com  este  golpe 
não  contava  Qanganelli.  Coagido  a  mostrar  que  realmente 
proseguia  na  execução  do  compromisso  tomado,  ao  cingir 
a  tiara,  mandou  em  setembro  fechar  o  Collegio  Romano 
e  o  dos  Irlandeses,  estabelecimentos  celebres  de  educação, 
a  cargo  dos  jesuítas.  Era  o  primeiro  passo.  Pouco  a  pouco 
fugia-lhe  dos  pés  o  terreno.  Mofíino  insistia  sempre,  e,  per- 
suasão ou  terror,  —  que  ambos  os  meios  o  castelhano  empre- 
gava —  Clemente  XIV  comprehendeu  que  era  chegada  a 
hora  de  pagar  a  lettra  assignada.  A  3  de  dezembro  decla- 
rou-se  finalmente  prompto  a  decretar  logo  a  extincção.  O 
arcebispo  de  Petra  foi  incumbido  de  redigir  a  bulia,  de 
accôrdo   com   Moiiino. 

O  estado  de  alma  do  Papa,  naquelle  tempo,  era  de  fazer 
dó.  O  Enviado  castelhano,  com  a  sua  presença,  aterrava-o. 
Seus  confidentes,  Buontempi,  Macedónio,  o  próprio  leigo 
Francisco,  seu  fâmulo,  peitados  pelos  embaixadores,  perse- 
guiam-no  com  instancias  pela  decisiva  resolução.  E  elle  vacil- 
lava,  opprimido  dos  receios,  que  sempre  o  pungiam,  desde 
que  a  promessa  fatal  lhe  escapou,  da  morte  por  veneno, 
da  revolução  que  o  arrojasse  de  Roma,  de  um  scisma,  pela 
opposição  do  clero  e  dos  monarchas,  nos  paizes  alheios  á 
coUigação   dos    Bourbons. 

Em  novembro  mandou,  por  intermédio  de  Almada,  pedir 
Lonselho  a  Pombal,  expondo-lhe  os  temores  acerca  do  scisma, 
sem  duvida  na  esperança  de  que  o  seu  grande  amigo  lhe 
facultasse  aix)io.  Mas  antes  da  resposta  tinha  dado  o  passo 
tremendo.   Quando,   a   21    de     dezembro,    Pombal    a    expediu. 


1     Monino    a    Grimaldi,    2/    agosto    1771.    Ferrer    nn.    Rio,    Canos 
Hl,    vol.    2.0,    386. 


HESITAÇÕES  DE  CLEMENTE  XIV  307 

já  Monino  e  o  arcebispo  de  Petra  trabalhavam  na  minuta 
do  breve.  A  4  de  janeiro  estava  prompta  e,  vencidas  as 
íinaes  hesitações  —  á  ultima  hora  Ganganelh  receava  que 
dissessem  ser  o  acto  resultado  do  pacto  feito  no  conclave  — 
foi  remettida  em  11  de  fevereiro  ao  Rei  de  Hespanha,  para 
a  approvar  e  transmittir  aos  outros  soberanos,  interessados 
na  abolição.  A  resposta  de  Pombal,  longe  de  acoroçoar  os 
receios  do  Papa,  fora,  como  se  concebe,  destinada  a  rebatel-os. 
No   m.esmo   intuito    D.   José   escrevera   também. 

Attribuiu  Pombal  grande  influxo  aos  seus  conscfhos 
na  deliberação  do  Pontífice.  «Estas  cartas,  régia  e  ministerial, 
foram  as  que  acabaram  de  resolver  o  Santo  Padre  a  formar 
a  bulia  da  extincção  dos  jesuítas,  a  communical-a  ás  cortes 
catholicas  pela  mediação  de  EI-Rei  de  Hespanha,  e  a  dar 
finaim.ente  o  ultimo  golpe  na  venenosa  hydra  jesuítica»  i. 
Assim,  na  sua  ingénua  vaidade,  o  ministro  apreciava  os  factos. 
Cotejar  as  datas  é  verificar  a  illusão  em  que  se  achava. 
Desconhecendo  os  secretos  passos  de  Mofiino,  tinha-se  por 
attendido  mentor  de  Ganganelli,  e  principal  artífice  da  abo- 
lição. Entretanto,  o  mesmo  facto,  que  mencionava,  da  inter- 
venção de  Carlos  III,  devia  fazel-o  suspeitar  o  muito  que 
á  Hespanha  caberia  na  decisão  do  Pontífice.  Longe  d'isso, 
explicava  a  seu  modo  o  succedido.  A  corte  de  Madrid  era  a 
que  nada  fizera,  mas,  pela  jactância  própria  do  génio  caste- 
lhano, pretendia  que  lhe  fosse  attribuida  a  primacial  parte. 
Ao  Papa  convinha-lhe  patrocinar  a  impostura,  porque,  appro- 
vada  a  bulia  em  Madrid,  não  occorria  receio  de  que  em; 
Paris  ou  Nápoles  lh'a  rejeitassem;  tão  pouco  em  Vicnna, 
onde  Carlos   III   era   egualmente  attendido. 

D'esta  arte  D.  José,  conhecendo  as  circumstancias,  cumu- 
lado de  considerações  pelo  Papa,  não  podia  levar-lhe  a  mal 
o  proceder,  que  só  para  outrem  seria  desprimoroso.  «S.  M. 
percebeu   e   admirou    a    delicadeza   do   Santo    Padre;>  ^^    dizia 


1  Coll     Neg.    de    Ruma,    3.o,    15. 

2  «Kota  precisa  para  a  intelligencia  da  carta  de  El-rei  Catbohcox. 
Coli     j\eg.    de    Roma,    3.o,    165. 


308  SUPPRESSÀO  DA  ORDEM   fyOS  JESUÍTAS 


Pombal,  louvando  o  alvitra,  candidamente  ou  para  se  não 
dar  por  achado  da  posição  secundaria  em  que  ficava,  no 
desfecho  da  questão,  que  elle,  antes  que  ninguém,  tinha 
levantado.  Porventura  o  jubilo  de  ver  alfim  cumprido  o  voto 
d€  tantos  annos  lhe  abafava  as  queixas  do  orgulho.  Basta- 
va-lhe  salvar  as  apparencias,  o  que  fez,  interpretando  ao 
s€u  g^eito  o  proceder  do  Papa.  Este,  encantado  e  surpreso 
do  êxito  que  não  esperava,  não  cabia  em  si  de  contentamento, 
e  a  cada  visita  do  ministro  Almada,  exprimia  a  sua  admiração 
por  Carvalho:  Grand  uomo!  grand  nomo!  fortunato  monarcal 
dizia  sempre  i ,  celebrando,  é  licito  suppôr,  mais  que  o  grande 
homem,   a   sua   própria   finura. 

A  minuta  da  bulia  recebeu-se  em  Lisboa  no  mez  de 
março.  Acceitou-a  Pombai,  e  acceitaram-na  os  gabinetes  de 
Nápoles  (e  Paris.  Somente  a  imperatriz  Maria  Theresa  impu- 
gnou o  texto,  por  lhe  não  conferir  a  livre  disposição  dos 
bens  da  Sociedade,  privilegio  assumido  pelas  potencias  que 
antes  a  tinham  expulsado.  Com  a  intervenção  da  Hespanha 
sanou-S€  a  difficuldade;  alterou-se  naquella  parte  a  redacção, 
e  o  mandamento  do  Pontifice  foi  communicado  aos  jesuitas 
em  a  noite  de  16  de  agosto.  A  Ordem  que  por  tantos 
annos  dominara  na  christandade,  que  fora  a  mais  devotada 
milicia  do  catholicismo  e  do  Papa,  cessava  desde  aquelle 
momento  de  legalmente  existir.  O  Geral  Lourenço  Ricci  e 
os  seus  três  assistentes  ficavam  reclusos,  á  disposição  do 
Pontifice,  o  primeiro  para  sempre,  indo  morrer  no  castelio 
de  Santo  Angelo,  aonde  mais  tarde  o  trasladaram. 

A  noticia  da  suppressão  publicou-se  em  Lisboa  a  Q  de 
setembro  de  1773.  Cumprido  o  que  fora  por  tanto  espaço  o 
objecto  de  suas  vehementes  aspirações.  Pombal  entendeu 
dar  ao  seu  contentamento  o  máximo  relevo.  Houve  manifes- 
tações de  regosijo  no  paço,  nas  ruas  e  nos  templos.  Por  ordem 
do  governo,  Lisboa  poz  luminárias,  sendo  comminadas  penas 
de  multa  e  cadeia,  aos  desobedientes;  D.  José  escreveu  ao 
Papa  exprimindo  o  seu  reconhecimento ;  e  por  todos  os  modos, 


'     Almada   a    Pombal,    18   agosto    1773.    Idem,    1S2. 


AGITAÇÃO    DOS    JESUÍTAS  309 


e   em   lodo   o    reino,   a   victoria   alcançada   a   tanto   custo   se 
celebrou .  com  estrépito. 

Dentro  em  pouco,  todavia,  Pombal  reconheceu  que  não 
era  completo,  como  julgava,  o  seu  triumpho.  Os  jesuítas  conti- 
nuavam a  agitar-se,  e  em  todos  os  paizes  fomentavam  pro- 
testos, e  tentavam  levantar  a  opinião  publica  contra  o  golpe 
que  os  anniquillava.  Na  Itália  com  mais  êxito,  pela  influencia 
do  numero.  Em  toda  a  parte  se  movia  o  beaterio.  Além  dos 
artigos,  pamphletos  e  sátiras  contra  o  Papa  e  governos  que  • 
intervieram  na  suppressão,  appareceram  as  prophecias.  Theresa 
Poli,  freira  de  Viterbo,  Bernardina  Renzi,  camponeza  vidente, 
annunciavam  a  morte  de  Clemente  XIV.  A  primeira,  que  os 
jesuítas  sagraram  logo  por  Santa  Theresa  do  século,  predisse, 
por  communicação  da  Virgem,  a  restauração  triumphante  da 
Companhia,  e  o  acabamento  de  seus  perseguidores:  D.  José 
estrangulado  no  próprio  logar  onde  os  Tavoras  padeceram ; 
Carlos  III  no  tumultuar  de  uma  insurreição;  Luiz  XV,  de 
modo  miserável,  como  tinha  vivido  i. 

Em  Portugal  divulgou-se  um  folheto  italiano  de  versos 
intitulado  Alegria  dos  pastores,  que  reproduzia  algumas  das 
sátiras  €  prophecias  que  os  membros  da  Sociedade  extincta 
espalhavam.  Uma  carta,  pode  ser  que  apocrypha,  do  bispo 
de  Cochim  ao  arcebispo  de  Cranganor,  ambos  jesuítas,  datada 
de  abril  de  1767,  corria  de  mão  em  mão,  com  a  defesa  de 
Malagrida,  e  a  analyse  da  iniqua  sentença,  proclamando-o 
martyr  e  comparável  a  Christo,  pois  como  elíe,  depois  de 
ter  feito  prodígios  e  prophecias,  fora  preso,  incriminado  de 
sedições,  arrastado  de  tribunal  em  tribunal,  por  fim  levado 
ao  supplicio  pelas  mesmas  ruas  onde  antes  em  triumpho 
passara.  Mas,  condemnados  pela  Mesa  Censória,  ambos  os 
cscriptos,  queimados  pelo  algoz,  rebuscados  pela  policia,  em 
pouco   tempo   desappareceram  -. 

Infelizmente  para  o  credito  dos  jesuítas,  o  golpe,  desfe- 
chado  a   Ganganelli,   presagíando-lhe    a    morte    por     castigo 


TnKiNFK,    Clémen'    XIV ,      2.o,    482   e   seg. 
Editaes  da   Mesa   Censória.    28  abri!    1774, 


310  MORTE    DE    GANOANELLI 


divino  —  ,  o  que  já  haviam  feito  antes  da  extincção  —  rico- 
clietou  sobre  elles;  e,  quando,  a  22  de  setembro  de  1774, 
o  Pontífice  falleceu,  não  faltaram  vozes  a  increpal-os  de  lhe 
terem  ministrado  peçonha.  O  rumor,  que  logo  na  occaslão 
da  morte  se  propagou  em  Roma,  cresceu  em  seguida  á 
autopsia,  de  cujos  resultados,  cada  qual,  segundo  as  infor- 
mações mais  ou  menos  certas  que  possuía,  e  a  phantasia  do 
seu  critério  indiv^idual,  tirava  íllações  sobre  o  modo  do  enve- 
nenamento; na  sagrada  partícula  ao  commungar;  em  uma 
chávena  de  café;  em  uns  figos,  offerenda  de  um  ínsuspeitado 
cura  suburbano.  Os  médicos  consideraram  a  morte  natural; 
os  embaixadores,  porém,  julgavam  de  outra  forma.  Moíiino 
tinha  duvidas;  Bernis  affirmava  que  o  Papa  morrera  enve- 
nenado; Almada  devia  pensar  como  Pombal,  que  attribuiu 
á  «ferocidade  jesuítica»  a  deaspparição  do  «maior  Pontífice 
que  se  havia  assentado  na  cadeira  de  S.  Pedro  desde  S.  Gre- 
gório  Magno»  1. 

Os  jesuítas  eram  víctimas  da  sua  ruim  fama  —  na  verdade 
em  semelhante  matéria  nunca  justificada  — ,  e  da  inepta 
violência  dos  seus  ataques.  Aos  sessenta  e  nove  annos  de 
edade,  gottoso  e  herpetico,  affecíado  de  preoccupações  graves, 
atemorizado  por  ameaças  e  prophecias,  Ganganelli  muito 
naturalmente  foi  declinando  e  em  cinco  meses  succumbiu. 
A  hypothese  da  acqua  toffana  pode-se  dispensar.  Os  jesuítas 
foram  os  que,  suggerindo  antes  as  prophecias,  celebrando 
depois  com  ruidosa  alegria  a  morte  do  seu  inimigo,  e  congra- 
tulando-se  pela  rehabilítação  próxima,  deram  vulto  á  suspeita, 
de   que   até   hoje   não   lograram   expungír-se   totalmente. 

Para  Pombal  renasciam  os  cuidados.  O  monstro,  que 
suppunha  destruído,  resuscitava  com  toda  a  sua  malignidade, 
e  03  governos  tinham  de  recomeçar  com  o  novo  conclave, 
com  o  novo  Pontífice,  a  lucta,  porventura  tão  acerba  como 
nos   tempos    de    Clemente    XIII    e    Clemente   XIV. 


1     Coll.    Neg    Roma,     3.»,   220. 


o  SUCCESSOR  DE  QANGANELLI  311 


V 


Qu€  successor  o  partido  jesuítico,  pujante  ainda,  buscaria 
dar  a  Ganganelli?  A  preoccupação,  vehemente  em  Pombal, 
pungia  também  a  Carlos  III,  que  escreveu  á  Rainha  sua 
irmã,  pedindo  o  concurso  de  Portugal,  para  evitar  que  a 
eleição  recahisse  em  sujeito  parcial  da  ordem  suppressa.  A 
resposta,  que  Pombal  minutou,  revela  a  importância  que  tinha 
para  elle  o  assumpto,  «Depois  das  revoluções  e  estragos 
dos  arianos,  nem  a  paz  da  Egreja,  nem  as  vidas  dos  prín- 
cipes catholicos,  nem  o  socego  e  obediência  dos  seus  vas- 
sallos,  se  teem  visto  ameaçados  de  perigos  tão  grandes,  como 
são  os  que  se  acham  imminentes  n'esta  presente  conjunc- 
ctura:/  1.  Com  estas  e  semelhantes  considerações,  nas  quaes 
seria  fácil  a  Carlos  III  verificar  que  a  Rainha  escrevera 
por  ditado  de  Pombal,  a  carta  incluía  o  aviso  de  que  o 
ministro  português  em  Roma  em  tudo  procederia  de  accordo 
com  o  de  Hespanha,  e  transcrevia  as  instrucções  ao  mesmo 
expedidas,  com  as  idéas  da  corte  de  Lisboa  sobre  a  attitude 
que  as  potencias  deviam  tomar  ante  o  conclave.  Insistindo 
nos  princípios  que  na  antecedente  eleição  exprimira.  Pombal 
novamente  afíirmava  que  o  Pontífice  podia  não  ser  um  dos 
card^aes,  e  nada  obrigava  a  que  elle  fosse  italiano.  Citava 
exemplos  da  historia:  vários  Papas  eleitos  por  imposição 
dos  Imp-eradores  da  Allemanha  e  Reis  de  França,  outros 
sem  coacção  de  espécie  alguma,  como-  Gregório  X  em  1271, 
que  era  um  simples  ermitão,  e  em  1362  Urbano  V,  abbade 
de  Cluny.  Quanto  á  nacionalidade,  além  dos  Papas  de  Avi- 
nhão,  todos  franceses,  houvera  muitos  allemães,  dois  hespa- 
nhoes,  João  XXI  português,  um  natural  de  HoUanda,  outro 
de  Cândia;   emfim  nem  as  leis  da   Egreja,  nem  as  tradições 


í      19    outubro     1774.    CoU.    Neg.    de    Roma,     3.°,    add.,     pag.    31. 


3:2       DECLARAÇÃO    DAS    POTENCIAS   AO   SACRO   COLLEGIO 


exigiam  que  fosse  o  chefe  da  christandade  nativo  da  Itália  '. 
Se  o  eleito  sahisse  adepto  dos  jesuítas,  não  o  deviam  as 
potencias  reconhecer;  em  ultimo  caso  appellariam  para  um 
concilio.  A  exposição,  vertida  em  italiano  para  Carlos  III, 
mais  familiar  com  esta  lingua  que  com  a  castelhana,  melhor 
a  comprehender,  não  fez  no  animo  d'elle  a  impressão  que 
Pombal  imaginara.  O  Rei  de  Hespanha  continuou  a  dirigir 
segundo  a  própria  inspiração  a  campanha  contra  os  jesuítas 
e,   atoado   aos    Bourbons,   Portugal  tinha   de   caminhar. 

Ao  receber  os  despachos  de  Lisboa,  Almada  —  visconde 
de  Villa  Nova  de  Souto  de  Elrei,  como  Mofíino  era  conde 
de  Florida  Blanca  por  serviços  prestados  na  suppressão  dos 
jesuítas  —  Almada,  que  se  achava  no  campo  em  Frascati, 
correu  a  conferir  com  o  Enviado  castelhano,  e,  por  indicação 
d^elle,  mandou  ao  conclave  uma  declaração,  de  sentido  egual 
ao  da  que  os  representantes  de  Hespanha,  França  e  Nápoles 
haviam  feito,  logo  que  o  Sacro  Collegio  se  reuniu.  A  memoria, 
pouco  extensa,  dizia  que  Portugal  acompanhava  as  três  cortes 
na  causa  commum ;  esperava  que  a  escolha  de  Pontífice  se 
realizasse  sem  precipitações  e  com  o  assentimento  dos  sobe- 
ranos; insinuava  responsabilidades  graves  perante  o  tribunal 
de  Deus,  os  príncipes  e  o  mundo  inteiro,  se  a  intimação  não 
fosse   attendida. 

A  leitura  produziu  forte  impressão  no  conclave;  alguns 
cardeaes  protestaram  contra  os  termos  da  mensagem.  Monino, 
informado  pelo  cardeal  Orsini,  ministro  de  Nápoles,  inter- 
veio mandando  uma  declaração,  na  qual  em  termos  ásperos, 
como  era  seu  costume,  sustentava  que  a  corte  portuguesa, 
longe  de  se  haver  excedido,  muito  mais  poderia  dizer,  c 
que  os  cardeaes  lhe  deveriam  ficar  reconhecidos  pela  mode- 
ração, 

O  resultado  foi  responder     logo  o  decano  que  o  Sacro 
Collegio   se    achava    cheio   de    respeito   pelas   coroas,    e    que 


-  cMotivos  que  serviram  de  base  ás  instrucções  expedidas  em 
20  de  outubro  d'este  presente  anno  de  1774,  sobre  o  estado  do  Con- 
clave;.  CoU.  Neg.   de  Roma,   3.o,    add.,    27. 


os   PARTIDÁRIOS   DOS  JESUÍTAS  NO  CONCLAVE  313 


tudo    se    havia    de    executar   de    accordo    com    ellas   e    paci- 
ficamente. 

A  intimativa  do  Enviado  castelhano,  cuja  firmeza  os  pur- 
purados conheciam,  semeara  o  pavor  entre  os  zelantes,  parti- 
dários dos  jesuitas,  que  se  preparavam  para  levar  de  surpresa 
a  eleição  A  intervenção  inesperada  do  plenipotenciário  portu- 
guês tinha-os  abalado.  A  reprimenda  de  Florida  Blanca  mos- 
trava-lhes  que  entre  as  cortes  existia  entendimento,  e  que  as 
mal  encobertas  ameaças  podiam  converter-se  em  factos  con- 
cretos, de  lamentáveis  consequências  para  o  prestigio  da 
Egreja.  Neste  jogo  contra  os  jesuitas  continuava  a  ganhar 
pontos  a  Hespanha,  o  que  Pombal  não  queria  admittir.  Por 
isso,  assim  como  aos  conselhos  que  dera  attribuia  a  decisão 
final  de  Clemente  XIV,  á  impressão  fulminante  dos  seus 
argumentos  filiava  agora  a  submissão  do  conclave.  De  que 
maneira?  No  seu  pensar  o  memorial  castelhano,  tão  efficaz, 
era  simplesmente  a  exposição  de  motivos  que  acompanhava 
as  instrucções  para  o  ministro  Almada,  e  que  traduzida  remet- 
tera  com  ellas  a  Carlos  III.  Tanto  assim  que  Moiíino  dizia 
não  ter  guardado  copia  do  seu  escripto,  como  excusa  de  o 
não  mostrar  ao  representante  de  Portugal,  que  assim  ficaria 
informado.  «A  relação  do  ministro  de  Castella  fez  ver  clara- 
mente, por  uma  parte,  que  o  bilhete  ou  memorial  extenso 
e  ostensivo,  com  que  elle  retorquiu  ás  queixas  dos  cardeaes, 
e  bateu  e  aterrou  o  conclave,  consistia  no  Papel  dos  motivos 
que  lhe  foi  d'esta  corte;  por  outra  parte,  que  por  isso  se 
excusou  artificiosamente,  com  a  causa  da  pressa  que  fingiu, 
de  o  remetter  ao  Visconde  de  Villa  Nova,  porque  era  o 
mesmo  Papel  dos  motivos,  e  porque  se  quiz  arrogar  o  mere- 
cimento de  haver  prostrado  a  soberba  dos  cardeaes»  i.  Conl 
estas  razões.  Pombal  accommodava  o  seu  despeito,  mas 
deve-se  crer  que  sem  fundamento.  A  capacidade  de  Florida 
Blanca,  para  lidar  com  a  finura  romana,  já  antes  fora  provada, 
e  de  modo  cabal. 


1     Colt.    Neg.    de   Roma.    3.o,    add.,    12. 


314  ELEIÇÃO    DE    PIO   VI 


Passou-se  isto  em  novembro,  e  até  muito  adeante  no 
mês  seguinte  o  conclave  nada  fez.  O  tempo  consumia-se  'em 
meneios  preparatórios,  secretos  entendimentos,  captações, 
intrigas,  promessas,  com  que  os  dois  grupos  adversos,  o 
affecto  ás  coroas,  e  o  dos  zelantes  —  «que  consistem  nos 
cardeais  rebeldes  ao  Papa  defuncto,  e,  ou  fautores  dos  seus 
assassinos,  ou  co-réos  do  seu  assassinato»  explicava  Pombal  i 
—  cada  um  mais  ferrenho,  tentava  fazer  vingar  a  sua  parcia- 
lidade. Em  janeiro  surge  a  candidatura  do  cardeal  Pallavicini, 
primo  co-irmão  de  Grimaldi,  condição  bastante  para  d'elle 
dizer  Pombal  que  era  «jesuíta  por  nascimento  e  por  edu- 
cação, como  natural  genovês  —  genovês  era  como  sabemos 
também  Grimaldi  —  jesuita  por  profissão  e  por  paixão  a 
todo  o  mundo  notórias,  porque  ninguém  ignora  que  foi 
creatura  do  Papa  Clemente  XIV)  2.  Além  disso  havia  Grimaldi 
de  suggerir  a  Carlos  III  que,  em  consideração  do  parentesco 
com  elle,  se  fizera  a  eleição,  e  que  a  Hespanha  por  este 
modo  dominaria  na  corte  de  Roma,  triumpho  soberbo  do 
rival,  que  a  emulação  do  ministro  de  D.  José  não  podia 
conceber.  Mas  o  próprio  Pallavicini  o  libertou  do  cuidado, 
pedindo  aos  collegas  que  não  fossem  por  deante  com  o 
projecto,  de  que,  parece.  Florida  Blanca  tinha  sido  inspirador. 

Afinal,  em  fevereiro,  com  quatro  meses  de  conclave,  não 
podendo  mais  supportar  a  clausura,  as  facções  congraça- 
ram-se,  juntando  os  votos  em  um  candidato  rejeitado  em 
dezembro,  o  cardeal  Braschi,  que  subiu  ao  throno  com  o 
nome  de  Pio  VI.  No  próprio  dia  da  eleição,  o  cardeal  Conti, 
que  fora  Núncio  em  Lisboa,  escrevendo  á  pressa  um  bilhete 
a  Pagliarini,  tranquillizava  a  Pombal,  dando-lhe  acerca  do 
novo  Pontífice  as  melhores  esperanças :  ::Conheço  já  os  senti- 
mentos do  Papa,  que  são  dignos  de  um  S.  Leão  ou  um 
S.  Gregório.  Pode  a  corte  de  Portugal  contar  —  e  isto  digo 
sem    hypcrbole    —    que    tem    um    Pontífice    português»  ^.     Ã 


^      Idem,    id.    14. 

2  ColL  Neg.  de  Roma,  3.o,   add.,    15. 

3  14   fevereiro   1775.    Idem,    98. 


POMBAL  SUSPEITOSO  DO  NOVO   PONTÍFICE 


vista  d'isto,  Pombal  congratula va-se  pelo  resultado  do  con- 
clave, ((^m  tudo  inesperado  pela  prudência  humana,  em  tudo 
dirigido  pela  provid€ncia  divina,  em  tudo  semelhante  á  pro- 
digiosa eleição  precedente,  que  deu  á  Egreja  um  Clemente 
XIV,  €  em  tudo  cheio  de  auspicies  e  de  esperanças  de  que 
o  seu  santo  successor  Pio  Vi  em  tudo  será  egual  ao  santís- 
simo  padre   succedido>    K 

Mas  em  breve  o  aprazimento  se  desvaneceu.  Pombal  não 
encontrava  em  Pio  VI  a  artificiosa  doçura,  a  malleabilidade 
affectada,  com  que  o  captivara  Ganganelli ;  nem  o  via  pro- 
seguir  resoluto  e  truculento  a  lucta  com  a  facção  jesuítica. 
Em  novembro  notava  acerca  d'elle:  '^O  Papa  foi  mostrando 
cada  dia  mais,  e  já  tem  feito  ver,  que  não  segue  as  pacificas 
máximas  do  seu  antecessor  Clemente  XIV,  mas  sim  as  dos 
curiaes,  que  fizeram  tão  infeliz  o  outro  pontificado  de  Cle- 
mente XIII;;  -.  Exprobrava-lhe  <:o  nenhum  caso  que  fez  do 
assassinato  do  santo  padre»,  a  sympathia  pelos  sequazes  dos 
jesuítas,  o  desprezo,  que  não  occultava,  pelos  cardeaes  que 
lhes  eram  contrários.  Arrepellava-se  por  serem  postos  em 
liberdade  os  padres,  Assistentes  de  Portugal  e  Hespanha  que, 
com  o  Geral,  tinham  mandado  as  terribilidadcs,  commettidas 
pela  Ordem  nos  dois  paizes.  Montava  isso  a  qualificar  de 
iniquo  o  proceder  antecedente  dos  monarchas.  Dentro  em 
pouco  se  veria  renascida  a  Companhia,  e  o  padre  Ricci, 
Geral,  a  passear  nas  ruas  de  Roma.  Irritado  com  taes  factos, 
cuja  importância  a  sua  idéa  fixa  do  ódio  aos  jesuítas  exag- 
gerava.  voltava  ao  propósito  antigo  dos  meios  coercivos. 
«Desde  que  o  Papa  vir  que  tudo  isto  se  tolera,  sem  que 
se  lhe  faça  ver  um  resentimento,  que  contenha  os  seus  vastos 
projectos...;  ■'  ia  escrevendo;  mas  interrompidas  findam  aqui 
as  considerações.  A  empresa  contra  os  jesuítas  interrompida 
ficava  tembem.  Pombal  datava  estas  notas  de  11  de  novembro 
de    1775.    Um    anno    depois   tinham    desapparecido   da    arena 


1  CgU.    Ntg.   Roma     3.°,    add.,    22. 

2  Idem    id..    110. 
^     Id.   id.,    111. 


316  PERSEGUIDORES   E    PROTECTORES   DOS    JESUÍTAS 


politica  os  três  estadistas  que  dirig-iam  a  lucta  contra  a  Com- 
panhia. Tanucci  em  Nápoles,  Grimaidi  em  Madrid,  deixavam 
ao  mesmo  tempo  o  poder.  Adoecera  D.  José  da  enfermidade 
fatal,  que  o  havia  de  levar,  e  desde  essa  data  póde-se  dizer 
que  a  autoridade  de  Pombal  terminou  também.  A  confraria 
que  encontrara  protectores  em  Frederico,  o  grande,  e  Catha- 
rina  da  Rússia,  conquistava  lentamente  o  terreno  perdido. 
Em  1814  apparece  rediviva,  no  pontificado   de  Pio  VII. 


CAPITULO    X 


O  APOGEU   E  O   declínio 


I.  Pombal  e  a  sua  obra.  Inauguração  da  estatua  equestre.  Casos  de 
D.  Isabel  de  Sousa  e  D.  Leonor  de  Alorna.  As  Observações  se- 
cred^simas.  Presumida  tentativa  contra  a  vida  de  Pombal.  Incêndio 
da  Trafaria.  —  II.  Situação  económica  na  administração  pom- 
balina. Decadência  geral  do  commercio.  As  companhias.  Prospe- 
ridade ephemera  das  industrias.  Reformas  na  legislação.  —  III. 
Descalabro  financeiro.  Estado  precário  do  exercito  c  da  marinha. 
O  novo  regimen  da  Universidade.  A  Mesa  Censória.  —  IV. 
Morte  de  D.  José.  Pombal  renuncia  os  seus  cargos.  A  demissão 
a  pedido.  —  V.  Sabida  para  Oeiras.  Jornada  para  Pombal.  In- 
dignação em  Lisboa  contra  o  estadista  caído.  Estado  real  da 
fa/enda  publica.  .\  viradeira.  O  ataque  dos  credores.  Os  de- 
vedores e  os  ingratos.  —  VI.  Embaraços  pecuniários.  .\  ques- 
tão das  Aguas  livres.  Os  processos. 


Desembaraçado  desde  a  extincção  dos  jesuítas  da  sua 
preoccupação  suprema,  Pombal  poude  consagrar-se  mais  livre- 
mente á  administração  interna,  e  nesta  parte  não  foram  os 
últimos  annos  do  seu  governo  os  menos  operosos  de  todo 
elle.  Infatigável,  aos  setenta  e  sete  annos,  conservava  a 
energia  da  juventude,  a  actividade  do  periodo  culminante  da 
existência.  Ao  terminar  o  reinado,  o  embaixador  francês, 
marquês  de  Blosset,  acha  que  elle,  «são  de  corpo  e  de  espirito, 


ilS  A   REGENERAÇÃO  NACIONAL 


se  julga  immortal,  e  fala  de  vastos  projectos,  que  nem  seus 
filhos    poderiam    em    vida    realizar»  i. 

No  longo  estádio  de  mais  de  um  quarto  de  século  deixara 
pelo  caminho,  desapparecidos  para  sempre,  alguns  dos  com- 
panheiros: seu  irmão  Francisco  Xavier  de  Mendonça,  D.  Luiz 
da  Cunha,  arrebatados  pela  morte;  Thomé  Corte  Real  que 
a  doença  impossibilitara;  Diogo  de  Mendonça  e  José  de  Seabra 
arrojados  aos  distantes  exilios.  Da  primeira  hora  restava  elle 
só.  Os  ministros,  seus  actuaes  collaboradores,  Martinho  de 
Mello,  da  marinha;  Ayres  de  Sá,  dos  negócios  extrangeiros ; 
o  cardeal  da  Cunha,  ministro  assistente,  seriam  os  epígonos 
da   regeneração  nacional. 

Esta  fora  realizada  por  elle,  assim  entendia,  de  modo 
efficaz.  A  tensão  do  poder  régio  attingira  o  máximo.  A 
Santa  Sé,  finalmente,  humilhara-se;  a  inquisição  obedecia-lhe; 
os  jesuítas  eram  uma  tribu  dispersa  na  Europa  oriental,  a  men- 
digar a  protecção  de  Frederico  lí,  protestante,  ou  da  imperatriz 
Catharina,  scismatica.  Com  a  repressão  de  1756  no  Porto 
para  o  povo,  com  a  de  175Q  para  a  nobreza,  excluira-se  o 
risco  de  qualquer  reacção  violenta  contra  a  autoridade.  Â 
vontade  real,  no  âmbito  que  lhe  era  licito  pretender,  nenhuma 
força  extranha  se  contrapunha;  e,  para  definitivamente  assentar 
o  direito,  fizera  declarar  informe,  absurdo,  ignorante,  mais 
ainda,  apocrypho,  o  livro  celebre  em  que  o  doutor  Velasco, 
lente  da  Univesidade,  um  blasphemo,  vindicando  a  acclamação 
de  D.  João  IV,  pronunciara,  respondendo  aos  castelhanos, 
que  o  poder  dos  Reis  lhes  vem  dos  povos,  que  a  estes  é 
licito  destituir  os  monarchas  intrusos  ou  tyrannos  ^. 

Conseguido  isto,  para  o  serviço  d'essa  vontade,  cumpria 
tornar  o  paiz  independente  e  prospero.  Para  esse  fim  o  tinha, 
até  onde  lhe  foi  possível,  emancipado  dos  extrangeiros,  dando 


'     Memoria.   2  janeiro    1777.   Quad.  Elem.,    8.°,    Introd.    pag.    LXII. 

*  Justa  acclamação  de  sereníssimo  rei  de  Portugal  D.  João  'V, 
Lislraa  1646,  por  Francisco  Velasco  de  Gouvêa,  livro  condemnado  por 
uma  junta  de  lentes  e  desembargadores,  a  requerimento  do  Procurador 
da   Coroa,   em    iU  de   abril   de    1767. 


POMBAL    E    A    SUA    OBRA  319 

impulso  ao  comm^rcio,  á  navegação,  á  agricultura,  e  susci- 
tando industrias  novas.  Desde  a  Companhia  do  Grão-Pará, 
que  tantos  protestos  levantara,  outras  havia  creado,  com  intuito 
de  impellir  as  classes  abastadas  ás  empresas  mercantis,  « 
espertar  as  iniciativas.  D'essas  fundações  a  mais  notável  fora 
certamente  a  Companhia  do  Alto  Douro,  sustentada  por  vinte 
annos  contra  os  ataques  vehementes  da  Inglaterra,  e  cujo 
privilegio,  terminado  o  primeiro  período,  renovara  em  1776 
por  prazo  egual. 

Não  encontrando  na  população ^os  capitais  disponíveis, 
as  aptidões  technícas,  o  impulso  nativo  para  as  industrias 
fabris,  cuidou  de  as  estabelecer  elle  próprio  e,  com  os  capitães 
do  Estado,  creara  as  fabricas  de  sedas  e  louças  em  Lisboa, 
as  de  lanifícios  na  Covimã,  Fundão  e  Portalegre,  de  tecidos 
de  algodão  em  Alcobaça,  de  chapéos  em  Pombal,  e  varias 
outras;  a  Guilherme  Stephens,  inglês,  adeantara  80:000  cru- 
zados dos  cofres  públicos,  para  montar  a  florescente  fabíca 
de  vidros  da  Marinha  Grande.  Por  este  meio,  e  com  as  isenções 
fiscaes,  os  privilégios,  alentara  as  manufacturas,  e  as  acclimara 
no  paiz.  Nesse  fito,  além  de  outras  providencias,  prohíbira 
a  introducção  de  chapéos  do  extrangeiro,  e  a  de  louça  que 
não  fosse  do  Oriente.  Para  educar  o  trabalho  nacional,  fizera 
que  viessem  de  fora  do  reino  mestres  de  relojoaria,  fundi- 
(,Õer,  cutelaria,  estuques,  cerâmica,  tinturaria  e  outras  artes: 
e  rematara  a  obra  de  fomento  material  instituindo  a  AuLa  de 
conimcrcío,  a  primeira  que  houve  na  Europa,  e  de  onde  em 
l^ouco  tempo  sahiram  auxiliares  hábeis  na  escrípta,  na  arru- 
mação das  contas  e  na  arithmetica,  preciosos  coUaboradores 
que  até  ahi  faltavam  nas  casas  de  negocio  e  nas  estações 
publicas. 

Nas  artes  liberaes,  a  architectura  e  a  esculptura  haviam 
medrado.  O  plano  da  reedificação  da  cidade,  em  seguida  ao 
terremoto,  devia-se  ao  architecto  Eugénio  dos  Santos,  que 
elle  soubera  escolher  entre  os  da  escola  de  Mafra,  onde  a 
monstruosa  construcção  de  D.  João  V  fora  um  seminário  de 
artistas  notáveis.  A  disposição  regular  das  novas  casas  e 
das  ruas,  o  majestoso  traçado  da  Praça  do  Commercio,  o 
monumento  soberbo  do  Rei   D.   José,  tornavam   Lisboa   rival 


320  CHRISTÃOS  NOVOS  E  ESCRAVOS  NA  METRÓPOLE 


das  mais  sumptuosas  capitães,  immunizada  de  outra  catas- 
trophe  por  um  dúctil  arcabouço  de  madeira  nas  edificações. 

Ao  mesmo  passo,  havia  providencias  de  outra  ordem, 
•  que  para  a  sua  administração  seriam  eterna  gloria.  Expellindo 
os  jesuitas,  sacudira  do  paiz,  como  julgava,  a  lepra  que  por 
duzentos  annos  o  tinha  gafado.  A  reforma  da  Universidade, 
com  o  applauso  da  Europa  culta,  era  d'isso  a  brilhante  conse- 
quência. Investindo  com  a  superstição  e  o  preconceito  secular, 
restituirá  aos  christãos  novos  a  consideração  social,  e  dero- 
gara  as  leis  que  os  excluiam  dos  cargos  públicos  e  das  ordens 
militares.  Em  voos  de  mais  alcance,  emancipara  os  indios  da 
America  da  tutela  de  missionários  e  colonos,  e  concedera-lhes 
direitos  eguaes  aos  dos  outros  portugueses;  e,  honrando  a 
civilização  da  Europa,  extinguira  a  escravidão  no  reino,  decla- 
rando livres  os  negros  que  de  futuro  entrassem,  e  os  indi- 
víduos que  nelle  viessem  a  nascer  de  ventre  captivo,  alguns 
pela  mestiçagem  de  gerações  successivas  mais  alvos  do  que 
os  seus  pretendidos  senhores. 

Tudo  isto  representava  uma  enorme  somma  de  trabalho, 
e  um  diuturno  luctar  contra  a  opposição  do  interior  e  as 
difficuldades,  a  que  uma  nação  pequena  e  fraca  está  sujeita 
perante  as  ambições  do  exterior.  Por  essa  razão,  o  seu  nome 
de  estadista  genial  ficaria  na  historia.  Assim  considerava  elle 
a  sua  obra,  e  assim  lh'o  repetiam  em  torno,  não  faltando  ia 
admiração  do  extrangeiro,  surpreso  das  energias  de  um 
governo  tantos  annos  apagado  e  frouxo  na  sua  acção  diplo- 
mática e  administrativa.  O  embaixador  francês,  por  exemplo, 
encontrava  conjuntas  nelle  as  qualidades  que  separadamente 
distinguiram    a    Richelieu,    Mazafin    e    Alberoni  i. 

A  inauguração  da  estatua  equestre,  a  6  de  junho  de 
1775,  fora  a  apotheose  do  regimen.  Sob  a  figura  do  soberano 
era  o  ministro  o  divinizado.  O  terremoto  arrasara  Lisboa  para 
lhe  dar  a  elle  o  ensejo  d'este  triumpho.  Atravez  3o  Rei, 
que  era  a  sombra  do  poder,  recebia  elle,  poder  verdadeiro,  as 


5^    ;Mem.    do    marque/    de    Blosset.    2    janeiro    1777.    Quari.    Elem., 
8.0,    Introd.    pag.    LXI. 


A   INAUGURAÇÃO  DA  ESTATUA  EQUESTRE 


hom-enagens  que  para  o  outro  decretara.  O  guerreiro,  no 
corcel  de  batalha,  com  o  seu  olhar  de  bronze  —  Síatu-a  stafucr, 
como  rezava  o  pasquim  coUado  no  sopé,  e  nada  melhor  que 
este  dito  caracteriza  a  commemoração  —  o  guerreiro,  lá 
na  alto,  nào  era  mais  que  um  symholo,  o  do  absolutismo 
robustecido,  e  por  elle  Pombal  confiscado,  em  proveito  da 
sua  obra  de  engrandecimento  próprio  e  revivificação  do  paiz. 
As  serpes,  esmagadas  aos  pés  do  cavallo,  representavam  os 
inimigos  que  o  ministro  vencera,  as  intrigas  que  annuUara; 
e,  aos  lados  do  pedestal,  allegorias  triumphaes  reportavam^e 
a  elle,  alli  presente  no  medalhão,  que  não  era,  como  a  estatua 
superior,  a  imagem  de  uma  abstracção,  mas  o  homem  real, 
d-e  cabelleira  e  casaca,  semblante  carregado,  ao  peito  a  cruz 
de  Christo,  tal  qual  usavam  vêl-o  aquelles  que  nesta  hora 
com  fervor  o  acclamavam,  ou  despeitados  a  meia  voz  o 
maldiziam. 

Em  tal  momento,  nenhuma  satisfação  faltava  ao  seu 
orgulho.  Possuía  o  poder  régio  por  direito  de  conquista,  e 
á  roda  de  si,  dispensador  supremo  dos  favores,  via  a  malta 
famélica  de  clientes  e  lisonjeiros  a  mendigarem-lhe  os  sorrisos. 
Já  três  annos  antes,  logar-tenente  do  Rei,  e  com  a  pompa  que 
só  ao  Rei  pertencia,  fora  a  Coimbra  dar  solemne  consagração 
á  reforma  da  Universidade.  Marquês  de  Pombal  desde  1770, 
emparelhava  com  a  mais  luzida  nobreza  do  reino.  Fora  do 
paiz  tinha  um  nome  feito,  e  era  a  sua  pessoa  o  alvo,  nas 
discussões,  dos  ataques  e  dos  louvores.  Para  a  politica  inter- 
nacional D.  José  não  existia.  Era  a  entidade  symbolica  em 
nome  de  que  um  homem  de  universal  fama  manifestava  os 
seus  intuitos  e  vontades.  Nas  cortes  extrangeiras  falava-se 
no   Rei  somente  a  propósito  da  aventura  dos  Tavoras. 

Dentro  do  paiz  tudo  obediente  se  acurvava  ao  seu  ârbitrio. 
Não  havia  resistência  que  o  seu  jugo  não  dobrasse,  nem 
excessos  ou  erros  de  mando  que  o  applauso  não  cobrisse. 
Da  abjecção  geral  emergem,  porém,  sem  macula,  duas  gra- 
ciosas figuras  de  mulher,  duas  creanças  de  forte  coração,  que 
ousam  affrontar  o  potentado,  e  vindicam  a  dignidade  humana, 
ultrajada  pela  cobardia  de  tantos  que  não  tinham  por  desculpa 
a  fraqueza   do  sexo. 

o    MARQUÊS     DE     POMBAL    E     A     SUA     ÉPOCA  —  21 


322  ISABEL  DE  SOUSA  E  LEONOR  DE  ALORNA 


Isabel  de  Sousa,  filha  do  ministro  de  Portugal  em  Paris, 
D.  Vicente  de  Sousa  Coutinho,  obrigada  ao  quinze  annos 
a  desposar  o  filho  segundo  de  Pombal,  futuro  marques, 
resiste  ás  solicitações  do  marido,  joven  como  ella,  ás  insi- 
nuações, ameaças,  ardis  e  provavelmente  a  tcda  a  sorte  de 
violências  moraes,  e  guarda  coração  e  virginal  pureza  para 
aquelle  que  já  antes  escolhera,  forçando  o  ministro  temido 
a  requerer,  três  annos  passados,  a  annuUação  do  matrimonio 
e  abrir  mão  da  fortuna,  com  que  ideara  arredondar  a  da 
sua  já  grande  casa.  O  encerro  em  um  convento,  até  á  accessão 
de  D.  Maria  I,  foi  o  preço  que  á  gentil  heroina  custou  a 
resistência. 

Leonor  de  Almeida,  o  culto  espirito,  a  poetisa,  depois 
marquesa  de  Alorna,  prisioneira  de  Estado,  com  sua  mãe, 
aos  oitenta  annos  de  edade,  como  parenta  dos  Tavoras,  aos 
dezoito  lança  em  desafio  a  um  grande,  o  arcebispo  de  Lace- 
demonia,  que  por  infracção  á  disciplina  monástica,  recebendo 
a  occultas  a  visita  do  irmão,  lhe  comminava  a  ira  de  Pombal, 
os  dois  versos   de   Cornéille : 

Le    rcvur   d'Eléonoie   est   trop   noble   et   trop   franc 
Pour  ciaindrc  ou   respecter  le  bourreau   de  son   sari  cr.' 

O  repente  audacioso  da  donzella  não  foi  punido.  Ao 
semi-deus  injuriado  bastava  por  vingança  asphyxiar-lhe  a 
juventude  no  claustro,  e  apartal-a  para  sempre  da  liberdade 
e   do   amor  '. 

Omnipotente,  afeito  ás  subserviencias  e  lisonjas,  Pombal, 
elevado  ao  coronal  das  ambições,  conservava  comtudo,  entre 
o  fausto  da  corte,  a  virtude  austera  da  parcimonia,  aprendida 


-  A  anecdota,  que  ficou,  parece,  em  tradição  na  família,  acha-se 
desmentida  pela  própria  heroina,  na  descripção  da  visita,  em  carta  ao 
pae,  publicada  na  biographia,  infelizmente  incompleta,  pela  Snr.a  D. 
Maria  Amália  Vaz  de  Carvalho  no  Boletim  da  segunda  classe  da  Aca- 
demia das  Sciencias  de  Lisboa,  volume  6.0  (1912),  sendo  a  realidade 
muito  menos  dramática;  vale,  todavia,  para  a  historia,  como  outros  casos 
e   dito?   suppostos,   que   symbolizam   um   período. 


AS  OBSERVAÇÕES  SECRETÍSSIMAS  323 

nos  annos,  forçadamente  sóbrios,  da  mocidade.  Em  contraste 
com  a  grandt  representação  politica,  o  seu  viver  era  rnodesto. 
Tirante  a  escolta  de  cavallo  que,  desde  a  execução  dos 
Tavoras,  lhe  seguia  a  carruagem,  nada  mais  ostentava  que 
exteriormente  o  exaltasse.  Passado  o  terremoto,  residiu 
sempre  em  uma  barraca,  contigua  á  que  servia  de  paço 
ao  Rei.  Não  tinha  fausto  de  mesa  ou  de  equipagens.  Os 
creados  eram  poucos.  Em  1766  andava  em  Lisboa  na  mesma 
carruagem  em  que,  dezeseis  annos  antes,  fizera  a  jornada 
de  Vienna  de  Áustria  ^  Não  usava  jóias  mais  que  o  habito 
de  Christo  de  brilhantes.  Baixella  de  prata  tinha  a  que  lhe 
servira  em  Londres  e  Vienna,  de  sorte  que,  quando  eram 
numerosos  os  convivas,  nos  jantares  de  ceremonia,  maiidava 
pedir  por  empréstimo  as  peças  precisas,  aos  coílegas  do 
ministério  -.  A  economia  de  quem  quer  juntar  fortuna,  para 
deixar  aos   filhos,    era   a    regra   da   sua   vida. 

Em  compensação,  nenhuma  honra  achava  em  demasia 
para  os  seus  actos  de  estadista.  Foi  assim  que,  ao  inaugurar-se 
a  estatua,  no  auge  da  grandeza  e  da  satisfação  própria, 
entendeu  fazer  o  balanço  do  reinado,  e  pôr-lhe  a  rubrica 
d'aquelle  em  cujo  nome,  no  espaço  de  vinte  e  cinco  annos, 
para  bem  ou  para  mal,  sacudira  um  povo  dócil,  espavorido 
de  seus  Ímpetos.  Para  esse  fim  levou  ao  Rei  um  memorial, 
que  era  o  compendio  da  sua  administração,  e  o  altisonante, 
panegyrico  d'ella  3.  Não  que  se  arrogasse  méritos  pessoaes; 
tudo  dizia  feito  por  indicação  do  sobeí"ano,  a  quem  a  majes- 
tade do  throno  infundia  tino  e  saber.  Do  mesmo  modo  com 


1     Ratton,   Recoí dações.    187. 

'  Apologia  primeira:  «Representação  que  o  marquez  de  Pombal, 
com  carta  de  2  de  abril  de  1777,  mandou  a  seu  filho,  para  a  pôr 
na  presença  da  rainha,  em  defesa  da  calumnia  de  se  haver  enrique- 
cido com  prevaricação  na  administração  da  fazenda  real».  Coll.  Pomb, 
Cod.    6Q5,   e   também    impressa   em   Smith,    Memoirs,    etc. 

'■^  Observações  secretíssimas  do  Marquez  de  Pombal  na  occasião 
da  inauguração  de  estatua  equestre,  no  dia  6  de  junho  de  1775,  e 
entregues  por  elle  mesmo,  oito  dias  depois,  ao  senhor  rei  D.  losé  l, 
muitas    ve/es    impresso. 


324  AS  OBSERVAÇÕES  SECRET/SS/MAS 


as  ordens  régias  S)e  havia  de  desculpar  dos  actos  crueijs. 
D'elle  próprio  havia  somente  «a  fidelidade,  o  /elo,  o  amor 
ao  real  serviço»,  c  a  fortuna  de  ser  o  escolhido  executor  das 
(ãliuminadas  e  prudentes  resoluções»,  que  um  cérebro  augusto 
elaborava.  Mal  amanhadas  lisonjas,  que  só  a  boçalidade  mais 
soez  enganariam.  Atravjz  da  solerte  adulação,  nunca  a  vaidade 
humana  com   mais  soberbia  se  affirmou. 

Sem  mais  recato,  e  sem  temsr  o  desmedido,  a  que 
ninguém  já  se  abalança,  Carvalho  proclama  renascida  a  época 
brilhante  de  D.  Manoel  e  D.  João  III;  opulento  mais  do  que 
então  o  commercio,  florescentes  as  industrias,  prospera  a 
agricultura,  as  artes  em  progresso,  as  boas  lettras  volvidas 
á  perfeição  das  melhores  épocas.  E,  num  arroubo  de  satis- 
fação, exalta  «o  estado  da  philologia  ou  das  bellas  lettras, 
que  servem  de  base  a  todas  as  sciencias»,  commemora  o 
affluxo  das  prosas  e  das  poesias  -  foram  mais  de  seiscentos 
os  autores  —  que  appareceram  na  Mesa  Censória  a  celebrar 
a  inauguração,  em  português,  latim,  greg-o,  hebraico  e  ará- 
bico «com  a  pureza  de  estylo  e  elegância  dos  séculos  dos 
Demosthenes,  dos  Homeros,  dos  Tullios,  dos  Virgilios,  dos 
Horacios  €m  Roma,  e  dos  Teives,  Andrades,  Gouveias, 
Rezendes,  Barros,  Camões  e  Bernardes  em  Portugal»  '.  Como 
se  vê,  três  annos  do  novo  regimen  universitário  tinham  bas- 
tado, segundo  o  dizer  seu,  para  sacudir  do  paiz  a  ignorância, 
e  soerguer  a  litteratura  da  abjecção,  que  os  jesuítas  tinham, 
em  dois  séculos,  preparado.  Com  isto,  baixando  ás  coisas 
Ínfimas,  sem  curar  do  ridículo,  até  a  multidão  das  bandejas 
de  prata,  nos  pantagruelicos  festins  da  solemnidade,  o  luxo 
dos  trajos  e  carruagens,  o  adearítamento  a  que  chegou  neste 
reinado  feliz  a  calligraphia,  de  modo  que  «quando  até  o 
anno  de  1750  era  rara  a  pessoa  que  escrevesse  uma  carta 
com  boa  lettra,  ha  hoje  —  affirmava  —  a  mesma  raridade 
em  encontrar  quem  escreva  mal»  ^;  tudo  é  thema  para  enal- 
tecer o  seu  governo  benéfico  e  fecundo. 


^     Observações  secretissimas,  IV. 
•1    Observações   secretíssimas,  III. 


PRESUMIDA   TENTATIVA    CONTRA   A   VIDA    DE    POA\BAL       325 

A  este  impar  de  vaidades,  ás  louvaminhas  dos  thuribu- 
larios,  veiu  dar  final  consagração  a  presumida  tentativa  contra 
a  sua  vida,  mostrando  que  o  ministro  s€  considerava  pessoa 
á  parte  entre  os  vassailos,  affim  na  intangibilidade  e  prero- 
gativas  á  do  Rei.  Foi  um  caso  de  anarchismo,  por  antecipação 
de  mais  de  cem  annos.  Segundo  a  versão  sahida  a  lume,  o 
genovês  João  Baptista  Pele,  forasteiro  ma!  conhecido  em 
Lisboa,  propuzera-se  assassinal-o,  por  meio  de  um  petardo, 
collocado  sob  o  assento  da  carruagem,  e  preparado  para 
rebentar  durante  o  trajecto  para  o  terreiro  do  Paço,  no  dia 
dos  festejos.  A  coincidência  do  assassínio  com  a  soiemni- 
dade;  a  falta  de  testemunhas,  a  não  ser  o  único  denunciante; 
a  sui>erabundancia  de  provas  —  bilhetes  accusadores  que  o 
criminoso,  em  vez  de  destruir,  parecia  apostado  a  deixar  por 
onde  pudessem  ser  apanhados  -  a  persistente  negativa 
atravez  dos  tormentos,  tudo  leva  a  crer  que  a  protervia  dos 
espiões  inventou  este  attentado.  Cúmplices  ou  mandantes, 
para  empresa  de  tal  lote,  só  dois  ou  três  embuçados,  vaga- 
mente entrevistos,  e  o  autor  desconhecido  dos  bilhetes,  cujo 
teor,  exuberante  em  detalhes  compromettedores,  de  longe 
insinua  falsidade.  É  certo  que  do  processo,  dirigido,  como 
o  dos  regicidas,  pelo  primeiro  ministro,  consta  haverem-se 
encontrado  no  quarto  de  Pele  os  explosivos,  moldes  de  fecha- 
duras, que  se  verificou  serem  da  cocheira  de  Pom'baí,  e 
outros  utensílios  do  crime.  O  infeliz,  que  tinha  no  bolso  as 
chaves,  emmudecia,  não  atinando  a  explicar  como  tinham  vindo 
aquelles  objectos  a  sua  casa;  e  as  façanhas  dos  que  hoje 
chamamos  agentes  provocadores,  autorizam  a  presumir  que 
não  seria  a  estupefacção  simulada. 

Detido  Pele,  em  seguida  a  uma  vã  correria,  com  os 
esbirros  no  encalço,  foi  declarado  réo  de  lesa-majestade.  Como 
para  co.m  os  Tavoras  puzeram-se  de  banda  as  leis  do  reino : 
julgamento  summario,  condemnação  inevitável.  Pena,  eguaí^ 
mente  ao  arbitrio  dos  juizes,  a  que  em  França  padecera 
Damiens  o  regicida.  Tortura  ordinária  e  extraordinária, 
mãos  decepadas,  o  corpo  esquartejado  por  cavallos,  crueldade 
nunca  vista  em  Portugal.  A  agonia  do  infeliz  foi  atroz,  mas 
PoD.bal  tinha  uma  vingança  de  rei. 


326  INCÊNDIO  DA  TRAFARIA 


Não  obstante  o  servilismo  em  que  vivia  sepultado  o  paiz, 
não  faltaram  murmurações.  O  horror  da  execução,  a  insuffi- 
ciencia  da  prova,  como  se  viu  da  sentença  publicada,  a  des- 
proporção da  pena  a  um  delicto  frustado,  se  é  que  algum 
houve,  do  que  muitos  duvidavam,  tudo  isso  acirrava  a  publica 
aversão  ao  tyranno,  a  qual  por  latente  não  era  menos  real. 
Já,  sopitando  o  terror,  corriam  boatos  de  reacção.  Dizia-se 
que,  na  inauguração  da  estatua,  planeara  elle  proclamar 
herdeiro  da  coroa  o  príncipe  D.  José,  excluindo-se  a  mãe, 
natural  successora,  a  princesa  do  Brasil;  que  muitos  fidalgos 
tinham  ido,  com  armas  occultas,  á  cerimonia,  para  se  opporem 
á  declaração ;  que  as  tropas  municiadas  estavam  de  prevenção 
para  abafar  qualquer  distúrbio,  ou  inconveniente  manifes- 
tação ;  que  finalmente  o  projecto  havia  gorado  por  se  pronun- 
ciar contra  elle  a  corte  de  Hespanha,  cujas  tropas  se  moviam 
para  a   fronteira  '. 

Se  foi  certo,  mais  havia  de  acerar  isso  em  Pombal  a 
tendência  á  repressão,  e  ao  furor  nos  castigos.  A  ultima  de 
suas  explosões,  de  todas  a  mais  cruel,  foi  o  incêndio  da  Tra- 
faria, com  muitas  mortes  e  prisões.  Já  o  Rei  adoecera  para 
morrer,  e  a  fúria  do  ministro  crescia,  com  os  prenúncios, 
que  via  desfavoráveis,  da  sua  futura  sorte.  Com  o  pretexto 
de  que  lá  se  acoutavam,  com  os  pescadores,  muitos  fugitivos 
á  recruta,  então  activa  pelos  prospectos  de  guerra  com  a 
Hespanha,  o  juiz  Manique,  esbirro  prompto  ás  violências, 
atravessou  o  Tejo,  á  frente  de  soldados,  em  uma  sombria 
noite  de  janeiro,  para  incendiar  as  pobres  choupanas,  de 
colmo  e  taboas,  onde  dormiam  os  labutadores  do  mar  com 
suas  famílias.  O  intento,  peio  modo  da  execução,  tanto  seria 
de  colher  no  pânico  os  transfugas,  como  destruir,  qual  ninhada 
de  feras,  os  habitantes.  Ao  crepitar  das  chammas,  precipita- 
vam-se  os  desditosos  de  encontro  ao  cerco,  mulheres,  creanças 
e  velhos  no  tor\'elinho.  Houve  mortes;  a  compaixão  dos 
soldados  poupou  a  muitos,  porventura  illudindo  as  ordens. 
Conhecido  o  facto,  o  clamor  sobre  a  barbaridade  foi  geral. 


1     Gramoza,    Succcssos    de    Portugal,    I,    73. 


I 


S!TI;AÇÃ0    ECONOAUCA    na    administração    pombalina       327 


Carvalho  justificou-se  mais  tarde,  dizendo  que  o  logar  era 
um  couto  de  criminosos,  os  pescadores  não  pagavam  os 
tributos,  espancavam  os  fiscaes,  e  que  o  Rei  para  os  punir 
ordenara  se  arrazasse  a  povoação.  Salvo  o  mandado  do  sobe- 
rano, que  agonizava,  deve  ter  sido  o  caso  assim.  Sangue  e 
ruina  era  o  que  Pombal,  nos  estos  da  sua  ira  insensata, 
proferira. 


II 


Ia  terminar  o  reinado,  e  a  situação  do  paiz  divergia 
muito  do  que  a  jactância  do  valido  apregoava.  A  opulência 
geral,  provada  nas  baixeilas,  nos  opiparos  banquetes,  nas 
custosas  carruagens,  nos  gastos  particulares,  por  occasião  das 
festas  da  estatua ;  a  riqueza  do  commercio.  e  das  manufacturas, 
o  progresso  da  lavoura,  o  florescer  das  colónias,  a  satisfação 
do  povo  pela  prosperidade  que  um  governo  benéfico  sobre 
clle  derramava,  fazendo,  no  dizer  de  Pombal,  admiração  aos 
extrangeiros  «que  nunca  haviam  entendido  que  Portugal,  em 
tão  poucos  annos,  houvesse  accumulado  riquezas  tão  supe- 
riores á  sua  comprehensão»  1;  essa  opulência,  esse  conten- 
tamento, esse  pasmo,  eram  illusões  do  amor  próprio,  argu- 
mentos mais  ou  menos  sinceros  contra  os  emulos,  direitos  que 
o  ministro  invocava  á  gratidão  publica  e  ao  favor  do  Rei ;  tai 
qual  nos  Estados  modernos  a  remuneração  de  serviços,  com 
que  um  chefe  de  partido  avança  á  conquista,  ou  um  governo 
abalado  pretende  a  conservação  do  poder. 

É  certo  que,  na  progressiva  decadência  em  que  vinha 
o  paiz,  já  desde  quando  os  thesouros  da  índia  nelle  se  despe- 
javam, decadência  que  nem  o  affluir  de  ouro  e  diamantes 
do  Brasil  logrou  interromper,  o  terceiro  quartel  do  século 
XVIIÍ,  olhado  a  distancia,  parece  offerecer  uma  pausa.  O 
contraste  com  o  desalentador  período  seguinte,  faz  vêr  um 
renascimento   na   relativa   animação  do  commercio,   sobretudo 


1     Observações  secretíssimas,   XVI. 


328  DECADÊNCIA  GERAL  DO  COMMERCIO 


O  maritimo,  c  no  desabrochar  de  industrias  novas,  dando 
impulso  ao  trabalho  nacional.  Não  ha  negar  que,  no  consulado 
pombalino,  o  poder  absoluto,  ao  serviço  de  uma  indómita 
vontade,  estimulou,  por  instantes,  o  organismo  derrancado 
da  nação.  Mas,  consumidas  na  violenta  excitação  as  derradeiras 
energias  d'esse  corpo  enfraquecido,  o  abatimento  tinha  de 
ser  em  seguida,  e  realmente  foi,  mais  intenso  e  prolongado. 

Entretanto,  o  reviver  fictício  da  actividade  portuguesa, 
em  paralielo  com  o  lethargo  de  tantos  annos,  illude  o  obser- 
vador desprevenido,  e,  quando  no  reinado  seguinte  a  inevi- 
tável queda  se  lhe  depara,  mais  deasstrosa  e  fatal,  a  figura 
do  ministro  apparece  aureolada  de  grandeza,  á  qual  presta 
maior  brilho  a  insufficiencia  ou  a  má  estrella  dos  successores. 

A  verdade  é  que,  só  á  custa  de  enormes  sacríficios,  e  por 
meio  dte  providencias,  com  o  correr  do  tempo  insustentáveis, 
c  despertar  da  nação  para  a  vida  económica  transitoriamente 
se  realizou.  No  próprio  momento  em  que  as  creações  de 
Pombal  parecem  inaugurar  uma  nova  era  de  riqueza  e  bem- 
estar,  situação  mui  outra  se  nos  revela,  nos  brados  do  povo 
clamando  sua  miséria,  nas  angustias  do  thesouro  sob  o 
constante  assedio  dos  credores. 

Sem  embargo  da  fama  em  contrario,  a  gestão  económica 
de  Po:;ibal  foi  quasi  sempre  infeliz.  Providencias,  em  que 
fundava  seguras  esperanças,  davam  afinal  precário  resultado, 
depois  de  haverem  introduzido  graves  perturbações  na  vida 
económica,  generalizado  o  descontentamento,  arruinado  não 
poucas  fortunas.  Logo  «m  seguida  á  Companhia  do  Grão- 
Pará,  Pombal,  tomando  gosto,  fundara  a  do  Alto  Douro.  Em 
1759  a  de  Pernambuco  e  Parnahiba;  em  1773  a  Companhia 
geral  das  reaes  pescas  do  Algarve.  Fontes  de  opulência  para 
alguns,  poucos,  favorecidos,  todas  ellas  foram  para  o  povo 
maldição.  Do  clamor  a  que  as  duas  primeiras  deram  motivo, 
quando  se  instituíram,  falou-se  atrás.  Imagine-se  agora  o 
exaspero  dos  lavradores  da  Extremadura,  das  regiões  do 
Mondego  e  do  Vouga,  quando  os  esbirros  do  corregedor 
lhes   iam   intimar   que   arrancassem   as   vinhas  i,   para   muitos, 


1     Ui  de  26  outubro   1765. 


AS   COMPANHIAS    POMBALINAS  329 


sua  única  riqueza.  Das  suas,  de  Oeiras,  Pombal  vendia  o 
producto,  a  bom  preço,  á  privilegiada  Companhia.  Por  effeito 
d'esta  violência,  da  perturbação  geral  dos  negócios,  prove- 
niente do  monopólio,  muitas  casas  se  despenharam  na  ruína. 
O  trafico  com  o  Brasil  diminuirá  consideravelmente,  e  as 
próprias  Companhias,  apesar  dos  seus  privilégios  e  das  res- 
tricções  em  que  se  amparavam,  arrastavam  difficil  existência. 
A  do  Grão-Pará,  de  Í766  em  diante,  nunca  mais  distribuiu 
dividendos.  Na  colónia  queixavam-se  negociantes  e  agricul- 
tores. Por  incúria  da  Companhia  escasseavam  as  fazendas  que 
só  ella  podia  levar  da  metrópole;  os  productos  da  terra  paga- 
va-os  a  mesquinho  preço;  os  escravos  da  Africa,  que  tinha 
obrigação  de  levar,  e  cuja  introducção  era  o  motivo  da  sua 
existência,  umas  vezes  não  chegavam  para  as  necessidades, 
outras,  se  vinham  em  maior  numero,  não  podiam  ser  vendidos 
em  condições  de  lucro  para  a  Companhia,  pela  pobreza  dos 
moradores.  Na  colónia  e  no  reino  era  egual  o  descontenta- 
mento. Quando,  em  1778,  a  concessão  terminou,  o  jubilo 
foi  tamanho  em  Lisboa  que  o  commercio  mandou  celebrar 
um    Te-Deum   em    acção   de   graças. 

Apesar  dos  privilégios  e  favores  do  Estado,  os 
titulos  d'esta  e  das  outras  Companhias  corriam  depreciados. 
Acudiu  Pombal  determinando  que,  nas  execuções  e  partilhas, 
os  juizes  as  considerassem  não  como  dividas  contingentes 
mas  por  dinheiro  liquido  ^ ;  depois,  impondo  pesadas  multas, 
a  quem  os  comprasse  abaixo  do  valor  nominal  -.  Tudo, 
porém,   debalde. 

A  Companhia  de  Pernambuco  e  Parahiba  fundara-se  com 
grande  capital.  Promoveu  adeantamentos  na  colónia  com 
prejuizo  dos  accionistas,  que  por  fim  não  tinham  frete  para 
o  numero  excessivo  de  barcos  empregados  no  trafico.  É  de 
notar  que  a  cultura  do  algodão  só  foi  introduzida  em  Pernam- 
buco  depois    de   extincta    a    Companhia.    D'esta    e    da   outra 


1  Alv.  21  junho  1760. 

2  Alv.  30  agosto  176S. 


330  A    COMPANHIA   GERAL    IX)   ALGARVE 


do  Grão-Pará  sumiram-se  os  fundos,  que  restavam  quando 
o    privilegio   acabou,    nas    mãos   dos    liquidadores  '. 

A  protecção  ás  pescarias  do  Algarve  veiu  a  dar  na  mina 
de  uma  industria  que,  desde  o  tempo  do  infante  de  Sagres, 
lôra  o  viveiro  tão  fértil  de  onde  os  arrojados  navegantes 
sabiam.  A  Companhia  geral  obteve  o  privilegio  da  pesca 
dos  peixes  chamados  reaes,  atum  e  corvina,  com  varias 
isenções  fiscaes,  e  o  direito  de  expropriar  armazéns,  casas, 
embarcações,  redes,  cordoalhas,  e  mais  utensílios  que  os 
particulares  tivessem  no  mesmo  trafico  -■.  Depois  d'isso,  com 
o  fito  de  expulsar  os  pescadores  hespanhoes,  que  vinham 
numerosos  á  costa  portuguesa.  Pombal  incumbiu  a  industria 
da  sardinha  a  um  syndicato  ou  Kartell  —  assim  diríamos 
hoje  —  composto  de  oito  sociedades,  com  certas  vantagens 
e  obrigações,  entre  estas  a  de  manterem  no  trafego  cada 
uma  seis  barcos,  além  dos  de  transporte,  e  os  apparelhos 
necessários.  Creou  para  sede  d'este  ramo  da  industria  a 
Villa  Real  de  Santo  António,  e,  querendo  promover  o  desen- 
volvimento da  povoação  nova,  mandou  destruir  pelo  fogo 
a  de  Monte  Gordo,  alli  próxima,  onde  residiam  os  pescadores 
e  barqueiros,  obstinados  cm  nãO'  se  transferirem  á  villa. 
Ensaio  do  assalto  á  Trafaria,  três  annos  depois.  Tão  pro- 
ducentes  foram  estas  providencias  que,  ao  findar  o  reinado, 
as  sociedades,  faltando-lhes  a  coacção  do  governo,  quasi  todas 
se  dissolveram;  dos  quarenta  e  oito  barcos  do  encargo  ficaram 
dez  no  mar;  os  pescadores  emigraram  para  Hespanha,  de 
Ayamonte  até  Cadiz;  e  a  decadência  accentuou-se  nos  annos 
seguintes,    ferida    a    industria    algarvia    de    modo    fatal  ^ 

Despojados  em  proveito  dos  monopólios  os  pequenos 
capitalistas,  violentados  es  trabalhadores,  empobrecido  o  com- 
niercio,    por   toda    a    parte    no    paiz,    metrópole    ou    colónias, 


'     Ratton,    Recordações,    242. 

~     Alv.    15  janeiro   1773. 

^  Cf.  a  «Memoria  sobre  a  decadência  da  pescaria  do  Monte 
Gordo»,  f>or  Constantino  Botelho  de  Lacerda  Lobo,  nas  Memorias  eco- 
nómicas   da   Academia    Real    das    Sciencias    de    Lisboa,     3.°,    351    e   seg. 


TESTEMUNHOS     DOS     DIPLOMATAS     AUSTRÍACOS  331 


reboavam  as  queixas.  A  este  respeito  são  impressivas  ;as 
informações  que  á  corte  de  Vienna  transmittiam  os  seus 
representantes.  Kail  em  1763:  cA  pobreza  e  a  miséria  são 
geraes,  e  cada  dia  augmentam  a  ponto  difficil  de  se  imaginar. 
O  commercio  está  completamente  desbaratado,  e  recebeu 
agora  o  ultimo  golpe  com  a  chegada  da  frota,  que  não 
trouxe  um  decimo  do  que  se  esperava,  para  contentar  os 
credores  extrangeiros,  que  fiaram  as  fazendas,  e  ir  entretendo 
o  credito  da  praça  muito  abalado»  ^  Dois  annos  depois,  o 
conde  Welsperg  considera  o  commercio  do  Brasil  em  desas- 
trosa situação,  aggravada  por  noticias  dos  preparativos  que 
então  se  fazia  contra  a  'Hespariha.  Nem  se  aguentavam  as 
Companhias,  cujas  extorsões  levavam  os  habitantes  do  Brasil 
a  sumirem-se  no  interior,  deixando-lhes  muitas  vezes  grandes 
dividas  por  solver.  Em  1769.  Lebzeltern:  '~0  commercio 
ern  geral  acha-se  em  extrema  decadência,  por  causa  de  tantas 
companhias  que  se  crearam  >  -'.  Em  1774:  (cNunca  o  commercio 
se  viu  no  estado  de  abatimento  em  que  se  encontra  agora». 
E  em  1776,  já  no  fim  do  reinado:  «O  povo  miserável  e  carre- 
gado de  tributos  supportaria  ainda  assim  tudo  com  paciência, 
se  visse  que  tentavam  dar  algum  lenitivo  a  seus  males,  e 
o  meio  único,  pelo  qual  todos  suspiram,  seria  a  extincção  das 
Companhias  e  a  restituição  do  commercio  livre»  ^,  O  mesmo 
diplomata  faz  em  breves  palavras  a  synthese  da  obra  de 
Pombal:  «Este  povo,  que  D.  João  V,  apesar  de  seus  gastos 
desmedidos,  da  sua  liberalidade  excessiva,  deixou,  ao  morrer, 
abastado,  contente  e  feliz,  offerece  á  primeira  vista  a  imagem 
da  indigência  e  da  escravidão»  -*.  E  não  se  diga  ser  isto  male- 
dicência de  extrangeiros,  que  a  emulação,  e  interesse  politico 
tornavam  hostis.  Entre  as  cortes  de  Vienna  e  Lisboa  questões 
a  debater  não  havia.  As  relações  pessoaes  do  primeiro  ministro, 
com  aquelles  que  tão  desfavorável  juizo  da  sua  administração 


^  ÍS  outubro    1763.    Duhr,   Pombal,   31. 

2  20  agosto   1765.   Duhr,   Pombal,   32. 

3  Ideni,   34,  43,   40. 

-í  Rei.   dezembro  de    1776.    Idem,   31. 


332  PROSPERinADE   EPHEMERA    ÍUS    lNnUSTRl\S 


formulavam,  foram  sempre  cordeaes;  com  Lebzeltern  de  rela- 
tiva intimidade.  Nada  leva  a  infirmar  os  testemunhos  com 
suspeição.  Exagerados  podiam  ser  no  pessimismo,  se  a  derro- 
cada, seguinte  á  queda  de  Pombal,  não  desvendasse  a  fraqueza 
da  sua  obra.  Em  todo  o  caso,  reflectiam  a  opinião  corrente, 
o  mal  estar,  traduzido  nas  queixas  geraes. 

Sobre  as  industrias,  que  o  ministro  com  tanto  desvelo 
buscava  radicar  em  Portugal,  ouçamos  o  mesmo  julgador:  «As 
circumstancias,  em  que  as  fabricas,  sem  excepção  alguma,  se 
encontram,  são  taes,  que  os  productos  não  teem  sabida,  já 
pela  ruim  qualidade,  já  pelo  preço  excessivo,  de  modo  que  só 
com  extraordinários  auxiiios  do  thesouro  se  podem  manten>  i. 
Em  outra  occasião  dizia  ainda:  «Quanto  ás  industrias,  cuida-se 
mais  de  lhes  dar  uma  apparente  florescência,  que  de  as 
estabelecer  em  bases  solidas.  Para  esse  fim  se  exhaure  o  the- 
souro publico,  se  opprime  o  commercio  extranho,  e  se  acha 
a  nação  privada  de  copia  de  objectos  necessários  e  commodi- 
dades»  -.  E  a  sorte  d'essas  creações,  quando  o  bafo  carinhoso 
do  fundador  lhes  faltou,  confirmou  estes  assertos.  Pouco 
escapou   á   derrocada   geral. 

Certo,  a  acção  reformadora  de  Pombal  nem  sempre 
resultou  contradictoria  ou  nociva.  De  tanto  que  fez,  alguma 
coisa  foi  útil  e  perdurou.  Uma  parte  abriu  caminho  a  con- 
quistas futuras,  e,  a  relances,  transparece  nelle  um  homem 
do  seu  século.  A  disposição  acerca  dos  christãos  novos,  a 
emancipação  dos  Índios,  mal  regulada  todavia,  a  escravidão 
extincta  em  Portugal,  são  providencias  que  o  recommendam 
á  veneração  dos  pósteros,  posto  que  as  duas  primeiras  fossem 
tomadas  como  meio  de  combate  á  Companhia  de  Jesus,  e 
a  ultima  em  beneficio  da  lavoura  do  Brasil,  o  que  se  vê 
dos  respectivos  diplomas  l  No  âmbito  da  legislação  civil  e 
administrativa,  no  quotidiano  expediente  das  secretarias,  innu- 


^     18   março    1773.    Duhr,    Pombal,    41. 

2  18  outubro   1774,   em  cifra.   Idem,   41. 

3  Leis  de   26  maio    1773,   6  junho    1755,    19  setembro    1761,   com- 
pletada   esta,    relativa    aos    escravos,    pela   de    16    janeiro    1773- 


REFORMAS    MA    LEGISLAÇÃO  333 


meras  outras  revelam  discernimento  e  uma  innata  equidade 
que    seria    absurdo    contestar. 

Mas  o  homem  era  evidentemente  inferior  á  tarefa  de 
reformação  geral  que  s<í  impuzera.  Muitas  das  suas  determi- 
nações são  apenas  devaneios  de  um  espirito  autoritário,  que 
não  vacilla  ante  o  atropelio  improfícuo  de  direitos  e  costumes, 
ante  as  mesquinhas  tyrannias,  para  impor  idéas  que  a  per- 
suasão, melhor  que  o  constrangimento  das  leis,  faria  vingar. 
Tal  foi  a  pragmática  sobre  os  casamentos  de  pessoas  da 
nobreza,  que  prohibe  concorrerem  á  ceremonia,  por  convite 
ou  sem  elle,  outras  pessoas  além  dos  padrinhos  e  parentes 
do  primeiro  grau,  bem  assim  passarem  os  noivos  na  corte 
a  noite  das  núpcias,  devendo  ir  para  fora  da  cidade,  mais  de 
duas  léguas,  e  não  voltar  antes  de  passados  dez  dias  i.  Outro 
decreto  exclue,  na  fidalguia,  as  filhas  da  herança  paterna, 
quando  haja  varões,  ficando  a  estes  o  encargO'  de  as  sustentar; 
prohibe  os  dotes  e  disfarçados  donativos,  por  occasião  do 
casamento;  limita  o  enxoval  e  o  presente  do  esposo,  desi- 
gnando áquelle  o  valor  de  4:000  cruzados,  a  este  os  objectos 
de  que  se  ha  de  compor:  um  vestido  de  gala  para  o  noivado, 
dois  outros  para  os  dias  immediatos  e  algumas  jóias  modestas. 
«O  fim  d'esta  lei  —  dizia  Pombal  —  é  sustentar  o  património 
das  casas  e  facilitar  o  matrimonio  dos  filhos  d'ellas»  -. 

A  seguinte  disposição,  que  o  ministro  considera  entre 
as  suas  mais  beneméritas,  descobre  uma  usança,  que  vinha 
das  edades  longínquas  da  raça.  Por  effeito  d'ella  não  devem 
as  viuvas  ser  encerradas  em  quartos  escuros,  nem  dormir 
em  camas  rasas  no  chão,  nem  ficar  por  largo  tempo  reclusas, 
após  a  morte  dos  maridos ;  abrir-se-hão  as  janellas  ao  fim  de 
oito  dias;  não  passará  o  luctuoso  retiro  de  um  mfês '3.  E  isto 
sob  pena  de  multa  de  2:000  cruzados,  em  que  os  parentes, 
responsáveis  das  practicas  vedadas,  participavam. 


1     Lei   de    19   agosto    1761. 

-  Contrariedade  ao  Ubello  offerecído  por  Franciscê  José  Caldeira 
Soares  Galhardo  de  Mendanha  contra  o  Marquez  de  Pombal,  appen- 
dice,    Epitome,   chronolo^ico. 

3     Lei  de   17    agosto    1761.   Veja-se  a   Contrariedade   ao   Ubello   etc. 


334  DESCALABRO    FINANCEIRO 


íir 


Voltemos  á  gestão   económica   e  financeira. 

Agçravando  o  mal  estar  g-eral.  a  penúria  constante  do 
ciario  renectia-sc  no  commercio  e  na  vida  particular.  A  falta 
de  pontualidade  nos  pagamentos  foi  um  dos  característicos 
doesta  administração  famosa.  Devia-se  o  pré  ás  tropas; 
deviam -Ge  os  salários  nas  officinas  do  Estado,  as  soldadas  aos 
serviçaes  do  paço.  Em  1763  dizia  Kail  que  ninguém  recebia 
soldos,  ordenados,  pensões  ou  juros  i.  O  viajante  inglez 
Wraxall,  que  veio  a  Lisboa  em  1772,  dá  a  informação 
seguinte :  «A  casa  real  andava  tão  mal  administrada  que  a 
maior  parte  dos  officiaes  e  creados  não  eram  pagos,  íhavia 
uns  poucos  de  annos,  e  se  achavam  por  isso  nas  mais  penosas 
circumstancias. . .  Os  lacaios,  que  acompanhavam  as  carrua- 
gens reaes,  estavam  quasi  sem  meios  de  subsistência»  -.  Estes 
factos  deviam  ser  notórios,  e  recolheu-os  Wraxall  evidente- 
mente nas  conversas  durante  a  sua  visita.  Segundo  Dalrymple, 
official  da  guarnição  de  Gibraltar,  que  percorreu  o  paiz  em 
1774,  os  rendimentos  pubhcos,  entre  os  quaes  avultava  o 
ouro  do  Brasil,  eram  desbaratados  sem  critério,  em  toda  a 
casta  de  despesas  alheias  aos  compromissos  correntes.  «O 
Rei  —  dizia  elle  —  está  a  dever  a  todo  o  pessoal  da  sua 
casa^>  \  Não  menos  positivo  é  o  depoimento  que  se  encontra 
na  apocrypha  Viagem  do  duque  de  Chatelet,  obra  de  um  admi- 
rador de  Pombal.  O  escriptor  teve  occasião  de  verificar, 
segundo  diz,  quão  pouco  cuidadoso  era  D.  José  em  pagar 
as  suas  dividas,  mêmc  les  plus  criardes.  Por  occasião  da  sua 
morte   todos   os   creados   reclamavam   quatro   ou   cinco  annos 


1      17   Outubro    17Õ3.    Pomba!.    Dlhr,    32. 

-  Wkaxall,  Mémoires  historiques  de  mon  temps.,  trad.  Paris  1817, 
I,    21. 

vi  DALKYAíPLt,  \'oyage  eii  Es/m^^ne  et  en  Portugal,  trád.  Paris  1  7S3, 
pag.    197. 


DESCALABRO    FINANCEIRO  335 


de  soldadas.  A  propósito  d'isso  mais  de  uma  vez  lhes  ouviu 
murmurações  nada  respeitosas  i.  Em  1764,  referia  Kail  que 
ao  fornecedor  das  reaes  ucharias  a  divida  era  de  um  e  meio 
milhão  de  cruzados,  conseguindo,  ao  cabo  de  muitas  e  sérias 
representações  que  lhe  pagassem  um  terço  ~.  Em  1769,  o 
cônsul  de  Áustria  Stockler,  negociante,  a  pique  da  fallencia, 
dava-se  a  insanos  esforços  para  cobrar  quatro  mil  cruzados, 
divida  do  paço.  Ainda  sobre  os  creados  escrevia,  em  1773, 
Lebzeltern:  «Ha  dez  annos  não  recebem  um  real  dos  seus 
ordenados,  de  modo  que  a  maior  parte  vivem  de  esmolas  ". 
As  extravagâncias  de  uma  corte  perdulária  concorriam 
de  certo  para  tornar  inevitáveis  estes  atrazos;  mas  é  licito 
aifirmar,  por  outra  parte,  que  em  geral  não  presidiu  á  admi- 
nistração pombalina  o  critério,  nem  a  justa  economia,  de  que 
dependem  as  boas  finanças.  Podia-se  suppôr  que  o  dinheiro, 
regateado  ás  dividas  do  Príncipe,  zelosamente  se  applicava 
aos  serviços  da  nação,  de  sua  natureza  mais  importantes. 
Longe  d'isso:  o  thesouro  esvahia-se  por  mil  canaes  em 
despesas  inúteis.  Só  o  custeio  das  cavallariças  reaes  importava 
em  quantia  enorme.  Bastará  saber-se  que,  por  morte  de 
D.  José,  os  cavallos  e  muares  vendidos  foram  em  numero 
de  dois  mil,  e  ainda  restavam  oitocentos  para  o  serviço.  O 
theatro  lyrico  era  outro  sorvedouro  nunca  extincto.  "O  celebre 
castrado  Gizielo  ganhava  30  mil  escudos  por  anno,  e  mais 
vinte  e  dois  mil  francos  para  o  prato,  além  de  casa  e  car- 
ruagem. O  Rei,  doido  por  musica,  não  passava  sem  o  seu 
preferido  divertimento,  quando  ia  a  Salvaterra.  Wraxall  ouviu 
que  a  despesa  com  a  opera,  no  paço,  importava  em  40 :000 
libras  esterlinas  cada  anno.  O  embaixador  francez  Baschi  diz 
que  só  a  sala  e  o  vestuário  custavam  250  mil  francos  por 
mês.  Do  que  não  resta  duvida  é  que  as  exhibições  eram 
sumptuosas,  e  nada  se  poupava  para  que  o  espectáculo  não 
fosse    somenos    ao    melhor    que    no    género    havia    então    na 


'      Voyage    du    ci-devant    diic    de   Chatelet.    2.",    63. 
2      DuHR,    Pombal,    46. 
•'     Idem,    id.,    46. 


336  ESTADO    PRECÁRIO    D-0   EXERCITO 


Europa.  As  touradas,  outra  distracção  favorita  do  soberano, 
faziam  também  carga  assaz  p-esada  no  orçamento  da  coroa, 
O  ministro  qu€,  para  tranquillamente  exercer  o  poder  despó- 
tico, precisava  lisonjear  os  gostos  do  amo,  assentia  em  tudo 
isto.  O  resto  seria  pouco  para  remunerar  a  clientela  de  Pombal, 
para  soccorro  ás  industrias,  introduzidas  com  sacrifício  do 
erário,  para  a  reedificação  de  Lisboa,  ficando  sem  se  lhes 
acudir  outras  verbas,  das  m.ais  urgentes,  da  publica  admi- 
nistração. 

O  exercito  já  sabemos  em  que  estado  se  encontrava  por 
occasião  da  guerra  com  a  Hespanha.  A  competência  especial 
do  conde  de  Lippe  como  organizador;  a  collaboração  de 
officiaes  extrangeiros,  alguns  d'elles  distinctos;  a  complacência 
do  governo  em  os  attender,  emquanto  o  perig-o  durou;  a 
nova  disciplina  então  introduzida,  tudo  isso  contribuiu  para 
elevar  material  e  moralmente  o  valor  da  força  armada,  cm 
um  período  curto,  seguinte  á  campanha.  Mas  logo  depois, 
com  a  ausência  de  Lippe,  que  era  a  vontade  motriz,  a  deca- 
dência antiga  reappareceu.  Dalrymple,  que  tinha  para  o 
informar  officiaes  seus  compatriotas,  com  isso  e  o  que  viu, 
faz  da  organização  militar  portuguesa  a  mais  desfavorável 
idéa.  Em  Valença,  primeiro  logar  onde  esteve,  havia  um 
regimento  de  artilharia  e  outro  de  infantaria.  «Julgo  que 
nunca  vi  tropas  assim»,  diz  elle,  no  sentido  deprimente.  Os 
officiaes  viviam  descontentes,  os  soldos  eram  mesquinhos ; 
não  se  faziam  promoções,  de  modo  que,  por  exemplo,  em 
um  regimento  de  Vianna  todos  os  postos,  acima  de  tenente, 
excluindo  o  coronel,  estavam  vagos.  Em  taes  condições  a 
disciplina  era  frouxa.  Os  soldados  andavam  rotos,  traziam  as 
armas  enferrujadas,  o  correame  sujo  e  dilacerado.  A  guar- 
nição do  Porto  ainda  peor.  Soldados  de  sentinella  pediam 
esmola  i.  Logo  que  Lippe  se  foi  embora  começaram  a  faltar 
os  fardamentos  e  também  os  recrutas,  relata  o  Enviado 
francês,    conde   de   Saint-Priest  -.    Em    1773,    foi     necessário 


Voyage,   cit.    165   e    175. 
Quad.    Elen;t.,    VII,    205. 


ESTADO    PRECÁRIO    DA    MARINHA  33? 


reduzir  o  effectivo  do  exercito.  A  este  respeito  communica 
Lebzeltern:  «Esta  providencia  tornou-se  indispensável,  por- 
quanto o  erário  não  poderá  por  mais  tempo  comportar  tão 
avultado  gasto  com  a  força  armada»   ^. 

Não  era  mais  florescente  a  situação  da  maiinha.  A  admi- 
nistração naval  continuava  a  ser  encargo  do  Provedor  dos 
armazéns  de  Guiné  e  índia  e  Arsenal  de  marinha,  funccionario 
vitalício,  a  quem  incumbia  a  construcção,  apparelho  e  arma- 
mento das  esquadras.  Pombal,  na  sua  faina  reformadora,  não 
se  lembrara  de  eliminar  esta  entidade  anachronica  e  inerte. 
Em  1765  consistia  o  effectivo  em  dezoito  navios,  e  esses, 
dizia  Saint-Priest,  mal  providos  de  tripulações.  No  tempo 
de  Dalrymple  existiam,  segundo  colheu,  dezesete  navios,  sendo 
seis  fragatas.  Cada  anno,  refere  Saint-Priest,  sabiam  dos 
estaleiros  duas  fragatas,  mas  o  desleixo  era  tal  que  em  pouco 
tempo  apodreciam,  de  maneira  que  o  total  jamais  passava 
de  vinte  ^.  No  fim  do  reinado  deviam-se  aos  operários  .do 
arsenal  muitos  meses  de  paga.  Então  compunha-se  a  armada 
de  doze  navios,  «a  apodrecerem  no  porto  de  Lisboa»,  dizia 
o  marquês  de  Clermont  d'Ambroise,  ministro  de  França.  «É 
lastima  —  continua  o  diplomata  —  ver  em  tamanha  deca- 
dência esta  nação,  que  em  um  século  de  ignorância  se  cobriu 
de  gloria,  abrindo  aos  outros  povos  da  Europa  caminhos 
até  ahi  desconhecidos»  ^.  Tudo  isto  desenha  a  situação  do 
paiz  em  traços  bem  diversos  d'aquelles  com  que  a  orgu- 
lhosa  apologia   do   ministro   a    representava    ^. 


1  DuHR,    Pombal,    46. 

2  Quad.  Elem.,  8.o,    185. 
2     Idem,    id,    45. 

*  Latino  Coelho,  que  não  é  suspeito  de  desaf feição  a  i^omòal, 
escreve:  «Todos  os  testemunhos  são  conformes  em  attestar  que  nos  úl- 
timos annos  de  reinado  de  D.  José  o  exercito  havia  quasi  retrocedido 
ao  estado  em  que  jazera  em  tempos  do  seu  predecessor».  (Hist.  politica 
e  militar,  3. o,  85).  E  em  outra  parte:  «O  marquez  de  Pombal  era 
por  Índole  e  systema  pouco  propenso  aos  assumptos  militares.  Não 
admira  pois  que,  apesar  da  sua  inflexível  hombridade  em  zelar  a  honra 
nacional,    não   elevasse   a   marinha   portuguesa   ao   grau    de   força    e   per- 

O    MARQUÊS     DE     POMBAL     F.     A     SUA     ÉPOCA  —  22 


338  A     INSTRUCÇÃO     PUBLICA 

No  ramo  da  instrucção  publica,  tão  encarecido  na  forma 
que  Pombal  lhe  imprimiu,  egualmente  se  manifesta  a  insufi- 
ciência da  sua  obra,  que  em  uma  boa  parte  falhou.  Nem 
tudo  se  deve  attribuir  ao  espirito  retrogrado  da  seguinte 
administração.  A  reforma  obedecera,  como  sabemos,  ao 
intuito  de  proclamar  a  nocividade  pedagógica  dos  jesuitas, 
e  comprovar  que  elles,  em  dois  séculos,  tinham  arruinado  .a 
litteratura  em  Portugal.  A  questão  não  foi  iniciada  pelo 
ministro;  já  vinha  de  trás.  Promanava  da  rivalidade  entre 
as  confrarias  do  Oratório  e  de  Loyola,  por  causa  dos  discí- 
pulos. Verney  abrira  o  tiroteio  em  1747,  com  a  publicação 
do  Verdadeiro  metlwdo  de  estudar.  Os  jesuitas  replicaram,  e 
o  prélio  veio  a  disputar-se  principalmente  em  torno  da  syn- 
taxe  latina:  de  ura  lado  a  nova  grammatica  de  António 
Pereira  de  Figueiredo,  oratoriano,  do  outro  a  velha  Arte 
do  padre  Manuel  Alvares.  D'aqui  se  partiu  para  generalizar 
que  os  jesuitas  tinham  derruído  a  mentalidade  portuguesa, 
como  se  outras  causas  evidentes  não  houvesse,  para  explicar 
a  decadência  material  e  intellectual  da  nação.  A  disparidade 
entre   a   causa    e   o   effeito   salta   aos   olhos   menos   sagazes. 

Pombal  não  podia  desprezar  a  indicação.  O  primeiro 
acto,  após  o  attentado  de  setembro  contra  o  Rei,  e  fechadas 
as  aulas  dos  jesuítas,  foi  prohibir  o  compendio  de  Alvares,  e 
mandal-o  substituir  pelo  de  Figueiredo  i.  Supprimidas  as 
escolas  da  Companhia,  ficaram  em  muitas  partes  as  ciasses 
menos  abastadas  sem  ensino.  Em  1761,  havia  professores 
régios  somente  em  Lisboa,  Coimbra,  Porto  e  Évora,  e  no 
Brasil  em  Pernambuco.  Nas  outras  povoações,  a  reorganização 
do  tensino  gratuito  effectuava-se  lentamente.  Os  mestres  parti- 
culares estipendiados,  a  custo  viviam.  O  que  se  fazia  activa- 
mente era  extirpar  tudo  quanto  provinha  dos  jesuitas.  São 
typícos  os  seguintes  trechos  de  um  relatório  do  principal 
Almeida,  director  geral  dos  estudos,  em  1765:  «Em  Pernes 
mandei   a  justiça  a   casa   de  um   mestre,   em   mãos   de   cujos 


feição,  que  poderia  esperar-s(?  do  seu  longo  e  ousado  ministério».   (Idem, 
2.0,   352). 

^     Decreto  de  28  junho   1759. 


o     NOVO     REGIMEN     DA     UNIVERSIDADE  339 

discípulos  S€  achavam  os  livros  de  que  usavam  os  denomi- 
nados jesuítas.  Suspendi  o  mestre  e  o  privei  para  sempre 
de  ensinar,  mandando-lhe  queimar  á  porta  todos  os  ditos  livros. 
Da  mesma  forma  procedi  nesta  corte  na  rua  Formosa. . . 
Mandei  fazer  buscas  por  casas  dos  livreiros.  No  Porto, 
Coimbra  e  Santarém  foram  achados  muitos  dos  sobreditos 
livros,  que  foram  queimados  publicamente  e  os  livreiros 
presos. . .»  ^  Trinta  dias  de  cadeia  e  multa  pecuniária,  a  estes 
mercadores  culpados  de  empeçonharem  a  mocidade,  com  as 
regras  do  padre  Alvares,  e  a  Prosódia  de  Bento  Pereira,  outro 
autor  condemnado. 

A  reforma  da  Universidade  fora  encarregada  á  Junta 
da  providencia  litteraria,  para  esse  fim  instituída.  Eram  nelias 
figuras  proeminentes  o  reitor  D.  Francisco  de  Lemos,  o  bispo 
de  Beja,  Cenáculo,  e  o  ajudante  de  Pombal,  José  de  Seabra. 
A  capacidade  d'este  ultimo,  pelo  que  mostrou  no  reinado 
seguinte,  devia  ser  medíocre.  Presidia  umas  vezes  o  cardeal 
da  Cunha,  outras  o  marquês  de  Pombal,  mas  é  evidente 
que  o  primeiro,  mesquinho  de  íntelligencia,  o  segundo  sem 
preparação  especial,  escasso  concurso  podiam  levar  aos  tra- 
balhos. A  parte  technica  pertence  aos  profíssionaes;  de  Seabra 
e  Pombal  partiria  a  inspiração  do  Compendio  histórico  da 
Universidade,  relatório  da  commissão,  que  dilue  e  amplifica 
os  postulados  da  Deducção  chronologica,  e  na  critica  não  desdiz 
d'este  e  dos  mais  escriptos  anti-jesuiticos  da  mesma  origem. 

Transcorridos  alguns  annos  da  queda  do  ministro,  lamen- 
tava-se  já  a  decadência  dos  estudos  na  Universidade,  attri- 
buindo-se  á  falta  d'elle  a  situação.  O  académico  António 
Ribeiro  dos  Santos  —  na  phrase  de  Camilio,  o  mais  douto 
homem  do  século  —  dizia  sobre  a  espécie,  em  carta  a  um 
amigo:  «Que  havia  elle  fazer  agora,  se  fez  pouco  no  princípio, 
se  edificou  um  edifício  ruinoso,  como  havia  agora  de  ter-se 
em  pé?...  Este  ministro,  apesar  de  tudo  quanto  disseram 
d'elle   os   seus   panegyristas,    não   talhou    um   plano   útil,    que 


1     Ti:eophii.o  Braga.  Hhtoria  da  V niversidade  de  Coimbra,  3.C',    359. 


340  O  COLLEGIO  dos  NOBRES 


honrasse  a  sua  nação  e  o  seu  século»  ^.  O  mesmo  censor 
mostrava  que  Pombal,  «profundo  em  algumas  partes  da  admi- 
nistração politica,  não  tinha  nem  plano,  nem  systema  no 
todo,  tudo  fazia  por  pedaços  e  a  retalhos,  de  que  depois 
se  não  uniam  as  partes,  nem  se  ajustavam  entre  si»  2.  O 
juizo  evidentemente  é  exacto,  e  bem  se  ajusta,  como  aos 
mais,  á   reforma  dos  estudos. 

Meses  passados  da  queda  do  ministro,  em  setembro  de 
1777,  o  reitor  da  Universidade,  D.  Francisco  de  Lemos,  fazia 
vêr  ao  governo  a  necessidade  de  se  restaurarem  os  estudos 
das  humanidades,  que  se  achavam  na  ultima  decadência  '^.  O 
Collegio  dos  nobres,  tão  falado,  entrara  em  caducidade  antes 
da  morte  de  D.  José.  Com  um  rendimento  de  40:000  cruzados, 
e  os  professores  pagos  pelo  Subsidio  litterario,  imposto  esta- 
belecido pelo  marquês,  não  tinha  meios  para  sustentar  ao 
menos  cincoenta  alumnos.  «Nos  primeiros  dez  annos  —  arguia 
um  dos  pedagogos  do  estabelecimento  —  nelle  se  crearam  uns 
trinta  fidalgos,  dos  quaes  ahi  estão  e  fazem  vulto  os  que 
nelle  vingaram,  e  se  aproveitaram,  mas,  depois  que  deu  esta 
primeira  camada,  nunca  mais  medrou  nem  luziu»  ^.  Defeito 
certamente  da  organização.  A  falta  de  unidade  no  plano 
meditado  pelo  ministro  para  transformar  o  ensino,  permittiu 
que,  no  reinado  seguinte,  o  espirito  de  reacção  contrariasse 
com  vantagem  a  maior  parte  do  que  elle  utilmente  dispunha. 
Vimos  o  que  diziam  da  Universidade.  Menos  de  um  anno 
depois  que  o  novo  governo  principiara,  a  Mesa  Censória, 
creação  de  Pombal,  composta  de  apaniguados  seus,  propunha 
que  os  estudos  menores  se  confiassem  ao  santo  zelo  e  sciencia 
das  corporações  religiosas,  e  assim  se  fez,  em  consequência 
do    que,    muitos    professores    seculares    foram    dispensados  s. 


^  Th.    Braoa.   Hist.   dn  Universidade,    3. o,    371. 

-  Idem,    570. 

3  Idem,    591. 

*  Repres.  do  professor  Sousa  Farinha  ao  príncipe  regente.  Hist. 
da   Univeridade,    3.c,    353. 

5  Mem.  do  professor  Santos  Marrocos,  Hist.  da  ('n'versidãde,  3.o, 
392. 


A    MESA    CENSÓRIA  341 


Não  se  compadecia  com  o  espirito  de  progresso,  que 
o  estadista  pretendera  inculcar  á  Universidade,  a  existência 
de  peias,  que  tinham  por  objecto  conservar  a  nação  um 
viveiro  de  eunuchos  inteliectuaes.  O  systema  das  reformas 
de  retalhos,  que  Ribeiro  dos  Santos  reprovara,  vinha  a  dar 
nisso.  Pombal  só  fizera  a  menção  de  libertar  as  inteliigencias, 
por  aggravo  aos  jesuitas.  O  seu  espirito  estava  longe,  muito 
lorgr  das  idéas,  que  naquelle  tempo  agitavam  a  Europa.  Com 
aprazimento  seu,  a  Mesa  Censória  proscrevia  os  philosophos, 
Spinoza,  Hobbes,  La  Mettrie,  Voltaire,  Diderot  e  quantos 
outros!  simultaneamente  com  as  producções  da  phantasia  litte- 
raria,  a  Nova  Heloísa  de  Rousseau,  os  Contos  de  Lafontaine  e 
o  licencioso  Sophá  de  Crébillon;  tudo  em  fim  que  na  vida 
mental  do  século  XVIII  representava  o  arrojo,  o  saber,  p 
requinte  e  a  graça.  Locke  podiam-no  ler  somente  aquelles  a 
quem  a  Mesa  facultasse  especial  licença,  e  cujo  espirito,  reco- 
nhecidamente calmo,  não  corresse  o  risco  de  se  perder  no 
trama  das  concepções  ousadas  do  inglês.  Como  estes 
muitos  mais  i. 

Define  a  situação  o  dizer-se  que,  em  1776,  não  foi  per- 
mittido  divulgar-se  a  traducção  de  um  Elogio  de  Descartes^ 
porque  —  diziam  os  censores  —  não  estava  o  povo  português 
ainda  acostumado  a  ver  na  sua  lingua  escriptos  que  afervo- 
ravam «o  espirito  da  duvida,  do  exame,  da  independência  e 
da  liberdade».  Aos  vendedores  de  livros  defesos,  as  leis 
impunham,  além  do  confisco,  seis  meses  de  cadeia,  e  em  caso 
de  reincidência  dez  annos  de  degredo  para  Angola  2,  Mas 
até  nesta  parte  o  propósito  que  se  tinha  em  vista  falhou. 
Condemnar  os  livros  era  apontalos  á  curiosidade  ardente  dos 
espiritos,  sequiosos  de  idéas  novas,  aculeados  pelo  attracíivo 
do  risco  e  da  prohibição.  Todavia,  só  quando  o  cyclone  das 
guerras    napoleónicas,    varrendo    a    Europa,    chegou   até   nós, 


1  Veja-sc  na  Hisí.  da  Universidade,  3. o,  60  e  seg.,  a  relação 
das  obras  prohibidas  pelo  edital  de  24  de  setembro  de   1770. 

2  Tu.  Braga,  Hist.  da  Universidade,  3. o,  49.  São  dignos  de  ler-se 
os  pareceres  da  censura,  transcriptos  a  pag.  65  e  seguintes  do  mesmo 
volume. 


342  AGONÍA    DE   D.   JOSÉ 


as   intelligencias   puderam   cabalmente   emancipar-se  da   tutela 
dos  censores  e  da  inquisição. 


IV 


Entretanto  approximava-se  a  hora  em  que  o  ministro, 
saciado  dos  gosos  da  ambição  e  do  poder,  ia  conhecer  os 
travos  do  infortúnio,  menos  ásperos  todavia  do  que  elle  os 
fizera  sentir  a  outros,  que  repellira  como  incommodos  ou 
supplantara  como  rivaes.  A  apoplexia  espreitava  a  D.  José 
e,  após  vários  assaltos,  a  12  de  novembro  de  1776,  pros- 
tou-o  de   vez. 

  volta  do  Rei,  cortesãos  e  médicos  insinuavam  a  oppor- 
tunidade  dos  soccorros  da  Egreja.  No  dia  18,  pediu  elle 
próprio  os  sacramentos.  Veio  o  deão  da  Patriarchal  —  o 
patriarcha  falleoera  dias  antes  —  com  a  extrema-uncção;  o 
Núncio  com  a  benção  papal.  O  marquês  protestou.  Não  se 
convencia  de  que  o  enfermo  se  achasse  em  tal  extremidade, 
e  tão  vacillante  o  seu  poder.  Barafustava  contra  o  fanatismo 
ignaro,  e  capitulava  de  attcntado  criminoso  a  deliberação 
tomada  sem  se  ouvir  o  Conselho  de  Estado.  Parecia-lhe  uma 
conspiração  da  nobreza  e  dos  médicos  contra  a  vida  do  Rei. 
Na  occasião  da  cerimonia  compareceram  no  paço  os  ministros 
extrangeiros,  entre  elles  Lebzeltern,  que  na  physionomia  dos 
aulicos  julgou  descortinar  uma  secreta  alegria  i.  Não  admira; 
a  morte  que  adejava  naquella  estancia,  para  muitos  seria 
mensageira  da  fortuna  e  pelo  menos  da  vingança.  Pombal  a 
custo  se  rendia  aos  factos,  que  já  lhe  annunciavam  o  terminar 
de  seu  reinado.  Em  presença  dos  fidalgos,  dos  ministros,  dos 
médicos,  qualificou  de  intempestivo  o  apparato,  de  demasia 
os  cuidados    que  affectavam  pela  vida  do  soberano  ^. 


'•■     Rei.  de   24   novembro   a    13  dezembro  de    1776.   Duhr,    170. 
2     Relação  compendiosa  do   que  se  tem  passado  e   vae  passando   na 
enfermidade    de    el-rei    meu    senhor.    CoU.     Pomb.,     Cod.     695. 


REGÊNCIA    DA    RAINHA  243 

A  29  assumiu  a  Rainha  a  regência.  Desde  esse  dia  nunca 
mais  D.  José  falou;  exprimia  por  escripto  os  seus  confusos 
pensamentos.  Cerrado  pela  primeira  vez  ao  ministro  o  apo- 
sento régio,  dentro  do  paço  lia  elle,  nos  olhos  que  o  fitavam, 
ódios  que  já  não  tentavam  dissimular-se  e  a  certeza  do  trium- 
pho  próximo.  Por  fora,  á  boca  pequena,  corria  que,  reco- 
brando-se  o  Rei,  tudo  se  havia  preparado  para  a  Rainha 
guardar  o  poder.  De  contrario,  ai  d'aquelles  qu€  já  se  haviam 
descoberto  á   vingança   de   Pombal! 

As  alternativas  do  estado  do  Rei  eram  o  thermometro 
do  credito  do  ministro,  notava  o  sempre  attento  Lebzeltern. 
Com  o  soberano  agonizava  o  pK)der  do  valido.  Meses  a  fio, 
três  longos  meses,  levou  elle  a  entrever  o  seu  destino  affron- 
toso.  Costumado  ás  venerações,  por  fim  já  ninguém  o  attendia 
no  paço,  onde  antes  os  aulicos  recebiam  comprazidos  ordens 
suas,  e  agora  como  importuno  penetrava.  Seus  collegas  e 
protegidos,  feituras  suas,  o  cardeal  da  Cunha,  um  Távora, 
que  elevara  aos  mais  altos  cargos,  regedor  das  justiças,  Inqui- 
sidor geral,  e  ministro  assistente;  Martinho  de  Mello  que 
mandara  vir  da  embaixada  em  Londres  para  secretario  de 
Estado;  cabalavam  contra  elle,  bandeavam-se  com  os  adver- 
sários que  machinavam  perdel-o.  Os  actos  da  regência  eram 
já  a  renegação  do  passado.  Elle  próprio  tivera  de  assígnar 
a  ordem  de  soltura  do  bispo  de  Coimbra,  encerrado,  oito 
annos  havia,  no  forte  das  Mayas  em  Pedrouços,  pelo  crime 
de  affrontar  a  sua  omnipotente  autoridade.  José  de  Seabra, 
seu  ajudante,  que,  por  factos  ainda  hoje  envoltos  em  mys- 
terio,  fizera  degredar  para  um  presidio  no  centro  de  Africa, 
mandava-o  a  regente,  pela  secretaria  de  Martinho  de  Mello, 
regressar  com  honras  ao  reino.  Contra  o  seu  voto,  como 
presidente  do  erário,  ia-se  pagar  um  milhão  de  cruzados 
das  dividas.  Tudo  isto,  acquiescendo  o  soberano  agonizante, 
como  se  viu  depois  no  testamento,  em  poucas  linhas  alta- 
mente expressivo,  em  que  recommendava  á  herdeira  do 
throno  que  os  existentes  débitos  fossem  pagos  e  o  indulto 
dado  aos  criminosos  de  Estado.  Suprema  confissão  a  teste- 
munhar que  também  elle,  em  vida,  fora  coacto,  e  escravo 
da  pujante  vontade,  que  a  todos  opprimia. 


344  DEPOIS   DA  AAORTE   DE   D.  JOSÉ 

No  dia  21,  improvisamcntc,  realizou-se  o  casamento  de 
D.  José,  futuro  principe  herdeiro,  na  edade  de  dezeseis  annos, 
com  a  infanta  D.  Maria  Benedicta  sua  tia,  que  contava 
trinta  €  um.  Para  toda  a  côríe,  incluindo  Pombal,  foi  o  caso 
ate  á  ultima  tiora  secreto.  Machinação  da  Rainha,  que  fizera 
vir  de  Roma,  por  intermédio  da  corte  de  Hespanha,  a  dispensa 
papal.  Era  o  ultimo  golpe  ao  ministro,  interessado  em  unir 
o  adolescente  a  uma  princesa  extrangeira;  da  casa  de  Sabóia 
—  apparentada  de  sua  mulher,  inventavam  os  malévolos  — 
e  para  isso  interviera  o  Núncio  havia  pouco;  ou  então  á 
irmã  de  Luiz  XVI,  Madame  Isabel.  D'esta  maneira,  julgava 
acaso  defender-se  de  influencias  hostis  da  família,  por  morte 
do  soberano   reinante. 

A  Pombal  não  podiam  restar  duvidas  acerca  do  futuro. 
Acabava  por  não  ser  effectivamente  ministro,  quando  ainda 
em  nome  tinha  o  cargo.  Depois  de  1  de  fevereiro  nenhuma 
decisão  do  governo  apparece  publicada  em  seu  nome.  Já 
antes,  desde  que  a  moléstia  do  Rei  se  aggravou,  a  maior 
parte  eram  rubricadas  por  Ayres  de  Sá,  ministro  dos  extran- 
geiros.  Pode-se  dizer  que  o  ultimo  acto  de  autoridade  de 
Pombal  foi,  a  23  de  janeiro,  o  morticinio  da  Trafaria,  com 
que  porventura  desforrava  a  raiva  impotente  contra  os  que 
na   corte   o   affrontavam. 

O  ministro  reconhecia  emfim  que  o  seu  tempo  de  consu- 
lado expirara  e  a  hora  da  retribuição  em  breve  soaria.  A 
7  de  fevereiro  ostensivamente  requereu  á  Rainha  a  demissão, 
em  cumprimento  de  instancias,  que  dizia  ter  feito  antes  a 
D,  José,  Era  talvez  simulação,  prevendo  elle  que  a  regente 
não  resolveria  por  si  cousa  tão  grave.  No  dia  24  succumbiu 
D.  José,  e  Pombal  continuava  a  exercitar  nominalmente 
o  poder. 

Com  a  desapparição  do  monarcha,  e  a  certeza  do  desfavor 
em  que  o  potentado  da  véspera,  agora  sem  amparo,  cahia, 
o  rancor,  por  tantos  annos  contido,  o  appetite  de  vingança, 
rompia  em  clamores  de  ameaça,  em  vozes  de  desprezo,  em 
chufas  cruéis.  As  prisões  abriam-se,  para  trazerem  á  vida 
commum  centenas  de  pessoas,  cuja  lembrança  no  decurso  dos 
annos  se  apagara,   e  que,    para    muitos    como     resuscitados, 


POMBAL    RENUNCIA  A  SEUS  CAROOS  345 

vinham  contar  as  tristezas  do  seu  encerro,  a  brutalidade  dos 
carcereiros  e  a  lenta  agonia  dos  que,  sem  conforto,  quasi  á 
mingua,  nas  lôbregas  enxovias,  a  morte  havia  libertado.  No 
paço  bradavam  os  fidalgos  da  facção  de  D.  Pedro,  os  amigos 
c  próximos  d'aquelles  que,  por  desejarem  o  casamento  d'elle, 
tinham  pago  com  duros  encarceramentos  a  audácia  de  taes 
votos.  Nas  ruas  o  povo,  pela  primeira  vez  em  tantos  aimos, 
podia  vociferar  as  suas  queixas  sem  temor  da  repressão. 
Pombal,  de  escuta  aos  ecos,  que  de  fora  lhe  levavam  o 
rumor  das  maldições,  em  cada  hora  sentia  no  peito  um  golpe, 
semelhável  ao  que  em  Belém  rompera  as  arcas  ao  duque  de 
Aveiro.  No  primeiro  de  março  renovou  o  pedido  de  exone- 
ração dos  empregos,  c  manifestou  o  propósito  de  se  ausentar 
de  Lisboa  Comparava-se  a  Sully  na  desgraça,  e  dava  a 
entender,  na  fingida  modéstia,  egualal-o  nos  méritos.  A  narra- 
tiva, que  fazia,  da  situação  do  ministro  de  Henrique  IV^  no 
desfavor,  era  allegoria  da  sua  própria. 

Doesta  vez  foi-lhe  a  supplica  deferida.  Houvera  o  pensa- 
mento de  despedir  o  velho  ministro  sem  formalidades,  como 
um  servo  incapaz  ou  infiel,  mas  prevaleceu  o  parecer,  mais 
decoroso,  de  se  lhe  acceitar  a  demissão  como  pedida.  O 
decreto  é  de  4  de  março.  Conserva-lhe  os  honorários  de 
secretario  de  Estado,  e  faz-lhe  mercê  de  uma  commenda, 
com  seus  rendimentos.  Mas  nem  uma  palavra  de  apreço  ou 
reconhecimento  de  tantos  serviços!  A  minuta  que  Pombal 
offerecera,  e  que  certamente  havia  de  os  rememorar  empha- 
ticamente,  fora  rejeitada.  A  estima  do  soberano  fallecido,  pelo 
ministro,  era  a  só  recommendação  allegada. 

Para  o  publico,  que  esperava  algum  áspero  procedimento, 
foi  uma  decepção.  Entretanto  ninguém  se  illudiu  com  o  signi- 
ficado. Se,  á  primeira  vista,  a  dispensa  dos  cargos  a  pedido, 
com  a  mercê  pecuniária,  podia  tomar-se  por  tacita  appro- 
vação  do  passado,  soube-se  logo  também  que  o  marquês 
fora  posto  de  sobre-aviso  para  responder  por  seus  actos 
qualquer  dia,  logo  que  as  accusações,  vagamente  formuladas, 
tomassem    fundamento   jurídico. 

Effectivamente,  com  o  decreto  a  exoneral-o,  recebera 
Pombal,   por  Martinho   de   Mello,   communicação   escripta   de 


346  A     DEMISSÃO    DADA    A     PEDIDO 


que  a  Rainha  se  reservava  para  tomar  outra  resolução, 
havendo  causa  —  «principalmente  sobre  descaminhos  da  real 
fazenda»  —  cruamente  dizia.  Até  ahi,  o  proceder,  ditado 
I>ela  veneração  á  memoria  do  soberano  fallecido,  era  o  de 
clemência  c  benignidade ;  e  estas  palavras  já  por  si  o  condem- 
navam.  Ia  porém  effectuar-se  uma  syndicancia  á  sua  admi- 
nistração. A  benevolência  régia  chegaria  aonde  a  equidade 
lh'o  permittisse.  E  o  documento  findava  assim :  «Com  a 
mesma  constante  e  perpetua  vontade  com  que  S.  M.  quer 
que  SC  administre  a  justiça  a  seus  vassallos,  segundo  o  mere- 
cimento de  cada  um,  se  fará  a  V.  Ex.a  o  que  lhe  fôr 
devido)^  1.  O  que  ao  ministro  destituído  cumpria  esperar 
podia   d'alli   colligil-o. 

Carvalho  pedira  licença  para  se  retirar  á  sua  quinta 
de  Pombal,  e  passar  lá  o  restante  de  seus  dias.  A  graça 
ia-se  converter  em  sentença  punitiva;  depois  não  lhe  foi  mais 
consentido  ausentar-«e  para  outro  logar.  Magoado,  tanto 
quanto  é  possivel  ao  coração  humano  sentir-se ;  despenhado 
do  mais  alto  prestigio  á  humilhação  que  vai  do  menosprezo 
na  corte  aos  insultos  da  plebe  nas  ruas,  não  ousou  permanecer 
mais  um  instante  em  Lisboa.  Ninguém  lhe  poupava  doestos 
nem  calumnias.  Entre  as  accusações,  a  de  improbidade  sobre- 
levava a  todas,  e  a  grande  casa,  accumulada  por  meios  nem 
sempre  os  mais  lizos,  desafiava  a  indignação,  tanto  mais  que 
se  dizia  tel-a  o  dono  engrossado  com  os  despojos  dos  Tavoras, 
suas  victimas.  «Se  o  ministro  se  não  justifica  de  "taes  impu- 
tações —  escrevia  Lebzeltern  —  só  pela  bondade  e  animo 
compassivo  da  soberana  logrará  eximir-se  a  um  destino  trá- 
gico» -•  Eífectivamente,  os  seus  inimigos  não  se  contentariam 
então   com   menos   que  o  cadafalso. 


^     Declaração    entregue    por    Martinho    de    Mello    ao    marquez    de 
Pombal,  em   4  de  março  de   1777. 

2     4    março    1777.    Dlhr,    Potnbal,    174. 


SAHIDA     PARA    OEIRAS  347 


V 


No  dia  seguinte  ao  golpe  da  demissão,  que  porventura 
até  ao  ultimo  instante  não  esperava  lhe  acceitassem,  Carvalho, 
angustioso  e  temeroso,  recolheu  á  sua  casa  de  Oeiras,  espe- 
rando a  marquesa,  que  ficava  a  preparar  o  indispensável  para 
a  jornada  de  Pombal.  Nesse  caminho,  que  tantas  vezes  per- 
correra, saboreando  satisfações  de  orgulho  ou  de  vingança, 
amadurecendo  projectos  de  gloria  e  de  grandeza,  meditava 
agora  nas  tristezas  que  tão  repentinamente  sobre  elle  desa- 
bavam. D'antes  tantas  adulações  e  respeitos  o  envolviam; 
agora  a  costumada  escolta,  que  o  governo  temendo  pela  sua 
vida  não  ousara  retirar-lhe,  mal  o  defendia  contra  o  popu- 
lacho, a  accommetteJ-o  de  insultos  e  pedradas.  Passada  a 
primeira  noite  de  solidão  e  de  exilio,  noite  trágica,  povoada 
de  cruciantes  memorias  e  tétricos  phantasmas,  no  abatimento 
das  situações  irrecobraveis,  Pombal  mandava  ao  conde  de 
Oeiras  as  seguintes  afflictivas  linhas :  —  «Meu  filho  do  meu 
coração.  Tua  carta  me  acha  tão  triste  e  tão  saudoso  como 
só,  porque  não  tenho  nem  ainda  a  consolação  da  companhia 
de  tua  mãe,  e  as  pessoas  da  equipagem  com  que  devo  con- 
tinuar o  meu  caminho  não  teem  chegado  até  agora.  A  noite 
foi  como  podes  bem  crer,  accrescendo-se  aos  trabalhos  ante- 
cedentes a  separação  de  filhos  e  genros,  a  quem  amo  com 
tanta  ternura.  Não  tenho,  porém,  maior  abatimento  do  que 
aquelle  com  que  sahi  de  casa.  Deus  que  vê  os  meus  trabalhos, 
e  a  resignação  com  que  os  soffro,  me  dará  força  para  os 
tolerar.  Lanço-te  a  minha  benção.  É  tudo  o  que  posso  dizer-te. 
Teu  pae  que  muito  te  ama,  Sebastião  José.  Oeiras,  6  de  março, 
pela    manhã». 

Em  7  dizia:  «Não  tenho  differença  do  estado  em  que 
hontem  me  achava».  A  9  chegou  a  marquesa:  «Agora  vou 
partir,  e,  se  o  movimento  e  mudança  de  ares  da  jornada 
me  não  ajudarem,  pouco  poderei  esperar  do  tal  ou  qual  resta- 


318  JORNADA    f\ARA   POMBAL 


beleciínento,  que  os  meus  annos  podem  permittir-me  entre 
tantos  desgostos». 

Difficilmente  o  exilado  teria  conforto  e  melhoras  na 
viagem.  Tempo  de  chuvas,  por  caminhos  impervios,  que  o 
inverno  convertia  em  treniedae?.  A  solicitude  de  Pombal 
como  administrador  não  abrangeu  nunca  a  viação.  Estrada 
capaz  havia  no  seu  tempo  a  que  mandara  fazer  até  Oeiras, 
para  a  commoda  visita  do  seu  feudo.  Annos  levou  a  construir, 
com  a  custosa  muralha  da  Boa  Viagem.  A  estrada  do  Porto 
foi  obra  do  seguinte  reinado.  O  itinerário,  a  principio  deter- 
minado por  Torres  Vedras,  Caldas  e  Nazareth,  «para  não 
fazer  uma  procissão  continua  por  todas  as  villas  do  Riba- 
Tejo; ,  como  dizia  -  e  razões  havia  de  temer  nellas  alguma 
tumultuosa  recepção  —  teve  de  ser  por  outro  lado,  Bucellas, 
Sobral  e  Alemquer.  Ainda  assim  foi-lhe  preciso  ir  deixando 
aqui  e  acolá  parte  da  bagagem.  Perto  de  Otta,  alta  noile,  à 
luz  dos  archotes,  a  marquesa,  com  uma  das  filhas  que  os 
acompanhava,  viu-se  obrigada  a  caminhar  a  pé  por  atoleiros 
c  barrancos.  A  carruagem,  onde  ficava  o  marquês  invalido, 
desmantelada,  somente  a  custo  proseguia. 

A  15  de  março  chegaram  por  fim  a  Pombal.  O  antigo 
solar,  abandonado,  carecia  de  tudo  que  aos  hospedes,  habi- 
tuados ao  luxo  da  corte,  a  dois  velhos  enfermiços  podia  ser 
gasalho  e  commodidade.  «Casa  pequena,  sem  movei  algum 
dos  que  absolutamente  me  são  necessários»,  tal  era,  no  dizer 
do  cabido  dictador,  a  pousada,  onde  lhe  iam  decorrer  ainda 
largos  dias  de  agrura,  partilhados  entre  a  doença  cruel,  as 
raivas  impotentes   e   os   agudos  golpes   moraes. 

Installado  na  residência  que  tantos  annos  antes  havia 
deixado,  os  primeiros  tempos  passaram  na  azáfama  de  adequar 
o  recinto  ás  necessidades  e  costumes  da  família;  necessidades 
e  costumes  ás  condições  da  moradia.  Foi  preciso  augmentar 
a  edificação,  «porque  —  dizia  —  sendo  estas  casas  as  maiores 
da   terra,   foram   edificadas   em    1553,   e   duzentos   annos   para 


•     Carta  ao  Morgado  de  Oliveira,  5  maio  1777,  Zephyrino  Brandão. 
O  Marquez  do  Pombal,  pa^.  63, 


A  VIDA   E^\   POMBAL  349 


trás  accommodavam-se  em  pequenas  casas  muito  grandes 
pessoas;>  '.  A  primavera  chegou,  alegrando  com  a  sua  vida 
intensa  os  campos  e  as  devezas.  O  sol  radiante,  aquecendo 
os  corações  enregelados  nas  tristezas  do  inverno,  infundia 
alentos  de  viver  e  luctar,  promettia  victorias.  E  o  ancião 
sente  assim  renascer  o  seu  feitio  animoso  e  pugnaz.  Come- 
çará por  defender  a  vida,  que  julga  arriscada,  não  tendo  já 
comsigo  a  escolta  de  que  viera  acompanhado  até  ao  logar 
do  desterro.  Com  o  pretexto  de  montear  lobos  e  raposas, 
que  nos  cerros  vizinhos  abundavam,  pede  ao  filho  petrechos 
de  caça  em  quantidade,  íusis,  polvarinhos  e  bolsas,  «vindo 
também  —  accrescenta  —  algumas  espingardas  ordinárias, 
como  as  que  se  dão  á  infantaria,  comtanto  que  sejam  bem 
provadas  e  seguras»  i.  Receios  de  aggressão  não  confessa, 
mas  justo  era  tê-los  quem  tantos  e  tão  sanhosos  inimigos 
contava,  e  ouvira,  a  persegui-lo  nas  ruas,  o  bramir  do  popu- 
lacho enfurecido. 

Bem  depressa  a  illusão  salvadora  se  desvanecia,  para 
dar  campo  á  dura  realidade.  Ainda  na  Ajuda,  a  corte  de  lison- 
jeiros dispersara-se  á  primeira  lufada  do  desfavor.  Servos 
fieis,  que  o  tinham  acompanhado  a  Pombal,  desertavam 
agora.  Uma  das  filhas,  que  viera  algum  tempo,  voltava  ao 
marido.  Julho  trazia  ao  desterrado  a  solidão,  com  todo  o 
seu  desconsolo  e  as  suas  penas.  E  alli  ficavam  dois  velhos, 
em  face  um  do  outro,  sósinhos  com  a  memoria  amarga  do 
passado  grandioso  e  feliz.  A  22  de  julho.  Pombal  desabafava 
com  o  filho:  «Tua  irmã  Maria  Francisca  nos  deixou  na  maior 
solidão,  da  qual  é  necessária  consequência  o  augmento  da 
tristeza.  Blancheville  (creado  de  quarto)  também  foi  para  não 
voltar,  pelo  que  me  parece,  porque  levou  todo  o  seu  fato 
sem  deixar  coisa  alguma.  Manoel  José  Ferreira  (certamente 
outro  fâmulo)  está  d'aqui  partindo  por  dias,  e  brevemente 
nos  acharemos  sós,  porque  todos  nos  deixam,  crendo  que  não 
teem  que  esperar  de  mim». 


^      19  março   1777.   Esta  e   outras  cartas  de  que  se   fazem  extractos 
sem   menção  de    procedência,   na    Coll.    Pomb.   Gíd.   713  e    714. 


350  A    INOIONAÇÃO   EM   LISBCM  CONTRA  í>OMBAL 


Fora  não  acalmava  a  tormenta,  pelo  que  Lebzeltern  com- 
municava:  «De  dia  para  dia  crescem  os  meus  receios  pela 
sorte  do  marquês  de  Pombal.  A  nação  cada  vez  mais  se 
regosija  da  sua  queda.  Excitada  pelas  narrativas  dos  que 
saem  dos  cárceres,  referindo  os  cruéis  tratamentos  recebidos, 
incessantemente  trazem  aos  pés  do  throno  queixas  e  accu- 
sações  contra  elle,  de  modo  que  a  constância  dos  novos 
ministros  em  o  defenderem,  e  a  piedade  e  doçura  da  Rainha, 
difficilmente  lograrão  poupa-lo  a  um  destino  trágico»  i.  Conta- 
ram-se  os  presos  politicos :  excediam  de  oitocentos,  e  faltavam 
muitos,  dizia-se  que  três  vezes  esse  numero,  fallecidos  nos 
longos  captiveiros.  Com  os  que  sahiam  dos  calabouços  da 
Junqueira  e  de  S.  Julião,  appareciam  também  outros  das  pre- 
sigangas no  Tejo,  junto  ao  Barreiro.  Era,  dizia  o  ministro 
de  Hespanha,  marquês  de  Almodovar,  una  espécie  de  ressur- 
rección  de  muertos.  A  voz  publica,  consoante  á  regra,  exage- 
rava ainda.  Dizia-se  existirem  cárceres  subterrâneos,  nas 
arcadas  da  Praça  do  Commercio,  nas  ruinas  da  Patriarchal. 
Noticias  de  boca,  pasquins  e  satyras  escriptas,  propagavam 
verdades  c  mentiras,  alimentavam  nos  ânimos  a  indigfnação 
e  o  desejo  da  vindicta. 

Em  abril  arrancou-se  do  pedestal  da  estatua  de  D.  José 
o  busto  do  ministro.  A  syndicancia  nas  secretarias  de  Estado 
ia-se  realizando.  Logo  se  deu  por  falta  de  quantidade  tíe 
documentos  públicos,  muitos  dos  quaes  se  dizia  estarem  entre 
os  papeis  particulares  do  ministro.  Senhor  absoluto  da  admi- 
nistração, fazia  em  sua  casa  o  verdadeiro  archivo  do  reino. 
Faltavam  os  processos  do  conselho  de  Estado  relativos  aos 
infantes  de  Palhavã  e  a  tantos  fidalgos  encarcerados  —  talvez 
nunca  se  escrevessem  —  ;o  dos  Tavoras  e  duque  de  Aveiro, 
guardados  por  elle  em  logar  secreto,  allegava,  com  medo 
que  d'elle  se  apossassem  os  jesuítas.  Outros  importantes 
documentos,  reservados  de  publicação  por  conveniências  do 
Estado,  confessava  guardar  emquanto  vivo,  como  sendo  «as 


*     8  abril    1777.    Duhr,   Pombal,    176. 


ESTADO   REAL  DA  FAZENDA  PUBLICA  351 


ultimas  armas  puramente  defensivas,  para  reparar  os  golpes 
de  seus   gratuitos    e   já   perdoados    inimigos»  i. 

O  exame  á  fazenda  publica  demonstrou  achar-se  ella  em 
condições  deploráveis.  Os  que  ainda  defendiam  a  adminis- 
tração de  Pombal  —  Jacome  Ratton  registou  a  asserção  ^ 
—  diziam,  ter  elle  deixado  em  cofre  78  milhões  de  cruzados 
em  moeda,  além  de  muitos  milhões  em  diamantes.  Verificou-se 
existirem  1740  contos,  pouco  mais  de  quatro  milhões,  e  uns 
cinco    a    seis    milhões    em   diamantes  3. 

O  Rei  fallecera  devedor  insolvente.  Dos  seis  artigos  que 
formam  as  recommendações  finaes  á  filha,  que  vac  ser 
Rainha,  um  refere-se  a  esse  molesto  assumpto  que  o  pungia. 
Dolorosa  scena!  O  senhor  absoluto  de  uma  opulenta  monar- 
chia,  dono  das  riquezas  do  Brasil,  experimenta,  na  hora 
extrema,  as  angustias  do  remisso  pagador,  a  quem  chega 
da  antecâmara  o  murmúrio  dos  credores  importunos.  Pagar 
a  todos:  mas  como?  Com  esse  problema  se  achou  logo  a 
braços  o  novo  governo.  No  paço,  a  certos  creados  deviani-se 


1  Segunda  apologia.  <<IntroducçIo  ad  perpetuam'  rei  memoriam;\  íJoU. 
Poniib.,    Cod.    695. 

2  Recordações,    pag.    186. 

■*  Deixando  o  poder.  Pombal  entregou  á  rainha  vários  relatórios 
justificando  a  sua  administração.  O  que  respeita  á  fazenda  tem  o  ti- 
tulo seguinte:  Terceiro  Compendio  que  tive  a  honra  de  levar  aos  pés 
da  Rainha  Minha  Senhora,  com  o  fim  de  alliviar  o  cuidado,  que  en- 
tendi lhe  devia  estar  causando  a  consideração  de  haver  ficado  intei- 
ramente exhausto  de  meios  o  seu  real  erário.  Transcreve-se  o  inventario: 

Nos   cofres   das    quatro   contadorias    .     .     .  637:5628654 

No    dos    confiscados 1.591:0698023 

No  das   commendas   vagas 312:403S;739 

Nos  da   reserva 360:0008000 

Total  .     .      2.901:0358416 

«que  fazem,  (diz  a  relação)  7  milhões,  101:0358416;  ficaram  mais 
no    gabinete   de    S.    M.    de   cinco   a   seis   milhões    em    diamantes  brutos->. 

Convém  observar  que  estas  pedras  não  representariam  valor  de 
fácil    realização,    e    haveria    muitas    que,    rejeitadas    pelos    contratadores, 


352  ESTADO   REAL  DA  FAZENDA  PUBLICA 


quatorze  annos  de  salários.  Determinou  a  Rainha  que  se 
lhes  desse  tudo  immediatamente.  Fizeram-se  economias. 
Lebzeltern  dá  noticias  d'estes  esforços:  «Para  solver  os 
débitos  t€m-se  vendido  enorme  quantidade  de  cavallos  e 
muares,  e  também  carruagens.  Supprimiram-se  as  touradas, 
passando-se  a  vender  as  rezes,  que  todos  os  annos  se  reser- 
vavam para  este  espectáculo,  tão  querido  do  Rei.  Cuida-se 
egualmente  de  acabar  com  as  touradas  e  representações 
thcatraes.  Tudo  isto  produzirá  uma  economia  annual  de  dois 


como    impróprias    para    exportar,    iam    ficando    e    crescendo   em    numero 
nos    cofres    régios. 

Airda  se  deve  notar  que  o  saldo  de  2901  contos  não  era  i^eaL 
O    tífectivo,     propriamente     em    dinheiro,     consistia    em: 

Na  primeira  verba 27:312S335 

Na  segunda       » 1.041 :069S023 

Na  terceira        >^ 312:403$739 

Na  quarta         » 360:000$000 

Total     .     .       1.740:785$097 

A  differença  1.160:250S319  estava  em  documentos,  representati- 
vos  de    importâncias    tiradas    por    adiantamento    pêra    d|espesas    urgentes. 

Acompanhando  a  precedente,  outra  nota  informa  das  receitas  e 
despesas  ordinárias  do  Estado,  ao  terminar  a  gerência  de  Pombal.  Por 
ella  sabemos  que  a  somma  dos  rendimentos  no  segundo  semestre  de 
1776  foi  de  3.749:3518786;  a  das  despesas  3.1 1 1 :789S132.  A  differen- 
ça é  O  saldo  do  cofre  chamado  das  quatro  contadorias,  ou  da  the- 
souraria   mór. 

O  producto  dos  bens  c-onfiscados,  por  crimes  de  inconfidência  de- 
compunha-se: 

Da  corte  e  provinda  da  Extremadura     .     .  251 :363S334 

Das  provindas  do  reino  e  ilhas  dos  Açores  1.020:0408443 

Da    Africa   Occidental,    Bahia,    etc.    .     .     .  307:5618219 

Do  território  da  Relação  do  Rio  de  Janeiro  12:1048027 

Total    .     .      1.591:0698023 
(Coll.    Pomb.,    cod.    695.) 


A  VIRADEIRA  CONTRA  O  MARQUES  353 


milhões  de  cruzados»  i.  De  três  mil  operários,  que  traba- 
lhavam no  arsenal,  despediram-se  quatro  quintas  partes, 
ficando  apenas  seiscentos.  Esta  gente  nada  recebera  nos 
últimos  dois  annos.  O  governo  resolveu  pagar-lhes  logo  a 
divida  de  seis  meses,  e  o  restante  em  prestações  trimestraes 
de   egual  somma. 

Tudo  isto,  vindo  a  publico,  augmentava  as  iras  contra 
o  regimen  anterior.  A  viradeira,  como  se  appellidou  a  reacção 
contra  Pombal,  chegou  então  ao  auge.  Todos  os  que  no 
tempo  do  poderio  adulavam  o  déspota,  cobriram-no  agora 
de  baldões.  Poetastros  da  Ínfima  classe,  trovadores  das 
alfurjas,  bufarinhavam  versos  satyricos.  O  numero  d'estes  é 
immenso;    chega    para    volumes. 

Os  vates  que,  na  inauguração  da  estatua,  em  loas  de 
asquerosas  bajulações,  erguiam  ás  nuvens  o  ministro  omni- 
potente,   heroe    do    dia,    babujavam    agora: 

Patrícios   meus,    clamai    sobre   o    tyranno, 
Saiba    o   mundo    que    foi    o    tal    marquez 
Ladrão,    traidor,    cruel    e    deshumano. 

Ou  então: 

Morreu    el-rei,    e    é    certo 
Vos    hão    de    pregar    a    peça; 
O    povo    todo    começa 
A   queixar-se   do    passado 
E    não    fica    socegado 
Senão    com    vossa    cabeça. 

O  odio  popular,  distillado  nas  cantigas  affrontosas,  exten- 
dia-se   á  família,   aos   addíctos  de  Pombal: 

Do   baboso   da    Redinha 

De  um  mau   pae  filho  infiel. 


Libera    nos,    domine! 


1      17    de    maio    1777.    Duhr,    48. 

o    MARQUÊS    d;-:    pombal    E    a    sua    época     —    23 


354  O  ATAQUE  DOS  CREDORES 


Do    reverendo    Mendonça, 
Bernardo    em    procedimento 


Libera    nos,    domine! 

Do    reverendo   Mansilha, 
Que    foi    grande    provador 
Do    licor    que    tudo    é 
Libera    nos,    do/nine! 

Sobre  alguns  d'€stes  já  tinham  recahido  sancções:  o 
abbade  áe  Alcobaça,  parente  do  ministro,  Magdalena  de 
Mendonça,  irmã  d'elle,  prioreza  de  um  mosteiro,  depostos 
das  suas  dignidades;  frei  João  de  Mansilha,  procurador  da 
Companhia  dos  Vinhos,  amigo  muito  do  peito,  encarcerado 
no  convento  de  S.   Domingos,   por  determinação  do   Núncio. 

Certos  de  que  já  não  havia  represálias  a  temer,  nem 
tergiversações  da  justiça,  appareciam  os  que  contra  o  dictador 
tinham  direitos  a  reivindicar.  Começavam  as  demandas.  <;0 
marquês  —  refere  o  miudamente  informado  Lebzeltern  — 
de  nenhum  modo  quer  pleitos,  e  conciliatoriamente  vae  res- 
tituindo aos  antigos  donos  as  propriedades,  que  abaixo  do 
justo  preço  havia  comprado»  i.  A  principiar  pelo  fisco.  No 
mês  de  julho  pediam-lhe  as  decimas  atrazadas.  Pina  Manique, 
o  futuro  intendente  da  policia,  que  accumulava  o  cargo  de 
juiz  com  os  de  superintendente  dos  contrabandos  e  contador 
da  fazenda,  intervinha  para  que  o  dizimo  do  peixe  de  Paço 
d'Arcos,  uma  das  melhones  prebendas  do  marquês,  lhe  fosse 
tirado,  revertendo  á  casa  de  Bragança,  que  em  outro  tempo 
a  fruirá.  Os  particulares  vinham  juntamente.  Um  reclama- 
va-lhe  o  preço  do  Pinhal  da  Queimada,  que,  segundo  a  escri- 
ptura  de  compra,  não  fora  pago  no  acto;  outro  o  d^  um 
casal,  trocado  por  um  padrão  de  juros,  que  o  ministro  se 
esquecera  de  entregar  2.  De  toda  a  parte  appareciam  credores, 


1     7  Setembro   1777.   Duhr,   177. 
3     Carta   de    15    julho    1777. 


os  DEVEDORES  E  OS  IMPOSTOS  355 


que  no  tempo  das  grandezas  jamais  ousariam  declarar-se,  e 
até   por  mercê   tomariam   a   negligencia   do   devedor. 

À  sahida  de  Belém  deixara  Pombal  ao  conde  de  Oeiras 
uma  relação  de  d'vidas,  que  devia  ir  satisfazendo  á  proporção 
dos  recursos ;  dividas  por  obras  nas  propriedades  de  Lisboa 
e  dinheiro  emprestado  por  diversos,  algumas  quantias  sem 
juros,  cerca  de  quarenta  e  cinco  contos,  ao  todo  ^.  Mas 
deix)is  appareceram  muitas  mais.  Ainda  em  1781,  um  tal 
João  Collings,  negociante  inglês,  lhe  reclamava  o  pagamento 
de  duas  pipas  de  vinho  do  Porto,  fornecidas  para  Londres, 
em   1740,  no  tempo  da  sua   embaixada   2. 

Ao  mesmo  tempo,  os  devedores,  perdido  o  temor  antigo 
das  summarías  execuções,  ou  peor,  que  o  capricho  do  credor 
poderia  impôr-lhes,  cobravam  animo,  para,  sob  todos  os 
pretextos,  esquivarem  o  pagamento.  Do  decrépito  leão  iodos 
agora  zombavam.  O  desterrado  lamentava-se:  «Tenho  visto 
com  sobeja  clareza  que  os  mesmos  que  me  foram  mais  obri- 
gados,  e  me  deveram  tudo  o  que  hoje  possuem,  tanto  em 
bens  como  lem  honras,  procuram  depenicar  na  minha  fazenda, 
desde  que  viram  que  lhes  não  podia  fructificar  a  minha 
protecção»  '-.  A  vhiva  de  Hermano  Braamcamp,  cônsul  de 
Hollanda,  muito  protegido  de  Pombal,  que  o  favorecera  com 
o  contrato  dos  diamantes,  exigia-lhe  certo  pagamento,  de 
pouca  monta,  a  que  o  ministro  por  conta  de  outrem  se 
obrigara.  Este  glosava  o  caso  assim:  «Se  fosse  capaz  de  me 
arrepiender  do  bem  que  fiz  aos  ingratos,  acharia  mais  um 
grande  estimulo_,  para  me  pesar  de  haver  posto  a  família  dos 
Braacamp  no  estado  de  nobreza  e  de  estimação,  em  que  os 
puz,  com  os  meus  bons  ofíicios);  '^.  E  assim  uns  e  outros 
acudiam  a  lembrar-lhe  que,  para  com  os  grandes,  na  desgraça, 
perde  a  gratidão  humana   os  seus   direitos. 


1  Cartas   e    outras    obras   selectas    do    Marquez  de    Pombal,   V,   65, 

2  Carta    na    Coll.    Pomb.,    Cod.    706. 

3  idem    ao   conde    de   Oeiras,    31    julho    1777. 

4  Id.    ao    nic?mo.    6    outubro    1777. 


356  EAABARAÇOS  PECUNIÁRIOS  DO  MARQUES 


VI 


Perdida  a  situação  politica,  faltava  á  casa  de  Pombal  o 
principal  elemento  de  riqueza.  Despediam-se  inquilinos  que, 
em  outros  tempos,  nenhum  aluguel,  por  excessivo,  desviava; 
perdiam  as  terras  o  fecundo  valor  para  os  rendeiros ;  e  até 
os  productos  da  opulenta  lavoura,  tão  disputados  antes, 
ficavam  nos  celleiros  e  adegas  sem  pretendente.  A  própria 
Companhia  dos  Vinhos,  para  quem  tantos  annos  a  vide  de 
Oeiras  fora  indispensável  supprimento,  abandona  o  seu 
creador.  Pombal  toma  a  resolução  de  offerecer  acDS  ingleses 
aquelles  vinhos,  «visto  que  —  assim  se  lastima  : —  a  Companhia 
nem  mandou  falar  nelles  até  agora,  nem  é  natural  que 
já   fale»  1. 

Cesta  sorte,  obrigações  de  surpresa  exigidas,  ruins 
dividas  a  cobrar,  réditos  depreciados,  colheitas  detidas  no 
armazém,  tudo  inspirava  cuidados,  a  quem,  no  espaço  de 
trinta  annos,  tivera  a  fazenda  tão  prospera.  Sob  a  impressão 
doestes  cuidados,  Pombal  escrevia  ao  filho:  «Se  por  uma 
parte  me  perseguem  os  meus  credores,  por  outra  se  me 
diminuem,  como  tenho  visto,  as  minhas  rendas,  e  pela  outra 
se  animam  os  meus  devedores,  por  este  novo  modo  de  se 
excusarem  de  me  pagar  o  que  me  devem,  não  poderei  sub- 
sistir   no    meio    doestes    procedimentos    leoninos»  -. 

Sobre  o  assalto  dos  credores,  com  que  se  complicava  de 
modo  fatal  a  situação  da  casa  do  marquês,  são  typicas  as 
seguintes  phrases :  «Vi  também  especificadamente  todas  e 
cada  uma  das  dividas,  que  se  me  pediam  justa  e  iniquamente, 
com    os    documentos    que   justificavam    as    primeiras,    e    com 


1     29    outubro    1777. 
*     6    outubro    1777. 


BEZOUROS  E  MOSQUITOS  3^7 


OS  motivos  que  a  consternação  e  a  decência  fizeram  atten- 
diveis,  para  se  fecharem  os  olhos  ao  pagamento  das 
segundas»  i.  Quer  dizer  que  umas  e  outras  Pomba!  impli- 
citamente reconhecia.  Não  é  de  suppôr  lhe  reclamassem  débitos 
phantasticos.  Iniquamente  exigidos,  a  seu  ver,  seriam  os 
forçados  presentes,  os  direitos,  que  como  satrapa  attribuira 
a  isi,  e  que  os  lesados,  muito  tempo  silenciosos,  agora,  per- 
dido   o    medo,    reivindicaram. 

Os  meirinhos  eram  visitas  frequentes,  com  as  citações, 
á  estancia  que  abrigava  o  homem  temido  de  outr'ora.  Pedia- 
Ihe  a  communidade  dos  carmelitas  doze  mil  cruzados,  emprés- 
timo antigo  e  juros  de  uns  poucos  de  annos ;  outros  doze 
mil  cruzados  os  herdeiros  de  seu  tio  Marco  António,  que 
o  espolio  de  Paulo  de  Carvalho  devia,  e  o  ministro,  que 
tivera  a  successào,  nunca  pagara;  e  mais  créditos  surgiam, 
esquecidos  pelos  donos,  no  timorato  silencio  de  muitos  annos. 
Atordoado  com  a  perseguição.  Pombal  resolveu  vender  a 
baixella  de  prata,  para  solver  pequenos  débitos.  «Ê  preciso 
—  diz  —  que  ponhamos  todas  as  nossas  forças  em  contentar 
e  satisfazer  os  credores,  emquanto  os  tivermos,  reduzin- 
do-nos  á  mais  apertada  moderação  que  couber  na  decência»  -. 
JVlas  a  paciência,  que  nunca  foi  nelle  virtude  fundamental, 
exgotta-se,  e  ei-!o  que  rompe  em  queixas:  «Não  ha  besouro 
nem  mosquito  que  neste  desviado  retirO'  me  não  venha  zunir 
aos  ouvidos,  por  incommodar  o  meu  desejado  e  pretendido 
socego»    ^. 


^     6    mar^o    1778.    Z.    Brandão,    Marquez    de    Pombal,    78. 

-     3    junho     1777. 

1  junho  1777.  Caberia  aqui,  verificada  a  exactidão,  o  seguinte 
episodio.  Que,  em  maio  de  1778,  o  oonde  de  Oeiras  escrevera  ao 
pae,  communicando-lhe  que  a  rainha,  a  requerimento  do  conde  de 
Valladares,  ordenava  que  este  fosse  embolsado  de  90:000  cruzados  que 
ao  tnarquês  emprestara.  Este,  sem  demora,  respondeu  que  era  certo  ha- 
ver recebido  a  dita  somma,  que  pedira  ao  conde,  quando  chegou  do 
governo  de  Minas  Geraes,  em  abril  de  1768;  que  tal  dinheiro  corres- 
pondia ao  preço  a  troco  do  qual  aquelle  fidalgo  tinha  provido  dois 
empregos  de   fazenda    rendosos,   naquella   capitania,   um   por  vinte,  outro 


358  RENDIMENTOS  RESERVADOS   PELO  MARQUES 


A  importunação  prosegue,  mas,  satisfeitos  alguns  credores 
mais  exigentes,  já  no  fim  do  anno  a  situação  é  relativamente 
desafogada,  o  qu€  o  leva  a  dizer  contente  ao  filho:  «Temos 
um  cofre  de  reserva  muito  maior  do  que  até  agora  julguei!» 
Do-  rendimento  total  reservava  para  si  os  ordenados,  que  a 
Rainha  lhe  deixara,  o  assentamento  do  titulo  de  marquês 
pela    alfandega    de    Vianna,    (cerca    de    trezentos    mil     réis 


ix)r  cleze.veis  contos  de  reis;  e  que  por  isso,  no  mesmo  dia,  12  de 
ahril  de  1768,  fora  entregue  no  real  erário,  e  escripturado  nos  livros 
perteiiceníes    á    repartição    do    Brasil. 

Contra  o  facto  occurrem  varias  objecções.  Primeiramente  a  le- 
nidadc  de  proceder,  tanto  em  contraste  com  a  habitual  aspereza  do 
marquês.  Certo  da  prevaricação,  teria  mandado  julgar  e  executar  o 
culpado,  como  o  coronel  francez  Graveron  do  regimento  dos  Reaes 
txfrciigeiros,  fusilado  em  1766,  em  Campo  de  Ourique;  ou  encenar 
{•erpetuamente  em  uma  fortaleza,  como  o  c^nde  da  Ega,  vice-rei  da  ín- 
dia, que  morreu  preso  em  Setúbal;  pelo  menos  afastal-o-ia  da  corte, 
no  desagrado  régio,  como  o  marquês  de  Alorna  em  1752.  Em  segundo 
iogar  parece  mais  acceitavel  que  o  conde  para  haver  a  divida,  antes 
recorresse  aos  tribunaes,  co.tio  estavam  fazendo  outros  credores,  do  que 
á  rainha,  que  para  lá  certa.mente  o  mandaria.  Em  terceiro  Iogar  dis- 
cordam as  datas.  O  conde  de  Valladares,  que  governou  Minas  Oeraes 
de  1768  a  1773,  saiu  de  Lisboa  a  4  de  fevereiro  de  1768,  em  uma 
nau  que  levava  mais  três  governadores  para  outros  districtos  do  Bra- 
sil. A  31  de  agosto  escrevia  de  Villa  Rica  ao  cardeal  Paulo  de  Car- 
valho, dando  parte  da  chegada  á  sede  do  seu  governo.  (Carta  na 
CoH.  Pomíb.,  Cod.  619).  Não  podia,  portanto,  dar  o  dinheiro  a  Pom- 
bal em  12  de  abril,  quando  estava  em  viagem.  Regressou  cinco  annos 
dci>3is.  Tudo  isto  inquina  de  falsidade  o  documento,  divulgado  na 
desordenada  co.mpilação  das  Cartas  e  outras  obras  selectas  do  marquez 
de  Pombal,  em  que  alguns  mais  são  apocryphos.  Existem  na  Coíl. 
Pomo.  duas  copias,  nos  códices  478  e  678,  uma  da  mesma  letra  que 
transcreveu  as  suppostas  missivas  a  Pitt,  sobre  o  caso  de  Lagos. 
V;irnhagen,  sem  advertir  nas  datai,  refere  o  duvidoso  successo  na 
Historia  Geral  do  BraziL  tomo  II,  pag.  984  da  2.^  edição.  Soriano, 
guiando-sc  pelas  Recordações  de  Jacome  Ratton,  sem  fundamento  diz 
que  Pombal  foi  perguntado  no  processo  e  respondeu  nos  próprios  ter- 
tiios  da  carta  suspeita.  (Historia  da  Guerra  Civil,  I,  257).  Devia  ser 
faiso  rumor,  como  outros  muitos,  que  algum  pombalista  aproveitou, 
forjando  a  carta.  Em  todo  o  caso,  se  assim  não  foi,  a  duvida  im- 
põe-sc  até   que   o  original,   assignado  pelo  marquês,  venha  á   luz. 


A  QUESTÃO  DAS  AGUAS  LIVRES  359 


annuaes),  o  morgado  de  Carvalho,  e  os  productos  da  casa 
de  Pombal.  O  resto  era  consagrado  a  manter  o  decoro  da 
da  íamilia  na  corte,  e  o  abandonava  aos  filhos.  A  propósito 
d'isto  informa:  «Na  casa  que  a  minha  economia  domestica, 
ajudado  por  teus  tios,  e  abençoada  pela  mão  do  Orrinipotente, 
estabeleceu,  ha  tudo  o  necessário  para  a  sustentação  decente 
das  duas  casas  de  Oeiras  e  da  Redinha. . .  e  também  para 
eu  aqui  viver  com  mais  largu2za»  ^.  O  pânico  do  primeiro 
instante,  quando,  sobre  a  ruína  politica,  a  da  fortuna  mate- 
rial  parecia   imminente,    tinha-se    dissipado. 

Logo,  porém,  no  anno  seguinte,  inopinadamente,  outro 
perigo:  o  sequestro  dos  bens,  requerido  pela  Junta  das 
Aguas  Livres.  Sabe-se  que  Pombal  era  accusado  de  desviar 
aguas  dos  dois  chafarizes  das  Janellas  Verdes  e  rua  Formosa, 
para  as  suas  casas  nos  mesmos  locaes.  Um  mysterioso  ini- 
migo, cujo  nome  não  chegou  até  nós,  designado  nos  papeis 
d*elle  por  Coxo  das  aguas  livres,  era  provavelmente  o  funccio- 
nario  que  deu  a  denuncia  e  fez  caminhar  o  processo.  O 
perigo  devia  ser  grande,  porque  então,  peLa  primeira  vez, 
o  animo  de  Carvalho  abateu.  Tomado  de  susto,  manda  o 
filho  recorrer  á  Rainha-mãe:  «Esta  protecção  é  a  única  que 
nos  pode  salvar  na  actual  tormenta,  e  em  outras  que  possam 
sobrevir»,   angustiado  escrevia  -. 

Entretanto,  afeito  á  lucta,  passado  o  primeiro  instante 
de  desanimo,  defendia-se  com  denodo  e,  com  força  de  alma, 
ainda  então  superior  ás  dores  physicas  e  aos  profundos  golpe3 
moraes,  esquecendo  as  maguas  no  assiduo  trabalho,  às  tardes 
dirigia  a  lavoura  da  quinta  e  casal  da  Grameiia,  ou  a  cultura 
da  horta  de  Santorum.  De  manhã  trabalhava  no  gabinete, 
respondia  aos  libellos.  Tinha  então  dezeseis  pleitos,  em  que 
&e  defendia,  a  m.aior  parte  a  contestarem-lhe  a  posse  de 
propriedades  que,  com  duvidoso  direito,  na  plenitude  do 
poder,  adjudicara  a  si  próprio.  Mal   inclinado  por  caracter  á 


1     Carta    ao    conde    de   Oeiras.    3   janeiro    1778. 
-     30    março    1779.    O    sequestro    fora    ordenado    por    decreto    de 
20    do    mesmo    mez. 


36©  O  COXO   DAS  AGUAS  LIVRES 


submissão,  deshabituado,  por  tantos  annos  de  caprichosa 
autoridade,  á  contradita,  desafogava  nas  cartas  intimas  a 
cólera,  de  que  se  achava  possuído  contra  os  que  o  chamavam 
á  justiça.  Todos  elles  considera  infames,  malévolos,  ingratos. 
Mais  que  nenhum  outro,  o  Coxo  das  aguas  livres,  que  parece 
inspirar-lhe  simultaneamente  raiva  e  terror.  Para  lhe  res- 
ponder, emprega  todos  os  recursos  da  habilidade  e  saber 
iuridico,  adquiridos  nos  longos  e  embaraçados  pleitos  da  sua 
mocidade,  quando  o  futuro  e  o  pão  de  cada  dia  estavam 
pendentes  da  decisão  d'clles.  «Meu  pae  —  refere  —  deixou-me 
no  meio  de  um  grande  numero  de  processos,  entregue  aos 
advogados  e  solicitadores,  e  á  vida  ociosa  e  servil  dos  liti- 
gantes. Por  muitos  dos  primeiros  annos  da  minha  juvenil 
mocidade,  exercitei  aquelle  desagradável  e  penoso  officio, 
porque,  se  deixasse  as  causas  á  revelia,  levariam  as  partes 
o  património  da  casa»  i. 

O  processo  celebre,  intentado  por  Galhardo  Mendanha, 
processo  que  tinha  de  lhe  ser  fatal,  dando  ensejo  ao  golpe 
ultimo  de  seus  inimigos,  insuffla-lhe  ardor  mais  vivo  por 
lhe  permittir  expandir-se,  em  assumptos  de  politica,  contra 
seus  detractores.  «Creio  que  a  minha  resposta  fará  a  apologia 
mais  completa  que  escrevi  até  agora»  -.  Mal  se  persuadia 
então   que  era   o   remate  da  sua  ruina. 


1  12   outubro    1778. 

2  10    agosto    1778. 


CAPITULO    XI 


O  ACABAR 


O  marquês  de  Pomba!  arguido  de  concussionario.  Accusado  de 
actos  de  alta  traição.  De  irreligiosidade  e  de  ter  embaraçado 
o  casamento  real.  Sai  do  cárcere  o  seu  inimigo  Encerrabodes. 
José  de  Seabra  volta  do  exilio.  O  que  se  passou  com  o  bisjx^ 
de  Coimbra.  —  11.  Famoso  processo  tía  lesão  enormíssima. 
Apparecem  as  Cartas  inglesas.  O  Desembargo  do  Paço  pronun- 
ciasse sobre  o  processo.  —  III.  Interrogatório  do  marquês  por 
ordem  da  rainha.  A  enfermidade.  Derradeira  e  lastimosa  scena 
do  inquérito.  —  IV.  Insufficiencia  das  explicações  no  interro- 
gatório. Culpas  do  visconde  de  Villa  Nova  de  Cerveira  e  do 
conde  de  S.  Lourenço.  De  Diogo  de  Mendonça  Corte  Real. 
De  José  de  Seabra.  Do  desembargador  Mascarenhas  Pacheco.  — 
V.  Padecimentos  aggravados  e  apprehensões  tristes  do  marquês 
Prepara-se  a  rehabilitação  dos  Tavoras.  Os  jesuítas  pretendem 
a  sua.  Cruciante  martyrio  do  enfermo.  —  VI.  A  rainha  pronun- 
cia  a   coridemnação   de    Pombal.    Os   últimos   dias  e   a   morte. 


Emquanto  o  decahido  ministro  se  debatia  no  exilio  contra 
os  múltiplos  ataques  d€  credores  ávidos,  e  as  retaliações 
d'aquelles  que,  por  actos  seus  de  ganância,  se  sentiam  preju- 
dicados, na  corte  proseguia  a  preparação  das  represálias 
politicas,  que  o  desforço  pessoal  de  muitos  exigia,  e  a  aversão 
publica  ao  tyranno  por  bem  cabidas  esperava.  À  grita  sobre 
o  déspota,  contra  quem  tantas  victimas  testemunhavam,  jun- 


POMBAL    ARGUIÍX)     í)li   CONCUSSIONARIO 


tavam-se  apodos  de  prevaricador,  que  diziam  enriquecido  a 
defraudar  o  Rei  e  a  nação.  E  as  accusações,  por  infundadas 
que  lem  parte  fossem,  c  suggeridas,  acima  de  qualquer  outra 
razão,  pelo  ódio,  tinliam  as  apparencias  a  justificar-lhes  a 
sinceridade.  A  casa  sumptuosa  de  Oeiras;  a  da  rua  Formosa 
e  os  prédios  de  renda  na  capital,  entre  esses  as  valiosas 
tercenas,  amiazens  á  margem  do  Tejo,  occupados  com  provi- 
mentos do  Estado;  as  quintas  de  Oeiras  e  Pombal;  em 
vários  outros  logares,  ma^s  quintas  e  terras  e  casaes,  entrando 
na  conta  os  bens  do  morgado  de  Carvalho,  disputado  em 
vão  pelo  tio  arcipreste  ao  conde  de  Athouguia,  e  em  que 
o  iministro  se  fizera  investir  poucos  dias  passados  da  execução 
d'este  ultimo;  tudo  isso  manifestava  a  opulência  actual  do 
fidalgote,  que,  mesquinho  de  consideração  e  de  haveres,  a 
rainha  Maiianna  de  Áustria,  condoída  da  sua  patrícia,  mulher 
d'elle,  levantara  a  secretario  de  Estado,  e  d'ahi  ao  íastigio 
do  poder  e   das  grandezas. 

Com  tantos  bens  patentes  a  denunciarem  riqueza,  inti- 
mado a  solver  dividas  de  longa  data,  invocava  a  estreiteza  de 
cabedal.  Com  isto  se  pensou  que  teria  dinheiro  occulto. 
Corria  que  nos  bancos  de  Hollanda,  por  intermédio  de  seus 
protegidos,  os  contratadores,  havia  depositado  milhões.  De 
offerendas  c  concussões  que  lhe  attribuiam,  diziam-se  extra- 
nhas  coisas ;  eram.  as  quantias  fabulosas.  Só  a  Companhia 
dos  Vinhos,  a  13200  réis  de  cada  pipa,  em  setenta  mil  que 
ella  vendia  por  anno,  cabiam-lhe  210  mil  cruzados.  Em  1772, 
allegavam,  já  a  verba  attingira  1 :050  contos  de  réis.  ,Na 
quinta  de  Pombal,  e  casas  de  clientes  de  Carvalho,  fize- 
ram-se  buscas.  Elle,  do  seu  retiro,  moteja  dos  «thesouros  de 
moura  encantada,  que  suppuzeram  mandados  para  Hollanda, 
que  fingiram  enterrados  e  descobertos»  i.  E  diz,  com  desdém, 
dos  que  em  thesouros  falavam:  «Tomaram  para  assumpto  o 
erário  real,  o  contrato  dos  diamantes,  o  dos  tabacos,  e  a 
Companhia  do  Douro,  parecendo-lhes  que  era  impossível  que 


^      i     junho     1777. 


ARGUIÇÃO    DE    LUCROS    ILLICITOS    NOS    CONTRATOS 


eu  deixasse  de  ter  mettido  naquelles  ricos  cofres  as  mãos 
até  aos  cotovellos».  Em  seguida,  com  amargura:  «Se  lhes 
deixei  os  logares,  não  havia  motivo  para  me  atacarem  com 
o  objecto  de  succederem   nelles»  ^. 

Sob  o  peso  de  imputações  tão  graves,  cumpria-lhe  il!i- 
bar-se  perante  a  Rainha,  talvez  primeiramente  ante  os  filhos, 
julgadores  que,  para  as  almas  em  que  existe  um  lampejo  de 
nobreza,  foram  sempre  os  mais  temidos.  Com  esse  fim  compoz 
uma  Representação  apologética,  para  o  conde  de  Oeiras  levar 
ao  paço,  «entendendo  —  dizia  —  que  emquanto  se  não  justi- 
ficasse na  real  presença,  não  podia  apparecer  sem  pejo  na 
dos  filhos,  parentes  ou  amigos».  Na  representação  julga 
seguir  o  exemplo  do  duque  de  Sully,  e  provar  com  a  defesa 
muito   mais   do    que    elle   a   seu    respeito   provou  ^. 

Todavia,  nas  confidencias  ao  conde  de  Oeiras,  é  menor 
a  sua  tranquiilidade,  e  apparece  um  receio,  porventura  rebate 
de  consciência,  que  lhe  abala  a  primitiva  segurança.  «É  eer- 
tissimo  que  eu,  nem  do  contrato  do  tabaco,  nem  dos  dia- 
mantes recebi  um  vintém;  —  malsinavam-no  de  ter  arrema- 
tado o  do  tabaco  por  menos  250:000  cruzados  da  offerta 
que  havia  —  nem  dos  livros  de  administração  dos  ditos 
contratos  consta  que  eu  d'elles  percebesse  o  menor  interesse. 
Lembra-me,  porém,  duvidar  se  havia  alguma  terceira  pessoa 
que,  vendendo  fumo  aos  ditos  contratantes,  recebesse  d'eHes 
consideráveis  ganhos  de  dinheiro,  debaixo  do  falso  pretexto 
de  que  os  recebia  para  m'os  entregar»  ^  E  inquieto,  manda 
indagar,  na  medida  do  possive]  e  com  prudência,  o  que  teriam 
declarado,  no  inquérito  que  a  propósito  d'isto  houvera,  os 
irmãos  Caldas,  Polycarpo  José  Machado,  y\nselmo  José  da 
Cruz,  Geraldo  Wenceslau,  que  eram  os  financeiros  da  con- 
fiança do  governo,  os  felizes  a  quem  tocava  o  lucro  dos 
monopólios,    dos    rendosos    negócios,    contra    os    quaes    bra- 


1  31    maio     1777. 

2  Carta    ao    Morgado    de    Oliveira,     2    abril     1777.    Z.    BrandXo, 
Pombal,    60. 

s     6    junho    1777. 


361  A     REPRESENTAÇÃO    APOLOGÉTICA 


dava  o  povo,  e  que  o  ministro  patrocinava.  O  receio  seria  o 
próprio  qu€  Pombal  revelava,  ou  viria  da  presumpção,  aliás 
improvável,  de  terem  os  seus  amigos  indiscretamente  trahido 
algum   segredo    de    mútuos    favores? 

Na  justificação,  Pombal  expunha  longamente  o  estado 
da  sua  fortuna,  os  meios  pelos  quaes  a  tinha  adquirido: 
succcssão  do  tio  Paulo  de  Carvalho,  fundador  do  morgado, 
primeiro  homem  rico  da  familia;  herança  de  dois  irmãos; 
administração  rigida,  economia  constante,  rendimentos  accu- 
mulados  por  muitos  annos;  em  derradeiro  os  seus  ordenados 
e  as  rendas  havidas  por  doações  reaes.  Das  edificações  em 
Lisboa  estava  devendo  parte,  e,  confessando  outras  dividas, 
verifica-se  que  mais  de  metade  não  venciam  juros,  por  bene- 
volência extranha  dos  prestadores;  dividas  de  longa  data' 
quasi  todas,  a  prestações  suaves,  e  algumas  de  que  elle 
próprio  concorda  haver  perdido  a  lembrança,  tamanha  fôrá 
a  liberalidade  dos  credores^  que  no  desvalimento  agora  lh'as 
vinham    reclamar. 

E  a  faina  dos  accusadores  continuava.  Não  somente  con- 
cussionario,  traidor  á  pátria  também.  Criminavam-no  de  ter 
offerecido  á  Hespanha  a  cabeça  do  marquês  de  Lavradio, 
Vice-rei  do  Brasil,  para  obter  a  paz;  de  ordenar  a  entrega 
da  praça  de  Almeida  em  1762,  da  ilha  de  Santa  Catharina 
em  1777  i.  D'esta  e  de  outras  imputações  se  defendeu  em 
differentes  apologias,  «que  tenho  escripto  —  dizia  —  sobre 
cada  uma  das  calumnias  que  a  ingratidão  e  a  inveja  espa- 
lharam contra  mim  no  grande  povo  de  Lisboa  depois  da  minha 
ausência»  2;  e,  ora  rebatia  os  que  lhe  assacavam  a  pecha  de 
irreligião  e  ódio  ás  ordens  monásticas,  ora  replicava  aos  que 
o  inculpavam  de  se  haver  opposto  ao  casamento  do  infante 
D.  Pedro.  Repelha  os  ataques  em  matéria  de  crença,  citando 


1  Apologio  decima  quarta:  «Confutação  das  duas  miseráveis  ca- 
lumnias de  que  a  praça  de  Almeida  e  a  ilha  de  Santa  Catharina  fo- 
ram entregues  aos  castelhanos  por  ordem  particular  do  marquez  de 
Pombal.      Cioll.     Pomb.,     Cod.     695,     e    também    impressa. 

2  SuTumario     das     apologias.     CoU.     Pomb.,     Cod.     695. 


ARGUIDO    DE    TER   EMBARAÇADO   O   CASAMENTO   REAL       365 


factos  públicos  que  demonstravam  a  sua  devoção,  e  clamando 
que  «a  maior  affronía  que  se  pode  fazer  a  um  homem  christão 
€  honrado  é  a  de  o  infamarem  de  irreligioso»  ';  ou  então, 
no  outro  assumpto,  não  menos  delicado  da  inimizade  á  gente 
de  habito:  «Em  quasi  todas  as  horas  do  dia,  e  muitas  da 
noite,  se  achavam  em  minha  casa  alguns  religiosos,  com  os 
quaes  me  entretinha  nos  intervallos  das  minhas  fadigas  minis- 
teriaes,  parecendo-me  que  a  sua  conversação  era  a  mais 
innocente,  a  mais  instructiva,  e  a  menos  arriscada.  Poucos 
dias  da  semana  me  assentava  á  mesa  para  jantar,  sem  ter 
por  commensaes,  e  receber  nella  com  grande  prazer  alguns 
religiosos  graves»  -.  Com  isto  acaba  de  ruir  a  lenda  do  livre 
pensador  —  libertino  se  dizia  na  época  —  discípulo  de 
Voltaire  e  do  barão  de  Holbach,  inimigo  da  egreja  e  da 
crença  catholica,  porque  o  era  da  Companhia  de  Loyola. 

Quanto  ao  casamento,  defendia-se  atirando  com  desplante 
aos  seus  costumados  adversários  a  accusação.  Os  jesuítas  eram 
os  que  divulgavam  ser  o  príncipe  impotente,  rematando  por 
esconderem  a  dispensa  papal  do  parentesco,  pedida  por 
D.  João  V,  e  que  em  1760  se  foi  achar  no  convento  de 
S.  Roque,  entre  os  papeis  do  padre  Carbone  ^,  facto  não 
extranhavel,  sendo  elle  o  confidente  do  soberano,  a  cuja 
morte  a  sua  pouco  espaço  precedeu. 

Os  fidalgos,  que  sahíam  das  masmorras,  publicavam  que 
se  tinha  procurado  arrancar-lhes  testemunhos  contra  a  rainha 
viuva  e  rei  D.  Pedro,  no  sentido  de  que  ella  favorecia  a 
pohtica  da   Hespanha,  e  ambos   conspiravam   contra   a   auto- 


1  Apologia  terceira:  «Sobre  a  calumnia  da  irreligião».  Coll.  Pomb., 
Cod.    695,    e    também    Z.    Bran')Ão,    Marquez   de   Pombal,    43. 

2  Apologia  quarta:  «Sobre  a  calumnia  da  aversão  ao  estado  mo- 
nástico e  aos  religiosos  nelle  dedicados  a  Deus.»  Goll.  Pomb.,  Cod. 
695.    Trasladado    em    parte    por    Z.    Brandão,    obra    cit.,    pag.    48. 

3  Apologia  quinta:  «Sobre  a  calumnia  de  que  demorei  os  felicíssi- 
mos desposorios  da  sereníssima  senhora  princeza  do  Brazil.»  Coll.  Pomb., 
Cod.    695.    Vej.    Provas    da    Deducção    chronologica.    Parte    I,    n.o    LVI. 


365        APPARFICEM    ENCERRABODES    E     |OSÉ    DE   SEABRA 


ridadc  de  D.  José  ^  Em  longo  e  frouxo  arrazoado,  mais 
uma  vez  respondia,  e  com  estes  escriptos,  na  apparencia  diri- 
gidos aos  filhos,  mas  destinados  a  serem  vistos  pelas  pessoas 
influentes,  pelos  ministros  e  pela  Rainha,  tentava  confundir 
os  inimigos,  e  desviar  a  tormenta  que  cada  vez  mais  immi- 
nente  se  annunciava. 

Dos  degredos  distantes,  dos  ergástulos,  onde  como  em 
tumulo  encerrava  tantos  adversários,  appareciam,  inspiran- 
do-lhe  terror  e  raiva,  os  mais  detestados.  Encerrabodes,  que 
o  alcimhara  de  Satanaz  quando,  em  1750,  D.  José  o  fizera 
secretario  de  Estado,  e  a  quem  não  perdoava  o  ter-lhe  arre- 
batado a  embaixada  de  Londres,  ancião  como  elle,  sahia  do 
cárcere  para  o  Desembargo  do  Paço,  e  teria,  quem  sabe? 
de  o  julgar  algum  dia,  não  rem.oto.  José  de  Seabra,  que 
voltava  do  exilio,  com  honras  destinadas  a  reparar  o  affron- 
toso  trato  que  recebera,  a  injusta  demissão  e  degredo  para 
o  mais  inhospito  sertão  de  Angola.  A  esse  considerava  i!<o 
mais  vil,  mais  ingrato,  mais  pérfido  e  mais  infame  homem, 
entre  os  d'estas  pérfidas  qualidades,  que  se  lêem  nas  historias 
para  escândalo  e  aviso  dos  leitores»  2.  E  o  receio  que  este 
redivivo  lhe  inspirava  bem  se  collige  das  palavras  seguintes : 
«José  de  Seabra  dizem  todos  que  vem  desesperado  e  blas- 
phemo. . .  será  mais  um  touro  na  praça,  que  marre  com  os 
olhos    fechados)  3. 


1  Apologia  duodécima:  xSobre  a  união  e  colligação  que  entre 
si  fizeram  os  presos  que  sairam  do  forte  da  Junqueira,  e  sobre  a 
temeridade  sacrílega  de  affirmarem  que  se  lhes  tinham  feito  perguntas 
tendentes  a  haver  sido  suspeita  no  espirito  do  senhor  rei  D.  José  a 
sagrada  fidelidade  de  sua  augustissima  esposa  e  de  seu  serenissinio  ir- 
mão.  Escripta  ad  perpetuam  rei  memoriam.   CoU.   Pomb.,   Cod.   Ó95. 

'2     Carta    ao    co.nde    de    Oeiras,    21    maio    1774. 

•''  Ao  mesmo,  10  agosto  1778.  A  consciência  vingadora  engana- 
va-o.  Seabra  ignorava  o  ódio  de  que  era  victima,  e  que  fora  Pom- 
bal o  artifice  da  sua  perda,  attribuida  por  elle  ao  cardeal  da  Cunha. 
Tanto  assim  que,  ainda  muitos  annos  depois,  escrevia:  «O  senhor  Mar- 
quez de  Pombal  não  foi  o  auctor  da  minha  desgraça,  foi  executor 
por    infelicidade    sua    e    minha.)    (Carta    confidencia!    ao    conde    de    Rio 


o  QUE  SE  PASSOU  COM  O  BISPO  DE  COIMBRA  367 


Também  com  inquietação  vira  ainda  restituido  á  sua 
diocese,  no  meio  do  applauso  publico  e  com  reputação  ,de 
santo,  o  bispo  de  Coimbra,  cuja  liberdade  elle  próprio  tivera 
de  ordenar,  horas  antes  da  morte  de  D.  José.  Não  cabia, 
porém,  o  appetite  da  vingança  no  coração  do  prelado,  tanto 
mais  que  o  seu  duro  perseguidor  já  perante  elle  se  humi- 
lhara. Foi  o  caso  que,  andando  elle  em  visita  á  diocese, 
chegando  a  Pombal,  o  marquês  o  mandou  logo  cumprimentar 
pelo  Ouvidor,  seu  dependente,  e  depois  lhe  foi  em  publico 
pedir  a  benção,  não  se  pejando  de  tributar  veneração  tal 
áquelle  mesmo  que,  por  inimigo  publico,  fanático  e  incapaz 
do  seu  ministério,  enviara  a  perpetuo  cárcere.  Â  respeitosa 
demonstração  correspondeu  o  bispo  indo  a  casa  visital-o. 
O  successo  causou  estrondo  em  Lisboa,  a  ponto  que  o  exilado 
cuidou  necessário  justificar-se  do  proceder,  que  muitos  quali- 
ficavam de  hypocrita.  Neste  intento,  escreveu  ao  filho  a 
explical-o:  «Deves  saber  que  eu  fui  muito  obrigado  ao  conde 
de  Povolide,  pae  do  bispo,  e  a  seu  irmão  o  cardeal  Nuno  da 
Cunha.  Que  tive  a  maior  amizade  com  o  conde  Luiz  da 
Cunha,  irmão  do  bispo  de  Coimbra.  Que  tive  sempre  este 
prelado  por  um  sinceríssimo  e  bonissimo  pastor. . .  Que  tudo 
isto  me  fez  sentir  amargamente  que  o  precipitassem  no 
absurdo  politico  da  pastoral,  que  toda  a  Mesa  Censória,  toda 
a  Mesa  do  Desembargo  do  Paço,  e  todo  o  Conselho  do 
Estado,  julgaram  que  o  tinha  feito  réo  do  crime  de  lesa-majes- 
íade.  Que  á  secretaria  de  Estado,  a  que  eu  então  presidia,  só 
coube  a  expedição  das  ordens  regias,  que  El-Rei  determinou 
ultimamente  no  mesmo  Conselho  de  Estado...  Que  logo  que 
o  genhor  Rei  D.  José,  que  Deus  chamou  ao  céo,  declarou  que 
ihe  perdoava,  fui  eu  o  que  gostosa  e  promptamente  lhe 
expediu  as  ordens  de  soltura»  i.  À  sabida,  finda  a  visita. 
Pombal,    de    passo    tremulo,    acompanhou    o    bispo    por   toda 


Maior,    escripta    em     1802.    Elogio    de    José    de    Seabra    pelo    marqiiez 
de    Rezende,    pag.    58.) 

^     3    janeiro    1778.    Coll.    Pomb.,    Cod.    714    —    publicada    também 
por    Z.    Brandão,    op.    cit.,    pag.    100. 


363  PROCESSO   MOVIDO    POR   GALHARDO   MENDANHA 


a  €scada  abaixo  atí  entrar  na  liteira.  Chovia  fortemente.  De 
cabeça  descoberta,  na  rua,  o  velho  desterrado  curvava-se  para 
receber,  com  a  benção  de  adeus,  alguma  palavra  de  conforto 
d'aquelle  a  quem  perseguira.  Não  precisava  a  mansidão  do 
bispo  de  maior  vingança,  nem  o  orgulho  de  um  déspota  podia 
ter  maior  castigo. 


II 


Estamos  chegados  á  phase  critica  d'esta  lucta  derradeira, 
em  que  Pombal,  finalmente  vencido,  deixou  com  a  vida  reta- 
lhos palpitantes  do  seu  intimo  ser,  dilacerado  pelas  angustias 
maiores  a  que  um  homem,  como  elle  habituado  ao  triumpho, 
poderia  ser  votado.  O  celebre  pleito,  contra  elle  movido  por 
Galhardo  Mendanha,  transformou  a  situação,  até  ahi  compor- 
tável, em  que  o  velho  estadista  se  encontrava;  no'  desfavor 
da  corte,  é  verdade,  mas  a  affrontar  os  ataques  com  a  segu- 
rança de  si,  le  um  resto  de  prestigio,  que  tantos  annos  de 
incontestada  autoridade  lhe  prestavam  ainda. 

Este  processo,  já  de  si  escandaloso  pelos  motivos  que 
o  promotor  d'elle  invocava,  mais  o  ia  ser  pelo  caracter  que 
a  defesa  assumiu.  Illudido  por  interessadas  suggestões, 
segundo  pretendia,  Mendanha  tinha  comprado  ao  dictador 
certas  propriedades.  Feita  melhor  averiguação  sentiu-se  lesado, 
e  recusou  o  pagamento,  de  que  já  dera  por  conta  uma  parte. 
Enfurecido,  Pombal  fez-Ihe  cahir  em  cima  a  tempestade  da 
sua  ira.  Mendanha,  preso  por  ordem  d'elle,  andou  de  cadeia 
em  cadeia  até  parar  em  um  forte  da  ilha  Terceira.  Os  tribu- 
naes  declararam-no  infame  de  proceder  e  indigno  chefe  de 
familia.  Tiraram-lhe  a  administração  dos  bens  e  o  pátrio 
poder.  Duas  filhas,  que  tinha,  foram  mettidas  em  clausura; 
a  um  rapaz,  menor,  deu-se  tutor.  Na  hora  da  liberdade  sahiu 
a  victima  da  prisão  clamando  pela  desforra :  queria  a  venda 
fraudulosa  annulada,  punido  o  tyranno  prevaricador.  Taes 
brados,  engrossando  o  coro  dos  geraes  clamores,  não  faltou 


DEFESA  CONTRA  GALHARDO  MENDANHA  369 

quem  os  attendesse  e  animasse.  A  questão,  posta  em  juizo, 
promettia  estrépito,  e  mais  estrepitosa  foi  pelo  Ímpeto  da 
defesa. 

Com  os  aggravos  pessoaes,  próprios,  introduziu  Men- 
danha no  libello  os  aggravos  da  nação.  Pela  autoridade  do 
seu  cargo  era  que  Pombal  o  tinha  podido  lesar  e  opprimir; 
portanto,  o  que  no  processo  ia  debater-se  não  seria  o  caso 
particular  de  Mendanha,  mas  a  causa  de  um  povo  inteiro, 
vinte  le  sete  annos  sujeito  ás  inclemências  de  um  tyranno 
sem  freio. 

O  desterrado  abençoou  a  occasião,  como  a  mais  oppor- 
tuna  á  publica  justificação  de  seus  actos,  e  entrou  a  redigir 
com  afan  a  defesa.  Passando  em  revista  a  sua  administração, 
desde  que  fora  chamado  pela  primeira  vez  á  presença  de 
D.  José,  ia  pondo  em  relevo  os  mais  salientes  actos  d'ella. 
O  que  exprimira  em  synthese  na  Memoria  secretíssima  da  inau- 
guração da  estatua,  diluia  agora  na  sua  prosa  diffusa,  indi- 
viduando factos,  esmiuçando  particularidades,  contando  a 
tormenta  das  suas  luctas;  -e,  attento  a  exaltar  a  sua  obra, 
não  o  foi  menos  em  despedir  golpes  aos  adversários,  agu- 
çadas frechas  aos  que  o  aggrediam,  ultima  punhada  no  rosto 
aos  que  na  terra  dormiam  já,  ou  deslumbrados  da  luz  viva 
assomavam   das   prisões. 

Expurgado  o  primitivo  borrão  dos  trechos  julgados,  pelo 
patrono  da  causa,  inconvenientes  á  defesa.  Carvalho  mandou 
tirar  sete  copias,  porventura  no  intuito  de,  por  este  começo 
de  publicidade,  palpar  o  sentimento  geral  e  verificar  se 
valeria  a  pena  dar-lhe  mais  importância  por  meio   do  prelo. 

Alguns  tinham  por  imprudência  permittir-se  o  processo 
que,  infamando  o  ministro,  affectava  o  prestigio  do  cargo. 
«É  zelo  pharisaico  —  exclamava  Pombal  —  para  que  não 
appareça  a  contestação»!  E  recommendava  se  puzessem  escre- 
ventes a  trabalhar  de  dia  e  de  noite  nas  copias  ^.  A  vingança 
de  Mendanha  devia,  na  intenção  de  Pombal,  converter-se  em 
glorificação  sua. 


1     VI   janeiro    1779. 

o    MARQUÊS    D3    POMBAL    E    A    SUA    ÉPOCA     —   24 


370  APPARECEM    AS   CARTAS   INGLESAS 


De  mão  cm  mão  correram  as  cx)pias,  lidas  com  avidez, 
e  com  acrimonia  commentadas.  O  escândalo  foi  enorme,  c 
tal  que  o  governo,  e  mesmo  a  Rainha,  quizeram  ter  conhe- 
cimento dos  papeis.  Pombal  exultava  com  isso.  «Não  me 
pesa  que  os  autos  da  minha  contrariedade  fossem  mandados 
ao  paço, . . .  porque  sempre  servirão  para  que  aquelles  que 
os  lerem  fiquem  com  as  suas  consciências  oneradas,  e  vejam 
que  eu  não  devia  ser  tratado  com  tantas  barbaridades»  '. 
Aquelles  que  os  lerem,  quem?  Evidentemente  a  Rainha.  Aos 
ministros,  pessoas  secundarias,  e  que  Pombal  teria  por  taes, 
de   certo  se   não   referia. 

Avivando  a  ebullição  começavam  a  circular  as  celebres 
Cartas  inglesas-,  que  na  occasião  todos  attribuiram  a  Pombal. 
Lebzeltern,  informador  minucioso,  como  sabemos,  e  refle- 
ctindo sempre  a  opinião  ambiente,  notava  a  exactidão  das 
coisas  referidas,  o  que  o  levava  a  dizer:  «Se  não  foi  o 
marquês  o  autor,  ninguém  podia,  a  não  ser  elle,  dar  o  material 
d'essas  cartas.  Tenha-se  em  lembrança  que,  no  governo  pas- 
sado, foram  sempre  impenetráveis  os  segredos  do  gabinete, 
e  que  o  marquês  de  Pombal  a  ninguém  confiava  a  direcção 
dos  negócios  de  alguma  importância»  ^  Pombal,  jactancioso, 
dava  a  entender  serem  ellas  obra  dos  homens  eminentes  do 
partido  whig,  com  quem  estivera  em  relações:  Shelbom, 
Cambden  e  o  grande  Pitt.  Afinal  o  autor  era  certo  familiar 
do  duque  de  Manchester,  de  nome  Blankett  que,  no  tempo 
em  que  Pombal  pretendera  o  auxilio  effectivo  da  Inglaterra, 
nas  desavenças  com  a  Hespanha,  fora  intermediário  do  embai- 
xador português  para  com  o  duque.  Os  apontamentos,  dados 
para  elucidar  os  oradores  favoráveis  ás  pretenções  de  Car- 
valho, deviam  ser  d'elle  mesmo;  e  agora  Blankett,  reconhe- 
cido. utilizava-«e  d'elles,  para  vindicar  ante  seus  compatriotas 
a    reputação    de    quem    lhe    tinha    aproveitado   os    méritos,   e 


1      22    junho    1779. 

*    Letters  from  Portugal  on   the   late  and  present  siaie  of  that  kiKg- 
àom,    lujndres    1777. 

3      4  janeiro    1780,    Duhr,    179. 


TRAnUCÇÃO  DAS  CARTAS  INGLESAS  371 


certamente  estipendiado.  O  fim  d'elle,  dizia  na  carta  ac  seu 
patrono  proscripto,  era  «provar  ao  mundo  que  este  século 
produziu  um  ministro  egual  aos  maiores  de  quem  fala  a 
historia»    ^. 

Recebendo  a  offerenda  do  folheto,  Carvalho  que  nos 
annos  passados  em  Londres  não  lograra  aprender  a  lingua 
do  paiz,  recorreu,  para  lh'o  traduzir,  á  irmã  de  Guilherme 
Stephens,  seu  protegido,  dono  da  fabrica  da  Marinha  Grande. 
A  esta  senhora  dizia  depois  desvanecido,  alludindo  ao  conhe- 
cimento que  as  cartas  revelavam  das  cousas  portuguesas,  le 
aos  louvores  que  cm  razão  d'isso  lhe  prestavam :  «Cessou 
a  minha  admiração,  reflectindo  no  claro  entendimento  que 
tenho,  ha  muitos  annos,  do  espirito  de  justiça  e  de  genero- 
sidade da  illuminada  nação  inglesa,  entre  a  qual  passei,  com 
muito  gosto  e  aproveitamento  de  instrucção,  os  annos  do 
meu  ministério   na   corte  de   Londres»    -. 

A  vista  das  cartas  suggeriu-Ihe  a  idéa  de  as  corrigir  e 
completar  com  a  resenha  dos  acontecimentos  e  negociações 
referentes  ás  ultimas  dissenções  com  a  Hespanha,  e  algumas 
considerações  sobre  a  conveniência  que  vinha  á  Inglaterra 
de  manter  intacta  a  alliança  com  Portugal.  O  abandono,  que 
o  gabinete  britannico  fazia  doesta,  levara  os  chefes  da  oppo- 
sição  parlamentar  a  compor  taes  cartas,  que  não  eram  de 
Blankett,  dizia,  nem  do  duque  de  Manchester,  porém  dos 
três  próceres,  citados  atrás.  Em  seguida,  para  expungir  de 
toda  a  apparencia  de  vaidade  estas  notas,  destinadas  sem 
duvida  a  divulgar-se  com  as  Carfas,  affirma,  com  ar  de  con- 
vicção, que  a  ninguém  illudiria,  que  os  elogios  á  sua  pessoa, 
as  apologias  em  sua  defesa,  não  tinham  sido  o  fito  do  opús- 
culo na  Inglaterra,  mas  sim  o  intento  politico  de  abalar 
o  credito  do  gabinete  no  poder,  pela  demonstração  dos 
seus   erros  ^. 

À  modéstia,  affectada  nestes  assertos,  correspondia  eífe- 


1  Bibl.    Nac,    Coll.     Pomb.,    Cod.     691. 

2  17   fevereiro    1778.    Coll.    Pomb.,    Cod.    691. 

3  Compendio    histórico    e    analytico    do    juizo    que    tenh-i    formado 
das  dezcsete  cartas  estampadas  em  Londres,  etc. 


372  O   PROCESSO    DE   MENDANHA   E  O   DESEMBARGO 


ctivamente  a  natural  satisfação  do  homem  em  todo  o  tempo 
sensível  ao  incenso  dos  louvores,  e  com  dupla  razão  no 
momento  em  que  todos  os  seus  actos,  os  mais  defensav^eis, 
os  mais  dignos  de  apreço,  lhe  attrahiam  censuras,  e  se 
capitulavam  de  crimes.  Não  c  licito  duvidar  do  sentimento 
de  vaidade,  assaz  justo,  com  que  Pombal,  ao  desapreço  da 
sua  Rainha,  dos  seus  compatriotas,  oppunha  a  exaltação,  que 
da  obra  por  elle  realizada  os  extrangeiros  faziam.  Essa 
satisfação,  comtudo,  pagou-a  por  duro  preço.  Accusaram-no 
logo  de  publicar  segredos  de  Estado,  na  unanime  convicção 
de  ser  elle  o  autor  das  cartas,  figuradamente  escriptas  de 
Lisboa.  E  observaram  que  no  tempo  do  seu  governo  taes 
delicios  não  passaram  nunca  sem  castigo.  Na  corte  julgou-se 
desafio  a  soberba  attitude  do  desterrado.  Entre  tantos  desaf- 
fectos,  o  ministro  do  reino  e  da  justiça,  que  lhe  succedera 
nos  principaes  cargos,  era  o  visconde  de  Villa  Nova  de 
Cerveira,  filho  d'aquolle  que  fora  sua  victima,  e  succumbira 
num  carceie  em  S.  João  da  Foz.  A  circumstancia  influiria 
certamente  na  decisão  posterior.  Vindo  ao  Desembargo  do 
Paço  o  processo  de  Mendanha,  o  tribunal,  escandalizado 
com  o  libello  e  com  a  defesa,  mandou  supprimir  dos  autos 
essas  partes,  c  destruir  as  copias  todas.  Os  advogados  foram 
punidos  com  a  prisão,  e,  entre  as  névoas  do  palavriado 
forense,  apparece  unia  vaga  insinuação  de  mais  eíficazes 
procedimentos  contra  Pombal.  Este  ao  ler  a  notificação  do 
alto  tribunal,  desdenhosamente  lhe  chama  pario  de  montanha, 
opprobio  de  si  mesmo  i,  para  em  breve  experimentar  quantas 
e  quão  grandes  mortificações  para  elle  se  continham  naquella 
ameaça,   primeiramente   julgada    vã. 


III 


Cerca   de   um    mez   depois,   a   9   de    outubro,   pelas   três 
horas  da  tarde,  apearam-se  á  porta  do  solar,  em  Pombal,  uns 

^      Ij    setembro    1779. 


INTERROGATÓRIO  DO  MARQUES  POR  ORDEA\  DA   RAINHA        373 


cavalleiros.  Eram  os  juizes  Luiz  da  França  c  Bruno  Monteiro, 
nomeados  para  a  instrucçào  do  processo,  a  que  o  governo 
finalmente  resolvera  submetter  o  ministro  exilado.  Informados 
de  que  lelle,  doente,  dormia  então,  insistiram  em  lhe  falar 
immediatamente,  na  execução  de  ordens  regias,  ao  que  foi 
preciso  obtemperar;  e,  introduzidos  no  quarto,  presente  a 
marquesa,  leram  ao  enfermo  o  decreto  relativo  ás  funcções, 
que  iam  alli  exercer.  O  marquês  «ouviu  tudo  com  a  tranquil- 
lidadc  do  seu  grande  espirito»,  refere  aquella  em  carta  ao 
conde  de  Oeiras  i.  Em  seguida  vestiu-se,  e  amparado  em 
dois  creados  passou  á  sala,  onde  os  juizes  o  aguardavam. 
Ficou  a  distancia  em  signal  de  respeito,  e  como  elles,  por 
deferência,  o  chamassem  para  mais  junto,  declarou  theatral- 
mente  que  em  tal  caso  sentar-sc-ia  no  chão,  para  assim 
manifestar  a  sua  veneração  á  soberana,  representada  alli 
pelos    magistrados. 

Minutos  antes,  haviam  elles  tentado  acalmar,  com  palavras 
de  fingida  benevolência,  a  natural  inquietação  da  marquesa. 
Luiz  da  França  dizia-se  grande  amigo  de  Pombal,  e  muito 
seu  obrigado.  Elle  e  o  seu  coUega  tudo  o  que  fossem  atten- 
ções  lhe  haviam  de  conceder.  E  com  ar  de  grosseira  protecção, 
inflingindo-lhe  o  receio  de  cousas  tétricas  possíveis,  accres- 
centava:  «Podem  dar  graças  a  Deus  por  sermos  nós,  e 
não   outros,   que   vimos   cá!» 

Confiante  ainda,  a  triste  fidalga  esperou,  com  anciedade, 
a  cada  momento  mais  viva,  o  termo  da  demorada  conferencia. 
Duas  horas  e  meia  durou  este  primeiro  interrogatório.  D'elle 
viu  sahir  o  marido  no  abatimento  mais  profundo.  O  grande 
espirito,  de  que  o  dizia  animado,  só  ella,  com  seus  olhos 
que  lagrimas  constantes  annuveavam,  podia  vel-o  agora, 
fascinada  ainda  pelo  qiiid,  que  em  Vienna,  seis  lustros  antes, 
fizera  render-se  ao  galan  de  quarenta  e  seis  annos  a  joven 
condessa  Daun.  O  animo  de  Pombal  abatera  no  dia  em 
que  se  lhe  fecharam  as  portas  á  ambição.  Não  ha  sombra 
de   grandeza    nesse    homem    que,    dos    annos    sobrevividos    á 


1     11    outubro    1779.    Coll.    Pomb.,    Cod.    706. 


374  POMBAL    DOENTE    DE    LEPRA 

queda  vingadora,  metade  passou-os  em  lamentações  e  doestos, 
no  exaspero  da  sua  impotente  cólera;  metade,  de  rojo,  em 
humilhantes  supplicas,  por  temor  dos  castigos,  de  que  tão 
pródigo  fora  com  seus  contrários.  Se  um  momento  se  ergueu, 
fazendo  rosto  á  investida,  na  resposta  a  Mendanha,  breve 
teve  de  submetter-se,  e  a  si  próprio  se  renegou,  nas  tristes 
confissões  que  os  implacáveis  juizes  com  malévolo  gosto 
recolhiam. 

A  custo  habitará  alma  magnânima  em  corpo  a  desfa- 
zer-se  em  cruel  e  repugnante  enfermidade.  Nesse  caso  se 
achava  então  Pombal.  As  forças  physicas  esvahiam^e-lhe, 
com  atrozes  dores,  em  diarrhéas,  em  fluxos  hemorrhoidarios, 
no  esvurmar  de  obstinada  furunculose.  Prurido  intenso  fazia- 
Ihe  velar  as  noites  em  constante  inquietação.  Para  lhe 
abrandar  o  martyrio,  dois  creados,  á  beira  da  cama,  a  toda 
a  hora,  coçavam-lhe  as  pústulas.  Sarna  castelhana,  denomi- 
navam os  clínicos  a  doença.  Tratavam-na  com  caldos  d€ 
víbora,  que  se  deviam  adubar  com  uma  cebola  branca,  um 
crave,  uma  pitada  de  canella,  cozinha  medica  affim  da  feiti- 
çaria medieval.  Já  se  tinha  applícado  o  remédio  ao  Rei 
D.  Pedro  II.  Era  a  lepra,  e  o  seu  séquito  de  dores,  hedionda 
e    crudelíssima. 

Neste  lamentável  estado  o  encontraram  os  dois  magis- 
trados, que,  como  juiz  e  escrivão,  o  vinham  interrogar  sobre 
as  indiscrições  e  culpas  de  íesa-majestade  na  resposta  a  Men- 
danha, e  os  actos  irregulares  e  despóticos  da  sua  adminis- 
tração. Prolongaram-se  os  interrogatórios  até  janeiro,  com 
interrupções,  motivadas  pela  doença.  Dia  a  dia,  ao  enfermo, 
com  as  forças  physicas  se  lhe  abatia  a  moral.  Levado,  como 
da  primeira  vez,  a  braços  pelos  creados,  á  sala  onde  as 
audiências  se  realizavam,  aili  w  severo  juiz  commissario  Luiz 
da  França  —  assim  designa  ao  filho  aquelle  que  na  tortura 
moral  das  perguntas  o  attribulava;  tristes  palavras,  que  ao 
mais  prevenido  desaffecto  inspirariam  dó!  —  alli  fazia  tremer 
o  duro  vingador  perante  quem  tantos  outros  haviam  tremido. 
Naquellas  horas  de  angustia,  repetidas  muitas  vezes,  nem  um 
assomo  de  coragem,  para  affirmar  os  seus  rancores,  nem  a 
lucidez  antiga,   com   que  poderia,   como  politico,  justificar  as 


DERRADEIRA  SCENA  DO  INQUÉRITO  375 


suas  violências.  Esmorecido,  com  horror  de  si  próprio,  até 
não  ousa  ver  o  filho,  a  quem  escrevia,  depois  de  lhe  relatar 
os  tormentos  do  interrogatório:  «Sendo  este  O'  meu  presente 
estado,  te  ordeno  positivamente,  com  autoridade  de  pae  e 
com  affecto  de  amigo,  que  de  nenhum  modo  consintas  no 
pensamento  de  pedir  licença  para  me  vir  assistir. . .  Tenho 
por  desveladas  enfermeiras  tua  mãe,  e  duas  filhas,  que  são 
inseparáveis  do  meu  leito ;  somente  será  preciso  que  as 
venhas   buscar   quando   eu   fallecer»  i. 

A  15  de  janeiro  findava  o  inquérito  na  lastimosa  scena, 
çm  que  o  velho  ministro,  reduzido  á  ultima  fraqueza,  ouviu 
lêr  os  depoimentos  de  Oliveira  Machado;  de  Pina  Manique; 
de  António  Galvão  que  abria  as  cartas  no  gabinete  negro, 
e  cujo  trabalho  era  a  mais  ampla  matéria  das  proscripções ; 
de  outros  que,  outr'ora  seus  instrumentos,  o  renegavam, 
articulando  que  por  seu  directo  mandado  haviam  feito  as 
violências  e  perseguições.  Trágico  instante  esse  em  que, 
enredado  no  trama  das  capciosas  perguntas,  abatido  em  face 
das  contradictas,  sentindo-se  alfim  perdido.  Pombal  abdicou 
de  todo  a  dignidade  humana  e,  perante  os  juizes  attonitos. 
tomada  a  voz  de  soluços,  num  estertor  de  angustia,  appellou 
para  a  regia  clemência,  supplicando  perdão,  e  assentindo  nas 
culpas   de    que    lhe   faziam    cargo. 

D'€stas  eram  as  principaes:  dizer-se  primeiro  ministro, 
quando  o  não  tinha  sido;  dizer,  após  a  renuncia  de  seus 
empregos,  que  lhe  era  indelével  o  caracter  de  ministro,  que 
antes  tivera;  dizer  que  aos  secretários  de  Estado  se  não? 
devem  pedir  contas  do  que  praticaram  em  nome  do  sobe- 
rano; revelar  negócios  do  Estado,  que  deviam  ficar  secretos; 
finalmente  conservar  as  minutas  da  defesa  contra  Mendanha, 
que  um  decreto  mandara  supprimir.  Tudo  relativo  ao  malfa- 
dado processo.  Os  verdadeiros  crimes,  as  prevaricações,  se 
as  houve,  as  tyrannias,  que  o  nome  do  Rei  acobertara,  esses 
fieriam    de   mediocre    importância    ao    pé    d'aquelles     outros, 


1      8    dezembro    1779. 


376  MISERANDA    DEFESA    DE    POMBAL 


com    que    a   facção    no   ix)der   explorava   o   amor   próprio   da 
Rainha. 


IV 


Nunca  um  réo  de  crimes  políticos,  ministro  da  véspera, 
na  situação  de  Carvalho,  com  as  responsabilidades  de  um 
reinado,   tão   miseranda   defesa   articulou. 

Exprobavam-lhe  os  accusadores  o  querer  tomar  a  si  a 
gloria  dos  feitos  louváveis  e  imputar  ao  Rei  as  violências 
e  crueldades.  Exilios,  prisões,  cadafalsos,  tudo  ordens  de 
D.  José.  Elle  Pombal,  quando  muito,  seria  o  carrasca,  ás 
vezes  compadecido,  ao  serviço  do  monarcha  vingativo  e 
sanguinário.  Das  forcas  do  Porto  ao  incêndio  da  Trafaria, 
fora  sempre  El-Rei  o  mandador.  Carvalho,  benévolo,  che- 
gara até  a  interceder  jX)r  inimigos  seus,  como  Gonçalo  Chris- 
tovão,  parente  d'elle,  preso  por  lhe  attentar  contra  a  vida. 
Quem  tal  acreditara  do  homem,  de  quem  na  época  diziam 
ter  cabellos  no  coração?  Apesar  d'isso  o  protegido  penou 
muitos  annos  no  forte  da  Junqueira.  A  asserção,  como  muitas 
mais  do  inquérito,   tem   de   ser  rejeitada. 

Uma  a  uma,  cada  victima  da  sua  feroz  politica  o  tinha 
sido  por  vontade  do  Rei,  ou  regular  decisão  dos  juizes.  De 
1750  a  1759  —  dizia  Carvalho  —  era  D.  José  quem  tudo 
determinava.  Durante  esse  tempo,  o  ministro  somente  cuidou 
do  commercio  e  da  navegação.  Foi  em  1762,  passada  a 
guerra  com  a  Hespanha  que  a  sua  influencia  entrou  a  ser 
grande.  Entretanto  o  Rei  continuava  a  informar-se  de  tudo. 
Os  lespias  levavam-lhe  pessoalmente  as  participações,  de 
manhã   aos   seus   aposentos,   pela    tarde   ao   picadeiro. 

Instituído  o  juizo  da  Inconfidência,  este  era  o  que  recebia 
as  denuncias,  pronunciava  os  culpados,  ordenava  as  prisões, 
sentenciava,  e  depois  entregava  o  accordão  a  um  dos  secre- 
tários de  Estado,  para  ser  presente  ao  Rei.  Extranhas  fe 
sinistras  cousas  revelariam,  se  viessem'  á  luz  hoje,  esses  pro- 
cessos, em   que  os  réos  se  não  defendiam,  e,  condemnados, 


CULPAS  DOS  VISCONDES  DE  CERVEIRA  E  SÃO   LOURENÇO       377 

cumpriam  sentenças  que  não  tinham  jamais  ouvido.  E  então, 
no  processo  dos  Tavoras,  a  que  presidiu;  de  Malagrida  em 
que  foi  denunciante;  do  genovês  Pele  em  que  dictou  os 
procedimentos,  veríamos  o  ministro,  por  detrás  dos  tspias, 
eonjuncto  aos  juizes,  superior  ao  Rei  a  quem  dominava,  pôr 
em  movimento  elle  sósinho  o  mecanismo  atroz  das  pros- 
cripções. 

As  declarações  que  fez  no  inquérito,  subordinadas  ao 
systema  de  esquivar  responsabilidades  em  actos,  que  a 
opinião  publica  repeliia,  escassa  claridade  espargem  sobre 
o  mysterio  das  prisõies  e  castigos,  em  que  foi  abundante  o 
terror  pombalino.  Muitas  d'essas  violências  occorreram  sem 
processo.  Uma  ordem  real  bastava;  e  —  referia  Pombal  — 
o  monarcha,  usando  assim  de  um  direito  que  as  ordenações 
lhe  conferiram,  era  o  próprio  a  dizer-se  o  juiz  único,  irrespon- 
sável, das  prisões  que  ordenava.  Com  taes  affirmações  pen- 
sava o  ministro  illibar-se  a  si  do  odioso.  Debalde  os  juizes 
tentaram  penetrar  a  origem  de  certos  actos  de  perseguição, 
que  haviam  surprehendido,  já  por  inesperados,  já  pela  quali- 
dade das  pessoas  a  quem  attingiam.  As  respostas  de  Carvalho 
são  quasi  sempre  nebulosas,  omissas,  e  em  alguns  casos 
notoriamente  oppostas   á  verdade. 

Ao  numero  d'estes  últimos  pertence  a  prisão  do  visconde 
de  Villa  Nova  de  Cerveira,  camarista  de  D.  José,  e  a  do 
conde  de  S.  Lourenço,  que  o  foi  do  infante  D.  Pedro.  Falleceu 
o  primeiro,  ao  cabo  de  alguns  annos,  no  castello  da  Foz;  o 
outro  ficou  livre  no  perdão  geral  por  morte  de  D.  José. 
Nunca  os  secretos  motivos  da  ruina  d'estes  dois  homens 
transpiraram.  A  voz  publica  ligou  o  acontecimento  ao  castigo 
dos  infantes  de  Palhavã,  e  ao  conflicto  em  que  se  dizia  fôrai 
ultrajado  o  primeiro  ministro  i.  O  inquérito  não  confirmou 
a  versão  nem  desvendou  o  mysterio;  mas  não  será  desrazoado 
conjecturar  que  os  fidalgos,  favoritos  do  infante,  tentassem, 
após  o  casamento,  realizado  dias  antes,  persuadi-lo  a  pronun- 


^     Cf.    a    nota   n.o    3,    pag.    225. 


37S         CULPAS  DE  DIOCK)  DE  .WENDONÇA  E  JOSÉ  DE   SEABRA 


ciar-se  em  opposição  a  Carvalho,  e  d'ahi  lhes  resultasse  a 
punição. 

Sobre  Diogo  de  Mendonça  Corte  Real  não  se  apoira 
muito  mais.  Este  ministro,  em  casa  de  quem  era  costume 
reprovar  os  actos  do  soberano,  adoptara  —  declarou  Pombal 
—  a  praxe  de  ir  ao  despacho  a  horas  descostumadas,  evi- 
tando ;•  presença  dos  collcgas.  Reparou  nisso  o  Rei,  2,  des- 
confiando de  certos  papeis,  mandou-os  examinar:  continham 
falsidades;  logo  ordenou  a  prisão  e  o  desterro  do  ministro 
infiel.  Assim.,  em  termos  vagos,  o  interrogado  explica  a 
desgraça  do  companheiro,  obra  sua  com  certeza.  A  razão 
verdadeira    íicou,    como    d'ant2s,    impenetrável. 

Outro  enigma  foi  a  sorte  de  José  de  Seabra,  confidente 
intimo,  ajudante  de  Pombal  na  secretaria  do  reino.  Tendo 
exercido  três  annos  este  cargo,  em  janeiro  de  1774  foi,  por 
ordem  do  Rei,  desterrado  da  corte,  preso  em  seguida  no 
castello  de  S.  João  do  Porto,  e  transferido  depois  para  as 
Pedras  Negras,  naquelle  tempo  o  mais  inhospito  presidio  át 
Angola.  Para  merecer  isso  o  que  fez?  Perguntado  sobre  o 
facto,  o  marquês  alheou  de  si  toda  a  responsabilidade.  Seabra 
era  para  elle  como  um  filho  adoptivo  e  meditava  faze-lo  seu 
successor.  Foi  o  cardeal  da  Cunha  o  que,  sabendo  isso,  por 
inveja  lhe  preparou  a  mina,  intrigando-o  com  o  monarcha, 
por  meio  de  anecdoias  indecentes  e  criminosas.  Que  anecdotas 
fossem  não  o  disse  Pombal.  Referiu  apenas  que,  em  seguida 
a  isso,  D.  José  pediu  uma  relação  dos  despachos,  assignados 
por  Seabra,  e  dias  depois  o  mandou  despedir. 

Esta  ultima  parte,  capciosa,  descobre  a  inimizade  de 
Pombal,  deixando  entender  que  alguma  cousa  se  encontrou 
nos  despachos,  em  desabono-  do  ministro  ajudante.  Nó* 
sabemos  em  que  conceito  o  tinha  aquelle :  o  homem  mais 
ingrato,  e  pérfido,  e  infame.  Se  enredos  houve  do  cardeal 
da  Cunha,  com  certeza  a  elles  não  foram  extranhas  as  ingra- 
tidões, as  perfidias,  as  infâmias,  que  o  primeiro  ministro 
tinha  a  vingar;  e  tudo  faz  crivei  a  versão,  que  davam  do 
caso   os   contemporâneos. 

Para  obstar  a  inevitavej  reacção  contra  a  sua  pessoa, 
por  morte  de  D.  José,  imaginara  Pombal  introduzir  no  reino 


o    MYSTERIO    DE    JOSÉ   DE  SEABRA  379 


a  lei  salica,  coagindo  a  herdeira  do  throno  á  renuncia  da 
coroa,  em  proveito  de  seu  filho,  o  príncipe  da  Beira;  e  decerto 
o  Rei,  que  não  amava  a  D.  Pedro,  veria  sem  desgosto  a 
mudança  na  ordem  da  successão.  Com  o  principe,  em  menor 
idade,  e  que,  rodeado  de  familiares  seus  —  o  bispo  Cenáculo 
preceptor,  o  conde  de  Oeiras,  camarista,  e  outros  mais  — 
queria  educar  na  submissão  aos  seus  dictames,  e  na  vene- 
ração do  seu  génio,  com  esse  continuaria  a  sua  politica;  ao 
menos  emquanto  vivo  fosse,  o  governo,  ambição  da  qual, 
reinando  a  princesa,  nenhuma  esperança  poderia  guardar.  Mas 
Seabra,  que  era  da  confidencia,  annullou  a  tentativa,  desco- 
brindo o  trama  á  Rainha  D.  Marianna  Victoria.  D'ahi  o 
imprevisto  desfavor,  e  o  castigo;  essa  a  ingratidão  e  a  per- 
fídia,  que  o  protector  trahido  lhe  não  perdoava  ^. 

Personagem  menos  considerável,  mas  que,  pela  papel 
que  um  instante  representou,  fez  interessar  por  seu  destino 
os  contemporâneos  e  as  pesquizas  da  historia,  foi  José  de 
Mascarenhas  Pacheco,  escrivão  da  famosa  alçada  do  Porto, 
em  1757.  Galardoado  com  adeantamentos  na  sua  carreira, 
indo  ao  Brasil,  em  1760,  em  missão  relativa  ao  sequestro 
de  bens  dos  jesuítas,  foi  encerrado,  ao  chegar  ao  Rio  de 
Janeiro,  em  uma  fortaleza,  de  onde  somente  sahiu  quando 
também  para  as  outras  victimas  do  rigor  pombalino  raiou 
a  liberdade,  D'esta  inesperada  mudança  do  favor  em  castigo, 


1  É  de  notar  que  o  próprio  Seabra  parece  negar  o  facto.  Ao 
regressar  a  Lisboa  do  degredo,  na  exposição  dirigida  a  D.  Maria  I 
dizia  o  seguinte:  «A  voz  publica,  que  não  costuma  perdoar  aos  que 
teem,  e  menos  aos  que  deixam,  o  alto  logar  que  o  supplicante  occu- 
pou,  clamou  pela  sua  innocencia;  e,  pela  maior  parte,  ainda  fora  de 
Portugal,  se  lhe  fez  o  favor  de  o  crer  réo  de  um  crime  honrado 
que  o  supplicante  não  commetteu,  porque  nunca  se  lhe  offereceram 
circumsíancias  de  ser  tal  delinquente».  Mas  logo  em  seguida  como  que 
se  contradiz:  «...quando,  em  summa,  e  esforçando-se  o  supplicante  em 
se  procurar  a  si  mesmo  delictos  contra  o  real  ser\'iço,  chega  de  al- 
gum modo  a  persuadir-se  que  não  teve  outros  que  os  que  lhe  for- 
mou o  publico,  sendo-lhe  favorável».  —  De  onde  se  poderá  deprehen- 
der  que  o  trama  realmente  existiu,  que  o  não  denunciaria  Seabra,  mas, 
suspeito  de  o  fazer,  seria  punido. 


380  DESEMBARGADOR    MASCARENHAS    PACHECO 


não  se  soube  então  o  motivo.  Almas  cândidas  imaginaram 
ser  a  expiação  das  protervias  do  Porto;  Pombal,  no  interro- 
gatório, destruiu  a  romântica  anecdota.  Segundo  disse,  José 
de  Mascarenhas  detivera-se  na  Bahia,  ao  tempo  em  que  lá 
se  encontravam  duas  esquadras,  uma  inglesa,  a  outra  fran- 
cesa; e,  como  o  desembargador,  conselheiro  ultramarino, 
personagem  de  categoria,  com  representação  official,  se 
desvelasse  com  os  franceses  em  attenções  que  não  dispen- 
sava aos  ingleses,  estes,  sempre  em  rivalidade  com  a  França, 
e  além  d'isso  alliados  de  Portugal,  dando-se  por  offendidos, 
destacaram  um  barco,  que  trouxe  ao  reino  queixa  d'aq,iielle 
procedimento.  Em  razão  d'isso,  D.  José  para  dar  satisfação 
ao  governo  britannico,  mandara  prender  o  leviano  Masca- 
renhas, conservando-lhe  todavia  os  ordenados.  A  isso  recres- 
cea  porventura  a  suspeita  de  entendimento  para  actos  de 
traição  com  os  franceses,  de  cujos  intentos  sobre  o  Brasil 
desconfiava   Pombal  i. 

Qualquer  que  fosse  a  causa,  o  prisioneiro  como  Seabra, 
não  imputou  nunca  ao  ministro  as  suas  infelicidades.  Vol- 
tando do  Brasil,  foi  um  dos  seus  primeiros  cuidados  ir  visi- 
ta-lo ao  desterro,  dizendo  em  seguida  que  «obrigado  estava 
ao  m.arquês  antes  da  sua  prisão,  e  ultimamente  em  Pombal»  '2, 
tal   foi  o   acolhimento,   que   do  seu  antigo  protector  recebeu. 

Em  gerai,  nos  pontos,  obscuros,  sobre  que  o  interro- 
gatório versou,  não  tiveram  os  juizes  satisfação  completa. 
D'€sta  artCj  todas  as  tentativas  para  esclarecer  os  mysterios 
do    reinado,    sahiram    baldadas.    O    segredo   das    inexplicadas 


^  Assim  deixa  entender  o  officio  do  ministro  da  marinlia  ao  con- 
de de.  Bobadella,  governador  do  Rio  de  Janeiro,  de  14  outubro  1761. 
Archivo  de  Marinha  e  Ultramar,  na  Bibl.  Nac. :  «S.  M.  teve  certas  e 
evidentes  provas  de  que  03  francezes,  que  estiveram  nesse  porto  alo- 
jados (em  1757)  procura!"ão  e  conseguiram  tirar  informações  e  deixar 
estabelecidas  correspondências  nessa  Capitania».  O  facto,  anterior  ao 
da     Bahia,    justificaria     a    presumpção     contra    José    Mascarenhas. 

-'  Carta  de  conde  de  Oeiras  ao  marquez,  14  junho  1780.  Na  mes- 
ma p&rticipa  que  José  Mascarenhas  desistira  da  causa  que  andava  plei- 
teando sobre  a  quinta  de  Santorum,  em  poder  de  Pombal,  por  saber 
o    goste    que    nessa    propriedade    elle    tinha. 


o  FILHO  DE  POMBAL  NA  CORTE  3S1 


violências    ficava    com    o   soberano    desapparecido,    e    com    o 
ministro  que  em  breve  ia  segui-lo  á  mansão  do  eterno  ignoto. 


V 


Dia  a  dia  se  aggravava  a  enfermidade  e  declinavam  as 
forças  de  Carvallio.  Os  interrogatórios  gastavam-lhe  o  resto 
da  energia,  baniam  toda  a  esperança  de  ailivio.  Davam-lhe 
os  juizes  curto  respiro  quando  prostrado  pelo  excesso  das 
dores,  ou  era  mais  profunda  a  depressão  moral ;  mas,  de 
dois  €m  dois  dias,  voltavam  por  noticias  e,  desconfiados, 
chegavam  a  ir  vê-lo  á  cama,  para  ao  primeiro  recobro  conti- 
nuarem. O  infeliz  conheceu  então  o  desespero  d'aquelles  que, 
em  tanto  numero,  votara  ás  gehennas,  e  no  excesso  das 
dores  physicas  pensou  acaso,  em  taes  momentos,  padecer 
tanto  como  o  pretenso  assassino  Pele,  dilacerado  pelos 
cavallos,  ou  José  Maria  de  Távora,  a  bramir  no  ecúleo  a 
sua  innocencia. 

A  piedade,  que  mandava  pedir,  ninguém  lha  concedia. 
Em  nenhuma  parte  um  amigo,  um  protector,  uma  égide.  O 
filho,  que  na  corte  exorava  contemplação  para  um  velho  a 
debater-se  na  agonia  da  doença  e  na  aiflicção  dos  mais  sen- 
síveis golpes  moraes,  lastimava-se  referindo  que  a  Rainha 
€  o  Rei  o  receberam  com  secciíra ;  o  arcebispo  (de  Thessa- 
lonica,  confessor  e  conselheiro  principal  de  Maria  I,  o  ver- 
dadeiro poder  do  Estado),  com  desabri mento ;  e  a  própria 
Rainha  mãe  se  limitara  a  dizer-lhe  que  sentia  muito  nchar-se 
o  marquês  tão  doente.  Doesta  ultima,  em  cuja  solicitude  puzera 
toda  a  esperança.  Pombal  era  obrigado  a  reconhecer  que 
já  estava  ganha  por  seus  inimigos.  Quanto  aos  outros  desaba- 
fava: «El-Rei  quer  vingar  a  extincção  dos  jesuítas,  cujo 
espirito  se  lhe  introduziu  pela  educação  e  convivência  de 
tantos  annos. . .  O  arcebispo  e  o  marquês  de  Angeja  (primeiro 
ministro),  depois  de  me  terem  offendido  e  ultrajado,  temem 


382  APPREHENSÕES   TRISTES   DO  MARQUES 


a  minha  existência  neste  mundo,  muito  mais  do  que  antes 
a  temiam...»  Depois,  em  uma  crise  de  raiva:  «Está  decidido 
entre  os  conjurados  que  na  minha  morte  consistirá  o  seu 
socego,  que  sem  ella  se  não  poderá  contentar  o  ódio 
e  o  rancor  de  não  terem  assassinado  o  senhor  Rei  D.  José, 
para  ficarem  governando  como  hoje  governam,  desde  a  noite 
de  3   de  setembro  de    175S»  ^ 

Âs  tristes  apprehensões  do  futuro  o  conde  de  Oeiras 
respondia,  buscando  tranquilliza-!o:  «O  que  sei  que  é  certo 
é  que  não  resultará  outra  cousa  mais  do  que  amofinar  a 
V.  Ex.a»  -.  E  logo  em  seguida:  «Posso  affirmar  a  V.  Ex.a 
que  tudo  isto  ficará  por  aqui»  ^  Como  lhe  annunciasse  que 
a  Rainha,  finalmente  compadecida,  ia  mandar  recolher  k>s 
juizes,  o  marquês,  incrédulo  e  sempre  temeroso,  retorquia: 
«Pouco  importa  que  cessem  as  perguntas  em  Pombal,  se  a 
ellas  se  vai  seguir  um   processo  de   Estado  em   Lisboa:')  4. 

O  fatal  dia  15  de  janeiro,  ultimo  do  inquérito,  passara. 
Então,  livre  da  inquietante  presença  dos  juizes,  Carvalho  reco- 
bra-se  um  pouco.  Inconsciente,  no  senil  apego  á  vida  e  ao 
socego,  nenhuma  humilhação  já  lhe  repugna ;  volta  a  gemer 
e  a  supplicar.  Novamente  manda  solicitar  á  Rainha  pelo 
conde  de  Oeiras ;  escreve  ao  arcebispo  confessor,  de  quem 
dias  antes  tanto  se  aggravava,  a  rogar  que  por  elle  interceda, 
pois  que  «a  Rainha  não  ha-de  esquecer  que  é  a  filha  e 
neta  dos  dois  Reis  que  tanto  e  tão  distinctamente  quarenta 
annos  o  honraram  no  seu  real  serviço»  s.  Insensivel  ao  trágico 
da  soena  final  com  os  juizes,  nella  põe  a  esperança  de  salvação: 
«A  minha  ultima  resposta  dada  a  José  Luiz  da  França,  em  15 
do  corrente,  e  a  carta  que  acabo  de  escrever  ao  arcebispo, 
poderão  pôr  um  termo  a  todas  as  diabruras»  e.  Passadeira 
illusão,  que  as  mesmas  angustias  do  passado  breve  substituiam. 


*  Carta    ao    conde    de    Oeiras,    5    janeiro    1780. 
2  Idem,    id. 

"  Idem,    ò    janeiro    1780. 

*  5    janeiro    1780. 

5  18    janeiro    1780. 

e  IQ    janeiro    1780. 


PREPARA-SE     A     REHABÍLITAÇÃO     DOS     TAVORAS  383 


Os  herdeiros  dos  Tavoras  tinham  sahido  das  prisões 
pubhcando  a  sua  innoccncia,  e,  illibados  os  vivos,  tentavam 
rehabilitar  as  victimas  de  Belém.  Iniciara-se  o  processo  de 
revista,  ie  esses  mortos,  que  ameaçavam  resurgir  das  cinzas 
dispersas,  amedrontavam  em  extremo  a  Pombal,  que  já  os 
via  a  elles  sem  macula,  e  se  olhava  a  si  próprio  culpado  na 
sentença  proferida  ^.  Já  receando  o  peor  dizia  agora:  «Eu 
também  não  receberei  grande  admiração  de  ter  aqui  uma 
segunda  visita,  mais  atroz  do  quje  a  de  José  Luiz  França, 
para  me  levarem,  para  onde  lhes  parecer,  a  pau  e  corda, 
porque  não  poderei  ter  outra  forma  de  transporte,  no  estado 
em   que  presentemente   me  acho». 

Os  jesuítas,  (eternos  inimigos,  emergiam  também,  gasa- 
Ihados  e  com  a  prot€cção  do  Estado.  Dos  cárceres,  onde, 
no  longo  captiveiro,  setenta  e  um  d'elles  haviam  succumbidp, 
surdiram  cincoenta  e  cinco,  a  maior  parte  da  torre  de  S.  Julião, 
Logo,  ao  padre  Thimoteo  de  Oliveira,  que  fora  confessor 
da  Rainha,  se  arbitrou  uma  pensão  de  duzentos  mil  réis,  ^ 
subsidio  inferior  a  outros  menos  graduados.  O  numero  de 
padres  portugueses,  no  Estado  romano,  orçava  por  mil, 
repartidos  por  vários  alojamentos  e  districtos.  Desde  a  morte 
do  Rei,  o  governo  proveu  á  sua  manutenção,  com  cem  mil 
cruzados  annualmente,  e  o  ministro  em  Roma  prestava-lhes 
protecção,  como  aos  demais  súbditos.  Na  turba  dos  exilados, 
estes  actos  de  benevolência,  €  as  noticias,  que  de  Lisboa 
chegavam,  accendiam  loucas  esperanças  de  rehabilitação  e 
desforra.  Corria  entre  elles,  e  propagou-se  na  Europa  que, 
a  diligencias  de  Maria  I,  o  breve  da  extincção  seria  revo- 
gado. Muitos  pensaram  em  voltar  á  pátria.  Partiram  seis  por 
primeiro;  e  intimados,  quando  chegaram,  a  sahir  do  reino, 
ficaram,  por  tácito  assentimento  das  autoridades.  Outros 
foram  clandestinamente  chegando,  mas  o  maior  numero,  sem 
recursos  para  a  viagem,  nem  meios  de  subsistência  em  Por- 
tugal, terminaram  a  vida  nos  logar^  aonde  a  sanha  do  seu 
perseguidor  os   tinha   arrojado. 


1     27    maio    1780. 


3S4  PREPARA-SE  A  REHABILITAÇÃO  ÍXIS  JESUÍTAS 


Iniciada,  a  requerimento  do  marquês  de  Alorna,  um  dos 
resurgidos  da  Junqueira,  a  revista  do  processo  dos  Tavoras, 
entenderam  os  jesuitas  que  também  para  elles  batera  a  hora 
da  justificação.  Em  outubro  de  1780,  entregaram  a  D.  Pedro 
III,  constante  patrono  seu,  para  dar  á  Rainha,  um  memorial 
em  réplica  ás  accusações  que,  por  mais  de  vinte  annos 
Pombal  contra  elles  proferira.  Dois  volumes  ///  folio  occupa 
a  extensa  apologia,  destinada  a  conseguir  a  annullação  do 
decreto  de  exilio,  que  abrangia  a  todos,  e  a  publicação  da 
innocencia  dos  três  sócios,  que  a  sentença  de  1759  dera  por 
cúmplices  no  attentado  contra  o  Rei.  Simultaneamente  o 
padre  Thimoteo  de  Oliveira  apresentava  uma  relação  de 
treze  artigos,  sobre  os  quaes  requeria  se  interrogasse  o 
ministro  no  processo.  Entre  elles :  porque  motivo  não  foram 
os  jesuitas,  suppostos  cúmplices  na  conjuração  dos  Tavoras, 
—  Malagrida,  João  de  Mattos  e  João  Alexandre  —  interro- 
gados e  acareados  com  os  outros  réos?  porque  motivo,  nove 
annos  depois,  na  Deducção  chronologica,  são  incriminados 
mais  três  —  José  Perdigão,  Jacintho  da  Costa  e  Thimoteo 
de  Oliveira  —  que  a  sentença  não  mencionou?  porque  motivo 
deixou  de  se  tomar  a  retractaçãoi  do  duque  de  Aveiro,  que 
renegou  as  declarações  contra  os  parentes  e  contra  os 
jesuitas  ? 

Corria  então  como  certíssimo,  todavia  jamais  se  provou, 
ter  o  duque  affirmado  ao  defensor,  e  ao  religioso  que  o 
confessou,  serem-lhe  as  falsas  denuncias  extorquidas  na 
agonia  dos  tratos.  Isso  mesmo  tinha  declarado  aos  juizes, 
que   o   não   attenderam  i.   D'aqui   tiravam  os  jesuitas   a   prin- 


^  Uma  carta  de  Lisboa,  para  certo  jesuíta,  em  outubro  de  1785, 
refere  que,  na  occasião  do  processo,  «indo  o  procurador  dos  réos,  des- 
embargador Eusébio  Tavares,  a  propôr-lhes  que  insinuassem  o  que  ti- 
nham que  allegar  em  sua  defesa,  este  lhe  dissera  ter  commettido  o 
mais  enorme  e  execrando  delicto,  parque  na  confissão,  que  com  o  medo 
dos  tratos  fizera,  culpara  e  infamara  aos  fidalgojs  e  jesuitas...  Tendo 
ouvido  esta  protestação,  o  procurador  lhe  disse  que  a  devia  fazer  aos 
mesmos  juizes,  que  lhe  receberam  a  sua  falsa  e  calumniosa  confissão; 
ao   que   logo    repoz  o   duque   que,   entrando  Sebastião   José   poucos  dias 


MALLOQRO    DOS    JESUÍTAS  3S5 


cipal  defesa,  que  a  Rainha  de  bom  grado  lhes  admittiria.  Mas 
havia  de  contrasta-las  a  geral  animadversão  que,  por  um 
passado  de  insolente  predomínio,  e  tantos  annos  de  insistentes 
accusações,  para  com  elles  existia,  e  com  a  qual  o  governo 
temia  defrontar-se.  Por  outra  parte,  a  corte  de  Madrid  de 
certo  acharia  displicente  qualquer  demonstração  de  excessivo 
favor  áquelles  que  havia  pouco  anniquillara,  e  já  o  seu  repre- 
sentante, marquês  de  Almodovar,  fizera  sobre  a  espécie  recla- 
mações. Não  se  deu  por  isso  seguimento  ás  supplicas 
d'aquelles  que  realmente  existiam  fora  da  lei.  Pombal  podia 
por  este  lado  ficar  tranquillo.  Mas  as  noticias,  que  lhe  trans- 
mittiam  dos  factos,  os  boatos  que  em  torno  d'estes  se  urdiam, 
mais  lhe  aceravam  a  irritação  e  o  propelliam  ao  desanimo. 
Caminhava  no  emtanto  o  seu  processo.  Os  juizes  ouviam 


antes  no  seu  cárcere  com  o  escrivão,  fizera,  como  era  obrigado,  a 
sua  retractação;  e  que  ao  tempo  que  o  escrivão  já  tinha  escripto  duas 
folhas  de  papel,  entrara  Pedro  Gonçalves  Cordeiro,  e  perguntara:  Que 
é  isto  que  se  está  escrevendo?  Respondeu  Sebastião  José:  É  '.ima  re- 
tractação da  confissão,  que  o  réo  antes  tinha  feito.  —  Nada,  noda, 
disse  c  Cordeiro;  tal  retractação  nada  vale,  nem  deve  ser  recebida, 
porque  a  confissão  foi  espontânea  ^  não  extorquida  na  tnrtura.y>  (Murr, 
Journal    cit.,    XIV,    1787.    pag.    306    e    307.) 

O  facto  e  confirmado  pelo  depoimento  do  desembargador  Eusébio 
Tavares,  no  processo  de  rehabilitação  dos  Tavoras,  agora  trazido  á  luz 
f}elo  diligente  investigador  Jordão  de  Freitas  no  jornal  a  Época,  nú- 
meros de  13  a  17  de  Maio  de  1922.  Segundo  a  testemunha,  dissera- 
Ihe  o  duque  sobre  as  accusações  aos  fidalgos  incriminados  e  aos  je- 
suítas que  lhes  levantara  falso  testemunho  e  os  levava  a  todos  atraves- 
sados na  garganta.  Do  mesmo  depoimento  consta  haver  o  desembarga- 
dor Oliveirr.  Machado  feito  a  declaração  de  que  o  duque  não  levara 
tratos,  mas  conduzido  ao  logar  d'elles  o  terror  bastou  para  lhe  arran- 
car   as    confissões. 

Latino  Coelho,  na  Historia  política  e  militar  de  Portugal,  I,  366, 
dá  noticia  de  uma  declaração  escripta,  do  religioso  fr.  Manoel  de 
S.  Boaventura,  que  com  outro  carmelita  assistiu  aos  últimos  momentos 
do  duque,  ouvindo  da  sua  boca  que  só  elle,  e  sem  que  mais  nin- 
guém soubesse  do  intento,  tentara  a  morte  de  D.  José.  Ao  historiador 
pareceu  authentico  o  papyel,  que  existe  na  collecção  de  manuscriptos  da 
Academia    Real   das    Sciencias. 

o    MARQUÊS     DE     POMBAL     E     A     SUA     ÉPOCA  —  25 


386  CRUCIANTE  MARTYRIO  DE  POMBAL 


as  testemunhas,  apreciavam  os  interrogatórios  effectuados  em 
Pombal.  As  conferencias  repetiam-se  sem  que  nada  transpi- 
rasse das  discussões.  O  accusado,  como  é  de  imaginar,  con- 
templava em  anciãs  qual  seria  a  decisão  final.  «Parece-me 
—  dizia  a  lastimar-se  —  cousa  insuperável  que  no  grande 
numero  die  ministros  que  se  teem  introduzido  nas  juntas,  que 
ahi  dizem  que  se  inventaram  para  mais  me  atormentarem, 
deixe  de  haver  a  maior  parte  d'elles  que  se  lembrem  de 
que  ha  Deus,  de  que  ha  céo  e  inferno,  de  que  ha  honra  e 
reputação,  que  uma  vez  perdidas  se  não  podem  mais 
restaurar»  i. 

Entretanto,  prolongava-se  a  expectativa  do  marquês  e 
do  publico,  sem  que  nenhuma  resolução  viesse  a  lume, 
Deixou-se  mesmo  de  falar  no  processo.  O  que  attrahia  as 
attenções  então  era  a  rehabilitação  dos  Tavoras.  Decorreu 
um  anno,  em  que  Pombal,  nas  curtas  remissões  das  dores 
physicas,  descansava  arrazoando  para  o  procurador  as  causas 
forenses,  ainda  numerosas,  que  lhe  ameaçavam  o  património. 

Mas  a  doença  proseguia  implacável,  com  a  tortura  na 
ardência  das  chagas,  e  a  visivel  destruição  dos  tecidos,  nas 
rubras  empolas  a  desatarem-se  em  pus.  Cada  vez  era  maior 
o  quebranto  das  forças.  «Presentemente  me  acho  quasi  de 
todo  entrevado,  sem  poder  pôr  os  pés  no  chão,  nem  susten- 
tar-me  sobre  as  pernas»,  mandava  dizer  no  mês  de  maio. 
Em  outra  carta  descreve  o  seu  estado:  «Coberto  de  pústulas 
nos  pés,  pernas  e  corpo,  que  me  não  deixam  socegar,  com 
as  dores  e  comixões  que  me  causam;  um  carbúnculo  que 
me  sobreveio  sobre  a  espádua  esquerda,  que  me  não  per- 
mitte  estar  deitado  senão  do  outro  lado:  ^^  tal  era  o  dissolver 
do  misero  envolucro  d'aquella  alma  attribulada.  Para  lhe 
mudarem  a  cama,  fétida  dos  soros  purulentos  e  das  dejecções 
mal  contidas,  tomavam-no  os  creados  a  pulso  para  um  canapé. 
«Em  vinte  e  quatro  horas  —  conta  uma  testemunha  ocular  — , 


^     Carta  ao  conde  de  Oeiras,    23  junho   1780. 
a     2*    maio    1780. 


UM    AMIGO    DE    POMBAL  387 


poucas  vezes  tem  mais  de  duas  de  descanso»  ^.  Hediondo 
martyrio,  cuja  dantesca  atrocidade  não  suspeitou  Camillo  ao 
escrever  a  piírase  vingadora:  «Morreu  impune  o  marquês, 
coçando  socegadamente  a  sua  lepra>\  Não!  No  corpo  e  na 
alma,  as  fúrias  todas  dilaceravam  a  golpes  vehementes 
aquella   vida. 

Na  esperança  de  allivios  pensava  o  desterrado,  em  prin- 
cipio da  enfermidade,  ir  áz  Caldas,  mas  lôra-lhe  a  autorização 
negada  pelo  governo.  Agora  precisaria  fugir  de  Pombal,  covil 
de  febres,  que  lhe  complicavam  a  fraqueza.  Em  S.  Martinho, 
perto  de  Coimbra,  tinha  posto  á  disjxjsição  d'elle  uma  quinta 
da  mitra  o  bispo  D.  Francisco  de  Lemos  que,  morrendo 
D.  Miguel  da  Annunciação,  reassumira  o  cargo,  exercido 
durante  o  seu  captiveiro.  Era  dos  últimos  e  poucos  amigos, 
que  a  Car\alho  restavam,  e  ainda  o  provou  quando,  em 
desafio  á  geral  malquerença,  não  trepidou  de  lhe  honrar  as 
exéquias,  com  a  pompa  do  báculo.  Mas  a  debilidade  extrema 
do  doente  não  permittia  o  transpoi^e,  e  as  húmidas  paredes 
do  casarão  de  Pombal  foram  as  que  até  ao  fim  abafaram  os 
brados  das  suas  cóleras  e  os  gemidos  das  suas  dores. 


VI 


Transcorreu  mais  um  melancólico  inverno,  renovaram-se 
as  campinas,  e  pelas  vidraças  Pombal  via  reverdecerem  as 
arvores;  o  verão  chegou  radioso,  enchendo  de  sol  o  quarto, 
onde  as  alegrias  da  natureza  não  encontravam  reflexo.  Em 
tamanho  tempo  o  processo  fora  como  que  esquecido.  Da 
corte  não  vinham  novas,  a  preoccupação  do  enfermo  era  só 
por  manter  a   casa  esplendida,   que  aos  seus  intendia   legar. 


1     Carta    do    cirurgião    Quaglia.    Z.     Brandão,    Marquez    de    Pom- 
ba!,   116. 


3S8       A  RAINHA    PRONUNCIA  A  CONDEMNAÇÃO  DE   POMBAL 

O  punho  debil  mal  garatujava  a  firma  nas  recommendações 
dictadas,  para  os  filhos  e  procuradores,  sobre  a  administração 
das  propriedades,  para  o  advogado,  sempre  activo  nos  inter- 
mináveis le  complicados  pleitos.  A  espaços,  referencias  aos 
negócios  públicos,  e  sobre  elles  os  acerbos  juizos  do  politico 

Súbito,  no  mês  de  agosto  (1781)  sahiu  á  luz  o  affrontoso 
decreto,  declarando  Pombal  réo  e  merecedor  de  um  exemplar 
castigo.  A  Rainha,  todavia,  lembrando-se  mais  da  clemência 
que  da  justiça,  em  attenção  á  edade  e  ás  doenças,  e  porque 
o  marquês  lhe  pedira  perdão,  remettia-lhe  as  penas  corporaes, 
confirmando  porém  o  desterro,  e  os  direitos  que  por  parte 
da  fazenda  real  de  futuro  se  provassem.  Dos  juizes,  cujo 
laudo  serviu  de  base  á  decisão,  dois  tinham  sido  da  con- 
fiança intima  do  marquês:  José  Ricalde  Pereira  de  Castro, 
e  o  procurador  da  coroa,  Azeredo  Coutinho,  ambos  da 
commissão  de  reforma  da  Universidade,  ambos  com  o  nome 
vinculado  á  nefanda  sentença,  dictada  pelo  mesmo  que  agora 
votavam  á  deshonra  e  ao  castigo,  contra  o  infeliz  Pele,  por 
vagas   suspeitas    trucidado. 

Com  a  tardia  resolução  regia,  que  somente  o  infamava, 
deixando-lhe  a  curta  e  miseranda  vida.  Pombal,  já  indiffe- 
rente  a  tudo  que  não  fosse  a  dôr  physica  ou  a  perda  da 
fortuna,  despedido  de  orgulhos,  sem  esforço  se  conformou. 
Ninguém  da  familia,  ao  menos  na  apparencia,  se  sentiu  laggra- 
vado.  Nem  o  filho,  eonde  de  Oeiras,  nem  o  genro,  morgado 
de  Oliveira,  ambos  aulicos,  devolveram,  num  Ímpeto  de 
desaffronta,  as  chaves  de  ouro  de  camaristas.  O  primogénito, 
herdeiro  do  titulo,  satisfeito,  escrevia:  «O  ultimo  decreto 
f€chou  a  porta  a  todos  os  procedimentos».  E  o  pae,  esque- 
cido das  misérias  do  interrogatório,  convicto  de  que  se  havia 
justificado:  «Sendo  eu  ouvido  não  será  facil  provar  contra 
mim  cousa  que  me  faça  carga,  porque  nada  obrei  que  não 
fosse  debaixo  das  ordens  de  El-Rei»  ^.  Continuava  a  suppôr-se 
defendido  com  a  traça  que,  nem  para  os  juizes,  dispostos  a 
condemnar,   nem   para   a   posteridade   desprevenida   valeu. 


1     6    outubro    1781. 


ÚLTIMOS    DIAS   E   MORTE   DE    POMBAL  389 


Em  Lisboa,  a  lenidade  da  soberana  escandalizava  os 
rancores.  Ao  mesmo  tempo  recusava-se  a  evidente  justiça  aos 
manes  dos  Tavoras,  absolvidos  pelo  tribunal  de  revisão.  Os 
ecos  da  indignação  publica,  chegando  á  beira  do  enfermo, 
mal  o  podiam  abalar.  A  clemência  real,  lenta  a  pronunciar-se, 
talvez  na  esperança  de  que  se  anteciparia  a  morte  á  sentença 
dos  homens,  fora  um  dom  vão.  Alguns  meses  mais  de  mar- 
tyrio  e   extinguia-se-lhe   a  vida  a  8  de   agosto  de  1782. 

No  dia  12  transportou-se  o  corpo  embalsamado  á  egreja 
dos  Capuchos  na  villa.  Tinham-lhe  feito  autopsia.  O  coração, 
que  abrigara  tantos  ódios,  hypertrophiado,  era  enorme:  o 
cérebro,  onde  nasceram  as  ambições,  taml>cm  volumoso.  Ãs 
exéquias,  com  o  bispo  de  Coimbra,  antigo  reitor,  concorreram 
lentes  da  Universidade,  o  primeiro  como  amigo  provado, 
estes  em  preito  á  memoria  do  reformador.  Dos  logares  con- 
vizinhos  acudiu  povo  em  multidão,  attrahido  pela  solemnidade, 
única  em  pompa  naquelles  redores.  Orou  o  benedictino  frei 
Joaquim  de  Santa  Clara,  exaltando  as  virtudes  e  merecimentos 
do  morto,  e  foi  transferido  para  Tibães,  em  castigo  de  haver 
dito  d'elle  aquillo  mesmo  que,  em  outros  tempos,  tantos  apre- 
goavam do  vivo.  A  homenagem  posthuma  ao  homem,  que 
se  sumira  abysmado  em  tantos  ódios,  irritou  o  ministério  e 
a  opinião.  O  espirito  de  mesquinha  vingança  tripudiou  ainda 
sobre  o  cadáver.  Âs  honras  derradeiras  responderam  novos 
libellos.  O  governo  não  consentiu  que  a  familia  transportasse 
para  o  jazigo  em  Lisboa,  na  egreja  das  Mercês,  o  corpo  que 
ficou  por  isso  em  Pombal. 

Dos  successores  nenhum  sahiu  a  vindicar-lhe  a  memoria. 
Herdavam  a  casa  e  o  nome,  mas,  no  intimo,  renegavam  o 
grande  antepassado.  A  hostilidade  aos  poderes  da  Egreja 
importava  tacha  indelével  na  estirpe  nobre,  e  convinha  deixar 
que  o  tempo  a  delisse.  Com  o  sangue  dos  Carvalhos  con- 
fundia-se  o  dos  Tavoras  e  o  de  José  de  Seabra,  o  pérfido 
e  infame.  O  terceiro  marquês  de  Pombal,  repellido  consorte 
de  Isabel  de  Sousa,  desposara  uma  filha  de  Nuno  de  Távora, 
preso  nos  cárceres  da  Junqueira;  uma  filha  do  morgado  de 
Oliveira,  conde  de  Rio  Maior,  uniu-se  depois  ao  primogé- 
nito  de   Seabra.   Transmutara-se   tudo,   e  do  passado  perma- 


390  A    LENHA    BÕ    MARQUES    DE    POMBAL 

necia  viva/  na  descendência  somente  o  culto  do  monarcha, 
dispensador  supremo  das   honras  e  das  graças. 

Com  os  principios  a  que  deveu  a  sua  fama  ficaram  as 
cinzas  do  estadista  ao  abandono  lem  Pombal.  Em  1811,  pas- 
sando os  franceses,  com  a  ferocidade  de  que  em  toda  a 
parte  deixaram  vestígios  as  suas  armas,  arrombaram  o  sarco- 
phago,  -e  despojaram  o  esqueleto.  Mão  piedosa  juntou  os 
ossos  e  cerrou  a  lousa  novamente. 

Tinham-se  aquietado  as  paixões,  e  sobre  o  discutido 
nome  pairou  silencio  de  muitos  annos.  Rompeu-se  depois, 
e  Pombal  resuscitou  na  lenda,  em  toda  a  grandeza  que  os 
lisonjeiros  lhe  attribuiram  durante  o  poder.  Deformado  o 
seu  génio,  transfigurou-se  o  torvo  déspota  em  corypheu  da 
liberdade. 


NDICE 


índice 


Preliminar 7 

CAPITULO    I 

A    EMBAIXADA    DE    LONDRES 

1.  Antecedentes  e  partida  do  ministro.  Situação  de  Portugal  perante 
a  Hespanha  e  a  Inglaterra.  Guerra  da  Successão  de  Áustria.  — 
II.  Soccorro  pedido  para  a  Índia.  Violações  de  neutralidade 
pelos  ingleses.  Reclamações  desprezadas.  —  III.  Colónia  do  Sa- 
cramento. Receios  de  invasão  pela  Inglaterra.  Idéas  de  Carva- 
lho sobre  os  judeus.  —  IV.  O  governo  britannico  prohibe  a 
exportação  de  trigo.  Protesto  e  opiniões  de  Carvalho.  Desaven- 
ças populares  entre  portugueses  e  ingleses.  Mais  violações  de 
neutralidade.  —  V.  Memorial  sobre  o  commercio  e  relações  com. 
a  Inglaterra.  —  VI.  Carvalho  projecta  uma  companhia  para  a 
Índia.  Proposta  ao  cardeal  da  Motta.  —  VII.  Caracter  da  cor- 
respondência de  Carvalho.  Suas  idéas  sobre  a  Constituição  in- 
glesa. Sobre  o  espirito  de  iniciativa  e  a  cubica  do  povo  in- 
glês. Sobre  a  missão  de  um  diplomata  na  Inglaterra.  —  VIII 
Resumo  das  negociações  emprehendidas.  Influencia  do  meio  no 
espirito  do  ministro 9 

CAPITULO    II 
MISS.ÃO  A  VIENNA 

I.  Ccnflicto  de  Maria  Theresa  com  a  corte  de  Roma.  Intervenção  de 
D.  João  V.  Carvalho  é  mandado  a  Vienna.  Mallogro  da  compa- 
nhia para  a  Índia.  —  11.  Viagem  de  Carvalho.  Eleição  do  Im- 
perador  em.    Francfort.    Difficuldades    que   encontra  o    Enviado    á 


394  ÍNDICE 


mediação.  —  III.  Segundo  casamento  de  Carvalho.  Primeiros 
filhos:  Adão  e  Eva.  —  IV.  Novos  incidentes  entre  a  Impera- 
Iriz  e  a  Cúria.  Desgostos  de  Carvalho  com  o  Enviado  português 
em  Roma.  A  cbrôa  de  milhos  de  Soure.  —  V.  Hostilidade  á 
intervenção  portuguesa.  Carvalho  é  reprehendido  de  Lisboa.  Pede 
dispensa  do  cargo.  —  VI.  Morte  de  Filippe  V.  Portugal  me- 
dianeiro entre  a  Hespanha  e  a  Áustria.  Entre  a  Hespanha  e 
a  Inglaterra.  Fracasso  das  negociações.  —  VII.  Renova-se  a 
mediação  para  com  Rom.a.  Caso  do  Eleitor  de  Moguncia.  — • 
VIII.  Embaraços  financeiros  de  Carvalho.  Presente  da  coroa 
britannica  recusado.  Dadiva  do  Eleitor  de  Moguncia.  —  IX.  In-' 
trigas  de  Pereira  de  Sampaio.  Encerrabodes  embaixador  em  Lon- 
dres.  Fim  da   missão  e   regresso  de   Carvalho 45 


CAPITULO    III 
O    NOVO    REINADO 


1.  Estado  mental  da  sociedade  portuguesa  no  século  XVI II.  Influencia 
do  mesmo  no  espirito  de  Carvalho.  Influencia  do  que  viu  no 
extrangeiro.  —  II.  Carvalho  mal  recebido  em  Lisboa.  Morte  de 
D.  João  V.  D.  José  escolhe  os  ministros.  Resentimento  de 
Alexandre  de  Gusmão.  —  III.  A  administração  nova.  Decisão 
sobre  as  minas  do  Brasil.  Alexandre  de  Gusmão  reprimido.  — 
IV.  Resoluções  sobre  o  tabaco  e  o  assucar.  .A.  mineração  dos 
diamantes.  Episodio  do  contratante  Caldeira  Brani.  —  V.  Os 
hebreus  e  o  oommercio  das  pedras  preciosas.  Providencias  acerca 
d'elle.  —  VI.  Legislação  sobre  as  frotas.  Empresa  de  nave- 
gação   para    a    Índia 87 


CAPITULO  IV 
A    CORTE    E    AS    FACÇÕES 

í.  Hábitos  da  corte  portuguesa.  .\s  duas  rainhas.  Juízos  sobre  Carva- 
lho. Lentidão  das  decisões  ministeriaes  e  suas  causas.  —  II. 
Inicie  feliz,  do  novo  governo.  Carvalho  e  Pedro  da  Motta.  Os 
descontentes.  Procedimentos  contra  os  nobres.  Os  funccionarios. 
O  grupo  clerical.  —  III.  Os  jesuítas  no  Pará-Maranhão.  A 
escravidão    dos    indigeaas.    Variações    dos    jesuítas.    —    IV.     Inter- 


índice  395 


venção  do  Sirnimo  Pontífice.  Esforços  de  um  colono  contra  os 
missionários.  Tratado  de  limites  na  America.  Desagrado  que 
causa  em  Madrid  e  Lisbf)a.  —  V.  As  sete  reducções  do  Uru- 
guay.  Rebellião  dos  Índios.  Opposição  ao  tratado  no  Pará.  — 
VI.  Xavier  de  Mendonça  propõe-se  libertar  os  indígenas.  Pro- 
jecta uma  Companhia.  Cria-se  a  do  Grão-Pará  e  iVlaranhão.  Pro- 
testo do  commercio  lesado.  Os  jesuítas  guerreiam  a  Companhia. 
Carvalho    reprime    as    reclamações    . 117 


CAPITULO    V 

O  TERREMOTO 

A  catastrophe.  Perdas  materiae^.  Actividade  de  Car\'alho.  Soccorros 
do  extrangeiro.  —  II.  Intervallo  de  hostilidades.  Impressão  do 
terremoto  no  resto  da  Europa.  Goethe  recorda-o  nas  suas  Memo- 
rias. Influencia  do  fanatismo.  A  Junía  da  Providencia.  Martinho 
Velho  Oldemberg  conspira  contra  Carvalho.  Libello  escandaloso 
de  Teixeira  de  Mendonça.  —  I!I.  Intervenção  dos  barbadinhos 
italianos.  Carvalho  vinga-se  dos  conspiradores.  Desgraça  de  Diogo 
de  Mendonça  Corte  Real.  —  Terror  da  população  que  Mala- 
grida  alimenta  com  suas  pregações.  O  Juizo  da  verdadeira  cansa 
do  terremoto.  Castigo  do  seu  autor.  —  V.  Sedição  no  Porto 
contra  a  Companhia  dos  Vinhos.  Cruel  repressão  ordenada  por 
Carvalho.  Josc  Mascarenhas  Pacheco  escrivão  da  alçada.  Prisão 
posterior  d'este  magistrado.  —  VI.  Os  jesuítas  e  a  opposição 
a  Carvalho.  Os  missionários  reagem  no  Pará-Maranhão.  Emanci- 
pação dos  índios.  São  despedidos  os  confessores  do  paço.  A 
Relação  abbreviada.  Nicolau  I  rei  do  Paraguay.  Representações 
a    Benedicto    XIV.    Breve    de    reforma   dos   jesuítas  .     .     .        (141) 


CAPITULO    VI 

ATTENTADO  CONTRA  O  REI 


I.  União  projectada  da  Princesa  do  Brasil  com  o  infante  D.  Pedro 
Opposição  de  Carvalho  e  D.  José.  Os  pretendentes.  Desgosto 
da  nobreza.  —  II.  Malagrida  em  Setúbal.  Presagíos  acerca  do 
rei.  Situação  do  duque  de  Aveiro.  A  noite  de  3  de  Setembro. 
Opiniões    varias    s>fare    o    atíentado.    Convicções    de    Carvalho.    O 


396  índice 


duque  procura  comprcnicíícr  os  Tavoras.  —  III.  Providencias 
contra  os  presumidos  criminosos.  Interrogatórios  do  duque  de 
Aveiro.  Accusa  este  os  jesuitas,  os  parentes  e  muitas  outras 
ptssoas.  —  IV.  Seguimento  do  processo  e  condemnação  dos 
réos.  Os  Tavoras  e  os  depoimentos  sobre  elles.  —  V.  Reconsti- 
tuição do  attentado.  As  denuncias.  Terror  no  paço  e  na  cidade. 
—  VI.  A  cumplicidade  dos  jesuitas.  Disposições  que  se  tomam 
cxjntra  elles.  Declarações  de  Malagrida.  Propostas  da  Junta  de 
IncxDnfidencia.  Sequestro  dos  hens  da  Ordem.  —  VII.  Intervenção 
do  Santo  Officio.  Instancias  do  governo  português  em  Roma. 
A  Guria  defende  os  jesuitas.  Decreto  de  expulsão  e  seus  re- 
sultados. —  VIII.  .Malagrida  denunciado  á  Inquisição.  O  pro- 
cesso.   Morre   no    cadafalso     ....  167 


CAPITULO  VII 

O    PACTO    DE    família 


Os  ingleses  em  Portugal.  Carvalho  cultor  da  alliança  britannica. 
Exportação  do  ouro  cohibida.  O  Terreiro  do  trigo.  —  II.  Guerra 
dos  sete  annos.  Apprehensão  de  navios  franceses  no  Algarve. 
Reclamações  da  França.  Attitude  conciliante  da  Inglaterra.  — 
111.  Embaixada  especial  de  lord  Kinnoul.  Casamento  da  prin- 
cesa do  Brasil.  Expulsão  do  Núncio.  Desterro  dos  infantes  de 
Palhavã.  Desintelligencias  com  o  enviado  francês.  —  IV.  Pre- 
parativos da  paz  geral.  Nova  politica  da  Hespanha.  Oeiras 
recorre  ao  apoio  diplomático  da  Inglaterra.  Assígna-se  o  Pacto  de 
família.  —  V.  Portugal  e  a  liga  dos  Bourbons.  O  projecto 
de  invasão.  Declaração  da  guerra.  —  VI.  Estado  da  administra- 
ção militar  em  Portugal.  Soccorro  da  Inglaterra.  Providencias 
tardias  de  Oeiras,   k  guerra  e  seus   resultados 209 


CAPITULO   VIII 

A  ALLIANÇA  INGLESA 


I.  Situação  politica  em  seguida  á  paz.  Oeiras  receia  novas  ag- 
gressões.  Instancias  por  auxilio  em  Londres.  Agitação  em  Lis- 
boa contra  os  hereges.  —  II.  Discussão  sobre  os  limites  no 
Brasil.    Novas    complicações    com    a    Hespanha.    —    III.     Politica 


A 


índice  397 


doble  da  Inglaterra.  Preparativos  de  guerra  em  Portuga!.  — 
IV.  Revolta  doí  sombreiros  em  Madrid.  Attitude  amigável  do 
governo  português  para  com  Carios  III.  Causas  prováveis  da 
revolta.  Os  jesuítas  expulsos  dos  domínios  castelhanos.  Oeiras 
suspeita  da  Inglaterra.  Proposta  portuguesa  sobre  os  negócios 
de  Roma.  Caso  do  príncipe  de  Parma.  —  V.  Oeiras  recon- 
cilia-se  com  a  alliança.  O  commercio  inglês  e  as  suas  reclama- 
ções. Nova  divergência  entre  HespanWa  e  Inglaterra.  —  VI,  Re- 
nova-se  a  questão  de  limites.  Successos  na  fronteira  do  Brasil. 
Politica  defensiva  de  Oeiras  contra  as  exigências  inglesas. 
Guerra  em  perspectiva  com  a  Hespanha.  O  desfecho  da  con- 
tenda      243 


CAPITULO   IX 

EXTINCÇÃO    DOS    JESUÍTAS 


I.\  Os  jesuítas  c  a  politica  de  Hespanha.  As  reforrpas  d^  instTuri,'?n. 
Autonomia  da  Egreja  portuguesa.  Tentativas  de  conciliação  abor- 
tadas. A  Deducção  Chronologica.  —  II.  Eleição  de^  Clemente  XjV^ 
O  novo  pontifico  e  as  potencias.  Suggestões  de  Pomba!  sobre 
a  abolição  dos  jesuítas.  —  III.  Reatam-se  em  Portuga!  as  rela- 
ções com  a  Santã^Sé.  Nova  aggressão  ao  rei  attribuida  aos  je- 
suitas.  Concessões  do  Pontífice  ao  governo  português.  Verney 
expulso  de  Roma.  Trégua  nas  exigências  das  cortes.  —  IV. 
A  Hespanha  dirige  as  negociações  em  Roma.  Hesitações  de  Cle- 
mente XIV.  Publica-se  a  bulia  de  suppressão.  Morte  de  Gan- 
ganelli.  —  V^.  Receios  em  Madrid  e  Lisboa  da  reacção  jesuítica. 
Eleição  do   Pio   VI.   Pombal   suspeitoso  do   novo    Pontífice  283 


CAPITULO    X 

O   APOGEU   E   O    declínio 


Pombal  e  a  sua  obra.  Inauguração  da  estatua  equestre.  Casos  de 
D.  Isabel  de  Sousa  e  D.  Leonor  de  Alorna.  As  Observações  se- 
credssimas.  Presumida  tentativa  contra  a  vida  de  Pombal.  Incêndio 
da  Tra!"aria.  —  II.  Situação  económica  na  administração  pom- 
balina.   Decadência   geral   do    commercio.   As   companhias.    Prospe- 


3^8  ÍNDICE 


ridade  ephcmera  das  industrias.  Reformas  na  legislação.  —  III. 
Descalabro  financeiro.  Estado  precário  do  exercito  e  da  marinha. 
O  novo  regimen  da  Universidade.  A  Mesa  Censória.  —  IV. 
Morte  de  D.  José.  Pombal  renuncia  os  seus  cargos.  A  demissão 
a  pedido.  —  V.  Sabida  para  Oeiras.  Jornada  para  Pombal.  In- 
dignação em  Lisboa  contra  o  estadista  caído.  Estado  real  da 
fa/enda  publica.  A  viradeira.  O  ataque  dos  credores.  Os  de- 
vedores e  os  ingratos.  —  VI.  Embaraços  pecuniários.  .\  ques- 
tão  das  A^uas  livres.  Os   processos.    ...         317 


CAPITULO    XI 
O  ACABAR 


I.  O  marquês  de  Pombal  arguido  de  concussionario.  Accusado  de 
actos  de  alta  traição.  De  irreligiosidade  e  de  ter  embaraçado 
o  casamento  real.  Sai  do  cárcere  o  seu  inimigo  Encerrabodes. 
José  de  Seabra  volta  do  exilio.  O  que  se  passou  com  o  bispo 
de  Coimbra.  —  II.  Famoso  processo  da  lesão  enormíssima. 
Apparecem  as  Cartas  inglesas.  O  Desembargo  do  Paço  pronun- 
cia-S€  sobre  o  processo.  —  III.  Interrogatório  do  marquês  por 
ordem  da  rainha.  A  enfermidade.  Derradeira  e  lastimosa  scena 
do  inquérito.  —  IV.  Insufficiencia  das  explicações  no  interro- 
gatório. Culpas  do  visconde  de  Villa  Nova  de  Cerveira  e  do 
conde  de  S.  Lourenço.  De  Diogo  de  Mendonça  Corte  Real. 
De  José  de  Seabra.  Do  desembargador  Mascarenhas  Pacheco.  — 
V.  Padecimentos  aggravados  e  apprehensões  tristes  do  marquês 
Prepara-se  a  rehabilitação  dos  Tavoras.  Os  jesuitas  pretendem 
a  sua.  Cruciante  martyrio  do  enfermo.  —  VL  A  rainha  pronun- 
cia a  condemnação  de  Pombal.  Os  últimos  dias  e   a  morte      .     361 


ACABOU    DE   SE    IMPRIMIR 

NA    TYPOGRAPHIA    DO   ANNUARIO    DO    BRASIL. 

(ALMANAK    LAEMMERT) 

R.    D.    MANOEL,    62  — RIO    DE    JANEIRO 

AOS    18    DE   AGOSTO    DE    1922 


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4*^1 


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PLEASE  DO  NOT  REMOVE 
CAROS  OR  SLIPS  FROM  THIS  POCKET 

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